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O Ego por Trás dos Olhos do Dançarino

O Eco do Metrônomo Quebrado

O silêncio que se seguiu ao empate contra o Time V não era de paz, mas de processamento. No Blue Lock, um empate muitas vezes era sentido como uma derrota dupla, um resíduo de insuficiência que ficava estagnado no ar. Diego Takamura caminhava pelo corredor de metal, o som de suas chuteiras batendo no chão ecoando em um ritmo constante. *Toc. Toc. Toc.*

Ele parou diante de uma das grandes janelas reforçadas que davam para o átrio central. Seus reflexos no vidro mostravam um jovem que, embora mantivesse a expressão serena, carregava olheiras leves. O nível de concentração exigido para manipular o tempo de reação de jogadores como Nagi e Reo era exaustivo. Não era apenas físico; era uma guerra neuropsicológica.

— O que foi, "Dançarino"? — A voz veio das sombras do corredor. — Está tentando encontrar o ritmo do seu próximo passo ou está apenas admirando o próprio reflexo?

Diego não precisou se virar para reconhecer o tom arrogante e pesado. Barou Shoei caminhava em sua direção, os braços cruzados, a aura de "Rei" emanando dele como uma névoa densa.

— Eu estava pensando no seu bote, Barou-kun — respondeu Diego, virando-se lentamente. — Você é forte, mas sua batida é muito óbvia. É como um bumbo de bateria que toca sempre no mesmo tempo. É fácil de prever, embora difícil de parar.

Barou parou a poucos centímetros de Diego, diminuindo a distância de forma intimidadora.

— Não me venha com essa conversa fiada de música. No campo, eu sou o soberano. Se você cruzou o meu caminho e eu não te esmaguei hoje, foi apenas um erro de cálculo. Na próxima vez, eu vou quebrar esse seu ritmo de bailarina e mostrar quem manda neste gramado.

Diego sustentou o olhar. Ele não sentia medo; sentia curiosidade. Barou era o oposto do que ele representava. Enquanto Diego era a fluidez e a adaptação, Barou era a rigidez e a força absoluta.

— Eu adoraria ver você tentar — disse Diego com um sorriso quase imperceptível. — Mas cuidado para não tropeçar no próprio ego quando a música mudar.

Barou soltou um rosnado baixo e passou por ele, batendo propositalmente o ombro no de Diego. O brasileiro apenas absorveu o impacto, deixando o corpo balançar como um junco ao vento, e continuou seu caminho para o refeitório.

Ao chegar lá, o clima estava diferente. A notícia do empate e da performance de Diego havia se espalhado. Em uma mesa de canto, ele viu o trio do Bloco Z: Isagi Yoichi, Bachira Meguru e Kunigami Rensuke. Eles estavam analisando algo em um tablet, as testas franzidas em concentração.

— Ei, Diego-chan! — Bachira acenou freneticamente, com um sorriso que parecia largo demais para o rosto. — Vem sentar com a gente! O monstro dentro de mim está morrendo de vontade de conhecer o seu ritmo!

Diego aproximou-se e sentou-se à mesa. Isagi olhou para ele com uma intensidade que Diego só vira em predadores de elite.

— Takamura-kun — começou Isagi, virando o tablet para ele. — Eu estava revendo o seu gol de calcanhar no ar. Você não olhou para o gol em nenhum momento após o domínio. Como você sabia a trajetória exata para a trivela?

Diego olhou para a tela. A imagem congelada mostrava-o no ar, de costas para a baliza.

— Eu não preciso olhar para o gol, Isagi-kun — explicou Diego, pegando um copo de água. — O campo tem uma geometria sonora. O som do goleiro se posicionando, o deslocamento do ar dos defensores, a distância que eu percorri desde a última linha... tudo isso cria um mapa na minha mente. O gol não muda de lugar. Se eu sei onde eu estou e sei onde o ritmo me levou, eu sei onde o gol está.

— Geometria sonora... — sussurrou Isagi, seus olhos brilhando enquanto ele processava a informação. — É como uma percepção espacial baseada em tempo, não apenas em visão.

— Exatamente — disse Diego. — Mas tem um problema.

— Qual? — perguntou Kunigami, que até então estava em silêncio, impressionado com a técnica do brasileiro.

— O Blue Lock está evoluindo rápido demais — Diego admitiu, sua voz tornando-se séria. — Hoje, eu consegui enganar o Nagi e o Reo porque eles ainda confiam demais no que veem. Mas jogadores como você, Isagi, que começam a "sentir" o jogo... vocês vão aprender a ouvir a minha música. E quando vocês aprenderem a melodia, eu terei que compor algo novo no meio da partida. Se eu não evoluir, eu serei apenas um disco riscado.

A conversa foi interrompida pelo som estridente de um alarme. As luzes do refeitório ficaram vermelhas e a tela principal desceu do teto. Ego Jinpachi apareceu, mas desta vez ele não estava comendo. Ele parecia estranhamente animado, seus olhos arregalados atrás das lentes grossas.

— O tempo de aquecimento acabou, seus inúteis — anunciou Ego. — O projeto Blue Lock vai entrar na Fase de Seleção de Elite. A partir de agora, as divisões de blocos deixam de existir. Vocês serão testados em um novo formato: o Desafio das Três Batidas.

Diego ergueu uma sobrancelha ao ouvir o nome. Ego continuou:

— Serão partidas de três contra três em campos reduzidos. O objetivo é simples: o primeiro time a marcar cinco gols vence. Mas há uma regra de ouro: quem perde, tem um jogador roubado pelo time vencedor. Quem ficar sozinho ou sem time, está fora. Eliminado. Carreira encerrada.

O refeitório explodiu em murmúrios. É o sistema de "rouba-monte" levado ao extremo do futebol.

— Diego Takamura — disse Ego, focando a câmera diretamente no brasileiro. — Você foi o elemento que desequilibrou o sistema anterior. Por isso, você não terá o direito de escolher seu time inicial. Eu já escolhi para você.

A tela mudou, mostrando três nomes e fotos.

**TIME BRANCO: Diego Takamura, Hyoma Chigiri, Rensuke Kunigami.**

Kunigami, sentado ao lado de Diego, arregalou os olhos.

— Eu... com o estrangeiro e o velocista? — Kunigami olhou para Diego, que apenas assentiu.

— E o adversário de vocês — continuou Ego, com um sorriso macabro — será o time que está no topo do ranking atual de eficiência.

A tela mostrou o próximo trio.

**TIME VERMELHO: Rin Itoshi, Aryu Jyubei, Tokimitsu Aoshi.**

O silêncio no refeitório tornou-se sepulcral. Rin Itoshi era o jogador número um do Blue Lock. O irmão mais novo do gênio Sae Itoshi. Ele era o ápice da lógica e da destruição técnica.

— Boa sorte, Dançarino — finalizou Ego antes da tela se apagar. — Vamos ver se o seu ritmo sobrevive à orquestra da morte do Rin.

...

Uma hora depois, Diego, Kunigami e Chigiri estavam no túnel de acesso ao Campo B. Chigiri estava alongando sua perna direita, a expressão concentrada.

— Ouça, Takamura — disse Chigiri, sem olhar para ele. — Eu sou o mais rápido aqui. Se você conseguir me lançar a bola no espaço vazio, ninguém me pega. Mas o Rin... ele não joga como os outros. Ele vai tentar ler você antes mesmo de você tocar na bola.

— Eu sei — respondeu Diego, ajustando as meias. — O Rin joga com base na destruição do adversário. Ele encontra o seu ponto forte e o transforma em uma fraqueza.

— E como vamos vencer isso? — perguntou Kunigami, cerrando os punhos.

— Nós vamos quebrar a harmonia dele — disse Diego, seus olhos tornando-se frios. — O Rin controla o campo como um mestre de xadrez. Ele espera que cada peça se mova de forma lógica. Kunigami, eu preciso que você seja a força bruta imprevisível. Chigiri, você será a nota aguda que eles não conseguem alcançar. E eu... eu serei o silêncio entre as notas.

Ao entrarem no campo, o Time Vermelho já os esperava. Rin Itoshi estava parado no centro, a bola sob o pé. Ele não parecia impressionado. Seu olhar era de um desdém profundo, como se estivesse diante de meros insetos.

— Então você é o brasileiro que o Ego tanto elogia — disse Rin, sua voz gélida. — Eu vi seus vídeos. Sua "dança" é patética. É apenas um truque de circo para enganar jogadores de segunda categoria.

Diego caminhou até ficar frente a frente com ele. A diferença de altura era mínima, mas a pressão que Rin exercia era como uma montanha desabando.

— É engraçado você dizer isso, Rin-kun — respondeu Diego calmamente. — Porque eu vi o seu futebol também. É perfeito. É lógico. É funcional. Mas falta uma coisa.

Rin estreitou os olhos.

— O quê?

— Alma — disse Diego. — Você joga como se estivesse resolvendo uma equação matemática. Mas o futebol é improviso. E na hora do improviso, a matemática falha.

— Cale a boca — rebateu Rin. — Eu vou te mostrar que a minha lógica é a única realidade deste campo. Vou destruir seu ritmo e te mandar de volta para o Brasil em pedaços.

O apito soou.

O jogo começou com uma velocidade estonteante. Rin não esperou. Ele passou por Kunigami com um drible de corpo minimalista e disparou um passe longo para Aryu, que usou seus membros longos e sua "glamourosidade" para dominar a bola no alto, longe do alcance de Chigiri.

Aryu devolveu para Rin, que já estava na entrada da área. Diego fechou o ângulo, movendo-se em seu passo rítmico.

— Tarde demais — disse Rin.

Ele não chutou para o gol. Ele chutou a bola contra o calcanhar de Diego, calculando o ângulo exato para que ela ricocheteasse de volta para Tokimitsu, que vinha em velocidade. Tokimitsu, com sua força física absurda e ansiedade motora, atropelou a marcação de Kunigami e estufou a rede.

1 a 0 para o Time Vermelho.

— Viu só? — Rin passou por Diego sem olhá-lo. — Eu usei você como uma tabela. Você não é um jogador, é apenas um obstáculo estático na minha previsão.

Diego respirou fundo. Ele sentiu o impacto daquela jogada. Rin não estava apenas jogando bola; ele estava manipulando os corpos dos adversários para servirem aos seus propósitos. Era um nível de controle que Diego ainda não tinha enfrentado no Japão.

— Diego, você está bem? — perguntou Chigiri, aproximando-se.

— Sim — respondeu o brasileiro, um brilho perigoso surgindo em seus olhos. — Ele é bom. Ele realmente consegue ouvir a batida. Mas ele cometeu um erro.

— Que erro? — perguntou Kunigami.

— Ele acha que eu sou um metrônomo que ele pode ajustar — disse Diego. — Ele ainda não percebeu que eu sou o maestro, e ele acabou de entrar no meu concerto.

Reinício de jogo. Diego recebeu a bola. Desta vez, ele não esperou. Ele avançou diretamente contra Rin.

Rin se posicionou, os olhos escaneando cada fibra muscular de Diego, antecipando o movimento de hesitação ou a mudança de ritmo.

Diego começou a pedalar. Mas não eram pedaladas comuns. Ele alternava o peso entre as pernas de uma forma que criava uma ilusão de ótica. Rin manteve-se firme, esperando o bote.

— Agora — sussurrou Diego.

Ele não mudou o ritmo para mais devagar. Ele o acelerou a um nível frenético, mas manteve a bola parada. Era uma vibração. Um movimento de pés tão rápido que a bola parecia estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Rin hesitou por um milésimo de segundo. Foi o suficiente.

Diego deu um toque de letra, passando a bola por trás da própria perna de apoio, e girou no sentido oposto. Rin tentou reagir, esticando a perna, mas Diego usou a ponta da chuteira para levantar a bola suavemente por cima do pé de Rin.

Um chapéu curto, seco e humilhante.

— O quê?! — Rin exclamou, virando-se rapidamente.

Diego já estava com a bola controlada. Aryu tentou intervir com suas pernas longas, mas Diego fez um movimento de "ginga" brasileira, balançando o tronco para um lado e saindo para o outro, deixando o gigante desequilibrado.

Ele estava livre diante do gol. Mas Tokimitsu vinha como um touro por trás.

— Eu vou te parar! — gritou Tokimitsu, suando frio.

Diego sentiu a pressão. Ele poderia chutar, mas o ângulo era difícil. No último segundo, ele ouviu o som. *Vush.* O som do vento cortado pela corrida de Chigiri.

Sem olhar, Diego deu um passe de calcanhar para trás, em uma trajetória curva.

Chigiri apareceu como um raio, atingindo sua velocidade máxima. Ele recebeu a bola em movimento e disparou um chute cruzado, rasteiro e letal.

Gol. 1 a 1.

Diego parou no meio do campo, o suor brilhando em sua pele morena. Ele olhou para Rin, que estava com uma expressão de fúria contida.

— A matemática falhou, Rin-kun? — perguntou Diego. — Você calculou o chapéu? Você previu que eu usaria o som da corrida do Chigiri para passar sem olhar?

Rin cerrou os dentes, sua aura tornando-se ainda mais sombria.

— Isso foi sorte. Um golpe de sorte de um estrangeiro medíocre.

— Chame do que quiser — disse Diego, voltando para sua posição. — Mas saiba de uma coisa: a música só está no primeiro verso. E eu ainda não comecei o meu solo.

O jogo continuou em uma batalha épica de inteligências. De um lado, a lógica absoluta e destrutiva de Rin Itoshi. Do outro, o ritmo fluido e imprevisível de Diego Takamura.

A cada jogada, o campo parecia diminuir. Kunigami e Tokimitsu travavam batalhas físicas na área que faziam o chão tremer. Chigiri e Aryu disputavam cada centímetro de espaço em corridas de alta velocidade.

Mas o duelo principal era no centro. Rin tentava prever o próximo passo de Diego, mas Diego estava mudando sua "assinatura rítmica" a cada toque. Ele jogava em 4/4, depois mudava para uma síncope de samba, depois parava completamente em um tempo de espera agonizante.

O placar subiu: 2 a 1 para o Time Branco, 2 a 2, 3 a 2 para o Time Vermelho, 3 a 3.

A fadiga estava começando a cobrar seu preço. Diego sentia os pulmões arderem. O Blue Lock era um moedor de carne, exatamente como Ego havia prometido.

No placar de 4 a 4, quem fizesse o próximo gol venceria a partida e teria o direito de roubar um jogador do adversário.

Rin estava com a bola. Ele parecia possuído. Seus movimentos não eram mais apenas lógicos; eles eram violentos. Ele passou por Kunigami com uma agressividade que beirava a falta e driblou Chigiri com uma facilidade cruel.

Ele ficou cara a cara com Diego.

— Eu vou acabar com isso agora — disse Rin, os olhos injetados. — Eu vou marcar o gol e vou roubar você para o meu time. Não porque eu te queira, mas para garantir que você nunca mais dance neste campo. Eu vou trancá-lo no meu sistema até que você esqueça como se move.

Rin preparou o chute. Era o seu chute especial, com um efeito que fazia a bola mudar de direção no último segundo.

Diego se posicionou. Ele fechou os olhos por uma fração de segundo. Ele não estava vendo Rin. Ele estava ouvindo.

*Tum-tum. Tum-tum.* O coração de Rin. *Argh.* A respiração pesada de Tokimitsu. *Zás.* O movimento da grama sob a chuteira de Rin.

Rin disparou. A bola viajou com uma força incrível. Diego não tentou bloquear com o pé. Ele saltou e usou o peito para amortecer a bola de fogo. O impacto quase o derrubou, mas ele girou no ar, usando a inércia do chute de Rin para impulsionar seu próprio movimento.

Ele caiu com a bola dominada.

— Minha vez — disse Diego.

Ele arrancou. Rin foi atrás dele, desesperado. Diego entrou na área adversária. Ele viu Aryu vindo pela direita e Tokimitsu pela esquerda. Ele estava cercado.

Nesse momento, o mundo ao redor de Diego desacelerou. A "Zona" do Blue Lock.

Ele viu as linhas de passe. Viu as fraquezas na postura de Rin. E viu a oportunidade de ouro.

Diego fez um movimento de chute. Rin saltou para bloquear. Mas Diego não chutou. Ele rolou a bola por baixo dos pés de Rin e saltou por cima dele.

Livre, diante do gol vazio, Diego parou.

Ele não chutou imediatamente. Ele esperou Rin se virar. Esperou que o mundo inteiro visse o que ele ia fazer.

Com um toque de classe, um "no-look goal", ele apenas empurrou a bola para o fundo da rede com o lado do pé, enquanto olhava diretamente nos olhos de Rin Itoshi.

5 a 4. Vitória do Time Branco.

O silêncio que se seguiu foi o mais profundo de todos. Diego Takamura, o estrangeiro, o "Dançarino", acabara de derrotar o número um do Blue Lock em um duelo direto de egos.

Diego caminhou até o centro do campo, onde Rin estava de joelhos, socando o chão em frustração.

— O ritmo... — murmurou Rin, a voz trêmula de raiva. — Eu não consegui... eu não consegui ler o final...

Diego estendeu a mão para Rin.

— A música não tem um final, Rin-kun. Ela só para quando o maestro decide que a apresentação acabou. E hoje, o bis foi meu.

Ego Jinpachi, observando tudo da tela, tinha um sorriso que ia de orelha a orelha.

— Incrível... — disse Ego. — Ele não apenas venceu. Ele quebrou a melodia do Rin. Anri, prepare a próxima fase. O Blue Lock acaba de encontrar seu novo eixo.

Agora, Diego tinha o poder. Ele tinha que escolher um jogador do Time Vermelho para se juntar a ele. Ele olhou para Aryu, para o ansioso Tokimitsu e, finalmente, para Rin Itoshi.

— Eu escolho... — a voz de Diego ecoou pelo campo, enquanto todos aguardavam a decisão que mudaria o destino do projeto.

O Dançarino não estava mais apenas seguindo os passos. Ele estava escrevendo a história do futebol japonês com o ritmo de seu próprio ego. E o mundo estava começando a ouvir a música.