O elfo apaixonado pela humana boba
O Doce Aroma da Dúvida e o Reflexo nos Olhos de Vidro
A manhã em Hogwarts cheirava a açúcar queimado e canela. Reader estava em seu elemento, cercada por grandes tabuleiros de metal que transbordavam guloseimas que ela mesma preparara com a ajuda dos elfos. Havia sapos de chocolate caseiros, varinhas de alcaçuz e pequenos bolinhos de caldeirão que derretiam na boca. Distribuir esses doces era a forma que ela encontrara de retribuir a gentileza de Dumbledore e aliviar a tensão constante que pairava sobre os alunos devido aos tempos sombrios que o mundo bruxo enfrentava.
Ela caminhava pelos corredores com uma cesta imensa sob cada braço. Sua força descomunal tornava o fardo leve como uma pluma, e seu sorriso doce, embora tímido, iluminava os rostos cansados dos estudantes que saíam das aulas de Transfiguração.
— Aqui, querido, pegue um bolinho de abóbora — disse ela a um segundanista da Lufa-Lufa, que agradeceu com um brilho nos olhos.
Reader adorava as crianças. Ela sentia que, de certa forma, elas a entendiam melhor do que os adultos. Para os alunos, ela não era apenas uma "aborto" ou uma faxineira; ela era a mulher gentil que sempre tinha um doce e uma palavra de conforto.
Ao chegar perto das masmorras, ela encontrou um pequeno grupo de alunos da Sonserina. Entre eles estava um garoto magro, de traços aristocráticos, mas com um olhar curioso e desprovido da malícia que muitos associavam à sua casa. Seu nome era Alistair.
— Senhorita Reader — chamou Alistair, aproximando-se enquanto ela lhe estendia um pedaço de fudge de caramelo. — Posso lhe fazer uma pergunta? É algo que tem circulado pelas salas comuns e eu... bem, eu fiquei curioso.
— Claro, Alistair — respondeu ela, sentindo a habitual pontada de ansiedade subir pelo pescoço. — O que houve?
O garoto hesitou, olhando para os lados antes de baixar a voz.
— É sobre o elfo doméstico, o Dobby. Nós o vemos o tempo todo correndo atrás da senhorita, ajudando com os baldes, trazendo flores silvestres... e, bom, alguns alunos estão dizendo que ele é seu namorado. Ou até seu amante.
Reader sentiu o mundo girar por um segundo. O fudge de caramelo quase escorregou de seus dedos.
— Namorado? — repetiu ela, a voz saindo em um sussurro estrangulado. — Amante?
— Sim — continuou Alistair com uma inocência desconcertante. — Eles perguntam como isso funcionaria, já que vocês são de espécies diferentes e, bem, ele é um elfo e a senhorita é... humana. Eu disse a eles que isso era bobagem, que a senhorita é muito bondosa para algo tão... incomum. Mas os boatos são persistentes.
Reader sentiu o rosto queimar em um tom de vermelho que faria os cabelos dos Weasley parecerem pálidos. Ela nunca havia pensado nessas palavras. "Namorado". "Amante". Para ela, Dobby era seu protetor, seu melhor amigo, a única criatura que a via como um ser humano completo.
— Se forem mentiras — disse Alistair, cruzando os braços com uma seriedade precoce —, a senhorita quer que eu puna os alunos que espalharam isso? Eu posso falar com o monitor-chefe. Ninguém deveria manchar sua reputação com tais fábulas.
— Não! — exclamou ela, recuperando a voz. — Por favor, Alistair, não faça nada disso. Eu não quero que ninguém se machuque ou seja punido por minha causa. São apenas... palavras.
— Mas é verdade? — insistiu o garoto, inclinando a cabeça.
Reader abriu a boca para dizer "não", para explicar que eram apenas amigos, mas as palavras ficaram presas em sua garganta. Ela amava Dobby? Sim, ela sabia que amava. Mas era o tipo de amor que os livros de romance que ela escondia sob o colchão descreviam? Ela nunca fora beijada, nunca tivera um pretendente. Como poderia saber a diferença entre a gratidão profunda e o desejo de passar a vida inteira ao lado de alguém?
— Eu... eu não sei responder isso agora, Alistair — confessou ela, a voz trêmula. — Eu preciso ir. Os elfos estão me esperando na cozinha.
Ela se afastou quase correndo, suas pernas fortes levando-a para longe das masmorras mais rápido do que qualquer aluno conseguiria seguir. Ela não parou até chegar à despensa fria das cozinhas, onde o cheiro de cebolas e batatas a ajudou a aterrar seus pensamentos.
Ela se sentou em um saco de farinha, o coração martelando contra as costelas. "Como isso daria certo?", o garoto perguntara. A pergunta ecoava em sua mente como um feitiço de ricochete. Ela era uma mulher de trinta e quatro anos, com a força de dez cavalos e um coração que se sentia pequeno demais para o mundo. Dobby era um elfo livre, pequeno, mágico e cheio de cicatrizes de um passado cruel.
— Senhorita Reader? Por que a senhorita está sentada no escuro? — A voz aguda e familiar de Dobby soou perto da porta.
Ela deu um pulo, quase derrubando uma prateleira de compotas. Dobby estava lá, usando as meias de girassol que ela lhe dera, segurando um pequeno buquê de margaridas que ele certamente colhera perto da cabana de Hagrid.
— Dobby! Você me assustou — disse ela, tentando controlar a respiração.
— Dobby trouxe flores para alegrar o dia da senhorita — disse ele, aproximando-se com aquele olhar de adoração pura que sempre fazia Reader se sentir a pessoa mais importante de Hogwarts. — Dobby ouviu dizer que os alunos da Sonserina são muito exigentes com os doces. Eles foram rudes com a senhorita? Se foram, Dobby terá que ter uma conversa séria com eles!
Reader olhou para as margaridas e depois para o rosto de Dobby. Ela viu a lealdade, a proteção e algo mais... um brilho nos olhos esmeralda que ela sempre interpretara como amizade. Mas e se fosse mais?
— Dobby — começou ela, a voz falhando — um aluno me perguntou algo hoje. Sobre nós.
Dobby inclinou a cabeça, as orelhas de morcego balançando.
— Sobre nós, senhorita? O que eles querem saber sobre Dobby e a senhorita Reader?
— Eles perguntaram se... se nós somos namorados.
O silêncio que se seguiu na despensa foi tão denso que Reader podia ouvir o crepitar do fogo nas fornalhas distantes da cozinha principal. Dobby não se mexeu. Ele não desviou o olhar. Suas orelhas, no entanto, ficaram de um tom rosado muito intenso.
— Namorados? — repetiu Dobby, a palavra soando estranha e nova em sua boca. — Humanos e elfos não costumam ser namorados, senhorita. Elfos servem, ou elfos são livres. Mas namorados... isso é o que Harry Potter é de Gina Weasley. É quando as pessoas se pertencem por escolha e por... por amor de coração.
— Sim — sussurrou ela, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. — Eu disse a ele que não sabia o que responder. Porque eu sou boba, Dobby. Eu não entendo essas coisas. Eu nunca tive ninguém.
Dobby deu um passo à frente, deixando as margaridas sobre um caixote de maçãs. Ele estendeu a mão e tocou os dedos de Reader. Sua pele era fria e pequena comparada à dela, mas o toque enviou um choque de realidade através de todo o corpo da mulher.
— Dobby não sabe muito sobre como os humanos amam — disse o elfo, sua voz subitamente séria e profunda. — Mas Dobby sabe que, desde que conheceu a senhorita, Dobby não quer estar em nenhum outro lugar. Dobby quer limpar os caldeirões para a senhorita não cansar as mãos. Dobby quer colher todas as flores da floresta para ver o sorriso da senhorita. Dobby sente que seu coração de elfo é grande demais quando está perto da senhorita Reader.
Reader sentiu um soluço escapar de sua garganta. Ela se inclinou, ficando de joelhos no chão de pedra para ficar na altura dele.
— Eu também, Dobby. Eu sinto que não sou uma aberração quando estou com você. Eu sinto que minha força não é um erro, mas algo que posso usar para te manter seguro. Isso é amor?
— Dobby acha que sim — respondeu ele, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto rugoso. — Mas Dobby é apenas um elfo. E a senhorita é tão... tão grande e divina. O aluno da Sonserina está certo em perguntar como daria certo. Dobby não pode levar a senhorita para bailes ou se casar em uma igreja de bruxos.
Reader pegou o rosto de Dobby entre suas mãos grandes e calejadas. Ela o tratou com uma delicadeza que ninguém mais no mundo conhecia.
— Eu não preciso de bailes, Dobby. E eu não me importo com o que o Ministério ou os alunos dizem. Eu passei trinta e quatro anos sendo ignorada por não ter magia. Se o meu "grande amor" for um elfo que me vê de verdade... então eu sou a mulher mais sortuda de Hogwarts.
Dobby fechou os olhos, aproveitando o calor das mãos dela.
— Então a senhorita não vai punir os alunos pelos boatos? — perguntou ele, com um pequeno sorriso travesso surgindo nos lábios.
— Não — riu ela, as lágrimas finalmente caindo. — Deixe que falem. Pela primeira vez na vida, eu não tenho vergonha de quem eu sou. Ou de quem eu amo.
Naquela noite, as cozinhas de Hogwarts testemunharam algo que nenhum livro de história bruxa jamais registraria. Não houve grandes feitiços ou declarações em latim. Houve apenas uma mulher sentada em um banco de madeira, com um elfo doméstico sentado ao seu lado, dividindo um prato de pãezinhos de mel e conversando sobre o futuro.
Reader ainda não sabia exatamente como "daria certo". Ela sabia que haveria olhares, sussurros e talvez até o desprezo de alguns. Mas quando Dobby segurou sua mão e disse que ela era sua "liberdade mais doce", Reader percebeu que o amor não precisava de lógica, de espécie ou de permissão.
O boato da Sonserina não era mais uma mentira que precisava de punição. Era o início de uma verdade que Reader estava, finalmente, pronta para viver. E enquanto as estrelas brilhavam sobre as torres do castelo, ela percebeu que a magia mais poderosa de Hogwarts não estava nas varinhas dos alunos, mas na coragem de dois seres "diferentes" que decidiram, simplesmente, pertencer um ao outro.