O elfo apaixonado pela humana boba
O Pequeno Intruso e a Sombra do Ciúme
O inverno em Hogwarts estava finalmente cedendo espaço para os primeiros brotos de primavera, mas o ar nas cozinhas ainda carregava o calor reconfortante das fornalhas e o cheiro doce de tortas de melaço. Reader estava em seu elemento, movendo pesadas mesas de madeira com uma mão enquanto passava o pano com a outra, cantarolando uma melodia suave que aprendera em sua infância. Sua vida na escola de magia havia se tornado um porto seguro, e sua amizade com Dobby era a âncora que a mantinha firme.
No entanto, a rotina foi alterada naquela manhã de segunda-feira por um novo rosto. Alvo Dumbledore, com seu habitual olhar benevolente, trouxera um novo ajudante para as cozinhas: um elfo doméstico chamado Pip. Ele era visivelmente mais jovem que a maioria, com orelhas que pareciam grandes demais para seu corpo minúsculo e olhos de um azul brilhante e curioso.
— Oh, mas que gracinha! — exclamou Reader, sua timidez sendo momentaneamente vencida pela doçura da criatura. — Seja bem-vindo, Pip. Eu sou a Reader.
— Prazer em conhecer a senhorita Reader! — Pip fez uma reverência tão profunda que seu nariz quase tocou o chão de pedra. — Pip ouviu dizer que a senhorita tem a força de um gigante e a voz de um anjo!
Reader corou intensamente, rindo de forma desajeitada. Ela sempre fora carente de afeto e atenção, e a energia efusiva de Pip era contagiante. Durante as horas seguintes, ela se viu dedicando um tempo extra para ensinar ao pequeno elfo onde ficavam as panelas de cobre e como organizar os temperos sem derrubá-los.
No canto da cozinha, Dobby observava. Ele estava parado diante de uma pilha de pratos, mas suas mãos não se moviam. Seus olhos verdes, geralmente brilhantes de adoração por Reader, estavam semicerrados e fixos no pequeno Pip, que agora tentava ajudar Reader a carregar um saco de farinha — uma tarefa que ela fazia sem esforço, mas que o pequeno elfo transformava em um espetáculo de esforço dramático apenas para ganhar um elogio dela.
— Você é muito esforçado, Pip! — disse Reader, dando um tapinha gentil no ombro do elfo. — Mas deixe que eu levo isso, não quero que você se machuque.
— A senhorita Reader é tão bondosa! — Pip suspirou, olhando para ela com olhos brilhantes.
Dobby soltou um ruído abafado, algo entre um suspiro e um rosnado, e voltou a polir os pratos com uma ferocidade desnecessária. O som da porcelana rangendo sob o pano era quase doloroso.
Ao longo da tarde, o comportamento de Dobby tornou-se cada vez mais errático. Quando Reader tentou falar com ele perto do depósito de vegetais, ele apenas murmurou algo sobre "elfos muito ocupados" e desapareceu com um estalo sonoro de aparatação.
— Dobby? — chamou ela, confusa. — Aconteceu alguma coisa?
Ela não obteve resposta. Reader, em sua ingenuidade e baixa autoestima, imediatamente pensou que fizera algo errado. Talvez tivesse limpado mal os caldeirões de Snape? Ou talvez Dobby estivesse cansado de sua companhia constante?
Mais tarde, na hora do chá, Pip trouxe para Reader uma pequena flor de papel que ele mesmo dobrara.
— Para a senhorita, para combinar com seu sorriso! — disse o pequeno elfo, radiante.
— Oh, Pip, que coisa mais linda! — Reader aceitou a flor, sentindo o coração aquecido. — Você é um encanto. Dobby, veja o que o Pip fez!
Dobby, que estava por perto organizando as xícaras de chá, olhou para a flor de papel como se fosse um bicho-papão.
— Dobby viu — disse ele, sua voz saindo mais fina e tensa do que o normal. — Dobby acha que papel é um material muito frágil. Dobby prefere coisas que duram. Como meias de lã.
— Bem, sim, mas é um gesto gentil, não acha? — Reader tentou incluí-lo na conversa, aproximando-se dele.
— Dobby tem muito trabalho — respondeu o elfo, evitando o olhar dela. — Dobby não tem tempo para dobrar papéis. Dobby é um elfo de utilidade, não de enfeite.
Ele se afastou bruscamente, deixando Reader parada no meio da cozinha com a flor na mão e uma expressão de profunda tristeza.
— Pip — sussurrou ela —, você acha que o Dobby está bravo comigo?
— Pip não sabe, senhorita. Talvez o senhor Dobby esteja com dor de dente? Pip ouviu dizer que elfos velhos ficam ranzinzas.
Reader sentiu um aperto no peito. Ela não suportava ver ninguém triste, especialmente Dobby, que fora seu primeiro e melhor amigo em Hogwarts. Ela decidiu que precisava confrontá-lo.
À noite, quando a cozinha estava silenciosa e a maioria dos elfos já havia se recolhido para seus cantos, Reader encontrou Dobby sentado perto da lareira apagada, remendando uma de suas meias. Ele parecia tão pequeno e solitário sob a luz fraca das brasas.
— Dobby? — chamou ela suavemente, aproximando-se com passos lentos para não assustá-lo.
O elfo não levantou a cabeça. Suas orelhas murcharam levemente.
— A senhorita Reader não deveria estar descansando? O pequeno Pip certamente adoraria ouvir mais uma de suas histórias antes de dormir.
Reader franziu a testa, sentindo a pontada de sarcasmo na voz dele — algo que nunca ouvira antes.
— Pip já foi dormir, Dobby. Eu vim falar com você. Você mal olhou para mim o dia todo. Eu fiz algo que te deixou triste? Se eu te magoei, por favor, me diga. Eu morro de medo de perder sua amizade.
Dobby finalmente levantou o olhar. Seus olhos estavam úmidos e grandes, refletindo o brilho das brasas.
— A senhorita não fez nada errado — disse ele, sua voz tremendo. — A senhorita é livre para dar atenção a quem quiser. Pip é um elfo novo. Pip é... fofo. Pip não tem cicatrizes de punições antigas. Pip não é um elfo estranho que se bate com lâmpadas.
Reader sentiu uma onda de compreensão e choque. Ela se ajoelhou no chão de pedra para ficar na mesma altura que ele, ignorando o frio do chão.
— Dobby... você está com ciúmes do Pip?
O elfo arregalou os olhos e começou a gaguejar, as orelhas ficando de um tom rosado.
— Ciúmes? Elfos domésticos não sentem ciúmes! Elfos domésticos sentem... sentem... dever! Dobby apenas acha que a senhorita está perdendo muito tempo com um elfo que ainda não sabe a diferença entre um caldeirão e uma sopeira!
— Dobby, olhe para mim — pediu ela, pegando as mãos trêmulas dele entre as suas. — Pip é um querido, sim, e eu gosto de ajudá-lo porque ele é novo e parece perdido. Mas ninguém, ouviu bem? Ninguém nunca vai ocupar o seu lugar.
Dobby desviou o olhar, uma lágrima solitária escorrendo por seu rosto.
— A senhorita diz isso agora. Mas Pip é jovem. Pip sabe fazer flores de papel. Dobby é apenas... Dobby.
— Você é o Dobby que me salvou de um trasgo — disse ela, sua voz melodiosa carregada de uma emoção profunda. — Você é o Dobby que me deu coragem quando eu achei que era uma inútil por não ter magia. Você é o elfo que me ensinou que a liberdade é um presente, mas que o amor é o que faz a liberdade valer a pena.
Dobby soluçou, apertando as mãos de Reader com força.
— Dobby sentiu um aperto aqui — disse ele, apontando para o próprio peito. — Dobby viu a senhorita sorrindo para ele e sentiu como se alguém estivesse roubando o sol de Dobby. Dobby sabe que é egoísta. Dobby deveria estar feliz por Pip ter uma amiga tão boa. Mas Dobby não quer dividir a senhorita.
Reader sentiu seu próprio coração martelar. Ela era "boba" para perceber sentimentos, mas aquilo era impossível de ignorar. O ciúme de Dobby não era apenas o de um amigo; era a possessividade doce de alguém que a amava com cada fibra de seu ser.
— Você não precisa me dividir, Dobby — sussurrou ela, aproximando o rosto do dele. — Eu tenho coração suficiente para ser gentil com todos, mas você... você tem a chave dele.
Dobby parou de chorar e olhou para ela com uma esperança renovada.
— A chave? Dobby tem a chave do coração da senhorita Reader?
— Tem — confirmou ela, sentindo o rosto queimar de vergonha, mas decidida a ser honesta. — Eu nunca disse isso antes porque tinha medo de você achar estranho, mas eu te amo, Dobby. Do meu jeito meio atrapalhado e gigante, eu te amo.
Dobby soltou um grito abafado de alegria e pulou no pescoço de Reader, abraçando-a com tanta força que ela quase perdeu o equilíbrio.
— Dobby também ama a senhorita! Dobby ama a senhorita mais do que todas as meias de Hogwarts! Mais do que a liberdade! Dobby é o elfo mais feliz do mundo bruxo!
Eles ficaram ali por um longo tempo, abraçados perto da lareira. A insegurança de Reader e o ciúme de Dobby pareciam ter se dissolvido na quietude da noite.
No entanto, a paz foi subitamente interrompida por um barulho metálico vindo da despensa. Um som de algo pesado sendo arrastado.
Reader levantou-se de um salto, sua agilidade natural e força descomunal entrando em estado de alerta.
— O que foi isso? — sussurrou ela.
— Dobby vai ver! — O elfo estalou os dedos, pronto para a ação.
Eles caminharam silenciosamente até a despensa. Ao abrirem a porta, encontraram o pequeno Pip caído no chão, soterrado por uma pilha de latas de conserva de abóbora.
— Pip! — Reader correu para ajudá-lo, levantando as latas pesadas como se fossem penas. — O que você está fazendo aqui a esta hora?
O pequeno elfo levantou a cabeça, parecendo envergonhado.
— Pip queria fazer uma surpresa... Pip ouviu a senhorita dizer que estava com muita fome hoje cedo. Pip queria pegar a maior lata de pêssegos em calda para a senhorita, mas Pip é pequeno e a prateleira é alta...
Reader olhou para a lata de pêssegos que o pequeno elfo ainda segurava com força. Ela sentiu uma onda de compaixão.
— Oh, Pip... obrigada. Mas você poderia ter se machucado seriamente.
Dobby aproximou-se, observando a cena. Ele olhou para Reader, depois para o pequeno e assustado Pip. O ciúme ainda estava lá, uma pequena chama, mas a bondade intrínseca de Dobby e o amor que acabara de confirmar com Reader falaram mais alto.
— Pip é um elfo muito imprudente — disse Dobby, embora seu tom não fosse mais áspero. — Mas Pip tem boas intenções. Dobby vai ensinar Pip a usar feitiços de levitação para prateleiras altas amanhã. Assim Pip não morre esmagado por pêssegos.
Pip olhou para Dobby com admiração.
— O senhor Dobby faria isso? Pip ficaria muito honrado!
Reader sorriu, sentindo-se imensamente orgulhosa de seu elfo.
— Viu só? — disse ela para Dobby. — Você é o mestre aqui, Dobby. Todos olham para você como um exemplo.
Dobby estufou o peito, as orelhas subindo com orgulho.
— Dobby é um elfo experiente, é verdade. Dobby tem muito a ensinar ao jovem Pip.
Naquela noite, após levarem Pip de volta para sua acomodação, Reader e Dobby caminharam juntos até o quarto dela. O corredor estava iluminado apenas por tochas bruxuleantes, criando sombras longas nas paredes.
— Dobby? — chamou ela antes de entrar.
— Sim, senhorita Reader?
— Você ainda está bravo com a flor de papel?
Dobby hesitou, depois tirou algo de dentro de sua túnica. Era a flor de papel que Pip dera a ela, que ele recolhera do chão da cozinha.
— Dobby guardou — admitiu ele, envergonhado. — Dobby acha que, se a senhorita gosta, Dobby deve gostar também. Mas Dobby ainda prefere as meias.
Reader riu e deu um beijo rápido no topo da cabeça de Dobby.
— Eu também prefiro as meias, Dobby. Especialmente as que você usa.
Eles se despediram com a promessa de um novo dia. Reader deitou-se em sua cama, o apetite voraz finalmente saciado pelos pêssegos que Pip lhe dera, mas sua alma estava saciada por algo muito mais profundo. Ela aprendera que mesmo nos seres mais puros, como os elfos, o amor trazia consigo complexidades como o ciúme e a insegurança.
E Dobby, em seu pequeno canto, não conseguia parar de sorrir. Ele era um elfo livre, tinha uma amiga que o amava e agora tinha um "aprendiz" para treinar. Mas, acima de tudo, ele sabia que não importava quantos novos elfos chegassem a Hogwarts, o coração daquela humana gigante e doce pertencia a ele.
A primavera estava chegando, e com ela, a promessa de que em Hogwarts, até mesmo um aborto e um elfo doméstico poderiam escrever sua própria história de amor, um remendo de cada vez.