O elfo apaixonado pela humana boba
O Sussurro nas Sombras e o Bordado de um Coração
O silêncio que se seguiu ao estalo da aparatação de Dobby foi preenchido apenas pelo crepitar das últimas brasas na lareira da cozinha. No seu novo quarto, [Nome] tentava acalmar o tremor persistente em suas mãos. Ela abriu o livro de romance, mas as letras de Jane Austen pareciam dançar diante de seus olhos. A imagem de Kreacher e o peso de sua própria força bruta a assombravam. Ela sempre fora assim: um paradoxo de carne e osso, capaz de amassar metal com um aperto, mas que chorava ao ver uma pétala de rosa murchar.
— Ele me chamou de aberração — sussurrou ela, sentindo o nó na garganta. — E talvez ele tenha razão. Uma bruxa que não faz magia, uma mulher que quebra o que toca...
Para se distrair, ela pegou as agulhas de tricô e um novelo de lã cor de esmeralda que trouxera de casa. Ela queria fazer uma meia para Dobby. Não uma meia comum, mas uma com bordados de pequenos girassóis, para combinar com a alegria que ele emanava. Enquanto as agulhas batiam rítmicas — um som que geralmente a acalmava —, ela começou a cantarolar uma melodia antiga, uma canção de ninar que usava para acalmar as crianças de quem cuidava.
Sua voz era límpida, uma corrente de mel e seda que parecia suavizar as arestas das pedras frias de Hogwarts. Ela não sabia, mas nos jardins próximos, os Crups pararam de latir e as corujas no corujal inclinaram as cabeças para o lado, enfeitiçadas pela pureza do som.
Enquanto isso, nos corredores do terceiro andar, Dobby não estava ouvindo música. Ele estava agachado atrás de uma armadura de metal, seus olhos verdes dilatados na penumbra. O cheiro que sentira na cozinha se intensificara: era um odor metálico, como sangue velho misturado com o mofo de masmorras esquecidas.
— Dobby está vendo algo que não deveria — murmurou o elfo, apertando os punhos.
À frente dele, uma sombra densa parecia se desprender da parede. Não era um fantasma, pois os fantasmas de Hogwarts tinham um brilho prateado e uma presença familiar. Aquilo era um vulto negro, uma criatura que parecia absorver a luz das tochas. Era um Trasgo da Floresta, mas havia algo errado com ele. Seus olhos não eram opacos e burros; eles brilhavam com uma luz carmesim não natural, sinal de uma possessão ou de uma maldição de controle muito poderosa.
O trasgo carregava um objeto pesado, um baú de prata com o brasão de Hogwarts, e se movia com uma agilidade furtiva que nenhum trasgo comum possuiria.
— O mestre Harry Potter diz que Hogwarts é segura — sibilou Dobby para si mesmo —, mas Dobby sabe que o mal gosta de se esconder onde há muita luz.
O elfo livre estalou os dedos, preparando-se para desarmar a criatura, mas antes que pudesse agir, o trasgo soltou um rugido abafado e golpeou uma estátua de mármore, reduzindo-a a pó. O barulho ecoou pelo castelo. Dobby percebeu que, se aquela criatura descesse em direção às cozinhas em seu frenesi, [Nome] estaria em perigo.
Ele não pensou duas vezes. Com um estalo, ele apareceu bem na frente do monstro.
— O senhor Trasgo não vai passar! — gritou Dobby, sua voz aguda desafiando a besta. — Dobby é um elfo livre e Dobby protege seus amigos!
O trasgo rosnou, a baba escorrendo de suas presas amareladas, e levantou o baú para esmagar o pequeno elfo.
Longe dali, nas cozinhas, o instinto de [Nome] disparou. Ela sentiu um arrepio na espinha e o som de sua própria voz morreu na garganta. Sua ansiedade, tantas vezes uma inimiga, funcionava às vezes como um radar para o perigo.
— Dobby? — chamou ela, saindo do quarto.
A cozinha estava mergulhada em uma penumbra suave. Winky estava encolhida em um canto, ressonando entre soluços, mas os outros elfos pareciam inquietos. Um elfo jovem chamado Binky aproximou-se dela, puxando a bainha de seu avental.
— Senhorita [Nome], algo está errado no andar de cima. Dobby foi ver. Dobby não voltou.
O medo de [Nome] foi substituído por uma descarga de adrenalina que fez seus músculos retesarem. Ela não tinha uma varinha, não sabia lançar um *Estupefaça*, mas tinha algo que muitos bruxos subestimavam.
— Onde ele foi, Binky? — perguntou ela, sua voz agora desprovida de timidez, assumindo um tom de comando que surpreendeu os pequenos seres.
— Corredor das Armaduras, terceiro andar! — respondeu o elfo, apontando para a saída.
[Nome] correu. Ela não usou as passagens secretas que os elfos conheciam; ela subiu as escadas de pedra dois degraus por vez. Seu coração batia forte, não pela ansiedade, mas pelo esforço físico. Quando chegou ao terceiro andar, a cena que encontrou fez seu sangue congelar.
Dobby estava sendo arremessado contra uma parede. Ele usava sua magia para criar escudos de luz, mas a força bruta do trasgo amaldiçoado estava quebrando suas defesas. O elfo parecia exausto, seu gorro de lã caído sobre um dos olhos.
— Pare com isso! — o grito de [Nome] ecoou pelo corredor, potente como o toque de uma trombeta.
O trasgo se virou. Ao ver a mulher, ele soltou o baú e avançou. Dobby, caído no chão, gritou:
— Fuja, senhorita [Nome]! Ele é malvado! Ele tem magia de sangue!
Mas [Nome] não fugiu. Ela viu o hematoma no braço de Dobby e algo dentro dela se partiu. A "boba" e "tímida" [Nome] deu lugar à protetora. Quando o trasgo tentou agarrá-la com suas mãos imensas, ela não recuou. Ela segurou os pulsos da criatura.
O impacto foi seco. O chão de pedra sob os pés de [Nome] rachou com a pressão da força que ela exercia para se manter no lugar. O trasgo, acostumado a subjugar qualquer ser pelo peso, ficou confuso. Ele empurrou, mas a mulher era como uma montanha de ferro.
— Eu disse... — ela rosnou, os dentes cerrados, seus músculos do braço rasgando levemente as mangas do vestido de linho — ... para parar!
Com um rugido de esforço, [Nome] girou o corpo. Usando o próprio peso do trasgo contra ele, ela o levantou do chão — uma criatura de quase meia tonelada — e o arremessou contra a parede oposta. O impacto foi tão violento que o trasgo ficou incrustado na pedra por um momento antes de cair, inconsciente, enquanto a aura vermelha de seus olhos se dissipava.
O silêncio retornou, pesado e denso. [Nome] caiu de joelhos, ofegante, suas mãos ardendo. Ela olhou para as próprias palmas, apavorada com o que acabara de fazer.
— Eu... eu o matei? — perguntou ela, a voz tremendo novamente.
— Não, senhorita — disse Dobby, aproximando-se mancando, seus olhos brilhando com uma intensidade que assustaria um bruxo comum. — Ele está apenas dormindo. A senhorita... a senhorita é uma guerreira!
Dobby parou diante dela. Ele viu o rasgo em sua roupa e a forma como ela tentava se encolher, como se tivesse vergonha da própria vitória. Para o elfo, aquela não era uma demonstração de "aberração", como Kreacher dissera. Era a coisa mais linda que ele já vira.
— Dobby está bem? — perguntou ela, estendendo a mão para tocá-lo, mas recuando logo em seguida, com medo de machucá-lo.
Dobby pegou a mão dela. Seus dedos pequenos e calejados envolveram os dedos grandes e poderosos de [Nome].
— Dobby nunca esteve melhor, senhorita [Nome]. A senhorita salvou Dobby.
— Eu só não queria que você se machucasse — confessou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Você foi a primeira pessoa, além dos meus pais, que não me olhou como se eu fosse um erro.
Dobby sentiu um aperto no peito que nenhuma maldição de trasgo poderia causar. Ele se inclinou e, em um gesto de audácia que nunca tivera nem com Harry Potter, beijou as costas da mão de [Nome].
— A senhorita é o acerto mais bonito de Hogwarts — disse ele com solenidade.
O momento foi interrompido pelo som de passos rápidos. O Professor Dumbledore, acompanhado por Minerva McGonagall e Severo Snape, surgiu no corredor. Snape parou diante do trasgo, analisando a parede rachada com uma sobrancelha erguida.
— Interessante — sibilou Snape, olhando para [Nome]. — Eu não sabia que tínhamos contratado um Gigante da Montanha disfarçado de faxineira.
— Severo, por favor — repreendeu Dumbledore, embora seus olhos estivessem fixos no baú de prata. — [Nome], você está ferida?
— Não, senhor... eu só... o armário de limpeza... eu vou limpar tudo, eu prometo — gaguejou ela, tentando se levantar.
— Deixe isso para depois — disse Dumbledore suavemente. — O que você fez aqui hoje exigiu mais do que força física. Exigiu um espírito protetor. Este baú contém relíquias que não deveriam sair da sala de troféus. Você evitou um grande roubo, minha querida.
Minerva aproximou-se e colocou a mão no ombro de [Nome].
— Vá para o seu quarto, querida. Peça aos elfos que lhe tragam um tônico para os nervos. Você foi muito corajosa.
[Nome] assentiu, ainda em choque, e começou a descer as escadas. Dobby a seguiu de perto, como uma sombra leal.
De volta à segurança da cozinha, o burburinho entre os elfos era ensurdecedor. Binky, Hopkirk e até a sonolenta Winky cercaram [Nome].
— Ela derrotou um trasgo! — gritava Binky. — Sem varinha! Só com as mãos!
— Senhorita [Nome] precisa comer! — exclamou Hopkirk. — Força de dez cavalos precisa de dez tortas!
Eles a conduziram até a mesa de canto. Dobby, no entanto, não deixou que ninguém mais a servisse. Ele mesmo buscou uma caneca de chocolate quente com marshmallows e uma travessa de bolinhos de chuva polvilhados com canela.
— Coma, senhorita [Nome] — disse ele, sentando-se ao lado dela. — Dobby vai ficar aqui. Dobby não vai deixar ninguém chamar a senhorita de nomes ruins de novo.
[Nome] pegou um bolinho, sentindo o conforto da comida caseira acalmar seu estômago voraz. Ela olhou para Dobby e, pela primeira vez na vida, não sentiu vontade de esconder quem era.
— Sabe, Dobby... eu estava fazendo uma coisa para você antes de tudo isso acontecer.
Ela tirou do bolso do avental o pequeno começo da meia de lã esmeralda.
— É para você. Pelos girassóis que você me faz sentir.
Dobby olhou para o pedaço de lã como se fosse o Santo Graal. Seus olhos verdes se encheram de água, e ele soltou um fungado sonoro.
— Para Dobby? A senhorita está fazendo roupas para Dobby?
— Sim — disse ela, corando violentamente. — Mas não é para te libertar, porque você já é livre. É um presente. De amiga para amigo.
— Dobby vai guardar para sempre — prometeu ele, abraçando a meia inacabada contra o peito. — Mesmo que Dobby tenha muitas meias, esta será a preferida de Dobby. Porque ela tem o cheiro da bondade da senhorita.
[Nome] sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto e fez Dobby suspirar. Ela ainda era ingênua demais para perceber que, para o elfo, aquele beijo na mão e aquela meia eram o início de um compromisso que ia além da amizade. Dobby via nela uma divindade terrena, uma criatura de compaixão e poder que ele estava decidido a conquistar, um dia de cada vez.
— Dobby? — chamou ela, após terminar o chocolate.
— Sim, senhorita [Nome]?
— Você acha que... você poderia me ensinar a dançar? Eu vi os elfos se movendo tão ritmicamente quando cozinham. Eu sempre quis aprender, mas tenho medo de pisar no pé de alguém e... bem, você viu o que eu faço com o chão.
Dobby levantou-se e fez uma reverência elegante.
— Dobby seria o elfo mais feliz do mundo se pudesse dançar com a senhorita. E não se preocupe com os pés de Dobby. Dobby é muito rápido!
Ali, no canto da cozinha de Hogwarts, entre o aroma de canela e o calor das fornalhas, uma mulher gigante e um elfo livre começaram a se mover em uma valsa desajeitada e doce. [Nome] ria, sua voz melodiosa afastando as sombras do castelo, enquanto Dobby a guiava com uma ternura que prometia proteger seu coração de ouro contra qualquer mal que ousasse cruzar seu caminho.
Eles eram diferentes, pertenciam a mundos que raramente se tocavam, mas naquela noite, sob as pedras milenares, eles eram apenas dois corações encontrando um ritmo comum na dança da vida. [Nome] ainda não sabia que estava se apaixonando, e Dobby tinha todo o tempo do mundo para mostrar a ela que a beleza não estava na perfeição da magia, mas na força de um abraço sincero.