O elfo apaixonado pela humana boba
O Bordado de Girassóis e o Banquete do Coração
A manhã em Hogwarts sempre começava com o som das corujas e o aroma de pão fresco subindo das masmorras, mas para [Nome], aquele dia tinha um peso diferente. O incidente com o trasgo amaldiçoado no corredor do terceiro andar ainda reverberava em seus músculos. Suas mãos, as mesmas que haviam arremessado meia tonelada de carne e fúria contra uma parede de pedra, agora tremiam levemente enquanto ela tentava passar a linha amarela pela agulha de bordar.
Ela estava sentada em seu pequeno quarto, um refúgio que Dumbledore lhe concedera com tanta generosidade. O espaço era simples, mas ela o preenchera com o que tinha de mais precioso: alguns livros de romance com as capas escondidas por papel pardo, um vaso com ervas que ela mesma plantara e seus materiais de artesanato. O sol entrava timidamente pela pequena janela alta, iluminando o projeto em que ela trabalhava obsessivamente desde a noite anterior: a meia de lã esmeralda para Dobby.
— Girassóis — sussurrou ela, sua voz doce e melodiosa falhando por causa do cansaço. — Ele é como um girassol. Sempre procurando a luz, mesmo quando o mundo tenta deixá-lo nas sombras.
[Nome] deu o primeiro ponto, formando a pétala amarela. Ela era uma romântica incurável, embora morresse de vergonha de admitir. Em sua mente, cada ponto era um agradecimento. Ela nunca se sentira bonita; via-se como uma construção desajeitada, uma força bruta em um mundo de elegância mágica. Mas Dobby... Dobby a olhava como se ela fosse feita de luz estelar.
Um estalo suave ecoou no quarto, e [Nome] deu um salto, quase derrubando sua cesta de fios.
— Senhorita [Nome]! — exclamou Dobby, aparecendo com um prato de torradas com geleia de amora e uma caneca de suco de abóbora gelado. — Dobby trouxe o desjejum! Dobby notou que a senhorita não apareceu na cozinha no primeiro sino. Dobby ficou preocupado que a senhorita estivesse com as energias gastas!
[Nome] sentiu o rosto arder em um tom de carmesim que rivalizaria com as vestes da Grifinória. Ela rapidamente escondeu a meia atrás das costas, o coração martelando contra as costelas.
— Oh, Dobby! Você me assustou. Eu... eu só estava perdendo a noção do tempo. Obrigada, você é bondoso demais.
Dobby aproximou-se, seus olhos verdes enormes brilhando com uma curiosidade infantil. Ele inclinou a cabeça para o lado, as orelhas de morcego balançando.
— A senhorita está escondendo algo? — perguntou ele, sem malícia, mas com aquela franqueza que só os elfos livres possuíam. — Dobby fez algo errado? Dobby trouxe a geleia errada?
— Não, não! — [Nome] riu, um som que fez Dobby sorrir instantaneamente. — É um segredo, Dobby. Um presente. Você terá que esperar até que eu termine.
Dobby estufou o peito, visivelmente emocionado.
— Um segredo para Dobby! — Ele colocou a bandeja sobre a pequena mesa de cabeceira com uma reverência dramática. — Dobby vai esperar com muita paciência. Mas a senhorita precisa comer. Dobby ouviu seu estômago reclamando daqui!
Era verdade. O apetite voraz de [Nome], consequência de sua força descomunal, era seu maior segredo de vergonha. Ela devorou as torradas em segundos, sentindo a energia retornar aos seus membros. Dobby a observava com uma admiração que beirava a adoração. Para ele, ver [Nome] comer com tanta vontade não era uma aberração, era um sinal de vida e vigor.
— Dobby — disse ela, limpando uma migalha do canto da boca —, o Professor Dumbledore disse algo sobre o trasgo? E sobre... sobre o baú?
Dobby sentou-se no banquinho aos pés da cama dela, suas pernas curtas balançando no ar.
— O Professor Dumbledore é um grande bruxo, senhorita. Ele disse que o trasgo estava sob um feitiço muito antigo de "Sangue e Corrupção". Alguém queria aquele baú, senhorita [Nome]. Algo muito importante estava lá dentro. Mas o Professor Snape está investigando. Ele está de mau humor, o que significa que ele está trabalhando muito!
[Nome] estremeceu ao lembrar do olhar gélido de Snape.
— Ele me assusta, Dobby. Todos eles me assustam um pouco. Eu sinto que, a qualquer momento, alguém vai perceber que eu não pertenço a este lugar. Que eu sou apenas uma... uma faxineira que quebra paredes.
Dobby saltou do banquinho e caminhou até ela, colocando sua mão pequena sobre o joelho de [Nome]. O contato físico era algo que ela amava, e o toque de Dobby era sempre carregado de uma sinceridade reconfortante.
— A senhorita pertence a onde seu coração está — disse Dobby com uma seriedade absoluta. — E o coração da senhorita está aqui, ajudando os elfos, cuidando das plantas e protegendo Dobby. Hogwarts é mais brilhante com a senhorita. Até os quadros estão comentando sobre a "Moça da Voz de Anjo".
[Nome] sentiu vontade de se esconder debaixo das cobertas.
— Eles me ouviram cantar? — perguntou ela, a voz quase um sussurro. — Oh, Merlin, eu vou desmaiar de vergonha.
— Eles amaram, senhorita! — Dobby exclamou. — Até a Mulher Gorda chorou um pouco, embora ela diga que foi apenas o reflexo do vinho.
A conversa foi interrompida por um segundo estalo, muito mais ríspido. Kreacher apareceu no centro do quarto, segurando um espanador de penas de fênix com uma expressão de profundo nojo.
— A amante das criaturas está acordada — resmungou Kreacher, olhando para as torradas desaparecidas. — Comendo como um trasgo de verdade. O mestre Harry Potter quer que a cozinha seja limpa para o banquete de hoje à noite. Há muito trabalho, e a elfa bêbada, Winky, está chorando sobre um barril de cerveja amanteigada novamente.
[Nome] levantou-se imediatamente, sua timidez dando lugar ao senso de dever.
— Eu já estou indo, Kreacher. Sinto muito pelo atraso.
— Não peça desculpas a ele! — Dobby interveio, cruzando os braços. — Kreacher deveria ter mais modos com a senhorita [Nome]! Ela salvou o castelo ontem à noite!
Kreacher soltou um som que parecia um pigarro de desdém.
— Ela usou força bruta. Coisa de seres inferiores. Mas... — ele parou, seus olhos injetados de sangue fixando-se por um segundo no bordado de girassóis que [Nome] deixara sobre a cama — ... o trabalho de agulha não é de todo ruim. Lembra os bordados da Senhora Walburga. Menos... menos alegre, é claro.
Com esse elogio torto, Kreacher aparatou. [Nome] piscou, surpresa.
— Isso foi... um elogio? — perguntou ela a Dobby.
— Para Kreacher, isso é o equivalente a uma medalha de ouro — riu Dobby. — Venha, senhorita! Temos caldeirões para arear!
As horas seguintes foram um borrão de atividade. Nas cozinhas de Hogwarts, o calor era intenso, mas [Nome] sentia-se em seu elemento. Ela limpava as grandes mesas de carvalho com uma eficiência que deixava os outros elfos boquiabertos. Quando um dos grandes armários de ferro emperrou, ela simplesmente colocou o ombro contra a madeira e, com um empurrão suave, colocou-o de volta nos trilhos, embora o som do metal rangendo tenha feito todos pularem.
— Me desculpem! — pedia ela, sempre com um sorriso doce e as bochechas coradas. — Eu ainda não controlo bem o peso.
Enquanto trabalhava, ela notava pequenos detalhes. Dobby estava sempre por perto, garantindo que ela tivesse água fresca ou que ninguém tropeçasse em seus pés. Ele a tratava com uma reverência que ela não entendia, mas que aquecia seu coração.
— Senhorita [Nome] — chamou uma elfa pequena e idosa chamada Misty, que cuidava das sobremesas. — Poderia nos ajudar com o estoque de farinha? Os sacos estão muito altos para nós hoje.
— Claro, Misty! — [Nome] caminhou até a despensa.
Lá, pilhas de sacos de farinha de cinquenta quilos cada aguardavam. Para os elfos, era uma tarefa hercúlea de levitação; para [Nome], era apenas um exercício matinal. Ela pegou dois sacos em cada braço, empilhando-os com uma facilidade desconcertante.
No entanto, o silêncio da despensa foi subitamente quebrado por um sussurro. Não era um som de elfo, nem de humano. Era algo sibilante, vindo de trás das prateleiras de especiarias raras.
— *Fraca... sem magia... um desperdício de carne...*
[Nome] parou, o coração disparado. Sua ansiedade severa rugiu em seus ouvidos.
— Quem está aí? — perguntou ela, sua voz tremendo.
Ela olhou ao redor, mas não viu nada além de potes de canela e pimenta-da-jamaica. Mas o cheiro... o mesmo odor metálico e de mofo que Dobby descrevera na noite anterior estava ali.
De repente, uma sombra se projetou na parede. Não era o trasgo, mas algo menor, mais ágil. Uma criatura que parecia um cruzamento entre um diabinho e uma sombra sólida. Era um *Erkling*, mas suas garras brilhavam com um veneno verde esmeralda.
— *O mestre quer o que está no baú... o mestre quer vingança...* — sibilou a criatura, saltando das sombras em direção ao rosto de [Nome].
Ela não teve tempo de pensar. Seu instinto de babá, de protetora de seres pequenos, agiu antes de sua mente. Ela não socou a criatura; ela a agarrou no ar com uma precisão cirúrgica.
O *Erkling* guinchou, tentando morder seus dedos, mas a pele de [Nome], endurecida por anos de trabalho manual e pela sua natureza robusta, resistiu.
— Você não deveria estar aqui — disse ela, sua voz assumindo aquele tom divino e calmo que usava para acalmar animais. — Você está com medo, não está? Alguém está te forçando a fazer isso.
A criatura parou de lutar por um segundo, confusa pela falta de agressividade da humana. [Nome] sentiu a vibração de medo emanando do pequeno ser.
— Shhh... está tudo bem — começou ela a cantarolar, a mesma melodia que Dobby ouvira na noite anterior.
A magia da voz de [Nome], embora não fosse a magia de varinha que o Ministério reconhecia, era uma força da natureza. O *Erkling* pareceu murchar em suas mãos, o brilho venenoso de suas garras desaparecendo.
— O que está acontecendo aqui? — a voz de Dobby ecoou na entrada da despensa.
Ele viu [Nome] segurando a criatura sombria. Seus olhos verdes se arregalaram.
— Um *Erkling* de sangue! Senhorita, cuidado! Eles são traiçoeiros!
— Ele está calmo agora, Dobby — disse ela, voltando-se para o amigo com um olhar de pura compaixão. — Alguém o enfeitiçou. Veja os olhos dele.
Dobby aproximou-se cautelosamente.
— Dobby nunca viu um humano acalmar um *Erkling* com música. A senhorita é... a senhorita é uma encantadora, senhorita [Nome]!
Antes que pudessem fazer qualquer coisa, a criatura se dissolveu em uma fumaça negra, deixando para trás apenas uma pequena pena de corvo carbonizada.
— Ele se foi — sussurrou [Nome], sentindo uma tristeza profunda. — Ele era apenas uma ferramenta.
Dobby olhou para a pena no chão e depois para [Nome]. Ele sentiu uma onda de proteção tão forte que seus dedos estalaram com faíscas de luz.
— Alguém está tentando assustar a senhorita. Alguém sabe que a senhorita é forte e que protege Hogwarts. Mas Dobby não vai deixar. Dobby vai ser o escudo da senhorita!
[Nome] sentiu as lágrimas virem aos olhos. Ela se abaixou e, sem pensar nas convenções sociais ou na diferença de espécies, abraçou o pequeno elfo. Dobby ficou rígido por um milésimo de segundo, surpreso pelo contato, antes de retribuir o abraço com toda a sua força, enterrando o rosto no avental dela.
— Obrigada, Dobby. Eu não sei o que faria sem você.
— A senhorita nunca terá que descobrir — prometeu ele, sua voz abafada.
O restante do dia passou em uma calmaria tensa. [Nome] terminou o banquete, ajudando a preparar centenas de tortas de carne e travessas de batatas assadas. Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de Hogwarts com tons de violeta e ouro, ela finalmente pôde voltar para seu quarto.
Ela pegou a meia de lã. Estava terminada. O bordado de girassóis brilhava sob a luz da vela, cada pétala perfeita, cada ponto carregado de um carinho que ela ainda não conseguia rotular como amor, mas que era, sem dúvida, a coisa mais próxima disso que já sentira.
Ela saiu para o corredor das cozinhas, procurando por ele. Encontrou Dobby sentado perto da pintura da fruteira, olhando para a lua.
— Dobby? — chamou ela suavemente.
O elfo virou-se, seus olhos refletindo o brilho lunar.
— Sim, senhorita [Nome]?
— Eu terminei. O seu presente.
Ela estendeu a meia de lã esmeralda. Dobby pegou-a com as mãos trêmulas. Ele passou os dedos pelos girassóis bordados, sentindo a textura do fio e o calor que parecia emanar do objeto.
— É... a coisa mais linda que Dobby já ganhou — sussurrou ele, lágrimas grandes e brilhantes escorrendo por seu rosto. — A senhorita gastou seu tempo... suas mãos... para fazer isso para um elfo?
— Não para um elfo, Dobby — disse ela, ajoelhando-se para ficar na altura dele. — Para o meu melhor amigo. Para o ser mais corajoso que eu conheço.
Dobby olhou para ela, e naquele momento, a barreira entre as espécies pareceu desaparecer. Ele não via uma humana "aborto" e desajeitada; ele via uma rainha de bondade. E ela não via um "servo" ou uma criatura estranha; ela via uma alma livre e vibrante.
— Dobby quer dar algo em troca — disse ele, sua voz carregada de uma emoção profunda.
Ele estalou os dedos e, de repente, o corredor úmido foi preenchido por centenas de pequenas luzes flutuantes, como se estrelas tivessem descido do céu. Uma música suave, vinda de algum lugar invisível, começou a tocar.
— A senhorita me pediu para ensiná-la a dançar — lembrou ele, estendendo a mão. — Dobby não tem mestre, Dobby é livre. E Dobby escolhe dançar com a senhorita [Nome].
Ela hesitou, a timidez lutando contra o desejo. Mas ao olhar para o sorriso encorajador de Dobby, ela colocou sua mão na dele.
Eles começaram a se mover. No início, [Nome] era rígida, temendo quebrar o chão ou tropeçar, mas Dobby era leve como o ar. Ele a guiava com uma destreza mágica, fazendo-a sentir-se, pela primeira vez na vida, leve. Ela começou a rir, uma risada que ecoou pelas masmorras, espantando qualquer sombra que ainda restasse.
Eles dançaram entre as luzes flutuantes, uma mulher de força brutal e um elfo de magia poderosa, unidos por um bordado de girassóis e pela promessa de que, em Hogwarts, ninguém precisava estar sozinho.
[Nome] não percebeu, mas enquanto rodopiava, sua voz começou a acompanhar a música invisível. Ela cantava sobre liberdade, sobre flores que crescem nas fendas das rochas e sobre corações que encontram seu lar nos lugares mais improváveis.
Dobby, olhando para ela, soube naquele instante que passaria o resto de sua vida livre garantindo que aquela música nunca parasse. Ele estava perdidamente apaixonado, de uma forma que os livros de romance de [Nome] nunca conseguiriam explicar totalmente. Era um amor de elfo: puro, eterno e inabalável como as pedras de Hogwarts.
E enquanto a dança continuava, nas sombras distantes do castelo, um par de olhos vermelhos observava, mas por aquela noite, a luz dos girassóis era forte demais para ser apagada.