O escolhido de 100 anos
Entre Sombras e Sussurros: O Espírito do Caos
A decisão de Mestre Kaelen foi tomada antes mesmo que o sol terminasse de se pôr sobre as torres da Academia de Elite. Ele sabia que as paredes de pedra, por mais sólidas que fossem, não seriam capazes de conter o que estava prestes a despertar dentro de Alexy. A energia que o jovem emanara na sala do diretor não fora apenas um truque de luz; fora um grito de uma força ancestral que exigia espaço, ar e isolamento.
— Arrumre suas coisas, Danger — ordenou Kaelen, enquanto caminhavam pelo pátio de treinamento. — Partiremos ao amanhecer para a Floresta dos Ecos Perdidos.
Alexy, que estava tentando equilibrar uma pedra na ponta do nariz enquanto andava, quase a deixou cair.
— Floresta dos Ecos Perdidos? — Ele fez uma careta cômica. — O nome não é muito convidativo, Mestre. Não podíamos ir para a "Clareira dos Pôneis Felizes" ou algo assim?
Kaelen parou abruptamente e encarou o rapaz. O olhar era tão gélido que Alexy sentiu os pelos do braço se arrepiarem.
— O que habita em você não é feliz, Alexy. É vasto, é antigo e é perigoso. A academia é um alvo. Se essa energia sair do controle aqui, seus amigos serão os primeiros a sofrer as consequências. Você quer isso?
O sorriso de Alexy murchou instantaneamente. Ele olhou para o refeitório, onde Lúcia e os outros riam em volta de uma mesa de carvalho. A ideia de ser o motivo da dor deles era como uma adaga em seu peito.
— Não — respondeu ele, a voz agora desprovida de qualquer brincadeira. — Eu não quero.
— Então prepare-se. O isolamento é o único mestre que você aceitará sem questionar.
A despedida, na manhã seguinte, foi mais difícil do que Alexy previra. Lúcia o esperava nos portões laterais, enrolada em uma capa de lã para espantar o frio da madrugada.
— Você vai mesmo, não é? — perguntou ela, chutando uma pedrinha no chão. — O Mestre Ranzinza vai te levar para o meio do nada.
— Ei, não chame ele assim! — Alexy riu, tentando aliviar o clima, embora seus olhos estivessem tristes. — Ele prefere "Mestre Esculpido em Rocha Viva". E sim, eu preciso ir. Parece que eu tenho um... problema de encanamento interno. Muita energia pra pouca tubulação.
Lúcia se aproximou e o abraçou apertado, um gesto raro para a garota que preferia socos amistosos a demonstrações de afeto.
— Volte inteiro, Alexy. E tente não explodir nenhuma árvore sagrada.
— Promessa de Danger! — Ele retribuiu o abraço e, com um último aceno, seguiu o passo firme de Kaelen, que já estava metros à frente, sem olhar para trás.
A viagem durou três dias de caminhada extenuante. Kaelen não permitia pausas desnecessárias e mal falava. Alexy, por sua vez, tentava manter o ânimo, contando piadas para as árvores ou tentando ensinar o mestre a assoviar uma canção popular, mas o silêncio de Kaelen era uma barreira intransponível.
Quando finalmente chegaram à Floresta dos Ecos Perdidos, a atmosfera mudou. As árvores ali eram colossais, com troncos retorcidos que pareciam sussurrar uns com os outros. Uma névoa prateada rastejava pelo chão, e o som dos pássaros fora substituído por um zumbido constante de energia estática.
— Acamparemos aqui — anunciou Kaelen, apontando para uma clareira protegida por raízes gigantescas. — Coma. Descanse. Amanhã o seu verdadeiro martírio começa.
Alexy estava exausto. O peso da energia que ele carregava parecia ter triplicado desde que entraram na floresta. Ele mal teve forças para mastigar um pedaço de pão seco antes de se enroscar em sua manta. O cansaço o puxou para um sono profundo e sem sonhos... ou assim ele pensou.
Kaelen, no entanto, não dormia. Ele estava sentado em posição de lótus, a espada sobre os joelhos, vigiando o rapaz. O mestre notou que a respiração de Alexy estava ficando pesada. O ar ao redor do jovem começou a tremeluzir. Pequenas faíscas azuis e douradas saltavam de sua pele, queimando as folhas secas ao redor.
De repente, a temperatura na clareira caiu drasticamente. Alexy soltou um suspiro longo, mas não acordou. Em vez disso, uma sombra começou a se desprender de seu corpo. Não era uma sombra comum; era uma silhueta feita de pura luz caótica, que se moldou em uma forma humana, sentando-se casualmente sobre o peito de Alexy enquanto este permanecia em transe.
A entidade tinha a aparência de um bobo da corte etéreo, com olhos que mudavam de cor como um caleidoscópio. Ela olhou para Kaelen e soltou uma gargalhada silenciosa que ecoou diretamente na mente do mestre.
— Então... — a voz do espírito era como o som de mil sinos tocando ao mesmo tempo — você é o novo carcereiro?
Kaelen não se moveu, embora seu coração batesse forte contra as costelas. Ele apertou o punho da espada.
— Eu sou o mestre dele. Quem é você?
O espírito inclinou a cabeça, fazendo um movimento exagerado de reverência.
— Eu sou o que faz o mundo girar quando todos estão ocupados demais sendo sérios. Sou o Caos, o Riso, a Travessura que derruba impérios. E, no momento, sou o inquilino deste jovem adorável.
— Você é a profecia — murmurou Kaelen.
— Ah, as profecias! — O espírito flutuou até ficar cara a cara com Kaelen, seus pés nunca tocando o chão. — Elas são tão limitantes, não acha? "O Portador da Ordem e do Caos". Blá, blá, blá. O menino só quer fazer os amigos rirem, mas ele carrega o peso de galáxias inteiras em seus pulmões.
— Ele não sabe como controlar você — disse Kaelen, mantendo a voz firme. — Ele vai se destruir.
O espírito mudou de forma, tornando-se uma névoa densa que circulou o mestre.
— Ele não tem que me "controlar", seu humano rígido. Ele tem que me aceitar. Mas olhe para ele... — O espírito apontou para Alexy, que tremia levemente no sono. — Ele tem medo. Ele tem medo de que, se ele deixar o poder sair, a alegria dele desapareça. Ele acha que o poder é uma maldição que vai transformá-lo em alguém como você.
Kaelen sentiu a farpa nas palavras da entidade.
— Eu sou o que ele precisa para sobreviver.
— Você é o que ele precisa para ser um soldado — corrigiu o espírito, sua voz tornando-se subitamente sombria e profunda. — Mas se você tentar esmagar a travessura dele, se você tentar transformar o Alexy em apenas mais uma lâmina fria, eu vou queimar este mundo através dele. O poder dele vem da luz que ele compartilha. Se você apagar essa luz com sua disciplina militar, só sobrará o Caos. E acredite, Mestre Kaelen, você não quer enfrentar o Caos sem o Riso para equilibrá-lo.
Kaelen olhou para o rosto jovem de Alexy. A inocência ali era a única coisa que mantinha aquela força descomunal sob controle.
— O que você quer de mim? — perguntou o mestre.
O espírito voltou à forma de bobo da corte e deu de ombros, começando a desaparecer de volta para dentro do peito do rapaz.
— Nada. Só achei que deveria avisar. Ele é mais do que um escolhido. Ele é o meu favorito em cinco milênios. Não o estrague com muita seriedade. Ensine-o a lutar, sim... mas deixe-o colocar corante na sua água de vez em quando. É o que mantém a represa fechada.
Com um último brilho púrpura, o espírito desapareceu. O silêncio retornou à floresta, interrompido apenas pelo estalar da pequena fogueira.
Kaelen permaneceu imóvel por horas, processando o que acabara de ver. Ele olhou para Alexy, que agora dormia calmamente, com um meio sorriso nos lábios, talvez sonhando com alguma peça pregada em Lúcia ou Magnus.
Pela primeira vez em sua vida, o mestre rígido sentiu que o seu maior desafio não seria ensinar Alexy a golpear, mas sim aprender com o rapaz a importância de não levar o peso do mundo tão a sério.
— Pó de mico na armadura, não é? — murmurou Kaelen para a escuridão, soltando um suspiro que quase, por um milímetro, pareceu o começo de um sorriso. — Que os deuses nos ajudem.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram a névoa da floresta, Alexy acordou com um salto, esfregando os olhos e bocejando ruidosamente.
— Bom dia, Mestre! — exclamou ele, já de pé e procurando por comida. — Tive um sonho estranho. Tinha um cara com um chapéu engraçado me dizendo que eu era o favorito dele. Acho que as bagas que comemos ontem estavam estragadas.
Kaelen levantou-se, limpando a poeira de sua túnica. Ele olhou para Alexy com uma intensidade nova, uma mistura de respeito e preocupação.
— Não foram as bagas, Alexy. Pegue seu bastão de treino.
— Já? Nem um café da manhã reforçado? — Alexy fez um biquinho dramático.
— Agora — repetiu Kaelen. — E Alexy...
O jovem parou, surpreso pelo tom ligeiramente diferente na voz do mestre.
— Sim?
— Se você conseguir me tocar durante o treino de hoje... eu permitirei que você escolha a música que assoviaremos no caminho de volta.
Os olhos de Alexy brilharam com um entusiasmo renovado. Ele girou o bastão nas mãos com uma destreza impressionante, a aura dourada piscando por um breve segundo em suas pupilas.
— O senhor vai se arrepender disso, Mestre! Eu conheço umas músicas de taverna que vão fazer seus ouvidos sangrarem!
Kaelen assumiu sua postura de combate, mas desta vez, não havia apenas a intenção de subjugar. Havia a intenção de entender a dança entre o homem e o deus que habitava nele.
— Tente a sorte, Danger.
O treino começou com um estrondo que espantou os pássaros das árvores próximas. O destino do mundo estava em jogo, mas entre os golpes de madeira e os desvios rápidos, podia-se ouvir, ocasionalmente, o som de uma risada jovem desafiando a própria escuridão.