O escolhido de 100 anos
O Eco do Erro e a Sombra do Diretor
O retorno à Academia de Elite de Treinamento Marcial não foi marcado por trombetas, mas o silêncio que acompanhou a entrada de Mestre Kaelen e Alexy Danger era carregado de uma tensão nova. Alexy não era mais o mesmo rapaz que saíra dali semanas antes. Seus passos, embora ainda leves, possuíam uma cadência de autoridade; seus ombros estavam mais largos, e o brilho em seus olhos castanhos parecia conter uma profundidade abissal, como se ele tivesse visto o início e o fim do tempo em uma única tarde de treino.
Ao cruzarem o pátio, os outros estudantes pararam. Lúcia, que treinava com uma lança de madeira, deixou a arma cair ao ver o amigo. Alexy acenou para ela com um sorriso, mas não era a habitual careta de travessura pura; havia algo de sereno e, ao mesmo tempo, inquietante em sua expressão.
— Vá para o dormitório, Alexy — ordenou Kaelen, sua voz soando como o rolar de pedras em um desfiladeiro. — Descanse. Não fale com ninguém sobre o que aconteceu na floresta.
— Sim, Mestre. Mas saiba que a música que escolhi para o jantar ainda está de pé! — Alexy piscou, recuperando um pouco de sua leveza característica, antes de se afastar em direção aos alojamentos.
Kaelen observou o rapaz partir. Ele sentia o peso do segredo queimando em seu peito como brasa. Sem perder tempo, ele se dirigiu à torre administrativa. Seus passos ecoavam nos corredores de pedra, cada batida de sua bota parecendo um julgamento. Ele precisava de respostas. Ele precisava saber se o Diretor Magnus, o homem que o incumbira dessa missão, tinha plena consciência do monstro — ou do deus — que estava sendo criado sob seu teto.
Ao entrar na sala da diretoria, Kaelen não esperou ser anunciado. Ele escancarou as portas de carvalho e parou diante da mesa de Magnus. O diretor estava debruçado sobre mapas estelares, a luz das velas refletindo em sua barba grisalha.
— Ele voltou — disse Kaelen, sem preâmbulos.
Magnus levantou o olhar, um sorriso enigmático surgindo em seus lábios.
— Eu percebi. O ar na academia mudou no instante em que ele cruzou os portões. Como foi o progresso?
Kaelen aproximou-se, apoiando as mãos pesadas sobre a mesa de madeira.
— O progresso foi além de qualquer compreensão humana, Magnus. Ele não é apenas um prodígio. Durante o transe na Floresta dos Ecos Perdidos, algo se manifestou. Uma entidade. Um deus que se autodenomina o Caos e o Riso.
O mestre fez uma pausa, observando a reação do diretor. Magnus não pareceu surpreso. Pelo contrário, ele recostou-se na cadeira, entrelaçando os dedos.
— O Deus das Travessuras... — murmurou Magnus. — O arquiteto da mudança. Então a profecia é literal.
— Você já sabia? — A voz de Kaelen subiu um tom, carregada de uma fúria contida. — Você me enviou para treinar um rapaz sabendo que ele carregava uma divindade capaz de desintegrar a realidade se ele tropeçar em um cadarço?
Magnus soltou um suspiro curto, quase uma risada de satisfação.
— Eu desconfiava, Kaelen. Os sinais estavam lá desde que ele era uma criança. A sorte inexplicável, a forma como a realidade se dobrava para facilitar suas brincadeiras... Mas agora, ter a sua confirmação... É fantástico. É a peça que faltava para o nosso tabuleiro.
Kaelen sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Havia um brilho nos olhos de Magnus que ele nunca tinha visto antes — uma fome de poder que não condizia com a imagem do educador sábio e protetor.
— Tabuleiro? — Kaelen sibilou. — Alexy é um jovem, Magnus. Ele ama este lugar. Ele ama os amigos dele. Ele não é uma peça de jogo.
— Ele é o que o destino exigir que ele seja — rebateu o diretor, levantando-se e caminhando até a janela que dava para o pátio. — Com esse poder sob nosso comando, a Academia não será apenas uma escola de guerreiros. Seremos o epicentro de uma nova era. Imagine o que podemos fazer com o "Pulso da Existência" ao nosso lado.
Kaelen deu um passo para trás. O arrependimento o atingiu como um soco no estômago. Ele percebeu, tarde demais, que ao buscar orientação no diretor, ele havia entregado a vulnerabilidade de Alexy a um homem que via o rapaz como uma ferramenta, não como uma alma.
— Eu cometi um erro — disse Kaelen para si mesmo, em voz baixa.
— Pelo contrário, meu caro Kaelen — Magnus virou-se, o rosto banhado pelas sombras da sala. — Você prestou um serviço inestimável ao mundo. Agora, deixe-me. Tenho muito o que planejar.
Kaelen saiu da sala em silêncio, mas sua mente era um turbilhão de tempestades. Ele caminhou mecanicamente até seus aposentos, a sensação de traição pesando em cada músculo. Ele traíra a confiança do rapaz. Ele traíra o segredo que a própria entidade o avisara para proteger.
Exausto e atormentado, Kaelen deitou-se em seu catre de palha, mas o sono que veio não foi reparador.
Ele se viu novamente na Floresta dos Ecos Perdidos, mas desta vez o céu era de um roxo pulsante e as árvores estavam cobertas de olhos que piscavam em sincronia. No centro da clareira, sentado em um trono feito de cartas de baralho e ossos de dragão, estava a entidade que ele vira no peito de Alexy. O Deus das Travessuras.
O espírito não estava rindo agora. Sua forma era vasta, preenchendo o horizonte do sonho de Kaelen, e seus olhos eram fendas de puro fogo celestial.
— Eu avisei você — a voz da entidade não era mais um sino, mas um trovão que sacudia a alma de Kaelen. — Eu disse para não esmagar a luz dele com a sua seriedade. Mas você fez algo pior, pequeno soldado. Você entregou o segredo do meu hospedeiro ao lobo que se veste de pastor.
Kaelen tentou falar, mas sua voz parecia ter sido roubada.
— Magnus vai usá-lo — continuou o deus, inclinando-se para frente. A pressão era insuportável. — Ele vai tentar transformar o riso de Alexy em um grito de guerra. E se ele fizer isso, eu não serei mais o companheiro brincalhão. Eu serei a ruína. Eu serei o vazio que restará quando este mundo for reduzido a cinzas.
— Eu... eu não sabia — conseguiu balbuciar Kaelen, caindo de joelhos no chão onírico.
— Ignorância é a desculpa dos fracos — sibilou a divindade. — Você errou, Kaelen. Você quebrou o elo de ferro que jurou proteger. Agora, preste atenção, pois não haverá um segundo aviso. Você tem pouco tempo para consertar o que desfez. Tire o menino das garras de Magnus. Proteja a pureza dele antes que o diretor tente corrompê-la.
O deus estendeu uma mão etérea e tocou o peito de Kaelen. O mestre sentiu uma dor excruciante, como se seu coração estivesse sendo marcado a ferro quente.
— Se você falhar — a voz do deus tornou-se um sussurro gélido que arrepiou cada fibra do ser de Kaelen —, a minha fúria não cairá sobre Magnus. Ela cairá sobre você. Eu farei você assistir enquanto eu desmonto tudo o que você ama, peça por peça, e no final, restará apenas o silêncio.
Kaelen acordou com um grito sufocado, o corpo coberto de suor frio. Ele levou a mão ao peito e sentiu, sob a túnica, a pele ainda ardendo. Ao se olhar no espelho de metal polido no canto do quarto, ele viu uma marca avermelhada no formato de uma chama distorcida, bem sobre o coração.
O aviso fora real. O perigo era iminente.
Ele não podia esperar pelo amanhecer. Kaelen pegou sua espada e sua capa, movendo-se com a urgência de um homem que foge da própria execução. Ele precisava encontrar Alexy. Ele precisava tirar o rapaz da academia antes que Magnus agisse.
Enquanto atravessava os corredores escuros em direção ao dormitório dos alunos, Kaelen percebeu que a atmosfera da academia já não era a mesma. Havia guardas em postos onde antes não havia ninguém. O silêncio da noite parecia artificial, como uma respiração presa.
Ele chegou à porta do quarto de Alexy e entrou sem bater. O rapaz estava sentado na beira da cama, olhando para as próprias mãos. Ele não parecia surpreso com a entrada abrupta do mestre.
— Ele já sabe, não é? — perguntou Alexy, sem levantar o olhar. Sua voz soava cansada, velha demais para seus anos.
Kaelen parou, o coração batendo forte.
— Como você sabe?
— Eu sinto o estômago dele — Alexy levantou o rosto, e Kaelen viu lágrimas nos olhos do jovem. — Não o estômago de verdade, mas a fome. O Diretor Magnus... ele está olhando para mim como se eu fosse um banquete. O "Pulso" dentro de mim está agitado, Mestre. Ele quer sair. Ele quer morder o diretor.
Kaelen ajoelhou-se diante do rapaz, colocando as mãos em seus ombros.
— Alexy, ouça-me bem. Eu cometi um erro terrível. Eu confiei em quem não devia. Mas eu não vou deixar que ele toque em você. Nós vamos sair daqui. Agora.
Alexy olhou para o mestre, vendo a marca da chama através da abertura da túnica de Kaelen.
— O cara do chapéu engraçado... ele marcou você, não foi?
— Ele me deu um motivo para ser um mestre melhor — respondeu Kaelen com firmeza. — Mas não temos tempo para explicações. Pegue apenas o necessário. Vamos sair pelos túneis de drenagem.
— E os meus amigos? Lúcia, os outros... — Alexy hesitou. — Se eu fugir, Magnus vai descontar neles.
— Se você ficar, Magnus vai usar você para destruir tudo o que eles conhecem — rebateu Kaelen. — A única forma de protegê-los é mantendo esse poder longe das mãos dele.
Alexy respirou fundo, fechando os olhos por um momento. Quando os abriu, a faísca de travessura estava lá, mas temperada com uma determinação de aço.
— Tudo bem, Mestre. Mas se tivermos que lutar para sair, eu escolho a trilha sonora.
— Que assim seja — disse Kaelen, permitindo-se um sorriso amargo.
Eles saíram do quarto, movendo-se como sombras. Kaelen liderava o caminho, sua mente focada na promessa que fizera à divindade e, mais importante, ao rapaz. Ele sabia que Magnus não os deixaria partir tão facilmente. O diretor já devia ter percebido que o mestre rígido não era mais o seu aliado fiel.
Enquanto desciam as escadas em direção aos níveis inferiores, uma voz ecoou pelos corredores, amplificada por magia.
— Mestre Kaelen... Alexy... Onde pensam que vão a esta hora da noite? O treinamento mal começou.
Magnus surgiu no topo da escadaria, cercado por quatro guardas de elite, cujas armaduras brilhavam com runas de contenção. O diretor não parecia mais o homem sábio de antes; sua aura era de pura dominação.
— O treino acabou, Magnus — disse Kaelen, desembainhando sua espada. O metal brilhou com um reflexo azulado. — Alexy não é seu instrumento.
— Ele é o futuro deste reino! — gritou Magnus, estendendo a mão. — Guardas, prendam o traidor. Tragam o rapaz para mim. Com cuidado... ele é precioso.
Alexy deu um passo à frente, ficando ao lado de Kaelen. O ar ao redor do jovem começou a vibrar violentamente. O chão de pedra rachou sob seus pés, e pequenas risadas etéreas começaram a ecoar pelas paredes, vindas de lugar nenhum.
— Sabe, Diretor — disse Alexy, e sua voz parecia estar sendo sobreposta por mil outras vozes —, eu sempre achei que suas aulas eram um pouco chatas. Muita regra, pouca imaginação.
As mãos de Alexy brilharam com uma luz que alternava entre o dourado e o violeta.
— Mestre Kaelen me ensinou a lutar — continuou o rapaz, um sorriso travesso e perigoso cruzando seu rosto. — Mas o "outro eu" me ensinou a improvisar. Que tal um pouco de caos para animar a noite?
Kaelen sentiu o poder de Alexy explodir ao seu lado. Não era mais a energia descontrolada da floresta; era algo focado, uma vontade que desafiava a lógica. O mestre sabia que o caminho à frente seria pavimentado por batalhas que os livros de história teriam medo de registrar.
Mas, enquanto olhava para Alexy, ele percebeu que o deus estava certo. O riso era a única coisa que mantinha o abismo afastado. E ele, Kaelen, seria o escudo que permitiria que aquele riso continuasse a ecoar, não importa o preço que tivesse que pagar à divindade que agora marcava seu coração.
— Vamos, Alexy — gritou Kaelen, lançando-se contra os guardas. — Mostre a eles o que acontece quando se tenta prender o vento!
A batalha pela liberdade de um deus e o coração de um jovem começara, e as paredes da Academia de Elite nunca mais seriam as mesmas.