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O escolhido de 100 anos

O Retorno do Riso sobre as Cinzas do Vazio

Cinco anos podem ser uma eternidade quando se carrega o peso de um deus nos pulmões e o destino de uma realidade nos punhos. Para Alexy Danger, esses anos foram esculpidos em isolamento, suor e uma disciplina que jamais apagou sua centelha caótica, mas que a transformou em um laser focado. Ele não era mais o adolescente de roupas largas e sorriso fácil que tropeçava nos próprios pés; agora, o homem de vinte e três anos que observava as ruínas da Academia de Elite de Treinamento Marcial possuía uma presença que fazia a própria gravidade hesitar ao seu redor.

Ao seu lado, Mestre Kaelen parecia uma estátua de granito. O tempo havia aprofundado suas cicatrizes, e seus cabelos estavam mais brancos, mas a marca da chama em seu peito pulsava com uma luz constante, um farol de lealdade que nunca se apagara.

— O ar está morto aqui — comentou Kaelen, sua mão descansando no punho de uma espada que já não era de aço comum, mas de uma liga forjada em planos astrais.

— Não está morto, Mestre — corrigiu Alexy, ajustando as braçadeiras de couro que continham a energia vibrante em seus pulsos. — Está apenas esperando a piada final.

A academia, outrora um centro de vida e aprendizado, agora era uma fortaleza de obsidiana retorcida. Nuvens de um roxo doentio giravam perpetuamente sobre as torres, e o silêncio era interrompido apenas pelo som metálico de sentinelas que não respiravam.

Eles não precisaram bater no portão. Com um simples estalar de dedos de Alexy, as pesadas portas de ferro negro se transformaram em pétalas de cerejeira que voaram suavemente com o vento, revelando o pátio central.

Lá, o tempo parecia ter congelado em um pesadelo. No centro, duas figuras titânicas estavam em um impasse eterno. Borot' Mokmedeba, o Deus das Travessuras, parecia uma sombra pálida de si mesmo, mantendo uma barreira de cores tremeluzentes contra a pressão esmagadora de Gaukmeba. O Deus da Destruição era agora uma montanha de armadura negra, sua espada de ódio cravada no solo, drenando a vitalidade do mundo.

Sentado em um trono de ossos e runas, no topo da escadaria, estava Magnus. Ou o que restava dele. Sua pele era cinza como papel queimado, e seus olhos eram buracos negros que devoravam a luz.

— Vocês demoraram — a voz de Magnus não era mais humana; era um arranhar de metal sobre pedra que ecoava diretamente nos crânios de Kaelen e Alexy.

— Tivemos que fazer algumas paradas — Alexy deu um passo à frente, e a cada pisada, o solo de obsidiana recuperava sua cor natural. — Treinar, meditar, aprender a não explodir o universo sem querer... essas coisas de escolhido.

— Tolos — sibilou Magnus, levantando-se. A aura de Gaukmeba fluiu dele como fumaça tóxica. — Vocês voltam para um mundo que já foi digerido. Eu sou o receptáculo perfeito. Eu sou a Ordem que nasce do Vazio.

Kaelen desembainhou sua lâmina, o brilho azul cortando a névoa sombria.

— Você é apenas um hospedeiro infectado, Magnus. O que você chama de Ordem é apenas a paz dos cemitérios.

Magnus riu, e o som fez as janelas da academia estilhaçarem. Ele saltou do trono, caindo como um meteoro de sombras diante deles. Ao mesmo tempo, Gaukmeba rugiu, sentindo a presença de seu rival, e renovou o ataque contra Borot'. O pátio tornou-se um campo de batalha dual: divindades lutando no plano metafísico e homens lutando no plano físico.

— Alexy, agora! — gritou Kaelen.

O mestre avançou primeiro, uma técnica aperfeiçoada em cinco anos de combate contra horrores inomináveis. Ele não atacava apenas o corpo de Magnus; seus golpes eram precisos, mirando os pontos de conexão onde a energia de Gaukmeba se ancorava na alma do diretor. Magnus defendia-se com garras de pura sombra, repelindo os ataques de Kaelen com uma força bruta que faria qualquer outro homem desmoronar.

Mas Kaelen não estava sozinho.

Alexy movia-se como um raio. Ele não usava armas. Suas mãos estavam envoltas em uma aura que mudava de cor constantemente — o Pulso da Existência em sua forma pura. Ele flanqueou Magnus, desferindo um soco que não atingiu a carne, mas a própria realidade ao redor do diretor. O impacto criou uma onda de choque que desestabilizou a forma sombria de Magnus.

— Você ainda brinca, rapaz? — rosnou Magnus, disparando lanças de vácuo contra Alexy.

— Brincar é a única coisa que me mantém são, Diretor! — Alexy desviou das lanças com uma pirueta impossível no ar, deixando para trás rastros de luz dourada. — E o senhor sempre foi um péssimo público!

A luta intensificou-se. Kaelen servia como o âncora, o escudo inquebrável que absorvia os golpes mais pesados de Magnus, permitindo que Alexy tecesse sua teia de caos. O jovem Danger estava em toda parte. Ele criava ilusões de si mesmo que confundiam os sentidos de Magnus, e cada vez que o diretor tentava se concentrar, Alexy mudava a densidade do ar ou a direção da gravidade.

No plano divino, Borot' Mokmedeba sentiu a renovação de seu hospedeiro.

— Viu só, seu monte de sucata cósmica? — o espírito zombou de Gaukmeba, suas cores voltando a brilhar com intensidade. — O riso é contagiante!

Borot' transformou sua barreira em milhares de pequenos martelos de luz que começaram a martelar a armadura de Gaukmeba, não para quebrá-la, mas para criar uma ressonância. A vibração começou a enfraquecer a ligação entre o deus da destruição e o corpo de Magnus.

No pátio, Magnus começou a vacilar. Sua forma física estava se desfazendo, revelando a energia negra que o preenchia.

— Eu sou... invencível! — gritou Magnus, canalizando todo o poder de Gaukmeba em um único feixe de aniquilação direcionado a Alexy.

Kaelen percebeu a intenção. Ele não hesitou. O mestre correu e cravou sua espada no solo à frente de Alexy, canalizando a marca em seu peito para criar um escudo de lealdade absoluta. O feixe de vácuo atingiu o escudo com a força de um sol moribundo. Kaelen rugiu de dor, seus músculos se rasgando sob a pressão, mas ele não recuou um milímetro.

— Vá, Alexy! — gritou Kaelen, o sangue escorrendo por seu rosto. — Termine isso!

Alexy olhou para o mestre, e por um breve segundo, toda a diversão desapareceu de seus olhos, substituída por um amor feroz e uma determinação divina. Ele saltou sobre os ombros de Kaelen, usando o escudo do mestre como plataforma de lançamento.

No ar, Alexy fechou o punho. Toda a energia dos cinco anos de treinamento, toda a essência de Borot' Mokmedeba e toda a vontade de proteger seus amigos concentraram-se em um único ponto.

— Magnus! — a voz de Alexy ecoou como a de um deus. — O show acabou!

Ele atingiu o peito de Magnus com a palma da mão aberta. Não houve som de impacto, apenas um silêncio absoluto que durou um batimento cardíaco.

Então, a cor voltou.

Uma explosão de luz branca, azul e dourada emanou do ponto de contato. Magnus arregalou os olhos, mas não havia mais pupilas, apenas o vazio tentando escapar.

— Não... — sussurrou o diretor — eu deveria ser o receptáculo...

— Você foi apenas um hospedeiro descartável — disse Alexy, sua voz suave agora. — Gaukmeba nunca quis você, Magnus. Ele só queria um lugar para apodrecer.

O corpo de Magnus começou a inchar de forma grotesca. A energia de Gaukmeba, forçada a se retrair pela luz de Alexy, não tinha mais onde se esconder. O receptáculo humano não suportava mais a pressão contraditória entre a criação e a aniquilação.

— Kaelen, afaste-se! — Alexy ordenou, caindo de pé e puxando o mestre para trás de um dos pilares restantes.

Com um rugido final que não era de Magnus, mas do próprio Gaukmeba sendo expulso para o vazio, o corpo do diretor explodiu. Não houve sangue, apenas uma detonação de partículas negras que se dissiparam no ar como fuligem ao sol. A presença de Magnus foi apagada da existência, provando que, nos últimos cinco anos, não restava mais nada do homem, apenas a casca dominada pelo deus da destruição.

Com a destruição do hospedeiro, Gaukmeba perdeu sua âncora no mundo físico. Borot' Mokmedeba aproveitou a oportunidade, lançando um laço de pura alegria e cor sobre a divindade negra e arrastando-a de volta para a fenda entre os mundos.

— Até a próxima, rabugento! — a voz do espírito ecoou enquanto o portal se fechava, selando a fenda.

O silêncio que se seguiu foi real desta vez. As nuvens roxas se dissiparam, revelando um céu azul límpido e o calor do sol da tarde. A academia estava em ruínas, mas o ar estava limpo. O peso que esmagava a terra havia sumido.

Alexy caiu de joelhos, ofegante. Sua aura desapareceu, deixando-o exausto e trêmulo. Kaelen aproximou-se dele, mancando, e colocou a mão em sua cabeça.

— Você conseguiu, rapaz.

Alexy olhou para cima, um sorriso fraco e trêmulo surgindo em seu rosto.

— O senhor viu o tamanho daquela explosão, Mestre? O Diretor realmente... saiu com um estrondo.

Kaelen soltou uma risada curta, a primeira risada verdadeira em anos.

— É, ele sempre gostou de ser o centro das atenções.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando os primeiros sobreviventes e antigos alunos — incluindo uma Lúcia agora adulta e armada — saindo dos esconderijos e das masmorras da academia, olhando para o céu com incredulidade e esperança.

Alexy levantou-se com a ajuda de Kaelen. Ele olhou para as ruínas da escola onde tudo começara.

— E agora, Mestre? O que fazemos com um jovem de profecia que não tem mais um diretor para irritar?

Kaelen olhou para o horizonte, onde o mundo esperava para ser reconstruído.

— Bem — disse o mestre, ajeitando a capa de Alexy —, ouvi dizer que há uma clareira em algum lugar que precisa de um novo tipo de mestre. Um que ensine que a força é importante, mas que o riso é o que nos mantém humanos.

Alexy Danger sorriu, e desta vez, o brilho em seus olhos era o mesmo do menino que colocava corante na fonte, mas com a sabedoria de quem salvara o mundo.

— Parece um bom plano. Mas aviso logo, Mestre... se o senhor for o subdiretor, eu vou colocar pó de mico em todas as suas cadeiras.

Kaelen apenas suspirou, mas não escondeu o sorriso.

— Promessa de Danger?

— Promessa de Danger.

E assim, entre as ruínas do que foi e a promessa do que viria, o mestre e o aprendiz caminharam em direção ao reencontro com seus amigos, levando consigo a única coisa que nenhuma divindade da destruição poderia jamais apagar: a luz inabalável de um espírito livre.