O escolhido de 100 anos
O Eco do Caos e o Rugido do Vazio
O pátio da Academia de Elite, antes um santuário de disciplina, transformou-se em um redemoinho de energia instável. Kaelen movia-se como um borrão de aço, sua espada interceptando os ataques dos guardas de elite de Magnus. Ao seu lado, Alexy Danger não lutava como um guerreiro comum; ele dançava. Cada movimento do jovem fazia o ar estalar com faíscas violetas, e toda vez que um guarda tentava agarrá-lo, o chão se transformava em lama ou o ar se tornava sólido como uma parede, apenas para desaparecer um segundo depois entre risadas etéreas que não vinham da boca de Alexy.
— Mantenha o foco, Alexy! — gritou Kaelen, parando um golpe de alabarda que visava o peito do rapaz. — Não deixe a energia se dispersar demais!
— Estou tentando, Mestre! — Alexy rebateu, girando o corpo e disparando uma rajada de luz dourada que desarmou dois oponentes. — Mas é como tentar segurar um furacão com uma rede de pesca!
Magnus, observando do alto da escadaria, tinha o rosto contorcido em uma máscara de ganância. Ao seu lado, Travis, seu braço direito — um homem de compleição maciça e olhos frios como obsidiana —, deu um passo à frente, desembainhando uma maça cravejada de espinhos que brilhava com uma luz negra e doentia.
— Chega de brincadeiras — rosnou Magnus, sua voz ressoando com uma autoridade que parecia não ser inteiramente sua. — Travis, contenha o rapaz. Mate o instrutor se for necessário.
Travis saltou da escadaria com uma força sobre-humana, caindo entre Kaelen e Alexy. O impacto criou uma cratera no mármore. Quando ele ergueu a maça, uma onda de choque de energia sombria varreu o pátio, jogando Kaelen violentamente contra um pilar.
— Mestre! — Alexy gritou, correndo em direção a Kaelen, mas foi interceptado por Magnus, que agora flutuava centímetros acima do solo, cercado por uma aura de vácuo absoluto.
— Você não entende, Alexy — disse Magnus, e sua voz agora era um coro de mil almas agonizantes. — Você não é um aluno. Você é a fonte. E eu serei o mar que a consumirá.
No exato momento em que Travis erguia sua arma para desferir o golpe final em Kaelen, e Magnus estendia a mão para capturar Alexy, a realidade simplesmente... rasgou.
O som não foi de uma explosão, mas de um tecido fino sendo rasgado ao meio. Em um piscar de olhos, as paredes de pedra da academia, o céu estrelado e o cheiro de ozônio desapareceram.
Kaelen piscou, atordoado. Ele não estava mais no chão frio da academia. Onde antes havia mármore e sangue, agora havia um gramado infinito de um rosa vibrante, quase fluorescente. O céu era de um tom de pêssego suave, com nuvens que pareciam feitas de algodão-doce flutuando preguiçosamente.
— Mas o que... onde estamos? — Alexy perguntou, levantando-se e limpando a poeira das calças. Ele olhou em volta, vendo Magnus e Travis a alguns metros de distância, ambos parecendo tão desorientados quanto eles.
— Bem-vindos ao meu jardim de ideias não finalizadas! — Uma voz saltitante ecoou por todo o horizonte.
No centro do campo rosado, surgiu a figura que Kaelen vira em seus sonhos. O espírito com aparência de bobo da corte, vestindo trapos de seda que mudavam de cor constantemente. Ele flutuava de cabeça para baixo, mastigando o que parecia ser uma maçã feita de cristal puro.
— Borot' Mokmedeba! — exclamou o espírito, fazendo uma pirueta no ar e caindo de pé diante de Alexy. — O Deus das Travessuras, o Arquiteto do Inesperado e o único ser aqui com um senso de moda decente. Prazer em vê-lo acordado, meu pequeno hospedeiro.
— Você... o cara do chapéu engraçado! — Alexy apontou, soltando uma risada nervosa. — O que está acontecendo? Onde estamos?
— Estamos em uma fenda entre o "talvez" e o "nunca" — explicou Borot', fazendo a maçã desaparecer. — Eu tive que intervir. A festa estava ficando um pouco... pesada demais para o meu gosto.
Magnus, recuperando a compostura, avançou com os olhos injetados de ódio.
— Devolva-o para mim, espírito! Aquele poder me pertence por direito de conquista!
Borot' Mokmedeba soltou uma gargalhada aguda que fez o campo rosado vibrar.
— Pertence a você, Magnus? Oh, pobre mortal iludido. Você acha que é o mestre da marionete, mas não percebeu que as cordas estão enroladas no seu próprio pescoço.
De repente, o campo rosado começou a tremer. O horizonte à direita do grupo começou a murchar, as cores sendo sugadas para um ponto de escuridão absoluta. O rosa vibrante tornou-se cinza, depois preto, e um frio mortal começou a emanar daquela direção. O céu de pêssego foi substituído por um vazio estrelado que parecia devorar a própria luz.
Metade do campo agora era um deserto de cinzas e sombras. E daquela escuridão, uma figura emergiu.
Era um guerreiro colossal, revestido em uma armadura de ferro negro que parecia fundida à sua própria carne. Ele não tinha rosto, apenas um elmo com uma fenda horizontal de onde emanava uma luz vermelha pulsante. Em sua mão, ele carregava uma espada que não era feita de metal, mas de puro ódio solidificado.
O ar tornou-se pesado, carregado com o cheiro de metal queimado e campos de batalha esquecidos.
— Quem é esse? — sussurrou Kaelen, sentindo a marca em seu peito arder como nunca.
— Aquele — disse Borot' Mokmedeba, perdendo toda a sua ludicidade e assumindo uma postura defensiva pela primeira vez — é o motivo de Magnus estar agindo como um tirano louco. Ele é o senhor do fim, o arquiteto da ruína. Ele se chama Gaukmeba.
— Gaukmeba? — Alexy repetiu, sentindo um calafrio que parecia congelar sua alma.
— O Deus da Destruição e do Vazio — continuou Borot'. — Ele esteve adormecido dentro de Magnus por décadas, sussurrando em seus ouvidos, alimentando a ambição do diretor para que ele pudesse finalmente ter um corpo capaz de suportar sua essência. Magnus não sabe, mas ele é apenas o combustível que Gaukmeba está usando para se incendiar.
Gaukmeba deu um passo à frente, e o solo rosado sob seus pés apodreceu instantaneamente. Sua voz não era falada, era uma vibração que partia os ossos.
— Borot' Mokmedeba... O Riso é uma doença que deve ser erradicada. E o seu hospedeiro é a bateria que eu usarei para apagar todas as luzes deste universo.
Magnus caiu de joelhos, agarrando a própria cabeça enquanto a aura de Gaukmeba o envolvia. Travis, o braço direito, tentou se aproximar de seu mestre, mas foi desintegrado em um instante por um simples olhar da divindade negra, tornando-se apenas poeira ao vento.
— Eu irei eliminar vocês dois — declarou Gaukmeba, erguendo sua espada de ódio. — O Caos e o Riso não têm lugar na perfeição do Vazio que eu trarei.
— Alexy, atrás de mim! — Kaelen gritou, mas o deus das travessuras foi mais rápido.
Borot' Mokmedeba estalou os dedos.
— Desculpe, Gaukmeba, mas a sua festa é muito deprimente para o meu gosto. E eu ainda não terminei de ensinar o Alexy a fazer o truque da moeda!
Uma explosão de cores caleidoscópicas envolveu Alexy e Kaelen. A última coisa que viram antes da escuridão os levar foi o rosto de Gaukmeba, a fenda vermelha de seu elmo brilhando com um ódio milenar, e o sorriso desafiador de Borot' Mokmedeba enquanto ele se lançava contra o gigante de ferro negro para ganhar tempo.
O mundo girou. O sentido de "cima" e "baixo" desapareceu, substituído por uma sensação de queda livre através de um túnel de luz azulada.
Alexy acordou com o rosto pressionado contra a grama úmida. O cheiro não era mais de cinzas ou de flores rosas, mas de terra, pinho e chuva. Ele tossiu, sentindo cada músculo do corpo protestar.
— Mestre? — ele chamou, a voz rouca.
— Aqui... — Kaelen estava a poucos metros, levantando-se com dificuldade. Ele estava pálido, e a marca em seu peito brilhava com uma luz suave, agora mais parecida com uma cicatriz de proteção do que com uma ameaça.
Eles olharam em volta. Não estavam na academia. Estavam em uma encosta de montanha, com vista para um vale profundo e desconhecido. A Academia de Elite de Treinamento Marcial era apenas um ponto minúsculo no horizonte distante, envolta em uma cúpula de nuvens negras e relâmpagos vermelhos.
— Ele nos salvou — murmurou Alexy, sentando-se e abraçando os joelhos. — O Deus das Travessuras nos tirou de lá.
Kaelen caminhou até o rapaz e colocou a mão em seu ombro. Ele olhou para a academia distante, onde Gaukmeba agora reinava.
— Ele nos deu uma chance, Alexy. Mas Magnus... Magnus se foi. O que está lá agora é algo muito pior.
Alexy olhou para as próprias mãos. Elas não tremiam mais. Pela primeira vez, ele sentiu a energia dentro de si não como um oceano tentando estourar uma represa, mas como um aliado que esperava por ordens.
— Mestre Kaelen — disse Alexy, levantando-se. Seu rosto era uma mistura estranha de seriedade e daquela luz travessa que nunca o deixava. — O senhor disse que travessuras não vencem guerras.
Kaelen olhou para o jovem, esperando a conclusão.
— Eu estava errado — admitiu o mestre. — Contra o Vazio, talvez o Riso seja a única arma que resta.
Alexy deu um pequeno sorriso, embora seus olhos estivessem fixos na tempestade vermelha ao longe.
— Então é melhor começarmos o treino de verdade. Gaukmeba quer apagar as luzes? Bem... eu sempre fui muito bom em causar curto-circuito.
Kaelen assentiu, desembainhando sua espada e cravando-a no solo da montanha.
— Então vamos trabalhar, Danger. O mundo pode estar acabando, mas ainda temos uma música de taverna para assoviar no caminho da vitória.
Sob o céu da manhã que começava a surgir, longe da tirania de Magnus e da sombra de Gaukmeba, o mestre e o aprendiz começaram a planejar o impossível. A profecia havia mudado, os deuses haviam se revelado, mas Alexy Danger ainda era o rapaz que se recusava a deixar seus amigos — e o seu mundo — para trás. E, em algum lugar entre as dimensões, o Deus das Travessuras sorria, sabendo que a melhor piada de todas ainda estava por vir.