O festival
O Despertar do Rubro e da Prata: O Caos da Paternidade Primordial
O Palácio de Gelo Branco nunca havia conhecido tamanha desordem. O ambiente, que por milênios foi o epítome da quietude aristocrática e do frio absoluto, agora fervilhava com o calor das fornalhas de Tempest e o falatório incessante de seus habitantes. Guy Crimson, o Lorde do Orgulho, cruzava os braços sobre o peito musculoso, observando com uma veia saltada na têmpora enquanto Shuna e Shion davam ordens aos seus servos demoníacos como se fossem as donas do lugar.
— Tragam mais água quente! E essas toalhas precisam ser de seda de aranha, o toque deve ser impecável para a pele de Rimuru-sama! — Shuna comandava, sua aura de "esposa ideal" sendo substituída por uma autoridade de matrona que intimidava até os demônios de alto escalão.
— Eu vou esmagar qualquer um que fizer barulho perto do quarto! — Shion brandia sua espada, Gorimaru, para um grupo de esqueletos guardiões que apenas tentavam polir o chão.
Guy soltou um suspiro pesado, o vapor de sua respiração se misturando ao ar tenso. Ele se sentia um estranho em sua própria casa. Mas sua irritação evaporava no momento em que seus olhos se voltavam para a porta dupla do quarto real. Rimuru havia perdido a consciência três vezes nas últimas quarenta e oito horas. O esforço de trazer ao mundo duas existências que herdaram o fator de regeneração de um Slime Viscoso e a densidade de magículas de um Demônio Primordial estava drenando até a última gota de sua energia.
— Mestre Guy — Rain aproximou-se, parecendo exausta. — A barreira de isolamento está pronta. O nascimento começará a qualquer momento.
Guy não respondeu. Ele simplesmente atravessou as portas, ignorando os protestos de Shion. No centro da cama vasta, Rimuru parecia pequena, quase frágil, não fosse a barriga monumental que abrigava as duas herdeiras do caos.
— Guy... — Rimuru murmurou, abrindo os olhos prateados. Ela estava manhosa, com o cabelo azul-prateado espalhado pelos travesseiros como uma teia de seda. — Você demorou. Eu quero sorvete de fruta de mel. Agora.
— Rimuru, você está em trabalho de parto — disse Guy, aproximando-se e pegando a mão dela. — Não é hora de comer doces.
— Eu sou o prêmio deste mundo, Guy Crimson! — Rimuru disparou, com uma autoridade mandona que só a gravidez lhe dera. — Se eu quero sorvete, você usa sua Manipulação Espacial e busca em Tempest!
Guy sorriu, um gesto raro de pura diversão.
— Tudo bem, tudo bem. Rain, providencie o que ela quer.
O nascimento em si foi um evento que abalou as fundações do Continente de Gelo. Quando as gêmeas finalmente decidiram emergir, a pressão mágica foi tão intensa que as janelas de cristal do palácio explodiram simultaneamente. Não houve choro comum; houve um rugido de poder que silenciou até os lobos das neves do lado de fora.
Akane nasceu primeiro. No momento em que Guy a segurou, ele sentiu como se estivesse olhando para um espelho de milênios atrás. A pequena tinha cabelos de um vermelho tão intenso que pareciam chamas vivas e olhos escarlates que já carregavam a arrogância de um senhor demoníaco. Ela não chorou; ela simplesmente olhou para Guy e agarrou o dedo dele com uma força que teria quebrado os ossos de um humano comum.
— Ela é... exatamente como você — sussurrou Rimuru, exausta, mas sorrindo enquanto Shuna limpava a pequena.
Logo depois veio Shizune. Ela herdou os cabelos vermelhos do pai, mas em um tom um pouco mais suave, e seus olhos eram uma mistura hipnotizante de carmesim e prata. Embora tivesse a aparência de Guy, sua aura era mais calma, mais parecida com a serenidade de Rimuru, embora houvesse uma centelha de travessura nela que prometia problemas futuros.
As semanas que se seguiram ao nascimento foram o verdadeiro teste para o Lorde do Orgulho. Guy, que costumava governar o mundo com um olhar, agora se via rendido a duas pequenas criaturas que pareciam ter herdado não apenas seu poder, mas sua teimosia absoluta.
— Akane, solte isso. É uma relíquia mágica de nível Deus, não um brinquedo de dentição — disse Guy, tentando tirar um orbe de cristal das mãos da primogênita.
Akane, flutuando a poucos centímetros do chão graças a uma levitação instintiva, apenas rosnou para o pai — um som adoravelmente ameaçador — e apertou o orbe contra o peito, emitindo uma pequena faísca de chamas vermelhas para avisar que não aceitaria ordens.
— Ela tem o seu temperamento, Guy — riu Rimuru, sentada em uma poltrona confortável enquanto Shizune dormia pacificamente em seu colo. — Boa sorte tentando convencê-la do contrário.
Rimuru, por sua vez, havia se tornado uma figura de autoridade absoluta no palácio. Ela estava constantemente mandona, exigindo que Guy fizesse massagens em seus pés ou que buscasse iguarias raras em diferentes cantos do mundo. E Guy, para o choque de Misery e Rain, obedecia a cada comando com uma submissão que beirava o ridículo para alguém de sua posição.
No entanto, havia um momento do dia que Guy detestava: o horário da amamentação.
— Está na hora — anunciou Shuna, entrando no quarto com um sorriso gentil.
Rimuru se ajeitou, e imediatamente Akane e Shizune, que antes estavam brincando ou dormindo, tornaram-se alertas. Guy deu um passo à frente, querendo sentar-se ao lado de Rimuru, mas foi recebido por dois pares de olhos brilhantes e rosnados sincronizados.
Akane estendeu uma mãozinha, criando uma pequena barreira de calor entre Guy e Rimuru. Shizune, embora mais calma, simplesmente usou sua pequena presença mágica para "empurrar" o pai para longe.
— Ei! Eu sou o pai de vocês! — protestou Guy, sentindo uma pontada de carência que ele nunca admitiria em voz alta.
— Elas não querem dividir a atenção, Guy — disse Rimuru, soltando uma risadinha enquanto Shizune começava a mamar. Ela olhou para o marido com um ar de superioridade brincalhona. — Você é muito grande e ocupa muito espaço. Vá para o seu trono ou algo assim.
— Rimuru, este é o meu quarto. E eu quero ficar perto de você — Guy cruzou os braços, fazendo um bico que faria Diablo questionar a própria sanidade se o visse.
— Você está carente, Lorde do Orgulho? — provocou Rimuru, enquanto Akane, já satisfeita, olhava para Guy com um olhar de deboche que era uma cópia exata do olhar que Guy usava para os outros Lordes Demônios. — Venha aqui, Shuna, ajude-me com a Akane. Guy, você pode olhar, mas não toque. As meninas decidiram que eu sou propriedade exclusiva delas por enquanto.
Guy sentou-se em uma cadeira distante, observando a cena. Ele via Shuna e Shion paparicando as gêmeas, Diablo espiando pela fresta da porta com um caderno de anotações (provavelmente planejando como as gêmeas poderiam servir a Rimuru no futuro) e Veldora ocasionalmente aparecendo para tentar ensinar "golpes secretos" às bebês, apenas para ser expulso por Shuna.
O palácio estava barulhento, quente demais e cheio de pessoas que Guy normalmente não toleraria. Ele se sentia deixado de lado por suas próprias filhas, que pareciam ter herdado sua possessividade e a voltado contra ele para proteger a mãe.
— Isso é um absurdo — resmungou Guy para si mesmo. — Eu sou o ser mais forte deste mundo. Eu não deveria estar competindo por atenção com duas crianças que ainda nem sabem falar.
— Falando sozinho, Guy? — Rimuru chamou, tendo terminado de amamentar. As gêmeas agora estavam sonolentas, aninhadas nos braços de Shuna e Shion, que se preparavam para levá-las para o berçário.
Guy caminhou até a cama assim que as meninas saíram. Ele se sentou ao lado de Rimuru e a puxou para um abraço apertado, enterrando o rosto em seu pescoço.
— Elas são terríveis — murmurou ele. — Akane tentou queimar minha mão hoje cedo porque eu tentei pegar você no colo.
— Elas amam você, Guy. Só são... territoriais. Como o pai delas — Rimuru passou a mão pelos cabelos vermelhos dele, sentindo o calor reconfortante que ele emanava. — E eu também senti sua falta hoje. Você passou o dia inteiro lidando com os conselheiros de Tempest.
— Aqueles monstros são exaustivos — disse Guy, relaxando um pouco. — Mas nada é mais exaustivo do que ser ignorado pela minha própria esposa e filhas.
— Deixe de ser dramático — Rimuru o empurrou levemente, mas depois o puxou para um beijo calmo. — Amanhã eu prometo que deixo você levá-las para voar sobre as montanhas. Elas adoram quando você faz aquilo.
— Elas adoram a sensação de poder, não o pai — corrigiu Guy, embora um pequeno sorriso estivesse voltando ao seu rosto.
— Elas adoram o pai porque ele é o único forte o suficiente para protegê-las e à mãe delas — Rimuru bocejou, recostando-se no peito de Guy. — Agora, apague a luz. Eu estou exausta de ser mandona o dia todo.
Guy estalou os dedos, e as luzes mágicas do quarto se extinguiram. No escuro, ele envolveu Rimuru com suas asas, sentindo a conexão profunda que agora os unia não apenas como parceiros, mas como criadores de uma nova vida.
O caos de Tempest havia se mudado para o gelo, e o Lorde do Orgulho havia descoberto que, no fim das contas, seu maior desafio não era manter o equilíbrio do mundo, mas sim conquistar o direito de um abraço de sua esposa em meio ao exército de admiradores e filhas possessivas que ele mesmo ajudara a criar.
— Rimuru? — sussurrou Guy no silêncio.
— Hum?
— Amanhã, eu vou escolher as suas roupas. Sem protestos.
— Veremos, Guy... veremos.
Guy Crimson fechou os olhos, sabendo que, provavelmente, Akane e Shizune teriam algo a dizer sobre as escolhas de vestuário da mãe na manhã seguinte. Mas, por aquela noite, o Primeiro Lorde Demônio estava satisfeito em ter seu prêmio — o Slime que mudara sua eternidade — finalmente de volta em seus braços.