O festival
O Eclipse do Orgulho e o Peso da Herança
O Palácio de Gelo Branco, outrora um monumento à solidão e ao poder absoluto de Guy Crimson, havia se transformado em um santuário de ansiedade e zelo extremo. O silêncio das salas de mármore agora era frequentemente quebrado pelo som de passos apressados de servas e pelo murmúrio constante de Guy, que se recusava a deixar o lado de Rimuru por mais de alguns segundos.
A gravidez de um ser espiritual como Rimuru não era um processo biológico comum; era uma guerra de essências. O núcleo de Rimuru, que já era uma anomalia de poder, estava sendo drenado por duas novas vidas que exigiam quantidades astronômicas de energia mágica para se moldarem. O resultado era um Rimuru fisicamente exausto, cujos desmaios se tornaram uma rotina aterradora para o Lorde do Orgulho.
— Rimuru, beba isso. É um extrato de ervas das águas termais de Tempest misturado com o meu próprio sangue — disse Guy, ajoelhado ao lado da cama colossal.
Rimuru, deitada entre lençóis de seda preta que faziam sua pele parecer ainda mais pálida, empurrou a taça com fraqueza.
— Eu não aguento mais o cheiro de nada, Guy... Por favor, afaste isso.
— Você precisa se fortalecer — insistiu Guy, sua voz carregada de uma urgência que ele nunca demonstrara em milênios. — Os curandeiros disseram que o consumo de energia está aumentando.
De repente, a expressão de Rimuru mudou. Seus olhos azul-prateados, geralmente brilhantes e cheios de vida, nublaram-se com uma tristeza profunda e súbita. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto sem qualquer aviso.
— Você só se importa com os bebês — soluçou Rimuru, virando o rosto para o travesseiro. — Você me vê como um receptáculo. Eu sou apenas um slime que você está usando para criar herdeiros...
Guy estacou, a taça tremendo levemente em sua mão. Ele já estava acostumado com as mudanças de humor, mas a depressão de Rimuru o atingia como um golpe físico. Ele colocou a taça de lado e subiu na cama, puxando o corpo delicado de Rimuru para o seu peito musculoso, envolvendo-o com seus braços e suas asas carmesins.
— Nunca mais diga uma estupidez dessas — rosnou Guy, embora seu tom fosse suave. — Eu destruiria o mundo inteiro e esses próprios núcleos se isso significasse manter você. Se eu sou possessivo com eles, é apenas porque eles são uma parte de você que eu ajudei a criar.
— Você jura? — perguntou Rimuru com a voz abafada contra o peito dele.
— Eu sou o Primeiro Lorde Demônio. Eu não dou minha palavra em vão — disse Guy, beijando o topo da cabeça de Rimuru.
Os meses passaram e a condição de Rimuru tornou-se visualmente magnífica, embora fisicamente devastadora. Sua barriga crescera, tornando-se uma curva proeminente e perfeita que contrastava com sua estrutura delgada. A pele ali parecia irradiar uma luz suave, um fenômeno da mistura das magículas de Guy e Rimuru. No entanto, o peso daquela herança era demais. Rimuru mal conseguia caminhar sem perder os sentidos.
Durante uma tarde particularmente difícil, após Rimuru sofrer um colapso enquanto tentava chegar à janela, Guy chamou Rain e Misery para uma nova análise. O veredito trouxe um novo nível de caos ao palácio.
— Não é um núcleo, mestre Guy — explicou Rain, mantendo a cabeça baixa para não enfrentar a fúria nos olhos do mestre. — São dois. Eles estavam sobrepostos, mascarando a presença um do outro.
— Gêmeos? — Rimuru sussurrou da cama, sua mão repousando sobre a barriga que, naquele momento, começou a ondular.
— Sim — confirmou Misery. — E eles são extremamente exigentes. Eles estão lutando por espaço e energia.
Naquele momento, Rimuru soltou um gemido de dor. Por baixo da pele da barriga, era possível ver movimentos bruscos. Os bebês eram elétricos, chutando e se debatendo de uma forma que fazia Rimuru perder o fôlego. O caos interno era tão grande que a temperatura do quarto começou a oscilar entre o frio absoluto e o calor vulcânico, reflexo das naturezas opostas dos pais.
— Eles não param... — arquejou Rimuru, as mãos apertando os lençóis. — Guy, dói... parece que eles estão tentando sair à força!
Guy não hesitou. Ele se sentou na beira da cama e colocou suas mãos grandes e quentes sobre a barriga de Rimuru. No instante em que suas palmas tocaram a pele esticada, uma onda de calma emanou dele. Ele liberou sua aura de forma controlada, uma vibração de autoridade que apenas um pai como ele poderia projetar.
— Acalmem-se — ordenou Guy, não para Rimuru, mas para os seres dentro dela. — Vocês estão machucando o que eu mais prezo. Obedeçam.
Como por milagre, a agitação cessou instantaneamente. Os bebês, que já pareciam entender a voz e a energia de Guy, aquietaram-se, acomodando-se sob o toque dele. Rimuru soltou um longo suspiro de alívio, seu corpo relaxando contra os travesseiros.
— Eles só escutam você — murmurou Rimuru, com um sorriso fraco. — Akane e Shizune... eles já são teimosos como o pai.
Guy sentiu um nó na garganta. O nome "Akane" para o que ele sentia ser a menina que herdaria seu fogo, e "Shizune" para a que herdaria a serenidade de Rimuru. O Lorde do Orgulho, o ser que enfrentara Veldanava e mediara o equilíbrio do mundo por eras, sentiu seus olhos arderem. Ele inclinou o corpo para frente e escondeu o rosto na curva do pescoço de Rimuru, inspirando o perfume dela para esconder a própria emoção.
— Guy? Você está chorando? — Rimuru perguntou, surpresa, tentando levantar a cabeça.
— Cale a boca, Rimuru — respondeu Guy, sua voz levemente embargada. — Eu estou apenas... garantindo que eles fiquem quietos.
— Você é um péssimo mentiroso quando quer — riu Rimuru, passando os dedos pelos cabelos vermelhos do demônio.
A rotina de mimos intensificou-se. Guy não permitia que Rimuru ficasse sozinha por um único minuto. Se ele precisava tratar de assuntos do Octagrama via comunicação mágica, Rimuru estava em seus braços, muitas vezes dormindo enquanto Guy ameaçava outros Lordes Demônios em voz baixa para não acordá-la.
Rain e Misery, que inicialmente odiavam a presença do Slime, viram-se em uma posição peculiar. Elas eram as únicas que Rimuru aceitava por perto quando Guy estava ocupado, e a vulnerabilidade de Rimuru acabou por quebrar a barreira de gelo das servas.
— Rain... você acha que eles vão gostar de mim? — perguntou Rimuru em uma tarde em que Guy estava em uma reunião rápida. — Eu sou um slime. Eles são... bom, eles são filhos do Guy.
Rain parou de arrumar as almofadas e olhou para Rimuru. Ela viu a incerteza nos olhos daquela que derrotara exércitos e construíra uma nação.
— Eles já amam você, Rimuru-sama — disse Rain, com uma sinceridade rara. — Eles drenam sua vida porque querem ser como você. E o mestre Guy... ele nunca olhou para nada no universo da forma como olha para você agora. Nem mesmo para o próprio reflexo.
O momento de paz foi interrompido por um chute vigoroso que fez Rimuru se curvar.
— Lá vamos nós de novo — disse Rimuru, tentando rir através da dor. — Guy! Apareça agora! Eles estão exigentes de novo!
Antes que a frase terminasse, Guy atravessou o espaço dimensional, surgindo no quarto com uma expressão de prontidão para o combate.
— O que houve? Alguém atacou?
— Não, seu idiota — disse Rimuru, apontando para a barriga que se movia ritmicamente. — Suas filhas querem atenção.
Guy suspirou, o alívio lavando seu rosto. Ele caminhou até a cama, retirando a jaqueta e deitando-se ao lado de Rimuru. Ele colocou o ouvido contra a barriga dela, ouvindo o pulsar duplo de dois corações poderosos.
— Akane, Shizune — murmurou Guy, sua mão acariciando a pele de Rimuru com uma delicadeza que desafiava sua natureza destrutiva. — Se vocês não deixarem sua mãe descansar, eu pessoalmente vou garantir que seus treinamentos quando nascerem sejam os mais rigorosos que este palácio já viu.
Rimuru deu um tapa leve no ombro dele.
— Não as ameace antes mesmo de nascerem!
— Eu não estou ameaçando — disse Guy, olhando nos olhos de Rimuru com uma intensidade devoradora. — Eu estou estabelecendo a ordem. Neste mundo, Rimuru, há uma hierarquia. E você está no topo dela. Nem mesmo elas podem desafiar isso.
Rimuru sorriu, sentindo os bebês se acalmarem novamente sob o toque do pai. O medo do futuro, das dores e dos desmaios ainda estava lá, mas nos braços de Guy, cercada pelo frio reconfortante do Palácio de Gelo, Rimuru sabia que o caos que começara em um festival de esportes em Tempest havia se transformado em algo muito maior. Era o nascimento de uma nova linhagem, um poder que uniria o orgulho primordial à benevolência infinita do slime que se tornara o centro do universo de um demônio.
— Guy — sussurrou Rimuru, já fechando os olhos pelo cansaço.
— Sim?
— Quando elas nascerem... você ainda vai me deixar escolher as roupas delas?
Guy soltou uma risada curta e vibrante, beijando a testa de Rimuru.
— Desde que não sejam aqueles trajes do festival de Tempest, eu pensarei no seu caso.
— Promete?
— Durma, Rimuru. Eu estarei aqui quando você acordar. Eu sempre estarei aqui.
E enquanto o sol se punha sobre as terras gélidas, o Primeiro Lorde Demônio permaneceu vigiando, uma sentinela eterna sobre o tesouro que ele carregava no colo, esperando o dia em que o choro de duas crianças mudaria o destino do mundo para sempre.