o filho do capitão Man?
Proteção Indestrutível
A poeira ainda flutuava no ar da Junk n Stuff quando os primeiros vultos atravessaram a fumaça. Eram três deles: capangas de elite que eu conhecia muito bem da mansão em Metroburg, equipados com armaduras cinéticas que brilhavam em um tom roxo ameaçador. No centro, liderando a invasão, estava "O Garra", um dos generais de confiança da família Campbell, cujas mãos cibernéticas podiam esmagar aço como se fosse papel.
— Ora, ora, se não é o pequeno pássaro que tentou voar do ninho — debochou O Garra, sua voz amplificada pelo capacete metálico. — Os Campbell querem você de volta, Nique. E a garota também. Mortos ou vivos, mas preferencialmente vivos para que possamos extrair o que restou desse seu DNA rebelde.
Eu senti a eletricidade estalar nos meus ombros, uma sensação de formigamento que subia pela minha nuca. Dei um passo à frente, meus óculos quadrados refletindo a luz das faíscas que dançavam entre meus dedos.
— Eu não vou a lugar nenhum com vocês — respondi, minha voz carregada de uma confiança que eu nunca soubera que tinha. — E se derem mais um passo, vão descobrir que eu aprendi muito mais do que telecinésia em Metroburg.
Anny se posicionou ao meu lado, as mãos abertas e os olhos focados. O cabelo dela, brilhando como cobre sob as lâmpadas fluorescentes quebradas, parecia uma coroa de fogo.
— Se tocarem nele, eu mando cada um de vocês para o meio do oceano com um estalo de dedos — ameaçou ela, referindo-se ao seu poder de teletransporte.
Eu estava pronto. Meu coração batia no ritmo da adrenalina. Eu queria mostrar ao Ray, ao meu pai, do que eu era capaz. Queria que ele visse que o filho dele não era apenas uma vítima, mas um guerreiro. Mas, antes que eu pudesse lançar a primeira descarga elétrica, senti uma mão firme e enluvada de azul e vermelho pousar no meu ombro.
— Parados aí, crianças — disse Ray, agora totalmente transformado no Capitão Man. Sua voz era profunda, autoritária e, para minha surpresa, carregada de uma ansiedade que ele tentava esconder.
— Pai? O que você está fazendo? — perguntei, confuso. — Nós podemos ajudar! Eles são perigosos, mas nós conhecemos o estilo de luta deles!
Ray não olhou para mim. Ele se colocou entre nós e os vilões, ocupando quase todo o meu campo de visão com sua postura imponente.
— Henry, tire eles daqui — ordenou Ray, sem desviar os olhos do Garra.
— O quê? Não! — eu gritei, tentando contornar o Capitão Man. — Eu tenho poderes, Ray! Eu posso mover aquelas armaduras com a mente, eu posso fritar os circuitos deles!
— Eu ouvi o que o garoto disse, Henry! — Ray rugiu, e foi a primeira vez que vi o Capitão Man perder a compostura descontraída. — Leve-os para a Caverna Man. Agora! Schwoz, feche as comportas de segurança!
Henry, ou melhor, Kid Danger, hesitou por um segundo. Ele olhou para mim com uma mistura de pena e compreensão. Ele sabia o que era querer provar seu valor, mas ele também conhecia o Ray melhor do que ninguém.
— Vamos, Nique. Anny. Vocês ouviram o cara — disse Henry, tentando nos guiar em direção ao elevador.
— Não! — Anny protestou, usando sua telecinésia para fixar os próprios pés no chão, tornando-se impossível de mover. — Nós não somos crianças indefesas! Nique passou a vida sendo treinado por vilões, e eu posso tirar todos vocês daqui em um segundo se as coisas ficarem feias!
O Garra soltou uma risada metálica e avançou, lançando um projétil de energia. Ray se jogou na frente do tiro, deixando que a explosão atingisse seu peito indestrutível. Ele nem sequer piscou, mas a força do impacto o empurrou um centímetro para trás.
— Nique, escute bem! — Ray se virou para mim por um breve momento, e seus olhos estavam arregalados, quase em pânico. — Eu acabei de descobrir que você está vivo. Eu passei quatorze anos achando que meu filho era apenas uma memória triste. Você acha mesmo que eu vou deixar você se envolver em uma briga de rua no primeiro dia em que te vejo?
— Mas eu sei me cuidar! — rebati, as lágrimas de frustração começando a arder. — Eles me machucavam lá em Metroburg, e eu sobrevivia! Eu não sou de vidro!
— Mas você não é indestrutível! — Ray gritou de volta, e o silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som das faíscas dos vilões se aproximando. — Eu sou. Eu aguento o tranco. Você não. Se um desses tiros te acertar do jeito certo... eu perco você de novo. E eu não vou deixar isso acontecer. Nem hoje, nem nunca.
— Ray, eles estão avançando! — alertou Charlotte, que já estava perto do painel do elevador, digitando furiosamente para garantir que o acesso estivesse livre.
— Henry, agora! — comandou Ray.
Kid Danger suspirou e usou sua agilidade para flanquear Anny e eu.
— Desculpe, pessoal, mas o chefe está em modo "pai superprotetor nível dez" — disse Henry. — E, sinceramente? Eu não quero ver o que acontece se ele se distrair tentando proteger vocês enquanto luta.
Antes que eu pudesse reagir ou disparar um raio, Schwoz apertou um botão em um controle remoto. Um campo de força temporário brotou do chão, nos empurrando gentilmente para dentro da área do elevador. Anny tentou se teletransportar para fora, mas Schwoz foi mais rápido.
— O campo de força interfere com a sua assinatura espacial, mocinha! — explicou Schwoz, com o rosto suado. — Sinto muito, é para o seu próprio bem!
— Schwoz, eu vou te transformar em um balde! — gritou Anny, furiosa, batendo no vidro invisível.
Eu encostei as mãos no campo de força, vendo meu pai se lançar contra O Garra. Ray lutava com uma ferocidade que eu nunca tinha visto nos vídeos. Ele não estava apenas sendo o herói de Swellview; ele estava lutando como um homem que tinha algo precioso demais para perder logo atrás de si. Ele recebia golpes que poderiam derrubar um prédio, rindo na cara dos vilões, mas eu via a tensão em seus ombros cada vez que um dos capangas olhava na minha direção.
— Ray! Me deixa lutar! — eu clamei uma última vez enquanto o elevador começava a descer.
A última coisa que vi antes das portas se fecharem e o chão da loja sumir de vista foi o Capitão Man nocauteando dois vilões ao mesmo tempo, enquanto gritava por cima do ombro:
— Fique seguro, garoto! Isso é uma ordem!
O tubo nos engoliu e, em segundos, fomos arremessados para baixo. O "vupt" característico do transporte da Caverna Man soou, e nós aterrissamos nos círculos amarelos no chão da base secreta.
Eu saí do círculo tropeçando, a raiva fervendo no meu peito. Jasper estava lá embaixo, segurando um balde de pipoca com uma expressão de choque.
— Uau, vocês viram aquilo? O Ray ficou maluco! Ele nunca luta com tanta raiva — comentou Jasper, oferecendo a pipoca.
Eu ignorei a pipoca e chutei uma cadeira de metal, que voou para o outro lado da sala graças ao impulso da minha telecinésia.
— Ele não tem o direito! — eu explodi. — Ele não me conhece! Ele não sabe do que eu sou capaz!
Anny se aproximou, colocando a mão no meu braço. O toque dela era frio, o que significava que ela também estava usando seus poderes ao limite para tentar manter a calma.
— Nique, ele está com medo — disse ela suavemente.
— Medo? Ele é o Capitão Man! Ele é indestrutível! — eu retruquei, andando de um lado para o outro.
— Ele é indestrutível — concordou Charlotte, descendo logo atrás de nós e indo direto para os monitores. — Mas você não é. Nique, entenda o lado dele. O Ray passou anos com um vazio no peito. Ele é um cara que se gaba de não sentir dor, mas a perda de um filho é a única ferida que nunca cicatrizou nele. Agora que você apareceu, você é o ponto fraco dele.
— Eu não sou um ponto fraco! Eu sou um aliado! — eu insisti, apontando para as telas que mostravam a luta lá em cima.
Nos monitores, víamos o Capitão Man e o Kid Danger enfrentando os capangas de Metroburg. A luta era intensa. O Garra usou suas mãos cibernéticas para agarrar Ray e jogá-lo através de uma parede de prateleiras. Henry tentava usar seus aparelhos eletrônicos para desativar as armaduras, mas os vilões de Metroburg eram equipados com tecnologia superior à que os vilões comuns de Swellview costumavam usar.
— Olhem ali! — apontou Anny. — Aquele capanga está indo para os fundos. Ele sabe onde é a entrada do elevador!
— Se eles entrarem aqui, estamos fritos — murmurou Jasper, abraçando seu balde.
Eu vi Ray se levantar dos escombros, mas ele estava cercado. O Garra e outros dois vilões o mantinham ocupado, enquanto o quarto homem começava a hackear o painel que Schwoz usava para controlar a Junk n Stuff.
— Schwoz, eles vão entrar! — eu gritei. — Me deixa subir! Eu posso fritar o sistema daquela armadura antes dele tocar no painel!
Schwoz estava digitando freneticamente em seu console.
— Eu não posso, Nique! O Ray me mataria se eu te deixasse subir! Ele me deu ordens diretas!
— E se o Ray morrer? — eu perguntei, a voz embargada. — Ele é indestrutível, mas e o Henry? E se eles usarem alguma arma de Metroburg que neutralize os poderes do meu pai? Você sabe que lá eles têm tecnologia para tudo!
Schwoz parou por um segundo, seus dedos pairando sobre o teclado. Ele olhou para o monitor, onde Henry acabara de ser lançado longe por uma onda de choque cinética.
— Ele tem razão, Schwoz — disse Charlotte, com a voz firme. — O Ray está lutando de forma imprudente porque está preocupado com o que está acontecendo aqui embaixo. Se o Nique e a Anny resolverem o problema do intruso, o Ray pode focar em acabar com o Garra.
— Mas as ordens... — Schwoz começou a dizer.
— Esqueça as ordens! — eu disse, e desta vez, não foi apenas um pedido. Eu senti a eletricidade ao meu redor aumentar, fazendo as luzes da Caverna Man oscilarem. Meus olhos, por trás dos óculos quadrados, brilharam com uma luz azulada. — Aquele homem lá em cima é meu pai. E eu não vou ficar aqui sentado assistindo ele se sacrificar por um medo irracional. Anny, você consegue nos levar?
Anny olhou para Schwoz, que finalmente suspirou e apertou um botão, desativando o inibidor de teletransporte.
— Façam rápido — disse Schwoz. — E, por favor, não contem pro Ray que eu ajudei!
Anny sorriu, aquela beleza deusa dela agora misturada com uma determinação feroz. Ela segurou minha mão com força.
— Segura firme, Nique.
Em um piscar de olhos, a Caverna Man desapareceu. O ar frio e empoeirado da Junk n Stuff nos atingiu novamente. Aparecemos exatamente atrás do capanga que estava prestes a abrir o painel do elevador.
— Procurando por algo? — perguntei.
O vilão se virou, surpreso, mas antes que pudesse levantar sua arma, eu estendi a mão. Uma descarga elétrica massiva saiu dos meus dedos, atingindo em cheio o peito da armadura dele. O som de curto-circuito foi música para os meus ouvidos. Ele cambaleou, e Anny usou sua telecinésia para erguer um dos baldes pesados de Jasper e batê-lo contra o capacete do sujeito com a força de um caminhão.
O vilão caiu, inconsciente.
Do outro lado da loja, Ray e Henry pararam por um segundo, chocados ao nos verem ali.
— Nique! Eu disse para ficar lá embaixo! — gritou Ray, enquanto desviava de um soco do Garra.
— E eu disse que sabia me cuidar! — respondi, usando minha telecinésia para arrancar a arma das mãos de outro capanga que tentava mirar no Kid Danger. — Menos conversa e mais luta, pai!
Ray rosnou, mas vi um pequeno sorriso de canto de boca aparecer em seu rosto. Ele socou O Garra com tanta força que o vilão atravessou a vitrine da loja, caindo na calçada de Swellview.
— Tudo bem, garoto! — Ray gritou, limpando a poeira do uniforme. — Mas se você levar um arranhão, eu vou colocar você de castigo até os oitenta anos!
— Justo! — respondi, disparando mais um raio.
Pela primeira vez na vida, eu não estava apenas assistindo ao Capitão Man. Eu estava lutando ao lado dele. E, embora ele estivesse morrendo de medo por mim, eu sabia que, no fundo, ele estava orgulhoso. O filho do Capitão Man tinha voltado para casa, e os vilões de Metroburg estavam prestes a descobrir que a indestrutibilidade da família Manchester não vinha apenas da biologia, mas da vontade de proteger uns aos outros.