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o filho do capitão Man?

O Elo Indestrutível

A poeira finalmente começou a baixar nos destroços da Junk n Stuff. O silêncio que se seguiu ao último estrondo da batalha era quase ensurdecedor, interrompido apenas pelo som rítmico das luzes de neon piscando e pelo chiado de alguns circuitos queimados das armaduras dos vilões de Metroburg. O Garra e seus capangas estavam empilhados no chão, neutralizados pela combinação inédita de força indestrutível, agilidade e os meus novos — porém familiares — poderes elétricos.

Ray, ainda com o uniforme de Capitão Man, respirava pesadamente. Ele olhou para as próprias mãos e depois para mim. Eu ainda sentia o formigamento da eletricidade percorrendo meus braços, uma sensação de poder e alívio que eu nunca havia experimentado antes. Anny estava ao meu lado, recompondo o fôlego, com o cabelo cor de cobre levemente bagunçado, mas com um brilho de triunfo nos olhos.

— Acabou? — perguntou Henry, ajustando sua máscara de Kid Danger e guardando um de seus dispositivos no cinto.

— Quase — respondeu Ray, sua voz recuperando o tom grave de autoridade, mas com um matiz de urgência. — Schwoz! Traga o dispositivo de transporte de longo alcance e o Apagador de Memória. Agora!

Schwoz emergiu do elevador em segundos, carregando uma maleta prateada e um objeto que parecia uma lanterna futurista de alta tecnologia.

— Já estou aqui, Ray! Já estou aqui! — Schwoz começou a trabalhar rapidamente, ajustando as coordenadas no dispositivo de transporte. — Vou mandá-los para a Prisão de Segurança Máxima do Deserto de Sal. É isolada, cercada por campos de força que nem a telecinésia do Nique conseguiria atravessar.

Ray pegou o Apagador de Memória. Ele se aproximou do Garra, que começava a recobrar os sentidos.

— Vocês cometeram um erro vindo para Swellview — disse Ray, olhando friamente para o vilão. — E cometeram um erro ainda maior tentando tirar meu filho de mim.

Com um flash ofuscante, o dispositivo disparou. Um por um, os vilões de Metroburg tiveram suas mentes limpas de qualquer informação sobre a localização da Caverna Man, a identidade de Ray Manchester e, o mais importante, a existência de Nique em Swellview. Para eles, a missão de capturar o herdeiro dos Campbell havia se tornado um borrão sem nexo, uma falha de memória permanente.

— Schwoz, mande-os embora — ordenou Ray.

Em um piscar de olhos, os corpos dos vilões foram desintegrados em partículas de luz e enviados para a prisão a milhares de quilômetros dali. A ameaça imediata havia sumido. O segredo estava seguro.

Ray soltou um suspiro profundo, o tipo de suspiro que alguém guarda por catorze anos. Ele apertou o botão em seu cinto e, com um estalo de chiclete, voltou a ser apenas Ray Manchester em suas roupas civis. Ele caminhou até mim, parando a poucos centímetros. O silêncio na loja era absoluto. Henry, Charlotte, Jasper e Anny observavam, sabendo que aquele era um momento que mudaria a história de Swellview para sempre.

— Eu não consigo acreditar — disse Ray, sua voz falhando. Ele estendeu a mão e tocou levemente no meu cabelo branco e cacheado. — Você tem os olhos dela. Da Mary... antes de ela se tornar o que é hoje.

— Eu sempre soube que não pertencia àquele lugar, pai — eu confessei, sentindo um nó na garganta. — Eu via você na TV e sentia algo. Eu achava que era só admiração de fã, mas era... era o sangue.

Ray não aguentou mais. Ele me puxou para um abraço apertado, um abraço que parecia querer compensar cada aniversário perdido, cada Natal que passamos separados. Pela primeira vez na vida, eu me senti verdadeiramente seguro. Não porque ele era indestrutível, mas porque ele era meu pai.

— Prometo que ninguém nunca mais vai te levar — sussurrou ele contra meu cabelo. — Eu vou mover céus e terra para garantir que você e a Anny tenham uma vida normal aqui. Ou o mais normal que se pode ter vivendo com o Capitão Man.

— Bem — disse Henry, quebrando o clima emocional com um sorriso largo —, acho que isso significa que a Junk n Stuff vai precisar de mais funcionários. E a Caverna Man de mais beliches.

— E de mais baldes! — exclamou Jasper, saindo de trás de um balcão quebrado. — Se o Nique é filho do Ray, ele precisa de um balde oficial de boas-vindas!

Todos riram, e a tensão que pairava sobre nós finalmente se dissipou. Ray se afastou do abraço, mas manteve as mãos nos meus ombros, olhando para Anny com gratidão.

— E você, mocinha — disse ele para Anny —, obrigada por trazê-lo de volta para casa. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, Swellview é sua agora.

— Só quero que ele seja feliz, Sr. Manchester — respondeu Anny, corando levemente enquanto segurava minha mão. — E, se pudermos evitar ser sequestrados por vilões pelo menos no primeiro mês, seria ótimo.

— Combinado — riu Ray.

Charlotte se aproximou com seu tablet, já digitando freneticamente.

— Já estou criando identidades novas para vocês no sistema de Swellview. Nique, você será registrado como meu primo distante que veio morar conosco para estudar. Anny, você será a vizinha. Ninguém vai ligar os pontos com Metroburg. O apagador de memória cuidou do resto.

— Você é incrível, Charlotte — eu disse, impressionado com a eficiência dela.

— Eu sei — respondeu ela, piscando para mim.

— Bom — disse Ray, batendo palmas —, agora que salvamos o mundo, protegemos a família e limpamos o rastro dos vilões... quem está com fome? Schwoz, peça vinte caixas de Nachos do Falafel do Jim!

— Vinte caixas? — perguntou Schwoz, arregalando os olhos.

— Tenho um filho adolescente agora, Schwoz! — Ray exclamou, passando o braço pelo meu pescoço e me guiando em direção ao elevador. — Adolescentes comem por três. E o Kid Danger come por quatro!

Enquanto descíamos para a Caverna Man, eu olhei para Anny e depois para o meu pai. O caminho até ali tinha sido cheio de sombras, mentiras e medo, mas agora as luzes de Swellview pareciam brilhar apenas para nós. Eu não era mais o garoto roubado de Metroburg. Eu era Nique Manchester, e minha história estava apenas começando.

Lá embaixo, na imensidão tecnológica da Caverna Man, a sensação de pertencimento era real. Eu olhei para os uniformes expostos, para os computadores e para a equipe que agora era minha família.

— Ei, pai — eu chamei, enquanto nos sentávamos no sofá circular.

— Sim, filho? — Ray respondeu, e o som daquela palavra ainda o fazia sorrir de orelha a orelha.

— Você vai mesmo me ensinar a usar os chicletes de transformação?

Ray soltou uma gargalhada que ecoou por toda a caverna.

— Ah, com certeza. Mas primeiro, vamos trabalhar no seu controle elétrico. Não quero que você frite o sistema de ar-condicionado da caverna toda vez que ficar animado.

— Sem promessas — eu brinquei, sentindo uma pequena faísca saltar entre meus dedos enquanto Anny se encostava no meu ombro, finalmente em paz.

Swellview não sabia, mas tinha acabado de ganhar muito mais do que um novo morador. Tinha ganhado um Manchester que, embora não fosse indestrutível na pele, tinha um coração que ninguém jamais conseguiria quebrar novamente. E, enquanto os nachos não chegavam, eu sabia que, pela primeira vez em 14 anos, eu estava exatamente onde deveria estar.