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o filho do capitão Man?

Sabores, Segredos e a Fúria de Piper

A manhã seguinte à prova de história trouxe um alívio que eu não sentia há anos. O sol de Swellview parecia comemorar comigo enquanto eu caminhava pelos corredores da escola ao lado de Anny. Eu tinha certeza de que tinha ido bem; afinal, estudar com a Charlotte era como ter um supercomputador humano soprando as respostas no seu ouvido durante semanas. Mas o dia letivo era apenas o começo. Tínhamos um trabalho de sociologia para entregar, e o grupo — eu, Anny, Henry, Charlotte e Jasper — decidiu que a "sede" da nossa operação seria a casa dos Hart.

— Tudo bem, Nique? — perguntou Henry, enquanto estacionávamos as bicicletas em frente à sua casa. — Meus pais são super tranquilos, mas eles são... bem, eles são pais. Vão fazer um interrogatório básico, mas é só seguir o que combinamos.

— Alunos novos, vizinhos da Charlotte, recém-chegados de uma cidadezinha pacata — recitei, conferindo se meus óculos quadrados estavam firmes. — Nada de Metroburg, nada de raios, nada de telecinésia.

— E nada de mencionar que o seu pai é o chefe indestrutível do meu filho — sussurrou Anny, apertando minha mão com um sorriso cúmplice. O cabelo dela brilhava sob a luz da tarde, aquele tom de cobre que sempre me distraía.

Ao abrirmos a porta, fomos atingidos por um furacão de gritos.

— EU NÃO ACREDITO QUE A TRISHA TETRAZZINI POSTOU ISSO! — O grito veio da sala de estar. Piper Hart estava jogada no sofá, cercada por tripés, luzes de anel e um celular de última geração. Ela parecia estar prestes a entrar em combustão espontânea. — ELA ESTÁ COM DOIS MIL SEGUIDORES A MAIS QUE EU! ISSO É GUERRA!

— Oi para você também, Piper — disse Henry, revirando os olhos e passando por ela. — Mãe! Pai! Chegamos!

Kris e Jake Hart apareceram na cozinha com sorrisos acolhedores. Eles pareciam o epítome de uma família normal de comercial de margarina, o que era um contraste bizarro com a vida que eu levava na Caverna Man.

— Oh, olá! — Kris disse, limpando as mãos em um pano de prato. — Henry disse que traria os novos amigos. Vocês devem ser o Nique e a Anny!

— Prazer em conhecê-los, Sra. Hart, Sr. Hart — eu disse, tentando ser o mais educado possível.

— Henry nos contou que vocês se mudaram faz pouco tempo — comentou Jake, cruzando os braços com um olhar curioso, mas bondoso. — De onde vieram mesmo?

— De uma área rural mais ao norte — Anny respondeu prontamente, com uma naturalidade que me impressionou. — Meus pais queriam uma vida mais agitada, e Swellview pareceu o lugar perfeito.

— E é! — exclamou Jake. — Temos o Capitão Man, o Kid Danger e... bem, temos o boliche que reabriu semana passada.

— PAREM DE FALAR DE BOLICHE! — Piper gritou da sala, apontando a câmera para nós. — Vocês estão estragando a iluminação do meu vídeo de desabafo! Quem são esses dois? Eles têm seguidores? Se não tiverem, saiam do enquadramento!

— Piper, esses são Nique e Anny. Eles estão no meu grupo de trabalho — explicou Henry, suspirando. — Ignorem ela. Ela está tentando ultrapassar a Trisha Tetrazzini no "Palsgram" há três dias.

— Ela é... intensa — sussurrei para Charlotte enquanto subíamos para a mesa de jantar para começar o trabalho.

— Você não viu nada — Charlotte respondeu, abrindo o notebook. — Espere até ela perder a conexão Wi-Fi. É o apocalipse.

Passamos as duas horas seguintes mergulhados em livros e pesquisas sobre dinâmica social. Era estranho e maravilhoso ao mesmo tempo. Eu estava ali, discutindo teorias sociológicas com meus amigos, enquanto a poucos metros de distância, a Piper tentava equilibrar uma melancia na cabeça para um "desafio viral". De vez em quando, eu sentia uma pequena faísca de estática nos meus dedos quando me concentrava demais, mas eu rapidamente descarregava a energia tocando no pé de metal da cadeira.

— Terminamos! — anunciou Jasper, fechando o seu caderno com força. — Agora, eu preciso de comida. Estudar me dá uma fome de... de um balde de pipoca!

— Jasper, você acabou de comer um sanduíche — lembrou Anny, rindo.

— Eu posso fazer algo para a gente — sugeri, levantando-me. Eu sempre tive um dom para a cozinha, algo que desenvolvi em Metroburg para evitar comer as misturas suspeitas que os vilões compravam. — Sra. Hart, se importaria se eu usasse a cozinha?

— Oh, querido, claro que não! — Kris respondeu da sala. — Fique à vontade. Tem massas e temperos no armário da esquerda.

Fui para a cozinha, seguido por Anny. Henry e Charlotte ficaram na mesa organizando os papéis, enquanto Piper continuava seu drama digital.

— O que vai preparar? — perguntou Anny, sentando-se no balcão de mármore.

— Algo que meu pai me disse que adorava, mas que o Schwoz sempre erra o ponto — eu disse, pegando uma panela. — Um fettuccine ao molho de ervas frescas. É simples, mas reconfortante.

Comecei a me movimentar pela cozinha com agilidade. Piquei o alho, as ervas e comecei a preparar o molho. Havia algo de terapêutico no som da faca batendo na tábua de madeira. Por um momento, esqueci que era o filho de um super-herói indestrutível ou que vilões de Metroburg poderiam estar me caçando. Eu era apenas um garoto de 14 anos cozinhando para seus amigos.

— Sabe — Anny disse, observando o vapor subindo da panela —, eu nunca imaginei que nossa fuga terminaria assim. Em uma cozinha normal, com pessoas normais.

— Nem eu — respondi, sorrindo para ela. — Mas eu não trocaria isso por nada.

De repente, Piper entrou na cozinha como um furacão, segurando o celular no alto.

— VOCÊS! — ela gritou, apontando a câmera para mim. — O que é esse cheiro? É maravilhoso! Isso é orgânico? É gourmet? Responda rápido, estou ao vivo para quatrocentas pessoas!

Eu quase deixei a colher cair. Meus óculos quadrados escorregaram um pouco.

— É... só um macarrão, Piper — eu disse, tentando manter a calma.

— "Só um macarrão"? — Piper olhou para a tela do celular. — Pessoal, olhem isso! O novo amigo do Henry é um chef prodígio! Comentem aí se vocês querem que eu faça ele provar o molho na frente da câmera!

— Piper, sai daqui! — Henry apareceu na porta da cozinha, parecendo exausto. — Deixa o Nique cozinhar em paz.

— NÃO! — Piper deu um pulinho. — Os números estão subindo! Se eu postar um vídeo de "Culinária com a Piper e o Chef Misterioso", eu vou destruir a Trisha Tetrazzini! Nique, faz um truque! Joga o macarrão pro alto! Faz algo impressionante!

Senti um nervosismo súbito. O estresse de ser filmado por Piper estava fazendo minha telecinésia vibrar. Sem querer, uma pitada de pimenta que estava no pote flutuou alguns centímetros acima da bancada. Anny percebeu instantaneamente e, com um movimento rápido da mão, usou o seu próprio poder para empurrar o pote de volta para o lugar antes que a câmera de Piper captasse.

— Piper, se você não sair agora, eu conto pro papai que foi você que quebrou o troféu de boliche dele! — Henry ameaçou.

Piper bufou, revirando os olhos com uma dramaticidade digna de um Oscar.

— Vocês são tão chatos! Por isso a Trisha tem mais seguidores. Vocês não entendem a arte do conteúdo!

Ela saiu batendo os pés, e o silêncio voltou à cozinha. Suspirei, aliviado.

— Essa garota é um perigo para identidades secretas — comentei, servindo o fettuccine nos pratos.

— Você não faz ideia — Henry concordou, pegando um prato. — Mas o cheiro está incrível, Nique. Sério.

Levamos a comida para a mesa. Até os pais de Henry se juntaram a nós.

— Nique, isso está delicioso! — exclamou Kris. — Jake, você devia aprender com ele.

— Ei, meu churrasco é famoso! — Jake defendeu-se, mas continuou comendo com vontade.

Enquanto comíamos, Piper voltou, mas desta vez estava silenciosa. Ela se sentou à mesa, pegou um prato e começou a comer enquanto digitava furiosamente no celular. De repente, ela parou e olhou para mim.

— Nique, não é? — ela perguntou, com um tom de voz estranhamente calmo.

— Sim? — respondi, cauteloso.

— Você tem um estilo legal. Esse cabelo branco... é natural ou você descoloriu?

— É natural — eu disse, sentindo o olhar de Henry e Charlotte sobre mim.

— Interessante — Piper murmurou. — A Trisha Tetrazzini acabou de postar que odeia cabelos brancos. Isso significa que agora eu amo cabelos brancos. Vou postar uma foto sua no meu feed. Sorria!

Antes que eu pudesse protestar, o flash do celular dela disparou.

— Piper! — Henry gritou. — Apaga isso!

— Não! Ficou ótima! — Ela mostrou a tela. Eu aparecia com um garfo no ar, meio surpreso, com Anny rindo ao fundo. — "Jantando com o meu novo melhor amigo e sua namorada deusa. Chupa, Trisha!".

Eu olhei para Henry, preocupado. Se aquela foto circulasse demais, alguém de Metroburg poderia me reconhecer. Mas Charlotte interveio rapidamente.

— Piper, deixe-me ver se a luz ficou boa — ela disse, pegando o celular da mão da menina. Com uma rapidez impressionante, Charlotte deletou a foto e fingiu um erro no sistema. — Ih, Piper, acho que o seu aplicativo travou. A foto sumiu.

— O QUÊ? NÃO! MEU CONTEÚDO! — Piper começou a gritar novamente, correndo de volta para a sala para tentar recuperar o arquivo.

— Obrigado, Charlotte — sussurrei.

— De nada. Mas acho melhor terminarmos logo aqui antes que ela decida fazer um documentário sobre a sua vida — Charlotte respondeu.

Depois do jantar, ajudamos a limpar a cozinha. Jake e Kris nos agradeceram pela companhia e disseram que éramos bem-vindos a qualquer momento.

— Vocês são ótimos jovens — disse Jake, apertando minha mão. — Swellview precisa de mais pessoas como vocês.

— Obrigado, Sr. Hart — eu disse, sentindo uma pontada de culpa por não poder dizer quem eu realmente era, mas feliz por ser aceito por quem eu fingia ser.

Quando saímos da casa, a noite já tinha caído. Henry nos acompanhou até a calçada.

— Desculpem pela Piper e pelo interrogatório dos meus pais — disse Henry. — Mas acho que foi um sucesso. Eles gostaram de vocês.

— Foi divertido, Henry — disse Anny. — É bom ver como é uma casa de verdade de vez em quando.

— É — eu concordei. — Mas agora, acho que temos um encontro com um certo Capitão na Caverna Man. Ele disse que queria testar os novos sensores de choque hoje à noite.

— Ele não para, não é? — Henry riu. — Vejo vocês lá em vinte minutos. Vou só fingir que estou indo dormir e pular a janela.

Anny e eu subimos em nossas bicicletas. Enquanto pedalávamos de volta para a Junk n Stuff, eu olhei para o céu estrelado. Eu tinha sobrevivido a um trabalho em grupo, a um jantar com os pais do meu melhor amigo e, o mais difícil de tudo, a um vídeo da Piper Hart.

— Nique? — Anny chamou, pedalando ao meu lado.

— Oi?

— Você foi ótimo hoje. Na cozinha, com os pais dele... você parecia tão em paz.

— Eu estava — confessei. — Pela primeira vez, eu não senti que estava me escondendo. Eu senti que estava apenas... começando a viver.

— Bem — disse ela, aumentando a velocidade —, prepare-se, porque se o Ray descobrir que você cozinhou para os Hart e não para ele, ele vai fazer um drama maior que o da Piper.

Eu ri, sabendo que ela provavelmente tinha razão. Em Swellview, a vida podia ser perigosa e cheia de segredos, mas entre um ataque de vilão e um desabafo de rede social, eu finalmente tinha encontrado o meu lugar. E, enquanto as luzes da loja de antiguidades surgiam no horizonte, eu sabia que, não importa o que Metroburg tentasse, eu nunca mais deixaria essa nova vida para trás.