o filho do capitão Man?
A Força da Herança
As luzes da Caverna Man cintilavam com um brilho azulado, refletindo-se nos novos equipamentos que Schwoz estava instalando. Já se haviam passado algumas semanas desde que cheguei a Swellview, e a rotina de "estudante de dia, herói em treinamento à noite" estava começando a parecer natural. No entanto, havia algo que ainda me incomodava: a sensação de que eu mal tinha arranhado a superfície do que meus poderes podiam fazer.
— Nique, você está disperso de novo — a voz de Ray ecoou pelo espaço aberto da base.
Eu pisquei, ajustando meus óculos quadrados que teimavam em escorregar pelo nariz. Ray estava parado no centro da área de treinamento, vestindo seu uniforme de Capitão Man, com os braços cruzados e aquele sorriso de quem se acha a pessoa mais incrível do planeta.
— Desculpe, pai. Só estava pensando no teste de história de amanhã. — Menti, sentindo uma pequena faísca estalar entre meus dedos.
— Esqueça a história, o futuro é agora! — Ray exclamou, fazendo uma pose dramática. — Schwoz, ative o Nível 4 do simulador de combate. Vamos ver se o meu garoto consegue lidar com um ataque múltiplo.
Anny, que estava sentada no sofá circular ao lado de Charlotte, levantou os olhos do seu livro. O cabelo castanho dela, que brilhava como cobre sob as luzes artificiais, parecia vibrar com a menção ao treinamento.
— Ray, não acha que o Nível 4 é um pouco demais para hoje? — perguntou Anny, fechando o livro com um estalo. — Ele ainda está aprendendo a canalizar a telecinésia e o choque ao mesmo tempo.
— Bobagem! — Ray respondeu, acenando com a mão. — Ele é um Manchester. Nós prosperamos sob pressão. Não é, Henry?
Henry, que estava mascando um chiclete encostado no console de comando, deu de ombros.
— Bom, da última vez que você disse isso, eu acabei pendurado de cabeça para baixo em um tanque de xarope de milho. Mas, sim, o Nique é bom.
Schwoz apertou alguns botões e, de repente, quatro drones de treinamento surgiram do teto, circulando-me com bipes ameaçadores. Eu respirei fundo, sentindo a energia subir pelas minhas pernas.
— Vai lá, Nique! — gritou Charlotte, animada.
O primeiro drone disparou um feixe de laser não letal. Eu me esquivei para a esquerda, usando a telecinésia para erguer uma das caixas de metal próximas e usá-la como escudo. O impacto do laser fez o metal vibrar. Sem perder tempo, estendi a outra mão e disparei uma rajada de choque que atingiu o segundo drone em cheio, fazendo-o entrar em curto-circuito e cair no chão.
— Isso! — Ray comemorou. — Mas não se esqueça dos outros dois!
Os drones restantes começaram a se mover em direções opostas, tentando me flanquear. Eu senti a pressão aumentar. Minha mente tentava rastrear os dois ao mesmo tempo, mas a telecinésia exigia foco, e o choque exigia liberação. Era como tentar tocar duas músicas diferentes em cada mão.
— Eles estão rápidos demais — murmurei.
— Use a conexão, Nique! — Anny gritou do sofá. — Não lute contra a energia, deixe-a fluir por você!
Eu fechei os olhos por um breve segundo, ignorando o zumbido das máquinas. Em vez de tentar "agarrar" os drones com a mente, eu simplesmente expandi meu campo elétrico. Senti as partículas de metal dos drones reagindo à minha estática. Quando o próximo disparo veio, eu não usei um escudo. Eu simplesmente girei, criando um redemoinho de energia que desviou os feixes e, com um movimento brusco, juntei as mãos.
Uma onda de choque azulada se expandiu de mim, atingindo os dois drones simultaneamente. Eles explodiram em pequenas faíscas e caíram inertes.
— Uau! — Jasper, que acabara de entrar na caverna carregando um balde de pipoca, parou boquiaberto. — Isso foi muito mais legal do que quando o Henry tenta fazer a mesma coisa e acaba quebrando a cafeteira.
— Ei! — protestou Henry, embora estivesse sorrindo.
Ray caminhou até mim e colocou a mão no meu shoulder. Eu podia sentir o orgulho emanando dele, uma sensação quente que ainda me fazia querer chorar de vez em quando.
— Nada mal, garoto. Nada mal mesmo. Você tem um controle que eu não tinha nessa idade. — Ele fez uma pausa, seu olhar ficando um pouco mais sério. — Mas precisamos conversar sobre algo. Schwoz, mostre a eles.
Schwoz limpou a garganta e projetou um mapa holográfico no centro da sala. Era um mapa de Metroburg, mas com vários pontos vermelhos piscando em direção à fronteira de Swellview.
— O que é isso? — perguntei, sentindo um frio na espinha. Reconheci aqueles padrões.
— São assinaturas de energia de Metroburg — explicou Schwoz. — Desde que vocês fugiram, a atividade dos vilões naquela área aumentou drasticamente. Eles estão procurando por algo... ou alguém.
Anny se levantou e caminhou até o holograma, seu rosto ficando pálido.
— Eles não vão desistir, não é? Os Campbell... eles acham que o Nique é propriedade deles. Um experimento que deu certo demais.
— Eles podem achar o que quiserem — disse Ray, sua voz assumindo aquele tom de Capitão Man que não aceitava discussões. — Mas ninguém entra na minha cidade e leva o meu filho.
— O problema — interrompeu Charlotte, cruzando os braços — é que eles estão enviando batedores. Se eles descobrirem que o Nique está aqui, eles não virão apenas com capangas. Eles virão com tudo o que têm.
Eu olhei para minhas mãos. A eletricidade ainda dançava sob a minha pele parda. Eu tinha passado 14 anos com medo daqueles vilões, sendo forçado a fazer coisas que odiava. Mas agora eu não estava mais sozinho em uma mansão fria em Metroburg. Eu tinha o Capitão Man. Eu tinha a Anny. Eu tinha amigos.
— Deixe que venham — eu disse, surpreendendo a todos com a firmeza na minha voz. — Eu não sou mais o garoto que eles podem machucar para conseguir o que querem.
— É assim que se fala! — Ray exclamou, embora eu visse uma sombra de preocupação em seus olhos. — Mas, por enquanto, precisamos manter o disfarce. Nada de poderes na escola, entenderam? Especialmente você, Nique. Seus choques deixam uma assinatura de energia que é como um sinalizador para Metroburg.
— Eu entendo, pai.
— Ótimo. Agora, quem quer ir ao Burger do Nacho? Eu pago! — Ray anunciou, voltando ao seu estado normal de animação.
Enquanto todos se dirigiam ao elevador, Anny ficou para trás comigo por um momento. Ela segurou minha mão, e eu senti a calma da sua telecinésia me envolver.
— Você está bem? — ela perguntou em voz baixa.
— Estou. Só... é estranho saber que o meu passado está tentando me alcançar. Eu achei que, chegando aqui, tudo seria simples.
— Nada é simples quando se é filho do homem mais famoso de Swellview — Anny brincou, dando um beijo leve na minha bochecha. — Mas nós vamos enfrentar isso juntos. Além disso, eu tenho um truque novo de teletransporte que quero te mostrar mais tarde.
— Mal posso esperar.
Subimos pelo elevador. A Junk n Stuff estava silenciosa, com o cheiro familiar de poeira e antiguidades. Jasper começou a contar uma história longa e sem sentido sobre um balde que ele encontrou no lixo, e por um momento, o perigo de Metroburg pareceu a quilômetros de distância.
No entanto, quando saímos da loja e olhamos para o céu alaranjado de Swellview, eu vi um pequeno brilho metálico no alto, entre as nuvens. Poderia ser apenas um avião, ou um drone de vigilância da cidade. Mas algo no fundo do meu peito, aquela intuição que os vilões de Metroburg tentaram cultivar em mim, dizia que o cerco estava se fechando.
— Nique? Vamos! — Henry chamou da calçada.
— Já vou! — respondi, ajustando meus óculos.
Caminhamos pela rua, rindo e conversando como adolescentes normais. Ray ia na frente, contando vantagem sobre como ele era o melhor cliente do Burger do Nacho. Mas eu mantive meus sentidos alertas. Se os Campbell queriam uma guerra, eles teriam uma. Mas desta vez, eu lutaria pelo lado certo.
Naquela noite, na Caverna Man, enquanto todos dormiam, eu desci silenciosamente até a área de treinamento. O silêncio era absoluto, exceto pelo zumbido constante dos computadores de Schwoz.
Eu me posicionei no centro da sala e estendi a mão. Não tentei disparar um raio ou mover uma caixa. Em vez disso, tentei sentir a rede elétrica da própria caverna. Eu podia sentir os fios correndo pelas paredes, a energia pulsando nos geradores lá embaixo.
— Você não deveria estar acordado — uma voz disse atrás de mim.
Eu me virei rapidamente. Era Ray. Ele não estava usando o uniforme, apenas um pijama de seda extravagante com o seu próprio rosto estampado.
— Pai! Eu... eu não conseguia dormir.
Ray caminhou até mim e sentou-se na borda do console.
— Eu também não. Sabe, Nique, eu passei muitos anos me sentindo invencível. Literalmente. Nada pode me machucar fisicamente. Mas quando eu soube que você existia... e quando vi você lutando hoje... eu percebi que agora eu tenho um ponto fraco.
— Eu sinto muito — eu disse, baixando a cabeça.
— Não sinta. — Ray levantou meu queixo com a mão. — Ser indestrutível é fácil. Ter algo pelo qual vale a pena ser destruído... isso é o que faz de alguém um herói. Eu nunca estive tão feliz por ter um ponto fraco.
Eu o abracei, e ele retribuiu com força.
— Nós vamos treinar mais amanhã — Ray disse, afastando-se com um sorriso. — Vou te ensinar o "Soco Manchester". É clássico.
— Mal posso esperar, pai.
— Agora vá dormir. Amanhã você tem aquela prova de história, e se você tirar uma nota baixa, a Charlotte vai te dar uma palestra de três horas. E acredite em mim, isso dói mais do que qualquer raio laser.
Eu ri e segui em direção ao meu quarto na caverna. Enquanto me deitava, olhei para a foto que tínhamos tirado todos juntos no dia anterior. Eu tinha cabelos brancos, pele parda e poderes que podiam destruir cidades, mas ali, naquela foto, eu era apenas um filho feliz com sua família.
Os Campbell poderiam vir. Metroburg poderia tentar me levar de volta. Mas eu era Nique Manchester, o filho do Capitão Man. E em Swellview, nós não apenas sobrevivíamos às tempestades. Nós éramos o próprio trovão.