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O fruto proibido

Entre Segredos e Rosas de Inverno

A manhã seguinte em Storybrooke nasceu sob uma manta de neblina tão espessa que parecia querer sufocar os segredos da noite anterior. Emma Swan acordou com o som suave da respiração de Regina ao seu lado, um contraste gritante com o caos que habitualmente reinava em sua mente. Por um breve momento, no refúgio dos lençóis de seda egípcia, não havia xerife, não havia prefeita, e certamente não havia piratas ou caçadores ressuscitados.

No entanto, a realidade em Storybrooke tinha o hábito desagradável de bater à porta — ou, neste caso, de vibrar no criado-mudo. O celular de Emma iluminou o quarto escuro, anunciando uma mensagem de Mary Margaret: *"Henry está animado para o café da manhã. Passamos aí em 20 minutos para deixá-lo?"*

Emma sentou-se na cama num solavanco, o pânico substituindo o torpor do sono.

— Regina! Acorda! — sussurrou ela, balançando o ombro da outra mulher. — Código vermelho. Branca de Neve está a caminho com o garoto.

Regina abriu um olho, a expressão de irritação real sendo rapidamente substituída pela agilidade mental de quem já governou um reino sob constante ameaça de rebelião.

— Pelos deuses, Swan, você não consegue passar cinco minutos sem atrair um desastre? — Regina saltou da cama, sua camisola de seda preta deslizando como sombra sobre sua pele. — Vá para o banheiro. Agora. Se eles virem você saindo pela porta da frente a esta hora, nem a minha melhor magia de persuasão nos salvará.

Emma recolheu suas roupas espalhadas pelo tapete com uma eficiência desajeitada.

— Eu odeio isso — resmungou ela, vestindo a jaqueta de couro vermelha por cima da camiseta amassada. — Sinto que sou uma fugitiva na minha própria cidade.

— Você é a xerife, deveria estar acostumada com perseguições — rebateu Regina, já amarrando o robe e correndo para a cozinha para colocar água para ferver. — Agora, desapareça!

Emma não teve tempo de retrucar. Ela se escondeu no andar de cima, ouvindo o som do motor da caminhonete de David estacionando no cascalho. Da fresta da janela do corredor, ela viu Henry saltar, seguido por uma Mary Margaret que olhava para a mansão com uma curiosidade analítica que fazia o estômago de Emma revirar.

Lá embaixo, Regina abriu a porta com a compostura de uma estátua de mármore.

— Bom dia, Mary Margaret. David. Henry, querido, entre. O chocolate quente estará pronto em um minuto.

— Bom dia, Regina — disse Mary Margaret, a voz doce, mas os olhos vasculhando o hall de entrada. — Nós vimos o carro da Emma na esquina ontem à noite... e ele ainda está lá hoje. Ela passou a noite ajudando em algum caso oficial?

Emma, escondida no topo da escada, prendeu a respiração. Regina soltou uma risada leve, perfeitamente calculada.

— A senhorita Swan teve um problema com a ignição ontem à noite, após nossa reunião sobre o orçamento da segurança. David, talvez você possa dar uma olhada para ela mais tarde? Eu ofereci o quarto de hóspedes, mas ela insistiu em caminhar até o Granny’s para não incomodar.

— Caminhar no meio daquela névoa? — David interveio, franzindo a testa. — Emma é teimosa, mas isso parece excessivo até para ela.

— Você conhece sua filha, David — Regina disse, conduzindo-os para longe da escada. — Agora, se me dão licença, preciso terminar o café do Henry.

Assim que a porta da frente se fechou após a saída dos pais de Emma, e Henry se acomodou na mesa da cozinha com seus fones de ouvido, Emma desceu as escadas na ponta dos pés. Ela encontrou Regina no corredor, os braços cruzados e uma expressão de puro estresse.

— Você precisa sair pelos fundos. Agora — ordenou Regina em um sussurro.

— Eu ouvi a história da ignição — Emma sorriu de lado, aproximando-se para um beijo rápido que Regina tentou, sem sucesso, esquivar. — Você é uma mentirosa brilhante, Majestade.

— É um talento necessário para sobreviver a você, Swan. Vá!

Emma saiu pela porta dos fundos, atravessando o jardim de rosas de Regina com a agilidade de quem já tinha feito aquilo mais vezes do que gostaria de admitir. Ela contornou o quarteirão, aparecendo na rua principal como se estivesse apenas começando sua patrulha matinal.

O problema era que Storybrooke era pequena demais para segredos tão grandes. Ao chegar perto de seu fusca amarelo, ela encontrou Killian Jones encostado na portinhola, brincando com seu gancho metálico.

— Bom dia, Swan — cumprimentou ele, o tom de voz carregado de uma suspeita que ele não tentava esconder. — Parece que você teve uma noite longa. Ou uma caminhada matinal muito produtiva.

— Jones — Emma bufou, pegando as chaves no bolso. — O que você quer? São oito da manhã.

— Só estou curioso. Vi seu carro aqui ontem à noite quando fui falar com a Rainha. E veja só... ele continua aqui. E você... — Ele se aproximou, farejando o ar com uma audácia que fez Emma querer socá-lo. — Você cheira a sândalo e maçãs. Um perfume muito específico, eu diria.

Emma sentiu o sangue subir ao rosto. O ciúme que ela sentira de Graham ontem parecia agora uma ironia amarga, considerando que ela mesma estava sendo encurralada por outro pretendente indesejado.

— Eu tive uma reunião com a prefeita. O carro quebrou. Algum problema com isso, capitão? — Ela abriu a porta do carro com força, obrigando-o a se afastar.

— Nenhum, Swan. Só acho fascinante como o seu "senso de salvadora" sempre a leva para a toca do lobo. Ou, neste caso, para o castelo da rainha. Tome cuidado. Alguém pode pensar que a rivalidade de vocês se transformou em algo... mais inflamável.

— Cuide da sua vida, Killian — Emma rosnou, batendo a porta e dando a partida.

O motor rugiu, mas a mente de Emma estava em outro lugar. Ela dirigiu até a delegacia, mas não conseguiu se concentrar em nenhum relatório. A imagem de Regina na cozinha, tentando manter as aparências enquanto o mundo desabava ao redor delas, não saía de sua cabeça.

A tarde trouxe uma calmaria enganosa. Emma passou horas patrulhando, mas seus olhos sempre voltavam para o relógio. Ela precisava ver Regina. Não para negócios, não para falar de Henry, mas para aliviar a pressão que sentia no peito.

Por volta das cinco da tarde, ela entrou na prefeitura. O prédio estava quase vazio, exceto por alguns funcionários terminando o expediente. Emma caminhou direto para o escritório de Regina, sem bater.

Regina estava sentada atrás de sua mesa de carvalho maciço, revisando documentos. Ela nem sequer levantou os olhos.

— Se for sobre o carro, David já me avisou que o consertou. Estava "misteriosamente" com um cabo solto.

— Não é sobre o carro — Emma disse, fechando a porta e trancando-a.

Regina finalmente ergueu o olhar, a sobrancelha arqueada.

— Swan, estamos em um prédio público. O que você pensa que está fazendo?

— Jones me parou hoje cedo — Emma caminhou até a mesa, apoiando as mãos na superfície. — Ele sabe, Regina. Ou pelo menos suspeita o suficiente para ser um problema. E Mary Margaret está fazendo perguntas.

Regina largou a caneta, seu rosto empalidecendo levemente sob a luz do fim de tarde.

— Eu avisei. Eu disse que este castelo de cartas não aguentaria o vento.

— Então vamos parar de construir castelos de cartas — Emma disse, contornando a mesa. — Eu não aguento mais ver você mentindo para o meu pai. Eu não aguento mais ver caras como o Graham ou o Gancho achando que têm algum direito sobre você porque pensam que você está sozinha.

Regina levantou-se, sua postura defensiva voltando com força total.

— E qual é a sua solução, Emma? Sair por aí de mãos dadas? Convocar uma coletiva de imprensa para anunciar que a Salvadora está dormindo com a mulher que tentou destruir a vida de todos nesta cidade? Você tem noção do que isso faria com o Henry?

— Henry é mais forte do que você pensa! — Emma rebateu, a voz subindo de tom. — Ele quer que sejamos felizes. Ele odeia as mentiras tanto quanto eu.

— Não é sobre felicidade, Emma! É sobre sobrevivência! — Regina gritou de volta, seus olhos brilhando com uma mistura de raiva e medo. — Eu passei anos construindo uma redenção frágil. Um deslize, uma percepção de que eu "corrompi" a heroína da cidade, e tudo o que eu conquistei vira cinzas. Eu não vou deixar que tirem o Henry de mim novamente por causa de um escândalo.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Emma viu a vulnerabilidade por trás da armadura de Regina. O ciúme que Emma sentia — aquela posse primitiva sobre a mulher que amava — colidia de frente com o medo de Regina de perder o pouco de luz que havia conquistado.

— Ninguém vai tirar o Henry de você — Emma disse, sua voz agora suave, dando um passo final para diminuir a distância entre elas. — Eu não deixaria. Nunca.

Regina desviou o olhar, uma lágrima solitária escapando e traçando um caminho pela sua bochecha perfeita. Emma estendeu a mão, limpando-a com o polegar.

— Eu sinto ciúmes, Regina. Sinto ciúmes quando vejo o mundo tentando te definir pelo que você foi, e sinto mais ciúmes ainda quando vejo pessoas tentando se aproximar de você porque não sabem que você já tem alguém. Alguém que morreria por você.

Regina soltou um suspiro trêmulo, fechando os olhos sob o toque de Emma.

— Você é tão irritantemente nobre, Swan.

— E você é irritantemente teimosa.

Regina inclinou a cabeça, encostando a testa na de Emma. O aroma de maçãs e o calor da pele da prefeita envolveram Emma novamente, acalmando a tempestade em seu peito.

— Graham veio me procurar hoje — confessou Regina em um sussurro, sem abrir os olhos.

Emma sentiu um espasmo de irritação, mas se obrigou a ouvir.

— E?

— Ele queria saber se havia uma chance. Ele disse que, agora que recuperou o coração, sente que parte dele ainda pertence a mim.

Emma apertou a cintura de Regina, os nós dos dedos ficando brancos.

— E o que você disse?

Regina abriu os olhos, e neles Emma viu uma determinação feroz.

— Eu disse a ele que o coração dele pode ser dele novamente, mas que o meu... o meu não está mais disponível para posse. Eu disse que ele deveria focar em sua nova vida e me deixar em paz.

Emma sentiu uma onda de alívio, seguida por um desejo avassalador. Ela puxou Regina para um beijo profundo, um beijo que carregava toda a frustração do dia e toda a promessa de um futuro que elas ainda não sabiam como construir.

— Nós vamos dar um jeito — Emma prometeu contra os lábios de Regina. — Mas, por enquanto... eu quero que você venha jantar no Granny’s comigo.

Regina afastou-se, chocada.

— No Granny’s? Em público? Emma, você ficou louca?

— Como "amigas" — Emma sorriu, um brilho travesso nos olhos. — Vamos sentar na mesa do canto, discutir o "orçamento da cidade" e deixar que todos vejam que não nos odiamos mais. É o primeiro passo, Regina. Esconder-se totalmente só gera mais suspeita. Vamos dar a eles uma verdade parcial para que parem de procurar a verdade completa.

Regina considerou a proposta por um longo momento. Ela olhou para a porta trancada de seu escritório e depois de volta para a mulher loira à sua frente, que parecia disposta a enfrentar o mundo inteiro por ela.

— Você é uma estrategista terrível, Swan.

— Mas você me ama mesmo assim.

Regina deu um sorriso raro e radiante, aquele que ela reservava apenas para os momentos em que a guarda estava totalmente baixa.

— Infelizmente, sim.

— Então? Jantar?

Regina suspirou, pegando sua bolsa e ajeitando o casaco.

— Jantar. Mas se a Ruby me servir aquele café horroroso de propósito, eu não respondo por mim.

Emma riu, pegando a mão de Regina e apertando-a por um breve segundo antes de soltá-la para abrirem a porta. Elas caminharam pelo corredor da prefeitura mantendo uma distância profissional, mas a eletricidade entre elas era palpável.

Ao saírem para a rua principal de Storybrooke, o sol estava se pondo, tingindo o céu de laranja e violeta. Graham estava atravessando a rua e parou ao vê-las. Ele acenou, um gesto hesitante. Regina apenas inclinou a cabeça com elegância, e Emma lhe lançou um olhar de advertência que dizia claramente: *"Afaste-se"*.

Killian Jones, observando de longe perto do porto, viu as duas mulheres entrarem juntas na lanchonete da vovó. Ele estreitou os olhos, sabendo que a dinâmica da cidade estava mudando de uma forma que ninguém poderia prever.

Dentro do Granny’s, o burburinho parou por um instante quando a Rainha Má e a Salvadora se sentaram em uma cabine. Mary Margaret, que estava servindo um bule de chá para Archie, quase o deixou cair.

— O que elas estão fazendo? — sussurrou Archie.

— Estão... conversando — respondeu Mary Margaret, um sorriso começando a se formar em seus lábios. — Finalmente.

Emma olhou para Regina por cima do cardápio. Ela sabia que o caminho à frente seria cheio de obstáculos, mentiras e possivelmente mais confrontos com fantasmas do passado. Mas enquanto via Regina Mills pedindo uma salada com aquele tom autoritário, Emma sentiu que não importava o quanto o mundo tentasse se intrometer.

Ali, sob as luzes fluorescentes de uma lanchonete comum, elas estavam começando a escrever o capítulo mais audacioso de suas vidas. O ciúme de Emma ainda estava lá, uma pequena chama guardada, mas agora era alimentado pela certeza de que, não importava quem olhasse, a verdadeira Regina — a mulher por trás da coroa e do cargo — pertencia apenas a ela.

— Swan? — chamou Regina, tirando-a de seus pensamentos.

— Sim?

— Pare de sorrir como uma idiota. As pessoas estão olhando.

— Deixe que olhem, Regina. Deixe que olhem.