O fruto proibido
Labirintos de Vidro e Vinho Tinto
A cozinha da mansão na Rua Mifflin parecia, para Emma, o lugar mais seguro e, ao mesmo tempo, o mais perigoso de Storybrooke. O calor que emanava do forno trazia consigo o aroma reconfortante de massa gratinada, mas a tensão que ainda vibrava entre as duas mulheres era capaz de sobrecarregar qualquer fiação elétrica. Regina movia-se com uma precisão cirúrgica, pegando pratos de porcelana fina e talheres de prata como se estivesse executando uma coreografia ensaiada há séculos.
Emma, por outro lado, sentia-se como um elefante em uma loja de cristais. Ela se encostou no balcão de mármore, observando cada gesto da outra. O ciúme de Graham ainda latejava em suas têmporas, uma dor incômoda que ela tentava mascarar com um sorriso de lado, embora seus olhos verdes não conseguissem esconder a possessividade.
— Você sabe que eu não estava brincando sobre a obstrução de justiça, não é? — Emma quebrou o silêncio, sua voz ecoando suavemente contra os azulejos impecáveis.
Regina parou com a espátula na mão, virando-se para encarar a loira. Um meio sorriso, carregado de uma condescendência carinhosa, surgiu em seus lábios perfeitamente pintados de carmim.
— Emma, querida, seu autoritarismo seria quase intimidador se eu não soubesse que ele nasce de uma insegurança infantil. O xerife Graham é uma página virada, um fantasma que mal consegue sustentar a própria existência nesta cidade sem a minha ajuda burocrática.
— Ele não parecia um fantasma quando estava rindo das suas piadas — rebateu Emma, aproximando-se e invadindo o espaço pessoal de Regina. — Ele parecia um homem que se lembra muito bem de como é o toque da Rainha.
Regina soltou um suspiro teatral e colocou a lasanha sobre o balcão. A fumaça subia, carregando o cheiro de manjericão e queijo derretido, mas o clima entre elas era puramente elétrico.
— Se você quer falar sobre memórias de toque, Swan, eu sugiro que se concentre nas suas. Elas são as únicas que importam agora, não são? — Regina estendeu a mão e tocou a ponta do nariz de Emma, um gesto que era ao mesmo tempo uma provocação e um carinho.
— São — admitiu Emma, a voz baixando um oitavo. — Mas é difícil focar quando eu sinto que tenho que marcar território toda vez que entro nesta casa.
— Marcar território? — Regina soltou uma risada curta e genuína. — Você realmente é uma Swan. Tão pouco refinada. Sente-se e coma. Antes que eu decida que a lasanha é sofisticada demais para o seu paladar acostumado com hambúrgueres gordurosos do Granny's.
Elas se sentaram à mesa pequena da cozinha, um refúgio mais íntimo do que a imensa mesa da sala de jantar formal. Por alguns minutos, o único som era o dos talheres batendo levemente na porcelana. Emma tinha que admitir: Regina cozinhava como se fizesse mágica, mesmo sem usar uma varinha.
— Como foi o dia na delegacia? — perguntou Regina, limpando o canto da boca com um guardanapo de linho. — Algum crime hediondo, como um anão estacionando a picareta em local proibido?
— Engraçadinha — Emma sorriu, sentindo a tensão finalmente começar a dissipar. — Na verdade, foi calmo. Mary Margaret passou por lá para "levar rosquinhas", o que é o código dela para tentar descobrir por que a filha dela está sumindo todas as noites.
Regina arqueou uma sobrancelha, o interesse brilhando em seus olhos escuros.
— E o que a nossa Branca de Neve descobriu?
— Nada. Eu sou uma excelente mentirosa, Regina. Aprendi com os melhores, lembra? — Emma piscou para ela. — Mas ela mencionou que você tem parecido... menos "majestosa" e mais "distraída" nas reuniões da prefeitura.
Regina bufou, embora um leve rubor subisse por suas maçãs do rosto.
— Ela deveria se preocupar menos com a minha expressão facial e mais com o currículo escolar do Henry. Ele tirou um B em história na semana passada.
— Um B não é o fim do mundo, Regina. É um progresso para quem descobriu que a árvore genealógica da família é um círculo completo — Emma riu, mas logo sua expressão se tornou séria. — Ela perguntou de você. De nós. Não diretamente, mas ela sabe que algo mudou. Ela disse que o ar entre nós não parece mais... carregado de eletricidade estática de ódio.
Regina largou o garfo, seu olhar perdendo-se por um momento na taça de vinho tinto.
— O ódio é uma âncora, Emma. É fácil de carregar porque não exige vulnerabilidade. O que temos agora... — Ela hesitou, procurando as palavras. — É um labirinto de vidro. E se Storybrooke descobrir que a Salvadora e a Rainha Má estão dividindo mais do que a guarda de um filho, o labirinto vai desabar sobre nossas cabeças.
— Eu não me importo com as paredes desabando — disse Emma, esticando a mão sobre a mesa para cobrir a de Regina. — Eu me importo com você. E me importo com o fato de que eu odeio ver você fingindo que não me conhece quando passamos uma pela outra na rua principal.
Regina apertou os dedos de Emma, um aperto firme e possessivo.
— Não é fingimento, Emma. É preservação. Você é a luz desta cidade. Eu ainda sou a sombra que muitos temem. Se nos unirmos publicamente, eles vão começar a questionar a sua luz. Vão dizer que eu a corrompi.
— Talvez eu goste de ser um pouco corrompida por você — sussurrou Emma, levantando-se e puxando Regina pela mão.
Regina deixou-se levar, o corpo reagindo instantaneamente à proximidade de Emma. Elas caminharam em direção à sala de estar, onde a lareira ainda mantinha algumas brasas acesas, lançando sombras dançantes pelas paredes cobertas de livros e quadros caros. Emma empurrou Regina suavemente contra a lateral do sofá — o mesmo sofá onde Graham estivera sentado horas antes, como se quisesse exorcizar a presença dele.
— Você ainda está pensando nele — acusou Regina, embora sua voz fosse um murmúrio rouco contra o pescoço de Emma.
— Estou pensando em como apagar qualquer rastro que ele tenha deixado aqui — Emma respondeu, suas mãos descendo para a cintura de Regina, puxando-a para que seus corpos não tivessem nenhum espaço entre si.
Regina inclinou a cabeça para trás, expondo a linha da garganta, um convite silencioso que Emma não hesitou em aceitar. O beijo foi quente, marcado por uma urgência que sempre parecia acompanhá-las, como se cada momento juntas fosse o último antes de uma nova maldição as separar.
— Emma... — Regina arquejou quando os dentes da loira encontraram o lóbulo de sua orelha. — Você é... insaciável.
— Só com você — Emma murmurou, movendo as mãos para os botões da blusa de seda de Regina. — Só com o que eu não posso ter o tempo todo diante de todo mundo.
O silêncio da mansão era preenchido apenas pelo som da respiração pesada das duas e pelo estalar ocasional da madeira na lareira. Para Emma, aquele segredo era uma faca de dois gumes: a adrenalina de estarem escondidas alimentava o desejo, mas a solidão de não poder segurar a mão de Regina sob a luz do sol criava um vazio que só era preenchido em momentos como aquele.
De repente, o som de um pneu cantando no cascalho do lado de fora fez as duas congelarem. Emma separou-se de Regina instantaneamente, sua mão voando para o coldre vazio na cintura — um reflexo de xerife que ela nunca perdia.
— Henry? — perguntou Emma em um sussurro alarmado.
— Não, ele está com os seus pais. Ele não voltaria sem avisar — Regina respondeu, já recompondo a blusa com uma agilidade impressionante. Ela caminhou até a janela, afastando levemente a cortina de veludo. — É o Gancho.
Emma soltou um palavrão baixo, passando as mãos pelo cabelo bagunçado.
— O que o pirata está fazendo aqui a esta hora?
— Provavelmente o mesmo que o seu caçador — Regina disse, a voz subitamente fria e defensiva. — Tentando obter favores ou simplesmente sendo um incômodo. Fique aqui. Não faça barulho.
— Regina, eu não vou me esconder no armário como se fosse uma adolescente — Emma protestou, cruzando os braços.
— Senhorita Swan, se ele a vir aqui, com esse cabelo e essa cara de quem acabou de ser... "corrompida", o segredo acaba hoje. E eu não estou com disposição para lidar com o ego ferido de um pirata e as perguntas de sua mãe amanhã de manhã. Fique. Na. Cozinha.
Regina não esperou por uma resposta. Ela assumiu sua postura de prefeita — ombros erguidos, queixo elevado, o olhar de aço — e caminhou até a porta antes mesmo que Killian Jones batesse pela segunda vez.
Emma, fervendo de indignação e um ciúme renovado, recuou para a penumbra do corredor que levava à cozinha, mas não se escondeu totalmente. Ela podia ouvir a conversa abafada pela porta pesada.
— Swan? — A voz de Killian era arrastada, provavelmente temperada por algumas doses de rum. — Ah, peço desculpas, Majestade. Vi o carro amarelo lá fora e pensei que a xerife estivesse... resolvendo negócios oficiais.
— A xerife Swan deixou o veículo aqui porque tivemos uma reunião sobre a patrulha noturna e ela saiu com os pais em outro carro — Regina mentiu com uma facilidade assustadora. — O que você quer, Jones? É tarde para visitas sociais.
— Só queria saber se ela mencionou algo sobre a busca pelo ouro perdido no fundo do porto. Ela pareceu interessada hoje cedo.
— Ela não mencionou nada. Agora, se me der licença, eu estava prestes a me recolher. Boa noite, capitão.
A porta se fechou com uma batida firme. Emma saiu das sombras, encontrando Regina encostada na madeira da porta, os olhos fechados e uma mão no peito.
— Ele viu o carro — Emma disse, a voz carregada de culpa. — Eu sou uma idiota. Eu deveria ter estacionado na rua de trás.
Regina abriu os olhos. A máscara de prefeita havia caído, revelando um cansaço profundo que ela raramente mostrava.
— Ele vai desconfiar, Emma. Jones pode ser um idiota, mas ele conhece você. E ele conhece o cheiro de uma mentira.
Emma caminhou até ela e envolveu-a em um abraço apertado. Regina relaxou nos braços da loira, escondendo o rosto no pescoço de Emma, onde o perfume de sândalo ainda era forte.
— Talvez seja o sinal — sussurrou Emma. — O sinal de que não podemos continuar nos escondendo para sempre.
— E qual é a alternativa? — Regina perguntou, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos verdes de Emma. — Contar a todos? Ver o olhar de decepção no rosto do Henry? Ver a cidade se dividir novamente?
— Henry vai entender. Ele quer que sejamos felizes. Ele sempre disse que somos as duas mães dele.
— Ser mãe dele é uma coisa, Emma. Ser... isso... é outra completamente diferente. O mundo não é gentil com o que não entende.
Emma suspirou, sentindo o peso da realidade esmagar o momento de intimidade. Ela odiava o fato de que Regina ainda se via como o monstro da história, a pessoa que estragaria a reputação da Salvadora.
— Você não é mais a Rainha Má, Regina. Você é a mulher que eu amo. E se as pessoas não conseguirem lidar com isso, o problema é delas, não nosso.
Regina estremeceu levemente ao ouvir a palavra "amo". Era algo que elas ainda não diziam com frequência, uma palavra que carregava um peso imenso para alguém que passara décadas acreditando que o amor era uma fraqueza.
— Você diz isso agora, Swan. Mas Storybrooke tem uma memória longa e rancorosa.
— Então vamos dar a eles algo novo para lembrar — Emma sorriu, tentando aliviar o clima pesado. — Como o fato de que a prefeita faz a melhor lasanha do Maine e que a xerife é péssima em estacionar.
Regina soltou uma risada fraca, acariciando o rosto de Emma com as pontas dos dedos.
— Você é uma otimista incurável. É irritante.
— É por isso que você gosta de mim.
As duas voltaram para o sofá, mas o clima havia mudado. A urgência sexual fora substituída por uma necessidade de proximidade silenciosa. Emma sentou-se e Regina acomodou-se entre suas pernas, encostando a cabeça no ombro da loira. Elas ficaram ali por um longo tempo, observando as chamas morrerem na lareira, enquanto o mundo lá fora continuava ignorante sobre a paz que reinava naquela sala.
— Graham não tem a chave — murmurou Regina de repente, sua voz quase sumindo no silêncio.
— O quê? — Emma perguntou, saindo de um quase cochilo.
— Você disse que ele olhava para mim como se eu fosse fascinante. Talvez eu seja, para ele. Mas ele não tem a chave da minha casa, nem a do meu quarto. E ele certamente não tem a chave para o que eu sinto. Só você conhece a mulher que eu sou quando as luzes se apagam.
Emma apertou o abraço, deixando um beijo no topo da cabeça de Regina. O ciúme que sentira antes parecia agora algo pequeno e distante. Graham, Gancho, o passado de Regina... nada disso tinha o poder que Emma exercia sobre o presente da outra.
— Eu sei — disse Emma. — E eu não vou a lugar nenhum. Mesmo que eu tenha que estacionar meu carro a três quarteirões de distância e pular a janela do seu quarto como uma ladra todas as noites.
Regina sorriu, fechando os olhos, finalmente entregando-se ao sono.
— Se você quebrar uma das minhas roseiras tentando pular a janela, Swan, eu juro que te prendo na minha cela por uma semana.
— Vale a pena o risco — Emma riu, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, exatamente onde deveria estar.
A noite em Storybrooke continuava lá fora, fria e cheia de neblina, mas dentro da mansão na Rua Mifflin, entre o cheiro de maçãs e o calor de um abraço proibido, a Salvadora e a Rainha estavam escrevendo seus próprios termos. Era um labirinto, sim, mas elas estavam aprendendo a caminhar por ele juntas, uma página secreta de cada vez.