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O fruto proibido

Entre Sussurros e Algemas de Ouro

O sol da manhã seguinte em Storybrooke não trouxe a clareza que Emma Swan esperava. Pelo contrário, a luz pálida que filtrava pelas cortinas de seda do quarto de Regina parecia apenas destacar a complexidade da rede de mentiras que elas estavam tecendo. Emma observou Regina se vestir, um ritual de precisão que envolvia ajustar cada botão da blusa de seda com uma calma que Emma invejava.

— Você está fazendo aquele barulho de novo, Swan — comentou Regina, sem se virar, enquanto prendia o cabelo em seu coque impecável.

— Que barulho? — Emma perguntou, ainda jogada entre os lençóis, observando as costas nuas da prefeita antes que fossem cobertas pelo blazer escuro.

— O barulho de quem está processando pensamentos autodestrutivos. Eu quase consigo ouvir as engrenagens da sua cabeça rangendo de culpa.

Emma sentou-se na cama, passando as mãos pelo cabelo loiro bagunçado.

— Não é culpa, Regina. É... cansaço. Eu odeio o fato de que, daqui a dez minutos, você vai me tratar como se eu fosse apenas uma funcionária pública irritante e eu vou ter que fingir que não conheço o sabor do seu gloss labial.

Regina finalmente se virou, a máscara da Prefeita Mills já quase totalmente no lugar, exceto pelo brilho suave nos olhos castanhos.

— É o preço que pagamos pela paz, Emma. Storybrooke sobrevive de arquétipos. Se quebrarmos os nossos, a cidade inteira entra em colapso. Agora, levante-se. David vai estar na delegacia em breve e você cheira a... bem, a mim.

Emma soltou uma risada seca, levantando-se e procurando sua jaqueta de couro vermelha no chão.

— Ótimo. O xerife cheirando à prefeita. Isso certamente não vai levantar suspeitas.

Após uma despedida apressada e um beijo roubado no corredor que cheirava a cera de móveis cara e maçãs, Emma saiu pela porta dos fundos. Ela caminhou três quarteirões até onde havia deixado o fusca amarelo, sentindo o ar frio do Maine atingir seu rosto. No entanto, sua tentativa de discrição foi arruinada assim que chegou ao carro.

Encostado no capô amarelo, com um sorriso que Emma teve vontade de apagar com um soco, estava Graham.

— Patrulha matinal, xerife? — perguntou ele, a voz carregada de uma casualidade que Emma não comprou por um segundo.

— Graham. O que você está fazendo aqui? — Emma tentou manter a voz firme, mas o coração martelava contra as costelas.

— Eu moro a duas casas de distância, lembra? — Ele apontou para uma residência modesta. — Mas o que me intriga é ver o seu carro estacionado aqui desde ontem à noite, enquanto eu vi você caminhando em direção à mansão da prefeita.

Emma sentiu o sangue gelar. Ela se aproximou dele, tentando usar sua altura e sua aura de autoridade.

— Eu tive assuntos oficiais com a Regina, Graham. Assuntos que não dizem respeito a civis, mesmo aqueles que já usaram este distintivo.

Graham soltou uma risada baixa, desencostando-se do carro.

— Assuntos oficiais às duas da manhã, Emma? Eu conheço a Regina. Eu conheço o olhar de uma mulher que está escondendo algo. E eu conheço o olhar de uma mulher que está sendo... cuidada.

— Você não conhece nada — Emma rosnou, a mão pousando instintivamente no coldre. — Fique longe da mansão e fique longe da Regina. Isso é um aviso.

— Está com ciúmes, Swan? — Graham deu um passo à frente, o tom de voz mudando para algo mais sério. — Porque se você estiver brincando com ela, ou se estiver usando-a para algum plano de "Salvadora", eu não vou ficar parado. Eu devo a ela mais do que você imagina.

— O que você deve a ela é passado! — Emma explodiu, o ciúme que tentara reprimir na noite anterior voltando com força total. — O que ela tem agora é real. E não é da sua conta. Saia de perto do meu carro.

Graham a observou por um longo momento, uma mistura de compreensão e tristeza em seus olhos, antes de se afastar silenciosamente. Emma entrou no fusca e bateu a porta com tanta força que o vidro estremeceu. Ela precisava falar com Regina. Agora.

Meia hora depois, Emma invadiu o escritório da prefeitura, ignorando o protesto da secretária. Regina estava ao telefone, mas desligou imediatamente ao ver a expressão no rosto de Emma.

— Senhorita Swan, eu acredito que existam normas de etiqueta para entrar nesta sala — Regina disse friamente, mas seus olhos vasculhavam o rosto de Emma em busca de perigo.

— Graham sabe — Emma disse, fechando a porta com um estrondo e trancando-a.

Regina empalideceu, mas manteve a postura.

— O que exatamente ele sabe?

— Ele me viu. Ele viu o carro. Ele viu eu indo para a sua casa. Ele me confrontou agora há pouco.

Regina levantou-se lentamente, caminhando até a janela que dava para a praça da cidade.

— Graham é leal, Emma. Ele não diria nada para nos prejudicar.

— Ele não quer nos prejudicar, Regina! Ele quer você! — Emma caminhou até ela, segurando-a pelos ombros e virando-a para si. — Ele acha que eu estou te usando. Ele acha que tem o direito de te proteger de mim.

Regina soltou um suspiro pesado, suas mãos subindo para os pulsos de Emma.

— Emma, olhe para mim. Graham é uma lembrança de uma época em que eu não tinha coração. Ele se sente ligado a mim por causa disso, mas é uma ligação de gratidão e culpa, nada mais.

— Eu não me importo com o que ele sente! — Emma exclamou, a voz embargada. — Eu odeio que ele pense que tem um lugar na sua vida que eu não posso ocupar publicamente. Eu odeio que o Gancho olhe para você e ache que você é um troféu a ser conquistado. Eu odeio que o mundo inteiro pense que você está disponível.

Regina suavizou a expressão, aproximando-se até que suas testas se tocassem.

— Eu não estou disponível, Emma. Eu sou sua. Em todas as formas que importam.

— Então por que não podemos simplesmente contar para o Henry? — Emma implorou. — Ele é a nossa família. Se ele souber, o resto não importa.

— Porque o resto importa para ele — Regina explicou pacientemente, embora houvesse dor em sua voz. — Henry finalmente tem uma vida normal. Ele tem duas mães que se dão bem, um avô que é um príncipe e uma avó que é uma heroína. Se contarmos, mudamos a dinâmica de tudo. Ele vai ter que lidar com o julgamento da cidade, com as fofocas na escola. Eu já tirei tanta coisa dele, Emma. Não quero tirar a paz dele também.

Emma soltou os ombros de Regina e se afastou, caminhando pelo escritório.

— Então o que fazemos? Continuamos nos escondendo como criminosas?

— Não somos criminosas — Regina disse firmemente. — Somos apenas... cautelosas.

A conversa foi interrompida por uma batida na porta. Era a voz de Henry.

— Mãe? Emma? Vocês estão aí? A vovó disse que vocês estavam tendo uma reunião.

As duas trocaram um olhar de pânico. Regina rapidamente ajeitou o blazer e indicou para Emma se sentar na cadeira em frente à mesa, tentando parecer profissional. Emma limpou o rosto e respirou fundo antes de Regina destrancar a porta.

— Entre, querido — Regina disse com um sorriso perfeitamente ensaiado.

Henry entrou, carregando sua mochila e olhando de uma para a outra. Ele tinha aquele olhar de quem via além das aparências, um dom que herdara de ambas.

— Está tudo bem? — perguntou ele, franzindo a testa. — O clima aqui está meio... pesado.

— Só estamos discutindo o orçamento para o festival de outono, garoto — Emma mentiu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — Sua mãe é muito dura com os números.

Henry sentou-se na beirada da mesa de Regina, observando-as.

— Sabe, eu vi o Graham hoje cedo. Ele parecia estranho. Ele me perguntou se a Emma estava passando muito tempo aqui na prefeitura.

Regina e Emma congelaram.

— E o que você disse? — Regina perguntou, mantendo a voz estável.

— Eu disse que vocês são parceiras — Henry deu de ombros. — Que vocês estão trabalhando juntas para manter a cidade segura. Mas ele me olhou como se sentisse pena de mim. Por que ele sentiria pena de mim?

Emma sentiu uma onda de fúria contra Graham. O ciúme agora se misturava com a necessidade de proteção.

— Graham está apenas confuso, Henry — Emma disse, levantando-se. — Ele ainda está se ajustando a Storybrooke. Não ligue para ele.

— Emma tem razão — Regina concordou, dando a volta na mesa para abraçar o filho. — Agora, por que você não vai até o Granny’s e pede um pedaço de torta? Eu encontro você lá em dez minutos para o almoço.

Assim que Henry saiu, o silêncio no escritório tornou-se sufocante.

— Isso tem que parar — Emma disse, a voz baixa e determinada. — Graham está cruzando a linha. Ele está envolvendo o Henry.

— Eu vou falar com ele — Regina prometeu, seus olhos brilhando com uma chama perigosa que lembrava a Rainha de outrora. — Eu vou deixar bem claro onde ele termina e onde nós começamos.

— Não — Emma interveio. — Eu vou falar com ele. Como xerife. E como a mulher que dorme na sua cama.

Regina segurou o braço de Emma antes que ela pudesse sair.

— Emma, não faça uma cena. É exatamente isso que as pessoas esperam de nós: conflito.

— Eu não vou fazer uma cena, Regina. Vou fazer uma declaração de posse.

Emma saiu da prefeitura a passos largos. Ela encontrou Graham perto do relógio da torre, conversando com Archie. Ela esperou que o terapeuta se afastasse antes de encurralar o caçador contra a parede de pedra.

— Escute bem, Graham — Emma sibilou, a poucos centímetros do rosto dele. — Se você mencionar meu nome ou o de Regina para o Henry novamente, eu vou garantir que sua vida em Storybrooke seja muito menos confortável do que você imagina.

— Você está me ameaçando, xerife? — Graham desafiou, embora houvesse incerteza em seu olhar.

— Estou te dando um fato. Regina não é sua. Ela nunca foi, nem quando você tinha o coração dela na mão dela. Ela é minha. E se você não consegue lidar com isso, sugiro que mude de calçada quando nos vir passar.

— "Sua"? — Graham riu sem humor. — Você nem tem coragem de dizer isso para a sua própria mãe, Emma. Você a esconde como se ela fosse um segredo sujo. Quem é que realmente a valoriza aqui?

O comentário atingiu Emma como um tiro. Ela recuou, a fúria sendo substituída por uma percepção dolorosa. Graham tinha razão em um ponto: o segredo estava corroendo a dignidade do que elas sentiam.

Sem dizer mais nada, Emma deu as costas a ele e caminhou em direção ao Granny’s. Ela precisava ver Regina. Precisava ver Henry. Precisava de um momento de normalidade.

Ao entrar na lanchonete, ela viu Regina e Henry sentados na cabine de costume. Regina olhou para cima e, por um breve segundo, a máscara caiu. Havia uma súplica silenciosa em seus olhos, um pedido de desculpas por todo o peso que o passado delas impunha ao presente.

Emma sentou-se ao lado de Henry, de frente para Regina.

— Está tudo bem? — Regina perguntou suavemente.

— Vai ficar — Emma respondeu, pegando a mão de Regina por baixo da mesa, onde ninguém podia ver. — Nós vamos dar um jeito.

Henry olhou para as duas, um sorriso pequeno e cúmplice brincando em seus lábios. Ele não disse nada, mas a forma como ele relaxou nos ombros sugeria que ele sabia muito mais do que elas imaginavam.

— Sabe — disse Henry, quebrando o silêncio —, eu acho que o festival de outono devia ter um tema de união. Tipo, mostrar que até os maiores inimigos podem se tornar... outra coisa.

Regina engasgou levemente com a água, e Emma sentiu o rosto esquentar.

— É uma ideia interessante, Henry — comentou Regina, recuperando a compostura.

— É, garoto — Emma sorriu, apertando a mão de Regina com mais força sob a mesa. — Uma ideia muito boa.

O almoço prosseguiu com conversas triviais, mas a tensão do segredo ainda pairava como a névoa matinal. Emma sabia que o ciúme de Graham e as suspeitas de Gancho eram apenas o começo. O verdadeiro desafio seria enfrentar o espelho que Henry segurava para elas — o espelho que dizia que o amor, para ser verdadeiramente salvador, não podia viver nas sombras.

Enquanto observava Regina rir de uma piada de Henry, Emma tomou uma decisão silenciosa. Ela não deixaria que o medo de Regina ou o seu próprio ciúme destruíssem o que haviam construído. Se Storybrooke não estava pronta para elas, a cidade teria que aprender a se adaptar. Porque a Salvadora finalmente tinha encontrado algo que valia a pena proteger acima de qualquer maldição: a chance de ser feliz com a mulher que o destino, ironicamente, lhe dera como rival.

Naquela tarde, quando Emma voltou para a delegacia, ela encontrou uma rosa vermelha de inverno sobre sua mesa, com um pequeno cartão escrito com a caligrafia elegante de Regina: *"O labirinto pode ser de vidro, mas você é a única que sabe como quebrá-lo sem nos ferir. Seja paciente, Swan."*

Emma guardou o cartão no bolso da jaqueta, sentindo o calor se espalhar pelo peito. O ciúme ainda estava lá, uma cicatriz que latejava de vez em quando, mas a certeza do toque de Regina era o remédio. Elas continuariam o jogo por mais algum tempo, mas Emma sabia que, em breve, as sombras de Storybrooke teriam que dar lugar à luz que elas criavam juntas. E Graham, Gancho e qualquer outro fantasma do passado teriam que aceitar que a Rainha e a Salvadora não estavam mais em lados opostos da história; elas eram a própria história.