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O futuro

A Estratégia do Instinto e a Sombra da Coruja

A névoa na sala de projeção oscilou novamente, as cores se fundindo até formarem uma imagem nítida e vibrante. O cenário era a Sala do Trono no Olimpo, mas não o Olimpo majestoso e intocado que os mitos descreviam. As paredes de mármore estavam chamuscadas, rachaduras profundas serpenteavam pelas colunas jônicas e o ar parecia pesado com o cheiro de ozônio e poeira de monstro.

No centro da sala, uma mesa de mármore improvisada servia de base para um mapa detalhado de Manhattan. Ao redor dela, os rostos eram conhecidos, mas envelhecidos pelo trauma. Annabeth, com um corte na bochecha e a armadura amassada, apontava para a Ponte Williamsburg. Grover balançava as pernas nervosamente, e outros líderes de chalé — rostos que os campistas do presente ainda nem conheciam — falavam ao mesmo tempo, suas vozes sobrepondo-se em um coro de desespero e fadiga.

— Se movermos o chalé de Atena para o túnel Lincoln, deixaremos o flanco norte exposto para os dracaenae! — exclamava a Annabeth da tela, os olhos brilhando com uma intensidade febril. — Precisamos de uma barreira de fogo, mas o chalé de Hefesto está sem munição!

— E as ninfas de Central Park? — questionou uma voz que parecia ser de Katie Gardner. — Elas não vão aguentar outra investida dos hiperbóreos. Estamos sendo esmagados, Annabeth!

Enquanto o caos tático se desenrolava, a câmera da projeção se afastou lentamente para focar em uma figura sentada em um dos tronos menores, destinados aos deuses menores ou visitantes. Era Percy. Ele parecia exausto. Seus cabelos negros estavam grudados na testa pelo suor e pelo que parecia ser pó de ouro de algum monstro desintegrado. No entanto, ele não estava olhando para o mapa.

O Percy da tela estava inclinado para trás, observando Noah, que estava sentado no chão ao lado do trono, afiando distraidamente uma adaga de bronze celestial. Noah parecia ser o único relaxado naquela sala de guerra. Ele olhou para Percy e fez uma careta engraçada, apontando discretamente para Annabeth, que estava no meio de um discurso sobre "formações de falange".

— Ela vai explodir em três, dois, um... — sussurrou o Noah da tela, audível apenas para Percy e para os espectadores na sala de projeção.

— Já chega! — gritou a Annabeth do futuro, batendo os punhos na mesa. O silêncio caiu como uma guilhotina. — Estamos discutindo há uma hora e cada plano que eu proponho tem uma falha logística porque Cronos está antecipando cada movimento nosso. Ele conhece a estratégia grega melhor do que nós!

Ela respirou fundo, tentando acalmar o tremor nas mãos, e então se virou. Todos os olhares na sala seguiram o dela.

— Percy — disse ela, a voz suavizando, mas carregada de uma expectativa esmagadora. — Você está em silêncio o tempo todo. A decisão final é sua. O que faremos?

Na sala de projeção do presente, o jovem Percy de doze anos sentiu um frio na barriga. Ele olhou para o Noah ao seu lado, que apenas piscou para ele com aqueles olhos cinzas pálidos, um contraste gritante com os olhos cinzas tempestuosos de Annabeth.

Na tela, o Percy mais velho suspirou. Ele se levantou lentamente, cada movimento parecendo pesar uma tonelada. Ele caminhou até a mesa e olhou para o mapa, não com o olhar analítico de um general, mas com algo mais profundo, algo que parecia vir das profundezas do oceano.

— O plano da Annabeth é perfeito no papel — começou Percy, sua voz calma cortando a tensão. — Se estivéssemos lutando contra um exército normal. Mas Cronos não quer apenas nos vencer, ele quer nos humilhar. Ele está esperando que você use a lógica, Annabeth.

Ele apontou para o setor que o chalé de Ares estava defendendo.

— Você quer que eles recuem para atrair o inimigo para uma armadilha, certo? Não vai funcionar. Clarisse nunca recuaria a tempo, o orgulho dela é a nossa maior fraqueza e a maior força. Se você pedir para ela recuar, ela vai lutar com mais raiva ainda e acabar cercada. Deixe-os lá. Não como uma isca, mas como uma parede.

Annabeth abriu a boca para protestar, mas Percy continuou, movendo uma peça no mapa.

— O túnel Lincoln? Você disse que estávamos sem munição. Noah, o que você acha daquela ideia idiota que você teve sobre os canos de água?

O Noah da tela levantou os olhos da adaga, um sorriso travesso surgindo no rosto.

— Ah, aquela que envolve inundar o túnel com esgoto e eletricidade de baixa voltagem? É brilhante, mas muito nojenta.

— Exatamente — disse Percy. — Annabeth, você está tentando poupar vidas mantendo todos em posições defensivas. Mas para ganhar essa noite, precisamos ser imprevisíveis. Não vamos usar a formação de falange no Central Park. Vamos deixar os monstros entrarem.

Houve um murmúrio de choque na sala.

— Deixá-los entrar? — perguntou um campista. — Isso é suicídio!

— Não — interveio Noah, levantando-se e ficando ao lado de Percy. — É um convite. Se eles entrarem no parque, o terreno é nosso. As ninfas não precisam de uma linha de frente, elas precisam de caos. Percy controla a água, eu conheço os pontos cegos da arquitetura urbana. Se atrairmos o exército de Cronos para o reservatório, Percy pode acabar com metade deles sem que precisemos disparar uma única flecha de bronze.

Percy acenou com a cabeça, olhando para Annabeth.

— Você foca na logística de longo prazo, sabidinha. Mas a palavra final aqui é: pare de tentar jogar xadrez com um titã que inventou o jogo. Vamos jogar queimada. É mais a nossa cara.

A Annabeth da tela olhou para Percy, depois para Noah, e por fim para o mapa. Uma mistura de relutância e admiração passou por seu rosto.

— É arriscado demais — murmurou ela. — Mas... é o único plano que ele não esperaria.

— Entendido — disseram os outros líderes, a confiança retornando aos seus rostos. Se Percy dizia que ia funcionar, eles acreditavam. Não porque o plano fosse logicamente infalível, mas porque Percy Jackson tinha o hábito de tornar o impossível em realidade.

A cena começou a desvanecer, mas antes de sumir, captou um momento privado. Percy voltou a se sentar, exausto, e Noah colocou uma mão em seu ombro, apertando-o com firmeza.

— Boa chamada, capitão — disse Noah. — Mas se o plano do esgoto der errado, eu vou dizer a todos que a ideia foi sua.

— Você é um péssimo amigo — resmungou Percy, mas havia um sorriso cansado em seus lábios.

A luz na sala de projeção voltou ao normal. O silêncio era absoluto. Os campistas do primeiro ano olhavam para o Percy de doze anos com um novo tipo de reverência. Ele não era mais apenas o garoto esquisito que causava problemas nas escolas; ele era o General.

Annabeth, sentada algumas fileiras à frente, sentiu uma onda de emoções conflitantes. Ela estava impressionada com a visão estratégica do Percy do futuro, mas o que mais a incomodava era a facilidade com que Noah se encaixava naquele cenário. Noah não questionava Percy; ele o complementava. Ele era o suporte que permitia que Percy fosse o líder que precisava ser.

— Então... — começou o jovem Noah, quebrando o gelo com seu tom sarcástico habitual. — Parece que o meu "eu" do futuro é tão genial quanto o meu "eu" do presente. E, Percy, você realmente precisa de mim para não inundar a cidade inteira com água de privada, pelo visto.

— Eu não ia usar água de privada! — protestou Percy, o rosto vermelho. — Foi ideia sua na tela!

— Detalhes, detalhes — Noah deu de ombros, esticando as pernas longas. — O ponto é: eu sou o cérebro por trás da beleza. E você, Cabeça de Algas, é o músculo com um instinto assustadoramente bom.

Annabeth se virou na cadeira, os olhos cinzas fixos em Noah.

— Como você sabia que o plano dele funcionaria? — perguntou ela, a voz um pouco mais ríspida do que pretendia. — Na tela, você nem olhou os mapas direito.

Noah olhou para ela, o sorriso permanecendo, mas seus olhos pálidos brilharam com uma inteligência fria que lembrou a todos que ele também era um filho da deusa da sabedoria.

— Eu não preciso olhar o mapa para saber o que o Percy vai fazer, Annabeth — respondeu Noah calmamente. — Eu o conheço desde que tínhamos sete anos. Eu sei como a mente dele funciona. Ele não pensa em linhas retas ou em manuais de estratégia. Ele pensa em fluxo. Como a água. Minha função não é desenhar o mapa para ele, é garantir que ele tenha um lugar seguro para pousar quando a onda quebrar.

Annabeth cerrou os dentes. Ela odiava não ser a pessoa que melhor conhecia Percy. Ela odiava que esse garoto loiro e piadista tivesse uma conexão com ele que ela ainda não conseguia decifrar.

— É uma estratégia perigosa — insistiu ela. — Confiar apenas no instinto pode matar pessoas.

— E tentar planejar cada passo contra um inimigo que vê o tempo pode nos matar ainda mais rápido — retrucou Noah, sem perder a compostura. Ele se virou para Percy e bagunçou o cabelo do amigo. — Não se preocupe, Percy. Se você decidir que o plano final é irmos todos comer pizza no meio da batalha, eu provavelmente vou achar um jeito de tornar isso taticamente viável.

Percy riu, sentindo a tensão diminuir. Ele olhou para Noah e depois para Annabeth. Ele se sentia dividido entre a admiração que sentia pela inteligência dela e o conforto absoluto que a presença de Noah lhe trazia.

— Eu ainda não sei como segurar uma espada direito — confessou Percy para a sala. — Ver aquilo... ver todos vocês confiando em mim... é assustador.

— Vai ser — disse Clarisse do outro lado da sala, surpreendendo a todos com a falta de deboche em sua voz. — Mas se metade do que vimos for verdade, Jackson, você vai ter que treinar o dobro. Porque eu não vou seguir ordens de um nanico que não sabe a diferença entre um escudo e uma tampa de lixo.

— Ei! — protestou Percy.

— Ela tem razão — concordou Noah, levantando-se e puxando Percy junto. — Chega de filmes por hoje. O destino é legal e tal, mas o Percy do presente precisa aprender a não se cortar com a própria caneta. Vamos, Percy. Vou te mostrar como se faz um estocada de verdade sem parecer um pato desengonçado.

Enquanto os dois caminhavam para a saída, Annabeth os observava. Ela notou como Noah se posicionava sempre ligeiramente à frente de Percy, como se estivesse mapeando o caminho, protegendo-o de olhares curiosos. Era uma dinâmica que ela não entendia completamente, uma mistura de amizade fraternal e algo mais profundo, uma lealdade que parecia ter sido forjada em anos de exclusão social e segredos compartilhados.

— Noah — chamou Annabeth antes que eles saíssem.

O loiro parou e olhou para trás.

— Você é filho de Atena — disse ela. — Por que age como se a lógica não importasse?

Noah sorriu, um sorriso que não chegou aos seus olhos cinzas pálidos.

— A lógica importa muito, Annabeth. É por isso que eu sei que, em um mundo de deuses e monstros, a única coisa lógica a se fazer é confiar na pessoa que você sabe que nunca vai te abandonar. A estratégia é secundária. A lealdade é a verdadeira sabedoria.

Ele piscou para ela e saiu, deixando Annabeth sozinha com seus pensamentos e com a imagem persistente de Percy segurando o céu.

Lá fora, o sol do Acampamento Meio-Sangue brilhava sobre o gramado. Percy respirou o ar fresco, sentindo-se um pouco mais leve.

— Você realmente acha que eu vou ser aquele cara, Noah? — perguntou ele em voz baixa. — Aquele líder?

Noah parou e olhou para o amigo. Por um momento, o sarcasmo desapareceu completamente. Ele segurou os ombros de Percy e olhou bem no fundo de seus olhos verdes.

— Percy, você já é esse cara. Só ainda não teve que provar para o resto do mundo. Mas para mim? Você é o cara que me defendeu daqueles valentões na terceira série quando eu estava ocupado demais lendo um livro para notar que ia levar um soco. Você é o cara que nunca desiste. O resto é só detalhe e treinamento.

Percy sorriu, um sorriso verdadeiro.

— Obrigado, Noah.

— De nada. Agora, sério, vamos para a arena. Se a Annabeth continuar me olhando daquele jeito, ela vai acabar transformando a minha cabeça em um alvo de prática, e eu gosto bastante da minha cabeça. Ela combina com meu cabelo.

Os dois correram em direção aos campos de treinamento, rindo como os garotos de doze anos que ainda eram, ignorando por um momento o peso do futuro que os aguardava. No horizonte, as águas do estreito de Long Island brilhavam, como se o próprio oceano estivesse observando seu herói, esperando o momento em que a palavra final seria, de fato, dele.