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O futuro

O Reflexo do Furacão e a Dança das Lâminas

A tela mágica, alimentada pela névoa e pelo poder residual de Hécate, tremeu antes de focar em uma nova imagem. O silêncio na sala de projeção era tão denso que se podia ouvir a respiração descompassada de Grover. No fundo, o Percy de doze anos sentia suas mãos suarem. Ele olhou para Noah, que apertou seu ombro, oferecendo um apoio silencioso que valia mais do que qualquer estratégia de batalha.

A imagem se estabilizou. Não era mais uma sala de reuniões ou um momento de descanso. O cenário era um campo de batalha desolado, onde o céu estava tingido de um roxo doentio e o chão era composto de cinzas e ossos. O Percy da tela parecia ter dezoito ou dezenove anos. Ele não era apenas um semideus; ele parecia uma força da natureza encarnada.

— Pelos deuses... — sussurrou um dos filhos de Ares, a voz cheia de um pavor que beirava a adoração.

Na tela, Percy estava cercado. Uma legião de monstros — hiperbóreos, empousai e guerreiros esqueletos — avançava sobre ele de todas as direções. Ele estava sozinho, ou pelo menos parecia estar, até que a câmera girou e revelou Noah. O filho de Atena estava de costas para Percy, movendo-se com uma elegância letal. Noah não usava a força bruta; ele era um borrão de prata e bronze, desviando de ataques com uma precisão geométrica e atingindo pontos vitais com uma adaga que parecia ter vontade própria.

— Ali! — gritou o Percy da tela, a voz rouca de cansaço, mas firme como o aço.

Sem precisar de mais explicações, Noah abaixou-se no exato momento em que Percy girou Contracorrente em um arco devastador. Uma onda de água, carregada de energia salgada e poder destrutivo, explodiu de onde Percy estava, varrendo a primeira linha de monstros.

— Você está ficando exibido, Cabeça de Algas! — gritou Noah na tela, saltando sobre o ombro de um gigante hiperbóreo e cravando sua adaga na nuca da criatura.

— E você está ficando lento, gênio! — rebateu Percy com um sorriso feroz, enquanto aparava o golpe de uma empousa e a desintegrava em pó com um movimento fluido.

Na sala de projeção, a pequena Annabeth observava a cena com os punhos cerrados. Ela notou algo que a incomodava profundamente: a sincronia entre os dois era absoluta. Eles não precisavam se olhar. Eles não precisavam de ordens. Era como se compartilhassem o mesmo sistema nervoso. Quando Percy avançava, Noah cobria seu flanco. Quando Noah era cercado, Percy invocava a própria umidade do ar para criar distrações ou barreiras.

— Eles estão dançando — murmurou Quíron, que aparecera discretamente no fundo da sala. — É uma forma de combate que não se ensina em livros. É a confiança total transformada em movimento.

A luta na tela escalou. Um drakon colossal emergiu das sombras, soltando um rugido que fez a tela vibrar. Percy não recuou. Seus olhos brilharam com um verde maré-baixa, intenso e perigoso.

— Noah, agora! — comandou Percy.

Noah correu na direção de Percy, que entrelaçou as mãos para criar um apoio. Com um impulso coordenado, Percy lançou Noah para o alto. Enquanto o filho de Atena voava em direção à cabeça do drakon, Percy cravou Contracorrente no chão. O solo rachou e uma coluna de água pura jorrou, elevando Percy até o nível dos olhos da fera.

— Isso é impossível — disse Clarisse, os olhos arregalados. — O controle que ele tem... ele está manipulando a água como se fosse uma extensão do próprio corpo.

No ar, Noah usou a coluna de água de Percy como plataforma, saltando para o focinho do drakon e cegando-o com um golpe preciso. Enquanto a fera se contorcia, Percy desferiu o golpe de misericórdia, mergulhando a lâmina de bronze celestial no coração da criatura.

A fera se dissolveu em uma explosão de pó dourado. Os dois pousaram no chão cobertos de fuligem, ofegantes, mas vivos. O Percy da tela guardou a caneta no bolso e estendeu a mão para Noah, ajudando-o a se levantar.

— Você quase me deixou cair naquela última parte — reclamou Noah, limpando o sangue de um corte na testa, embora seus olhos estivessem brilhando de diversão.

— Eu nunca deixaria você cair — respondeu Percy, a seriedade em sua voz silenciando o Noah da tela por um segundo. — Você sabe disso.

— Eu sei — disse Noah suavemente, dando um soco leve no peito de Percy. — Mas gosto de reclamar. Mantém o seu ego sob controle.

A projeção escureceu e a luz da sala voltou. O silêncio que se seguiu foi quase desconfortável. Todos os campistas se viraram para olhar para os dois garotos no fundo da sala. O Percy de doze anos estava pálido, processando a violência e a escala da luta que acabara de ver. Noah, por outro lado, tinha um brilho diferente nos olhos. Ele parecia ter acabado de receber a confirmação de algo que sempre soube.

— Então... — começou Noah, quebrando a tensão com um estalo de dedos. — Além de segurar o céu e comandar exércitos, nós também somos uma dupla dinâmica de extermínio de drakons? Percy, eu realmente preciso cobrar uma taxa de consultoria estratégica por todos esses serviços.

— Você viu aquilo? — perguntou Percy, a voz falhando. — Eu... eu matei um drakon. Nós matamos.

— É claro que vimos, Cabeça de Algas — disse Noah, voltando ao seu tom sarcástico, embora tenha passado o braço pelos ombros de Percy de forma protetora. — Mas não deixe isso subir à cabeça. Você ainda tropeça nos próprios pés quando tenta correr e mascar chiclete ao mesmo tempo.

Annabeth levantou-se e caminhou até eles. Seus olhos cinzas estavam tempestuosos, uma mistura de inveja, admiração e uma curiosidade científica que ela não conseguia conter.

— Como você fez aquilo, Noah? — perguntou ela diretamente. — Aquela manobra com a coluna de água. Não estava em nenhum manual de combate. Foi um risco desnecessário.

Noah olhou para ela, e por um momento, a máscara de piadista caiu, revelando o filho de Atena que ele era por dentro — a mente que calculava trajetórias e probabilidades em milissegundos.

— Manuais são para pessoas que não conhecem seus parceiros, Annabeth — respondeu Noah com uma calma cortante. — Eu não precisei calcular a pressão da água ou o tempo de salto. Eu sabia onde o Percy estaria porque ele é o Percy. A lógica não é apenas sobre fatos frios; é sobre entender as variáveis. E a variável mais constante na minha vida é ele.

Annabeth abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram morrer em sua garganta. Ela olhou para Percy, que parecia pequeno sob o braço de Noah, e percebeu que havia uma muralha entre ela e o "garoto da profecia". Uma muralha feita de anos de amizade, de segredos compartilhados em escolas comuns e de uma lealdade que não dependia de deuses ou destinos.

— O treinamento começa amanhã — disse Clarisse, passando por eles e dando um encontrão proposital no ombro de Percy, mas sem a malícia habitual. — É bom que você seja metade daquele guerreiro, Jackson. Ou eu mesma vou te mandar para o Mundo Inferior antes que os monstros tentem.

— Eu vou estar lá — disse Percy, ganhando uma pitada de confiança.

— Nós vamos estar lá — corrigiu Noah.

Quando os campistas começaram a sair da sala, comentando em sussurros excitados sobre o que tinham visto, Noah puxou Percy para um canto mais afastado.

— Ei — disse Noah, o tom de voz agora baixo e genuíno. — Você está bem?

Percy suspirou, encostando-se na parede de madeira.

— É muita coisa, Noah. Ver o futuro... ver que as pessoas dependem de mim para tudo. E se eu falhar? E se eu não for aquele cara?

Noah deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Ele era ligeiramente mais alto, e a luz das tochas do pavilhão criava sombras longas em seu rosto loiro.

— Percy, olha para mim.

Percy levantou os olhos verdes, encontrando os cinzas pálidos de Noah.

— Você não precisa ser "aquele cara" hoje — disse Noah com firmeza. — E você nunca vai precisar ser ele sozinho. Você viu a tela. Eu estava lá. Eu sempre vou estar lá. Se o céu ficar pesado demais, eu ajudo a segurar. Se o exército for grande demais, eu luto ao seu lado. E se você decidir que quer apenas desistir e abrir uma barraca de suco azul em Montauk, eu vou ser o cara que faz o marketing.

Percy soltou uma risada curta, sentindo o peso em seu peito diminuir um pouco.

— Uma barraca de suco?

— Com certeza. Seríamos milionários em uma semana.

Percy sorriu e, por um impulso que nem ele mesmo entendeu, abraçou Noah. Foi um abraço rápido, desajeitado, típico de dois garotos de doze anos, mas Noah o apertou de volta com uma força que dizia mais do que qualquer piada.

— Obrigado, Noah. De verdade.

— Não me agradeça ainda — disse Noah, afastando-se com um sorriso travesso. — Agora que todos viram que eu sou um gênio do combate, vou ter que manter as aparências. E isso significa que você vai ter que me ajudar a roubar alguns brownies extras da cozinha para manter meu cérebro funcionando.

— Você não tem jeito — resmungou Percy, mas já estava seguindo o amigo em direção às sombras do acampamento.

Annabeth, observando-os de longe, sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de ciúme. Era mais como se ela estivesse olhando para um quebra-cabeça cujas peças se encaixavam perfeitamente, mas ela não era a imagem que estava sendo formada.

— Eles são perigosos juntos — murmurou ela para si mesma.

— Não — disse uma voz atrás dela. Era Quíron, observando os dois garotos desaparecerem na escuridão. — Eles são a esperança, Annabeth. O Olimpo sempre caiu por causa da arrogância e da solidão dos seus heróis. Talvez, pela primeira vez em milênios, tenhamos um herói que entende que o maior poder não vem do mar ou do céu, mas de quem caminha ao seu lado na areia.

Enquanto isso, perto da Casa Grande, Percy e Noah caminhavam sob o brilho das estrelas. Percy olhou para cima, para a constelação que ele ainda não sabia que se chamava "O Caçador".

— Noah? — chamou Percy.

— Fala, Cabeça de Algas.

— Aquela parte onde você disse que a palavra final era minha... você realmente me ouviria? Mesmo se o plano fosse idiota?

Noah parou e olhou para o horizonte, onde as ondas do mar batiam suavemente na costa.

— Percy, eu sou um filho de Atena. Eu sempre tenho um plano melhor. Mas se você me dissesse para pular no Tártaro porque acredita que é o caminho certo... eu pularia antes mesmo de você terminar a frase.

— Por quê?

Noah deu de ombros, voltando a caminhar, as mãos nos bolsos e o sarcasmo retornando como uma armadura confortável.

— Porque a lógica diz que você é um imã para milagres, Percy. E eu nunca fui muito bom em ignorar os fatos. Agora cala a boca e anda logo. Se as ninfas comerem todos os brownies, eu vou contar para a Clarisse que você acha que ela luta como uma bailarina.

— Eu nunca disse isso! — gritou Percy, correndo atrás dele.

As risadas dos dois ecoaram pelo acampamento, um som jovem e vibrante que desafiava as profecias e o destino sombrio que a tela havia mostrado. O futuro podia ser pesado, sangrento e cheio de fardos impossíveis, mas ali, sob a luz da lua, Percy Jackson sabia de uma coisa: ele não teria que enfrentar nada disso desacompanhado. E, para ele, isso fazia toda a diferença do mundo.