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O futuro

O Porto Seguro em Meio à Tempestade

A sala de projeção estava mergulhada em um silêncio reverente, interrompido apenas pelo estalar suave da névoa mágica que se dissipava conforme a última imagem desaparecia. Os campistas do primeiro ano, que antes viam em Percy Jackson apenas um garoto confuso e deslocado, agora o encaravam como se ele fosse uma bomba prestes a detonar — ou um milagre prestes a acontecer.

Percy sentia o peso de cada olhar. Não era o peso do céu, como vira na tela, mas era sufocante da mesma forma. Ele queria sumir, queria que a terra se abrisse e o engolisse até que ele estivesse de volta ao seu apartamento em Nova York, longe de profecias e de responsabilidades que ele não pedira.

— Isso... isso foi apenas uma possibilidade, certo? — perguntou um filho de Hermes, a voz trêmula. — Não significa que vai acontecer exatamente assim.

— A névoa mostra o que o destino reserva para aqueles que têm coragem de moldá-lo — respondeu Quíron, sua forma de centauro projetando uma sombra imensa na parede. — O que vimos foi o potencial de um líder.

Noah, que permanecia ao lado de Percy, sentiu a tensão irradiando do amigo. Ele conhecia aquele tremor sutil nos ombros de Percy; era o mesmo que ele demonstrava antes de uma prova de matemática difícil ou quando Gabe Ugliano gritava demais no apartamento. Sem dizer uma palavra, Noah inclinou-se e sussurrou de um jeito que só Percy pudesse ouvir.

— Ei, se você desmaiar agora, eu vou dizer a todos que foi por causa da emoção de ser meu melhor amigo. Mantenha a pose, Cabeça de Algas.

Percy soltou um riso nervoso, o ar finalmente voltando aos seus pulmões.

— Você é um idiota, Noah.

— Sou o seu idiota favorito. Agora, vamos sair daqui antes que a Annabeth comece a fazer um interrogatório com luz na cara e tudo.

Mas era tarde demais. Annabeth Chase já estava cruzando a sala, sua expressão uma mistura de admiração técnica e uma irritação latente que ela não conseguia esconder. Seus olhos cinzas, tão diferentes dos de Noah, brilhavam com uma intensidade analítica.

— A estratégia de inundar o túnel... — começou ela, ignorando as preliminares. — Noah, como você calculou a pressão estrutural sem ter os diagramas do sistema de esgoto de Manhattan?

Noah deu de ombros, um sorriso preguiçoso brincando em seus lábios enquanto ele passava a mão pelos cabelos loiros.

— Eu não calculei, Annabeth. Eu moro em Nova York. Eu sei onde o cheiro é pior e onde a água acumula quando chove. É intuição urbana, algo que você não encontra nos seus livros de arquitetura clássica.

Annabeth estreitou os olhos.

— A intuição é apenas lógica acelerada. Você sabia que funcionaria porque sua mente de Atena processou os dados, mesmo que você se recuse a admitir que estuda.

— Se você diz... — Noah piscou para ela, o que só pareceu irritá-la mais. — Mas você está focando no detalhe técnico. O ponto principal daquela cena foi que o Percy tomou a decisão. Eu apenas dei as ferramentas.

— E todos nós o seguimos — murmurou uma garota do chalé de Afrodite, olhando para Percy com um interesse renovado. — Sem hesitar.

Percy deu um passo para trás, sentindo-se pequeno.

— Eu nem sei usar uma espada ainda. Eu mal sei quem é meu pai. Como vocês podem esperar que eu seja esse... general?

O clima na sala mudou. A confiança que viram na tela não era algo que o Percy do presente possuía, e a discrepância era dolorosa. Foi nesse momento que Noah se posicionou. Ele não ficou na frente de Percy como um escudo, mas ao lado dele, como uma âncora.

— Ele não precisa ser o general agora — disse Noah, sua voz perdendo o tom de brincadeira e assumindo uma autoridade que fez até os veteranos prestarem atenção. — Ele só precisa ser o Percy. O resto o tempo resolve. E quem tiver algum problema com isso, pode vir falar com o "estrategista de esgoto" aqui.

— Você o protege demais — acusou Annabeth, cruzando os braços. — No futuro, ele é o porto seguro de todo o acampamento. Mas aqui, no presente, parece que o porto seguro dele é você. Isso pode ser uma fraqueza, Noah.

Noah riu, mas não foi um som alegre. Foi o som de alguém que entendia o mundo de uma forma que Annabeth, com toda a sua disciplina, ainda não compreendia.

— Se você acha que ter alguém em quem confiar é uma fraqueza, Annabeth, então você ainda não entendeu nada sobre ser um semideus. Percy segura o mundo porque ele sabe que, se ele cansar, eu estou aqui para segurar a mão dele. É isso que o torna forte.

Percy olhou para Noah, surpreso pela intensidade das palavras. Ele sempre soube que Noah era seu melhor amigo, mas ver aquela lealdade sendo declarada diante de todo o acampamento era outra coisa. Era reconfortante. Era, de fato, um porto seguro.

— Chega de projeções por hoje — anunciou Quíron, percebendo que a tensão estava atingindo um ponto crítico. — Todos para seus chalés. Temos muito o que processar.

Conforme os campistas se dispersavam, sussurrando entre si, Percy e Noah caminharam em direção ao lago de canoagem. O sol estava começando a se pôr, pintando o céu com tons de laranja e roxo que lembravam a Percy as cores do poder que vira na tela.

— Você realmente acredita naquelas coisas? — perguntou Percy, sentando-se na areia da margem. — Sobre eu ser o líder? Sobre a palavra final ser minha?

Noah sentou-se ao lado dele, pegando uma pedra chata e lançando-a sobre a água. Ela quicou quatro vezes antes de afundar.

— Percy, eu conheço você desde que éramos moleques fugindo dos valentões no parquinho. Você sempre foi o cara que se colocava na frente dos outros, mesmo quando estava morrendo de medo. A única diferença é que, no futuro, você vai ter uma espada em vez de uma mochila de rodinhas.

— Mas e se eu falhar com vocês? — a voz de Percy era um sussurro. — Naquela tela, parecia que a vida de todo mundo dependia de mim. Se eu errar um plano, se eu não for rápido o suficiente...

Noah parou de brincar com as pedras e virou-se para Percy. Seus olhos cinzas pálidos eram calmos, como o mar antes de uma tempestade, mas cheios de uma certeza inabalável.

— Então nós cairemos juntos — disse Noah simplesmente. — Mas quer saber de uma coisa? Você não vai falhar. Sabe por quê?

— Por quê?

— Porque você é teimoso demais para deixar seus amigos na mão. E porque eu vou estar lá para te irritar tanto que você vai sobreviver só para me mandar calar a boca.

Percy sorriu, sentindo o nó em seu peito se desatar. Com Noah, tudo parecia menos épico e mais... real. Menos como uma profecia assustadora e mais como um desafio que eles poderiam enfrentar um dia de cada vez.

— A Annabeth está com ciúmes — comentou Percy, mudando de assunto para aliviar o clima.

Noah soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Ela está furiosa porque eu não sigo o roteiro dela de "como um filho de Atena deve se comportar". Ela quer ser a única estrategista, a única pessoa que entende como você funciona. Ela não entende que o que a gente tem não é estratégia, Percy. É história.

— Ela é legal — defendeu Percy, embora um pouco incerto. — Só é... intensa.

— Intensa é pouco. Ela olha para você como se você fosse um monumento que ela precisa reconstruir. Eu olho para você e só vejo o cara que uma vez tentou comer um giz de cera azul porque achou que tinha gosto de mirtilo.

— Foi um desafio! E o cheiro era bom! — protestou Percy, empurrando o ombro de Noah.

Os dois riram, o som ecoando sobre a água tranquila do lago. Por um momento, não havia deuses, não havia monstros e não havia o peso do mundo. Eram apenas dois amigos na beira de um lago, protegidos pela bolha de uma amizade que desafiava a própria lógica do Olimpo.

— Sabe, Noah — disse Percy depois de um tempo, olhando para o reflexo da primeira estrela na água. — Ver você lá na tela... me protegendo, lutando comigo... me fez sentir que talvez eu consiga fazer isso.

Noah colocou a mão sobre a de Percy na areia, um gesto simples, mas carregado de uma promessa silenciosa.

— Você consegue, Percy. E eu vou ser o seu porto seguro sempre que o mar ficar agitado demais. Mas em troca, você tem que prometer uma coisa.

— O quê?

— Se você realmente se tornar esse herói bonitão e famoso, não pode me trocar por um grupo de ninfas fãs. Eu quero tratamento VIP no Olimpo.

— Fechado — concordou Percy, apertando a mão do amigo.

Eles ficaram ali até que a escuridão total caísse sobre o acampamento, dois garotos de doze anos que ainda não sabiam que o destino tentaria separá-los de mil maneiras diferentes, mas que, naquele momento, eram a única verdade absoluta um do outro. Percy Jackson podia ser o filho do deus do mar, o garoto da profecia e o futuro líder de heróis, mas ali, com Noah, ele era apenas Percy. E isso era tudo o que ele precisava para enfrentar o amanhã.