O Hyung cuida de você
Sinfonia de Pequenos Passos
O sol da tarde filtrava-se pelas persianas horizontais do estúdio de Bang Chan, criando um padrão de listras douradas sobre o carpete escuro. O ambiente, que na noite anterior havia sido palco de uma entrega absoluta e febril entre o produtor e seu trainee, agora parecia estranhamente doméstico. Chan estava debruçado sobre o teclado, mas seus olhos não focavam nas ondas sonoras do monitor. Ele estava em alerta máximo, e não era por causa de um prazo de entrega.
— Ela prometeu que ficaria sentada no sofá da recepção com o tablet — murmurou Chan para si mesmo, os dedos tamborilando nervosamente na mesa.
Ter vinte e oito anos e ser o produtor mais requisitado do país já era um desafio. Ser pai solteiro de uma menina de cinco anos chamada Hana era, simultaneamente, sua maior alegria e sua fonte constante de ataques cardíacos. A babá tivera uma emergência, e Chan, sem saída, trouxera a pequena para a empresa, escondendo-a em sua sala privada enquanto resolvia uma reunião de última hora com a diretoria. O problema? Hana herdara a curiosidade insaciável do pai e a habilidade de desaparecer como um fantasma.
— Hana? — Chan chamou, saindo do estúdio e olhando para os corredores labirínticos do andar de produção. — Hana, querida, isso não é hora de brincar de esconde-esconde!
Enquanto isso, dois andares abaixo, Kim Seungmin caminhava em direção à cafeteria. Seus músculos ainda protestavam levemente pela intensidade da noite anterior, e um sorriso involuntário surgia em seus lábios toda vez que ele tocava a gola alta do moletom, estrategicamente escolhido para esconder as marcas que Chan havia deixado em seu pescoço.
Ele estava distraído, repassando mentalmente as melodias que Chan estava produzindo, quando ouviu um som abafado vindo do corredor das salas de prática desativadas. Era um soluço baixo, seguido pelo som de algo plástico batendo no chão.
Seungmin parou. Sua natureza cautelosa o fez hesitar, mas a curiosidade — e um instinto protetor que ele nem sabia que possuía — o empurrou para a porta entreaberta da Sala 4.
Lá dentro, sentada no meio do chão espelhado, estava uma garotinha. Ela usava um vestido rosa com estampas de estrelas e tinha dois rabos de cavalo perfeitamente simétricos. Em suas mãos, ela segurava um fone de ouvido profissional que era grande demais para sua cabeça, e seus olhos grandes e escuros estavam marejados.
— Ei... — Seungmin disse suavemente, ajoelhando-se a uma distância segura para não assustá-la. — Você está perdida, pequena?
A menina fungou, olhando para Seungmin com uma mistura de desconfiança e admiração.
— O fone quebrou — ela sussurrou, estendendo o objeto. — O papai vai ficar triste. É o fone de "trabalho sério" dele.
Seungmin pegou o fone, examinando-o. Era apenas um cabo que havia se soltado do conector. Nada que um encaixe firme não resolvesse.
— Eu sou um especialista em fones de "trabalho sério" — mentiu Seungmin com um sorriso doce, fazendo um clique audível ao consertar a peça. — Viu? Novinho em folha.
Os olhos da menina brilharam. Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos gordinhas e sorriu, revelando a falta de um dente frontal.
— Você é um mágico? — perguntou ela, aproximando-se.
— Quase isso. Sou um trainee. É tipo um aprendiz de mágico, mas com música — Seungmin sentou-se no chão, cruzando as pernas. — E como uma princesa como você veio parar na masmorra das salas de prática?
— Eu queria ver onde o papai faz as músicas — explicou ela, sentando-se à frente dele. — Mas o prédio é muito grande e as portas são todas iguais. Eu sou a Hana.
O coração de Seungmin deu um salto. Hana. Ele conhecia esse nome. Chan falava dela com uma reverência que beirava a adoração. Ele sabia que Chan tinha uma filha, que era o centro do universo do produtor, mas Chan sempre fora protetor demais para apresentá-la ao mundo instável da indústria, ou mesmo ao namorado que ainda era, tecnicamente, um subordinado na empresa.
— Hana... — Seungmin repetiu, a voz suavizando ainda mais. — Seu pai deve estar muito preocupado, sabia? Ele provavelmente está correndo pelos corredores agora mesmo, parecendo um doido.
— O papai sempre parece um doido quando perde o café — Hana riu, uma risada cristalina que aqueceu o peito de Seungmin. — Você conhece o meu papai? O nome dele é Channie.
— Conheço sim. Ele é o meu... professor preferido — Seungmin estendeu a mão. — Que tal se a gente fizer um acordo? Eu te levo de volta para ele, mas antes, podemos passar na máquina de lanches e pegar uns adesivos que eu sei que o moço da recepção esconde.
Hana inclinou a cabeça, avaliando a proposta.
— Você tem adesivos de dinossauro?
— Tenho de dinossauros que tocam guitarra — Seungmin piscou.
— Então temos um acordo! — Ela pulou no pescoço de Seungmin, abraçando-o com a confiança pura que apenas as crianças possuem.
Vinte minutos depois, Bang Chan estava à beira de um colapso nervoso. Ele já havia verificado as câmeras de segurança do andar e estava prestes a ligar para a segurança principal, o que causaria um alvoroço que ele queria evitar. Ele estava parado no meio do corredor, as mãos nos cabelos loiros, quando ouviu uma voz familiar.
— ... e então o Tiranossauro Rex fez um solo de bateria tão alto que as estrelas caíram!
— Mentira! — A voz de Hana exclamou, seguida de uma gargalhada.
Chan virou-se tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. No final do corredor, Seungmin caminhava calmamente, carregando Hana nos braços. A menina tinha vários adesivos de estrelas e dinossauros colados nas bochechas e no vestido, e segurava um suco de caixinha.
— Hana! — Chan correu até eles, os olhos arregalados. — Meu Deus, Hana! Onde você estava? Eu quase morri!
Seungmin parou na frente de Chan, um brilho divertido nos olhos, embora houvesse uma ternura profunda na forma como ele segurava a menina.
— Ela resolveu fazer uma turnê mundial pelas salas de prática do subsolo, Hyung — disse Seungmin, entregando a pequena para os braços ansiosos do pai.
Chan apertou a filha contra o peito, enterrando o rosto no pescoço dela por um longo segundo, respirando aliviado.
— Eu sinto muito, papai — Hana murmurou, embora não parecesse muito arrependida. — O Minnie me achou. Ele consertou o seu fone. Ele é um mágico da música.
Chan congelou, olhando de Hana para Seungmin.
— Minnie? — Chan arqueou uma sobrancelha, o alívio dando lugar a uma surpresa calorosa.
— Ela decidiu que meu nome era difícil demais, então aceitou o apelido — Seungmin deu de ombros, sentindo as bochechas esquentarem. — Espero que não se importe. Nós ficamos conversando na Sala 4 por um tempo. Ela é... ela é incrível, Chan.
Chan olhou para Seungmin e sentiu algo novo se expandir em seu peito. Ele já amava Seungmin pela sua voz, pela sua inteligência afiada e pela forma como ele o desafiava no estúdio. Mas vê-lo ali, com a pessoa mais importante de sua vida, tratando-a com tamanha doçura e paciência, era um nível de admiração que ele não sabia que poderia sentir.
— Obrigado, Seungmin. De verdade — disse Chan, a voz embargada. — Eu não sei o que teria feito se...
— Está tudo bem — Seungmin o interrompeu suavemente, dando um passo à frente e colocando a mão no ombro de Chan, um gesto rápido mas carregado de significado. — Ela está segura. E agora ela sabe que eu sou o "aprendiz de mágico" preferido dela.
Hana puxou a gola da camiseta de Chan, querendo atenção.
— Papai, o Minnie pode jantar com a gente? Ele disse que sabe imitar um pinguim muito bem.
Chan soltou uma risada curta, olhando para Seungmin com um olhar carregado de desejo e gratidão.
— Ele sabe imitar um pinguim, é? — Chan provocou.
Seungmin cobriu o rosto com uma das mãos, rindo de vergonha.
— Eu tive que usar todos os meus recursos para convencê-la a sair da sala de prática, Hyung. Não me julgue.
— Eu não estou julgando — Chan deu um passo para mais perto, diminuindo a distância entre eles. Hana estava distraída tentando colar um adesivo de triceratops no ombro do pai. — Na verdade, eu acho que nunca estive tão apaixonado por você como estou agora.
Seungmin levantou o olhar, encontrando os olhos brilhantes de Chan. A tensão sexual da noite anterior ainda estava lá, mas agora havia algo mais sólido, algo que falava sobre futuro e família.
— O convite do jantar ainda está de pé? — Seungmin perguntou em voz baixa.
— Com certeza — respondeu Chan. — Mas você vai ter que fazer a imitação do pinguim para mim também.
— Só se você prometer que não vai gravar para usar como sample em nenhuma música — rebateu o trainee, recuperando sua audácia habitual.
Hana bateu palmas, feliz com a confirmação.
— Eba! O Minnie vem com a gente! Papai, ele é muito bonito, né?
Chan olhou para Seungmin, percorrendo o rosto do rapaz com uma adoração óbvia, parando nos lábios que ele conhecia tão bem.
— É sim, Hana — disse Chan, a voz rouca e sincera. — Ele é a coisa mais bonita que o papai já encontrou neste prédio.
Seungmin sorriu, um sorriso que não era para as câmeras ou para os fãs, mas apenas para o homem e a criança à sua frente. Ele estendeu a mão e Hana a segurou prontamente com seus dedos pequenos.
Enquanto caminhavam juntos em direção à saída, o produtor famoso e o trainee promissor deixaram para trás as preocupações com carreiras, escândalos ou regras da empresa. Naquele momento, no corredor silencioso da grande gravadora, eles não eram apenas um segredo ardente; eles eram o início de uma harmonia que nenhuma mesa de som seria capaz de reproduzir perfeitamente.
— Channie-hyung? — Seungmin chamou, antes de entrarem no elevador.
— Sim?
— Acho que a Hana colou um adesivo de "estrela brilhante" bem no meio das suas costas.
Chan riu, sentindo o peso leve de sua filha em um braço e o calor da presença de Seungmin ao seu lado.
— Deixa lá — disse ele, puxando Seungmin para mais perto enquanto as portas do elevador se fechavam. — É exatamente assim que eu me sinto hoje.