o impacto
A Alquimia das Intenções
A manhã de quinta-feira nasceu com aquele cheiro característico de terra molhada que a chuva da noite anterior deixara para trás. Para Ana Clara, o frescor era um alívio, mas o silêncio que ela tanto prezava parecia ter sido permanentemente alterado. Enquanto caminhava pelos corredores de azulejos claros em direção ao bloco de Farmácia, ela sentia que não era apenas o clima que havia mudado.
— Ana! Espera aí! — A voz de Pietro Pozenato ecoou pelo corredor do 3A.
Ana parou e respirou fundo, forçando um sorriso gentil. Pietro era doce, talvez doce demais. Ele se aproximou com um café em mãos e aquela expressão de quem passara a noite ensaiando o que dizer.
— Oi, Pietro. Bom dia.
— Bom dia, Ana. Eu... eu vi que você esqueceu de pegar o roteiro da feira de profissões ontem. Eu peguei um pra você — disse ele, estendendo o papel levemente amassado. — Se quiser, a gente pode revisar os temas juntos no intervalo. Eu e a Victoria vamos estar na biblioteca.
— Ah, obrigada, Pietro. Mas eu já combinei de ajudar o João e o Enzo com umas coisas de ADM hoje — ela mentiu suavemente. Não era uma mentira total, ela realmente pretendia ver o irmão e o amigo, mas a biblioteca com os gêmeos Pozenato significava atenção que ela não queria lidar agora.
Pietro murchou visivelmente, mas assentiu.
— Tudo bem. A gente se vê por aí, então.
Ana continuou seu caminho, sentindo o peso do olhar dele em suas costas. Ela odiava ser o objeto de desejo de alguém, principalmente de alguém tão óbvio quanto Pietro. Ao entrar na sala de Farmácia, o cenário não era mais tranquilo. Izadora estava encostada na mesa do professor, rindo alto de algo que Thamires dizia, mas seus olhos dispararam para a porta assim que Ana entrou.
— Olha só, se não é a estrela do pátio — ironizou Izadora, cruzando os braços sobre o jaleco branco. — Soube que ganhou até escolta particular ontem para ir embora. O Luiz agora é seu motorista, Ana?
Ana Clara nem sequer olhou para o lado. Ela caminhou até sua bancada habitual, onde Bárbara e Bella já organizavam os béqueres.
— O Luiz é meu amigo, Iza. Coisa que você saberia o que significa se não estivesse ocupada demais cuidando da vida alheia — respondeu Ana, sua voz calma e cortante como uma lâmina de vidro.
Bárbara soltou uma risadinha abafada, e Thamires, que apesar de ser fiel à Izadora, gostava de Ana, deu um tapinha no braço da amiga para que ela parasse. O clima só esfriou quando o professor entrou, mas a mente de Ana ainda estava longe. Ela se pegou olhando para a janela, onde o bloco de Exatas ficava visível do outro lado do gramado.
Do outro lado, no 3B Exatas, a atmosfera era de puro tédio para Gustavo Ferreira. Ele girava uma caneta entre os dedos enquanto o professor de cálculo explicava algo sobre derivadas no quadro negro. Ruan, sentado à sua frente, jogou uma bolinha de papel que atingiu o caderno de Gustavo.
— Cara, você tá no mundo da lua desde que chegou — sussurrou Ruan. — Pensando na "menina do livro"?
Gustavo lançou um olhar gélido para o amigo, mas não negou.
— Ela é interessante — admitiu Gustavo, a voz tão baixa que quase se perdia no ruído do ventilador de teto. — É diferente de vocês, que fazem barulho por qualquer coisa. Ela tem um jeito de observar as pessoas... como se estivesse dissecando todo mundo.
— E ela te dissecou ontem, não foi? — Luiz interveio, virando-se para trás na cadeira. — O jeito que ela te respondeu... ninguém fala assim com você, Gustavo. Todo mundo aqui abaixa a cabeça ou tenta te agradar.
— É exatamente isso — Gustavo deu um meio sorriso, aquele que raramente aparecia e que, quando surgia, era perigoso. — Ela não quer me agradar. Ela quer que eu suma. E isso é o que me dá vontade de aparecer.
O intervalo chegou como um alívio para os alunos exaustos. Ana Clara tentou se esgueirar para um canto mais afastado, perto das árvores que ladeavam o campo de futebol, mas foi interceptada por Giovanna Rayssa e Madu.
— Nem pense em se esconder, Ana — disse Gi, puxando-a pelo braço. — O Cauã e o Enzo estão nos esperando na lanchonete. O Cauã disse que precisa falar com você sobre "assuntos urgentes".
— Os assuntos urgentes dele geralmente envolvem qual sabor de salgado ele deve escolher — brincou Ana, deixando-se levar pelas amigas.
Ao chegarem à área comum, encontraram os gêmeos Castro. Cauã, ao ver Ana, levantou-se imediatamente, um brilho de preocupação e afeto nos olhos que ele nunca conseguia esconder totalmente.
— Ana! Tudo bem? Fiquei sabendo que você foi embora com o Luiz ontem por causa da chuva.
— Oi, Cauã. Sim, ele foi um fofo. Por que a cara de preocupação?
— Nada, eu só... — Ele hesitou, olhando para os lados. — Só toma cuidado, tá? Tem muita gente comentando que o pessoal das Exatas tá de olho no nosso grupo. Especificamente em você.
— O pessoal das Exatas ou o Gustavo Ferreira? — Enzo perguntou, com um sorriso travesso, ganhando uma cotovelada do irmão.
— O Gustavo não é de "estar de olho" em ninguém, Enzo — Ana disse, tentando manter a voz firme, embora a menção ao nome dele tivesse causado um formigamento estranho em suas mãos. — Ele é só mal-educado.
— Falando no diabo — sussurrou Madu, apontando discretamente com o queixo.
O grupo das Exatas estava atravessando o pátio. Gustavo liderava, como de costume, com sua postura inabalável. No entanto, ao passar pela mesa onde Ana estava sentada com os amigos de Administração, ele não seguiu direto. Ele parou.
O silêncio caiu sobre a mesa. Cauã empertigou-se na cadeira, o instinto protetor falando mais alto. Jhoujhou, que estava por perto conversando com Kamila, também parou para observar a cena.
Gustavo ignorou todos os outros. Seus olhos focaram apenas em Ana Clara, que sustentou o olhar, segurando sua garrafa de água com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
— O livro de hoje parece mais pesado que o de ontem — disse Gustavo, sua voz carregada de uma ironia suave. — Farmacologia Clínica? Pensei que você estivesse mais para a área de venenos, pela forma como olha para as pessoas.
Ana Clara sentiu o sangue subir às bochechas, mas não de vergonha. Era uma mistura de irritação e algo que ela se recusava a chamar de adrenalina.
— Se eu estivesse na área de venenos, Ferreira, você seria meu primeiro experimento — rebateu ela, sem hesitar.
Ruan e Luiz, que estavam logo atrás, soltaram um "uou" em uníssono. Giovanna Rayssa deu um sorriso de lado, aprovando a resposta da amiga.
Gustavo não pareceu ofendido. Pelo contrário, ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de perfume amadeirado dele invadiu o espaço pessoal de Ana, algo que ela detestava, mas que, naquele momento, parecia estranhamente hipnótico.
— Interessante — ele murmurou, inclinando-se levemente. — Mas cuidado, Ana Clara. Mexer com veneno exige mãos firmes. E eu acho que as suas estão tremendo um pouco.
Ele se afastou antes que ela pudesse responder, seguindo seu caminho com o bando das Exatas logo atrás. Ana olhou para as próprias mãos. Ele tinha razão. Elas tremiam, mas não de medo. Era uma reação química que ela não conseguia explicar, uma instabilidade em sua rotina perfeitamente calculada.
— Que cara abusado! — exclamou Cauã, visivelmente irritado. — Ana, você quer que eu vá falar com ele?
— Não, Cauã. Deixa pra lá — disse ela, respirando fundo. — Ele só quer atenção. Se a gente der, ele vence.
Mas, ao longo da tarde, a presença de Gustavo parecia estar em todos os lugares. Na aula de laboratório de Farmácia, enquanto Ana tentava titular uma solução, ela olhou pela janela e o viu no pátio, sentado na sua moto, conversando com Leonardo e Victor. Ele parecia sentir o olhar dela, pois virou a cabeça exatamente no momento em que ela o observava. Ele não acenou, não sorriu. Apenas inclinou a cabeça, reconhecendo a presença dela.
— Ana, você vai acabar errando a conta das gotas — avisou Bárbara, tocando em seu ombro. — O que foi?
— Nada. Só... cansaço.
Ao final do dia, Ana Clara decidiu sair mais cedo para evitar o tumulto do portão principal. Ela caminhou pelos fundos da escola, perto do ginásio, onde o silêncio era maior. No entanto, ao dobrar o corredor que dava para o estacionamento das motos, ela encontrou quem menos queria — ou talvez, quem sua mente não parava de procurar.
Gustavo estava encostado na parede, sozinho desta vez. Ele não tinha a jaqueta de couro, apenas a camiseta branca da escola que marcava seus ombros largos. Ele parecia estar esperando por alguém.
Ao ver Ana, ele se desencostou da parede.
— Fugindo do fã-clube? — perguntou ele.
— Não sabia que este corredor tinha dono — respondeu ela, tentando passar por ele.
Ele estendeu o braço, bloqueando o caminho de forma casual, apoiando a mão na parede.
— Você é sempre assim? Tão na defensiva?
— E você é sempre assim? Tão invasivo? — Ana parou e o encarou de frente. — O que você quer, Gustavo? Você tem metade das meninas da escola querendo um segundo da sua atenção, e os meninos do seu grupo te seguem como se você fosse um líder de gangue. Por que está perdendo tempo me provocando?
Gustavo ficou em silêncio por um momento. O olhar dele mudou, perdendo um pouco daquela camada de arrogância e tornando-se algo mais profundo, quase analítico.
— Porque você é a única coisa real neste lugar, Ana Clara — disse ele, a voz agora séria, sem traços de deboche. — Todo mundo aqui interpreta um papel. O Pietro faz o papel do apaixonado, a Izadora faz o papel da invejosa, o Cauã faz o papel do herói protetor... e eu faço o papel do cara que não se importa.
— E eu? Qual é o meu papel? — perguntou ela, a voz falhando minimamente.
— Você é a única que não está atuando. Você realmente quer estar sozinha. Você realmente prefere o silêncio. E isso me irrita, porque eu passo o dia todo tentando encontrar um pouco de silêncio e não consigo.
Ana sentiu um aperto no peito. Ela não esperava por aquela confissão.
— O silêncio não é algo que se encontra, Gustavo — disse ela, baixando a guarda por um segundo. — É algo que você cria.
— Então me ensina — ele desafiou, dando um passo para mais perto. — Me ensina a criar esse silêncio. Porque, toda vez que eu olho pra você, o barulho aqui dentro diminui.
Ana Clara sentiu o mundo girar. A proximidade era perigosa, a intensidade dele era quase física. Ela podia ver as pequenas cicatrizes nos nós dos dedos dele, o brilho escuro de suas íris, a respiração calma contrastando com o seu coração acelerado.
— Eu tenho que ir — sussurrou ela, desviando-se por baixo do braço dele.
Desta vez, ele não a impediu. Ele apenas a viu se afastar, os cabelos escuros balançando conforme ela apressava o passo.
— A gente se vê amanhã, Ana Clara — ele disse alto o suficiente para que ela ouvisse.
Ela não olhou para trás, mas, ao chegar ao portão e sentir o vento no rosto, Ana soube que o silêncio que ela tanto cultivara havia sido quebrado. E, estranhamente, ela não estava com pressa de consertá-lo.
Ao chegar em casa, João, seu irmão, estava na sala jogando videogame com Enzo.
— Demorou, maninha — disse João, sem tirar os olhos da tela. — Ocorreu algum imprevisto?
— Só o trânsito de pessoas — respondeu ela, subindo as escadas para o seu quarto.
Ela se jogou na cama e abriu o livro de Farmacologia. Mas, entre as fórmulas de estabilidade de compostos e reações químicas, ela só conseguia pensar em uma única equação: o que acontecia quando uma força imparável como Gustavo Ferreira encontrava um objeto inabalável como ela?
A resposta, ela temia, não estava em nenhum livro. Estava sendo escrita nos corredores da escola, entre olhares roubados e palavras ditas no limiar do silêncio. E, pela primeira vez na vida, Ana Clara não queria pular para o final da história. Ela queria viver cada capítulo, por mais barulhento que ele fosse.