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o impacto

A Ressonância do Invisível

A sexta-feira na escola sempre tinha um peso diferente. Era o dia em que os grupos se solidificavam, os planos para o final de semana eram sussurrados nos corredores e a ansiedade pelo sinal da última aula flutuava no ar como poeira sob a luz do sol. Para Ana Clara, porém, aquela sexta-feira parecia carregar uma voltagem elétrica que ela não sabia como dissipar.

Ela chegou cedo, esperando encontrar a paz da biblioteca antes que o burburinho começasse, mas a imagem de Gustavo Ferreira encostado na parede no dia anterior ainda estava nítida em sua mente. Ele havia quebrado a barreira. Não era mais apenas o "bad boy" marrento do 3B que todos observavam; agora, ele era alguém que tinha confessado compartilhar, de uma maneira torta, a mesma busca pelo silêncio que ela.

— Ana! Terra chamando Ana Clara! — Giovanna Rayssa estalou os dedos na frente do rosto da amiga, despertando-a do transe.

Elas estavam sentadas nos degraus que davam para o pátio central. Gi estava com seu uniforme de futsal por baixo do casaco, pronta para o treino do intervalo.

— Desculpa, Gi. Eu estava... pensando no relatório de química orgânica.

— Mentira — Madu interveio, sentando-se do outro lado de Ana com um brilho malicioso nos olhos. — Você está com aquela cara de quem está tentando resolver um problema de matemática que não faz sentido. Ou seria um problema de "exatas" chamado Gustavo?

Ana sentiu o rosto esquentar instantaneamente.

— Não comecem. Ele só foi... estranho ontem.

— Estranho como? — Gi se inclinou para frente, interessada. — Porque o Luiz me disse que o Gustavo não para de perguntar se você sempre foi assim, "na sua".

— Ele é um provocador, só isso — Ana tentou encerrar o assunto, abrindo sua mochila para pegar o material.

Mas o destino, ou talvez a rotina escolar, tinha outros planos. Do outro lado do pátio, o grupo das Exatas surgiu. Ruan vinha rindo de algo que Luiz dizia, enquanto Leonardo e Victor discutiam sobre algum jogo. No centro deles, Gustavo caminhava com a mesma indiferença de sempre, mas, ao contrário dos outros dias, ele não olhava para o horizonte. Seus olhos percorreram o pátio deliberadamente, como se procurassem um ponto específico.

Quando ele a encontrou, não desviou. Ele não sorriu, mas houve uma mudança quase imperceptível na inclinação de sua cabeça.

— Ih, lá vem o bonde — murmurou Gi. — E o Pietro está vindo da outra direção. Isso vai ser cinematográfico.

De fato, Pietro Pozenato vinha do bloco A, acompanhado de sua irmã Victoria. Ele trazia um pequeno pacote de doces na mão, provavelmente uma tentativa de "suborno" para conseguir a atenção de Ana.

— Oi, Ana! Oi, meninas — disse Pietro, parando em frente aos degraus. — Eu lembrei que você comentou que gosta de bala de goma ácida. Comprei essas na conveniência hoje cedo.

Ana olhou para o pacote e depois para Pietro. Ele era tão transparente, tão óbvio em suas intenções, que ela sentia uma pontada de culpa por não conseguir retribuir nem um décimo daquele interesse.

— Obrigada, Pietro. Não precisava.

— Imagina, eu...

— Ora, se não é o comitê de boas-vindas da Farmácia — a voz de Gustavo cortou o ar, fria e carregada de sarcasmo.

Ele havia parado a poucos metros, com Ruan e Luiz logo atrás. A tensão no pátio subiu instantaneamente. Pietro endureceu a postura, tentando parecer mais alto do que realmente era diante de Gustavo.

— Algum problema, Ferreira? — perguntou Pietro, a voz um pouco mais aguda do que o normal.

Gustavo deu um passo à frente, ignorando Pietro completamente, focando apenas em Ana.

— Nenhum. Só vim avisar que o professor de laboratório está chamando o pessoal da Farmácia mais cedo. Parece que houve um vazamento de algum reagente e precisam evacuar a ala lateral.

Ana levantou-se num pulo, a preocupação profissional sobrepondo-se à timidez.

— O quê? Qual reagente?

Gustavo deu de ombros, um sorrisinho de canto surgindo.

— Não sei. Só ouvi o barulho. Mas, se eu fosse você, não ficaria aqui aceitando doces enquanto suas bancadas correm perigo.

— Ele está brincando, Ana — Luiz disse, revirando os olhos. — Gustavo, para de assustar a menina. Não teve vazamento nenhum.

Ana parou no meio do movimento de colocar a mochila nas costas e olhou para Gustavo com indignação.

— Você é inacreditável.

— E você é fácil demais de provocar — rebateu Gustavo. — Viu como seu coração disparou? Eu consegui ver a pulsação no seu pescoço daqui.

Pietro, sentindo-se excluído da dinâmica, tentou intervir novamente.

— Deixa ela em paz, Gustavo. Por que você não vai cuidar da sua vida no bloco B?

Gustavo finalmente olhou para Pietro, mas foi um olhar de absoluto desdém.

— O pátio é público, Pozenato. E a conversa não chegou no 3A ainda.

— Vamos, Pietro — Victoria, a irmã gêmea, puxou o irmão pelo braço, percebendo que aquela era uma batalha perdida. — A gente se fala depois, Ana.

Quando os gêmeos se afastaram, Ana continuou encarando Gustavo. Madu e Gi trocaram olhares e, com a sabedoria de quem conhece a amiga, inventaram uma desculpa qualquer para se retirarem.

— Vamos ali na cantina, Ana. A gente se vê na sala — disse Madu, arrastando Gi.

Ruan e Luiz também perceberam o clima e resolveram seguir para o campo. Em poucos segundos, um pequeno vácuo de privacidade se formou entre Ana e Gustavo, apesar das dezenas de pessoas ao redor.

— Você gosta de causar confusão, não gosta? — perguntou Ana, cruzando os braços.

— Eu gosto de ver as pessoas como elas são — Gustavo respondeu, aproximando-se mais um passo. — Aquele garoto... ele te sufoca. E você deixa, porque é educada demais para dizer que ele é um tédio.

— Ele é uma boa pessoa, Gustavo. Algo que você parece se esforçar muito para não ser.

— Ser "bonzinho" é fácil quando você não tem nada a dizer. O silêncio que você tem, Ana... não é o mesmo silêncio dele. O dele é vazio. O seu é cheio de coisas que você tem medo de colocar para fora.

Ana sentiu como se ele tivesse acabado de ler uma página do seu diário. Ela odiava o quanto ele parecia enxergar através de suas camadas.

— E o que te faz pensar que você sabe o que tem no meu silêncio?

Gustavo inclinou-se, baixando o tom de voz para que apenas ela ouvisse.

— Porque eu reconheço a frequência. É a mesma da minha moto quando eu estou a cem por hora na estrada à noite. É o som de querer sumir e, ao mesmo tempo, querer ser encontrado por alguém que não faça perguntas idiotas.

Ana ficou sem fala. O barulho do pátio parecia ter desaparecido, restando apenas a intensidade daquele garoto marrento que, por trás da fachada de bad boy, tinha uma percepção assustadoramente aguçada.

Antes que ela pudesse formular uma resposta, uma voz estridente quebrou o momento.

— Gustavo! Você viu onde o Kainan se meteu? — Júlia Lima aproximou-se, mascando chiclete, sem notar — ou fingindo não notar — a proximidade entre os dois.

Gustavo se afastou de Ana com uma lentidão deliberada, como se quisesse mostrar que não estava com pressa de sair dali.

— Não sou babá do seu namorado, Júlia. Pergunta pro Ruan.

Júlia fez um bico, olhou para Ana de cima a baixo com uma ponta de desconfiança e saiu batendo os pés.

— Eu tenho aula — disse Ana, sua voz saindo mais trêmula do que ela gostaria.

— Eu também — Gustavo respondeu. — Mas a proposta de ontem ainda está de pé. Se o barulho ficar demais, eu conheço um lugar atrás da oficina de artes onde ninguém vai.

Ele não esperou por uma resposta. Virou-se e caminhou em direção ao bloco de Exatas, deixando Ana Clara com o coração martelando contra as costelas.

A aula de Farmácia foi um borrão. Ana tentava focar na explicação sobre diluições, mas sua mente voltava para a oficina de artes. No intervalo para o almoço, ela tentou se misturar aos amigos de sempre. Sentou-se com João, seu irmão, e os gêmeos Cauã e Enzo.

— Você está muito quieta hoje, Ana — comentou João, roubando uma batata frita do prato da irmã. — Mais do que o normal.

— Só estou cansada, João. Muitas provas chegando.

— Ouvi dizer que o Gustavo Ferreira andou te cercando de novo no pátio — disse Cauã, o tom de voz mudando para algo mais sério. — Ana, toma cuidado com esse cara. Ele não tem uma reputação muito boa. Dizem que ele se envolveu em briga feia no ano passado e que só não foi expulso porque as notas dele são as mais altas da escola.

— Ele não me fez nada, Cauã — defendeu Ana, surpreendendo-se com a própria prontidão em protegê-lo. — Ele só fala o que pensa.

— Esse é o problema — Enzo interveio. — Pessoas que falam o que pensam costumam causar problemas para quem prefere a paz. E você, Ana, é a definição de paz.

Paz. Era isso que ela sempre quis. Mas, conforme as horas passavam, a "paz" que ela conhecia começou a parecer um pouco... monótona.

No final da tarde, quando a maioria dos alunos já havia ido embora ou estava nos treinos esportivos, Ana decidiu caminhar até a oficina de artes. Era um prédio antigo, meio afastado do resto do campus, usado apenas para aulas eletivas que raramente aconteciam às sextas.

Atrás do prédio, havia uma pequena área com um banco de madeira sob uma árvore de jacarandá. O lugar estava mergulhado em sombras e no som dos pássaros. E lá estava ele.

Gustavo não estava na moto. Estava sentado no chão, encostado no tronco da árvore, com um caderno de desenho no colo. Ele não percebeu a chegada dela de imediato. Ana parou a alguns metros de distância, observando-o. Ele parecia diferente ali. A tensão nos ombros havia sumido, e a expressão dura tinha sido substituída por uma concentração profunda.

Ela deu um passo e um galho seco estalou sob seu pé. Gustavo levantou o olhar rapidamente.

— Você veio — disse ele, fechando o caderno.

— Eu estava curiosa para saber se o silêncio aqui era realmente melhor — mentiu ela, aproximando-se e sentando-se no banco de madeira.

— E então? O que acha?

Ana fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa leve.

— É bom. É real.

— Viu? — Gustavo se levantou e sentou-se na ponta do banco, mantendo uma distância respeitosa, mas ainda assim próxima o suficiente para que ela sentisse sua presença. — Sem Pietro oferecendo doces, sem Izadora destilando veneno, sem Cauã tentando ser seu guarda-costas.

— O Cauã só se preocupa comigo. Ele é meu melhor amigo.

— Ele quer ser mais que isso. Todo mundo quer ser algo para você, Ana. Eu sou o único que não quer nada.

Ana olhou para ele, arqueando uma sobrancelha.

— Nada?

Gustavo sustentou o olhar.

— Nada além de entender como alguém consegue ser tão barulhenta por dentro estando tão calada por fora.

— Eu não sou barulhenta por dentro — ela protestou, embora soubesse que era mentira.

— É sim. Suas mãos nunca param. Você mexe no anel, ajeita o cabelo, aperta a alça da mochila... Você é uma tempestade contida em um frasco de laboratório, Ana Clara. E eu sempre tive curiosidade de ver o que acontece quando o frasco quebra.

A analogia química a atingiu em cheio. Ela sorriu, um sorriso verdadeiro que raramente mostrava para quem não fosse de seu círculo íntimo.

— Se o frasco quebrar, pode haver uma explosão. Ou uma reação exotérmica. Pode ser perigoso.

— Eu gosto de perigo — Gustavo respondeu, a voz baixando para um tom quase confidencial. — Eu passo a vida lidando com coisas previsíveis. Números, cálculos, motores... Eles sempre fazem o que se espera. Você não.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo. Não era o silêncio desconfortável de quem não tem o que dizer, mas um silêncio compartilhado, como se estivessem testando a teoria de que poderiam coexistir sem o ruído do mundo exterior.

— O que você estava desenhando? — perguntou Ana, apontando para o caderno.

Gustavo hesitou por um segundo, algo raro para ele. Ele abriu o caderno e o entregou a ela. Não eram desenhos de pessoas ou paisagens. Eram esboços complexos de peças de motor, engrenagens interligadas com uma precisão matemática, mas desenhadas com uma fluidez artística que as tornava quase orgânicas.

— É o projeto de um motor que eu quero construir. Algo mais eficiente, mais silencioso.

Ana passou os dedos pelas linhas de grafite.

— É lindo, Gustavo. Você tem um talento incrível.

— É só uma forma de organizar a cabeça — ele deu de ombros, mas ela notou que ele parecia satisfeito com o elogio.

— Por que você não mostra isso para os professores? Você poderia conseguir uma bolsa em engenharia mecânica em qualquer lugar.

— Porque aí deixaria de ser meu. Viraria um projeto, uma nota, uma expectativa. Eu odeio expectativas.

— Eu também — confessou Ana. — Todo mundo espera que eu seja a farmacêutica perfeita, a filha quieta, a amiga que nunca reclama. Às vezes, eu só queria gritar no meio do pátio só para ver a cara de todo mundo.

Gustavo riu. Foi uma risada curta, mas genuína.

— Eu pagaria para ver isso. Se você fizer, eu prometo que acelero a moto ao mesmo tempo para o seu grito ter uma trilha sonora.

Ana riu junto, sentindo uma leveza que não experimentava há muito tempo. Por um momento, as divisões entre 3B Exatas e 3B Farmácia não existiam. Não havia ex-namorados apaixonados, amigas invejosas ou pressões sociais. Havia apenas dois jovens que, por caminhos diferentes, haviam chegado ao mesmo ponto de exaustão com o mundo ao seu redor.

O sol começou a se pôr, pintando o céu de tons alaranjados e roxos.

— Eu preciso ir — disse Ana, levantando-se. — Meu irmão deve estar me procurando.

— Ana — Gustavo a chamou quando ela já estava a alguns passos de distância.

Ela se virou.

— Segunda-feira. No intervalo. Não senta com o fã-clube. Vai para a arquibancada de cima do campo. O Ruan e o Luiz vão estar treinando, mas lá em cima... o silêncio é bom.

Ana não respondeu imediatamente. Ela apenas assentiu levemente e continuou seu caminho.

Enquanto caminhava para o estacionamento, ela cruzou com Izadora e Thamires, que estavam saindo de um treino de vôlei.

— Olha só quem vem lá, saindo das sombras — comentou Izadora, com um sorriso venenoso. — Estava escondida, Ana? Ou estava encontrando alguém que não deveria?

Ana Clara parou. Normalmente, ela apenas abaixaria a cabeça e seguiria em frente, deixando o comentário morrer no ar. Mas algo em sua conversa com Gustavo a havia deixado mais corajosa.

— Eu estava aproveitando o silêncio, Izadora. É algo que eu recomendo muito que você tente um dia. Talvez assim você ouça seus próprios pensamentos em vez de apenas o eco da vida dos outros.

Izadora abriu a boca, chocada com a retaliação, mas Ana já havia passado por ela com passos firmes.

Ao chegar em sua moto, Gustavo Ferreira colocou o capacete, mas não deu partida imediatamente. Ele olhou para o caderno de desenho em sua mochila e depois para o caminho por onde Ana havia sumido. Ele sabia que o que estava acontecendo era arriscado. Ele não era o tipo de cara que se envolvia, e Ana Clara era o tipo de garota que exigia uma entrega que ele não tinha certeza se sabia dar.

Mas, pela primeira vez, a ideia de uma reação química imprevisível parecia muito mais interessante do que qualquer fórmula exata.

Naquela noite, Ana Clara não estudou farmacologia. Ela ficou olhando para o teto de seu quarto, ouvindo o som da chuva que voltara a cair. No meio do barulho das gotas no telhado, ela conseguiu encontrar o silêncio que Gustavo havia mencionado. E, naquele silêncio, ela percebeu que a segunda-feira não poderia chegar rápido o suficiente.

A alquimia entre eles havia começado, e nenhum dos dois estava pronto para o que aconteceria quando os elementos finalmente se fundissem por completo. O frasco estava começando a trincar, e a luz que saía das frestas era a coisa mais bonita que Ana já tinha visto.