O justiceiro em bangu city
O Som do Ferro e o Grito da Carne
A fumaça do confronto na vila de Seu Manuel ainda parecia impregnada nos pulmões de Francisco enquanto ele caminhava pelas sombras da Avenida de Santa Cruz. Ele não era um homem de planos complicados; sua estratégia era a da terra arrasada. Entretanto, Bangu tinha uma topografia moral diferente de tudo o que ele já enfrentara. Ali, o crime não se escondia apenas em becos; ele estava infiltrado no transporte, no fornecimento de gás, na internet clandestina e, principalmente, no medo institucionalizado que mantinha as portas trancadas antes mesmo do pôr do sol.
Francisco encontrou abrigo temporário em uma oficina mecânica abandonada nos limites entre Bangu e Realengo. O lugar cheirava a óleo queimado e ferrugem, um aroma que ele achava reconfortante, quase nostálgico. Ele se sentou em um caixote de madeira, a luz da lua filtrando-se pelo telhado de zinco furado, e começou a limpar sua arma. O ritual era meditativo. Cada peça da pistola deslizava com um clique metálico que pontuava o silêncio da madrugada.
Ele sabia que a morte de Cabelo criaria um vácuo. E vácuos na Zona Oeste eram preenchidos com sangue.
Na manhã seguinte, o "forno" de Bangu ligou cedo. Às sete horas, o termômetro de uma farmácia próxima já marcava trinta e dois graus. Francisco, vestindo uma camisa de brim surrada e um boné baixo para ocultar as feições, entrou em um pequeno boteco para tomar um café. O rádio de pilha sobre o balcão transmitia um programa policial local.
— ...e a polícia ainda não tem pistas sobre o paradeiro do 'justiceiro da vila', que deixou dois mortos e três feridos na noite de ontem. Moradores relatam um homem alto, moreno, com treinamento militar. O clima na região é de tensão absoluta, com o transporte alternativo paralisado em sinal de protesto pela morte de um dos líderes da cooperativa... — a voz do locutor era estridente.
O dono do bar, um homem com a pele curtida pelo sol e mãos trêmulas, serviu o café em um copo de vidro americano.
— O senhor é novo por aqui, né? — perguntou o homem, limpando o balcão com um pano encardido.
— De passagem — respondeu Francisco, a voz rouca.
— Pois se eu fosse o senhor, não passava muito devagar. O ninho de marimbondo foi cutucado. O Cabelo era só o braço direito. O dono do circo é o "Major", e esse aí não gosta que mexam nos brinquedos dele.
Francisco tomou um gole do café amargo, sentindo o calor do líquido descer pela garganta.
— Quem é o Major? — perguntou ele, mantendo os olhos fixos na rua.
— Ex-policial. Dizem que ele comanda tudo desde o Jardim Bangu até o Catiri. Ele não manda moleque com trinta e oitinho enferrujado. Ele manda o "bonde do Caveirão".
— Entendo — disse Francisco, deixando uma nota de cinco reais sobre o balcão. — Obrigado pelo café.
Ao sair do bar, Francisco percebeu que estava sendo seguido. Não era um profissional, mas alguém que conhecia bem o terreno. Um garoto, não mais que catorze anos, vinha saltando entre as barracas de fruta, tentando manter a distância. Francisco dobrou uma esquina, entrou em um beco estreito e esperou.
Quando o garoto entrou no beco, foi erguido do chão pela gola da camisa e prensado contra a parede de chapisco.
— Quem te mandou? — rosnou Francisco, o rosto a centímetros do jovem.
O menino arregalou os olhos, as pernas balançando no ar.
— Ninguém, tio! Juro! Eu só... eu vi o que o senhor fez ontem. O senhor quebrou o Bruno. Aquele desgraçado batia na minha mãe toda vez que ela não tinha o dinheiro do gás.
Francisco relaxou o aperto, mas não soltou o garoto completamente.
— Você devia estar na escola, não seguindo homens armados.
— Não tem escola hoje, tio. O Major mandou fechar tudo por causa do luto pelo Cabelo. — O garoto recuperou o fôlego quando Francisco o colocou no chão. — Eles estão procurando o senhor em cada quitinete, cada pensão. Estão revirando a Vila Aliança atrás do "Moreno".
Francisco ajustou o boné. A situação estava escalando mais rápido do que ele previra.
— Qual o seu nome, garoto?
— Beto.
— Beto, se você quer ajudar sua mãe, fique longe de mim. Entenda uma coisa: onde eu vou, o fogo vai atrás.
— Mas eles vão te pegar, tio! Eles têm fuzil, têm carro blindado...
— Deixe que venham — disse Francisco, voltando para a rua principal. — Eu não sou o tipo de homem que foge.
Francisco passou o restante do dia preparando o terreno. Ele não voltaria para a quitinete de Seu Manuel, mas precisava de algo que os atraísse para longe das áreas residenciais. Ele se lembrou de uma antiga fábrica de beneficiamento de couro, abandonada há décadas, situada perto da linha do trem. Era um monstro de concreto e ferro, isolado o suficiente para que o barulho dos tiros não ferisse ouvidos inocentes.
Ele comprou galões de gasolina, arame farpado e pilhas em uma loja de ferragens. No mercado negro da feira, conseguiu dois rádios transmissores sintonizados na frequência da milícia local. O investimento foi alto, mas necessário.
Ao cair da tarde, o céu de Bangu tornou-se de um vermelho sangrento, como se a própria atmosfera estivesse antecipando o que estava por vir. Francisco sentou-se no topo de uma das vigas da fábrica abandonada, observando o movimento através de um binóculo.
Pelo rádio, as vozes começaram a surgir.
— ...atenção, Bonde 1. Informação quente. O alvo foi visto entrando na fábrica de couro velha. Ele tá sozinho. Repito, o Moreno tá na fábrica.
— Positivo, Central. Vamos cercar. O Major quer ele vivo pra descascar na frente de todo mundo no campo do Bangu. Câmbio.
Francisco deu um sorriso sombrio, um movimento de lábios que não envolvia os olhos.
— Venham — sussurrou ele.
Cerca de vinte minutos depois, o som de motores potentes rompeu o silêncio da zona industrial. Três picapes cabine dupla e um SUV preto cercaram o perímetro da fábrica. Homens armados com fuzis 5.56 e coletes à prova de balas saltaram dos veículos com a confiança de quem se sentia dono do estado.
No centro do grupo, um homem de meia-idade, com cabelos curtos grisalhos e uma postura ereta de militar, saiu do SUV. Era o Major. Ele carregava uma escopeta calibre 12 e um charuto apagado no canto da boca.
— Sai daí, seu merda! — gritou o Major, sua voz ecoando nas paredes de concreto. — Você matou meus homens, atrapalhou meu negócio e agora acha que pode se esconder em um buraco? Eu vou queimar esse lugar com você dentro se eu tiver que contar até dez!
Francisco não respondeu com palavras. Ele acionou o primeiro interruptor.
Uma série de pequenas explosões de gasolina, posicionadas estrategicamente nos portões de saída, criou uma cortina de fogo instantânea. Os milicianos recuaram, surpresos.
— Atirem em tudo que se mover! — ordenou o Major, perdendo a calma.
O tiroteio começou. Uma chuva de chumbo varreu o primeiro andar da fábrica, estilhaçando o que restava das janelas e levantando nuvens de poeira. Francisco, porém, não estava no primeiro andar. Ele se movia pelas passarelas superiores, um predador no seu habitat natural.
Ele abateu o primeiro atirador com um único disparo na cabeça. O homem caiu da caçamba da picape como um saco de batatas. Antes que os outros pudessem localizar a origem do tiro, Francisco já havia mudado de posição.
— Ele tá no alto! — gritou um dos milicianos.
Francisco lançou um frasco de coquetel molotov na direção do SUV do Major. O veículo explodiu em chamas, forçando o líder a se jogar atrás de um pilar de concreto.
— Você é um homem morto! — berrou o Major, disparando sua escopeta para o alto. — Você não sabe quem eu sou! Eu sou o dono dessa porra de bairro!
— Você é apenas um ladrão com farda velha — a voz de Francisco ecoou de algum lugar acima deles, amplificada pela acústica da fábrica. — E o seu tempo de cobrança chegou.
A batalha transformou-se em um jogo de gato e rato nas sombras. Francisco usava o ambiente a seu favor, derrubando um por um. Ele não era apenas um atirador; ele era um engenheiro da dor. Um dos milicianos gritou quando seu pé ficou preso em um laço de arame farpado escondido sob o entulho, sendo puxado para cima por um sistema de contrapeso que Francisco instalara.
— Por favor, não! — gritou o homem, pendurado de cabeça para baixo.
Francisco não teve piedade. Um disparo seco silenciou o apelo.
Restavam apenas o Major e dois de seus guardas mais leais. Eles estavam acuados perto da antiga caldeira. O calor dentro da fábrica era agora insuportável, alimentado pelo incêndio nos portões e pelo clima de Bangu.
— Aparece, seu covarde! — o Major estava suando, o rosto vermelho de raiva e medo. — Luta como homem!
Francisco desceu de uma corda, caindo silenciosamente atrás dos dois guardas. Antes que eles pudessem virar, ele usou uma faca de combate para cortar a garganta do primeiro e disparou à queima-roupa no peito do segundo.
O Major girou a escopeta, mas Francisco foi mais rápido. Ele chutou a arma da mão do homem e desferiu um soco potente no plexo solar, derrubando o ex-policial.
Francisco ficou de pé sobre ele, a pistola apontada para a testa do Major. O cheiro de couro queimado e sangue era sufocante.
— Quem... quem mandou você? — arquejou o Major, cuspindo sangue. — Foi o pessoal da milícia de Campo Grande? O tráfico da Penha?
— Ninguém me mandou — disse Francisco, sua voz fria como o gelo que não existia naquele bairro. — Eu moro aqui agora. E eu não gosto de vizinhos barulhentos.
— Você acha que me matando vai resolver alguma coisa? — o Major riu, uma risada desesperada. — Existem centenas como eu. Bangu vai te engolir, rapaz. Você é só um homem.
— Eu sou a punição — corrigiu Francisco.
O som do disparo final foi abafado por uma nova explosão nos tanques de óleo nos fundos da fábrica. Francisco não olhou para trás. Ele caminhou calmamente em direção à saída lateral, enquanto a estrutura da fábrica começava a ceder sob o calor intenso.
Lá fora, a noite de Bangu continuava sua rotina. O som dos tiros fora confundido por muitos com fogos de artifício ou escapamentos de motos. Francisco desapareceu nas ruelas, o boné escondendo novamente seus olhos.
Ele voltou para a oficina mecânica, pegou sua mochila e começou a caminhar. Ele sabia que a polícia logo estaria no local, e que outros nomes surgiriam para tentar ocupar o lugar do Major. Mas agora, eles saberiam.
Bangu tinha um novo morador. E ele não aceitava suborno, não sentia medo e, acima de tudo, não perdoava.
Ao longe, o sol começava a ameaçar o horizonte novamente. Mais um dia de calor extremo estava por vir. Francisco Castelo sentiu o suor escorrer, mas desta vez, ele não o incomodava. Era o batismo necessário para o que viria a seguir.
A guerra pela Zona Oeste estava apenas em seu prefácio. E o Justiceiro ainda tinha muita munição.