O justiceiro em bangu city
O Altar de Zinco e a Dança das Sombras
O calor de Bangu não era apenas uma condição climática; era um estado de espírito que moía os homens até que restasse apenas o osso e a fúria. Francisco Castelo sentia o asfalto ainda quente sob a sola das botas, mesmo sendo três da manhã. O incêndio na fábrica de couro já era apenas uma coluna de fumaça negra contra o céu estrelado, mas o cheiro de carne queimada e borracha parecia ter grudado em seus poros. Ele não era ingênuo. Sabia que, ao derrubar o Major, ele não havia libertado o bairro. Ele havia apenas removido a tampa de uma panela de pressão prestes a explodir.
Ele caminhava por um trecho desolado da Estrada do Engenho, mantendo-se rente aos muros pichados. Seus sentidos estavam em hiperatividade. O farol de uma moto ao longe o fez deslizar para o vão entre dois contêineres de lixo. Ele esperou, a mão repousando sobre a coronha da pistola, até que o som do motor se dissipasse. Francisco não temia a morte, mas desprezava a imprudência. Ele precisava de um novo local, uma base de onde pudesse operar sem colocar civis como Dona Zuleide ou o pequeno Beto na linha de fogo.
Foi quando ele viu o letreiro de neon quebrado, piscando em um rosa anêmico: "Academia de Boxe Punhos de Aço – Fundada em 1982". O prédio era um sobrado de arquitetura brutalista, com janelas protegidas por grades grossas e uma porta de ferro que parecia ter sobrevivido a um bombardeio. Francisco forçou a fechadura lateral com uma técnica que aprendera em unidades de elite que oficialmente não existiam. O interior era vasto e cheirava a suor antigo, couro curtido e desinfetante. Sacos de pancada pendiam do teto como corpos executados, balançando levemente com a corrente de ar que entrava pela claraboia quebrada.
— Quem tá aí? — Uma voz ríspida, envelhecida pelo tabaco, cortou a escuridão.
Francisco não se moveu. Ele deixou que seus olhos se ajustassem. No fundo do salão, sentado em um banco de madeira perto do ringue central, estava um homem negro, de ombros largos mas curvados pela idade, com as mãos enfaixadas.
— Só procurando um lugar para descansar — respondeu Francisco, saindo das sombras.
O velho estreitou os olhos. Ele viu a camisa manchada de fuligem de Francisco, a postura de quem carrega o mundo nas costas e o volume inconfundível da arma sob o braço.
— Você é o cara da fábrica — disse o velho, não como uma pergunta, mas como uma constatação. — O que fez o Major virar churrasco.
— Ele teve o que merecia — limitou-se a dizer Francisco.
— Merecer é uma palavra forte por aqui, rapaz. Sou o mestre Gerson. Eu treino garotos para que eles não virem o que o Major era. E você... você parece o tipo de homem que treina para que homens como o Major deixem de existir.
— Algo assim.
Gerson levantou-se com dificuldade, os joelhos estalando. Ele apontou para uma escada de ferro nos fundos.
— Tem um mezanino lá em cima. Tem um colchão velho e uma torneira que funciona. Se a polícia ou os ratos da milícia vierem bater na minha porta, eu digo que não vi nada. Mas não traga a guerra para dentro do meu ringue. Aqui é lugar de disciplina, não de massacre.
— Obrigado, Gerson — disse Francisco, subindo os degraus.
— Não me agradeça ainda. O Major era um cão raivoso, mas ele tinha donos. E os donos dele moram em condomínios fechados na Barra da Tijuca. Eles não vão gostar de ver o lucro de Bangu diminuir.
Francisco não respondeu. Ele subiu para o mezanino, jogou sua mochila no chão e sentou-se no colchão. Ele não dormiu. Ele desmontou sua arma, limpou-a peça por peça e recarregou os pentes. Sua mente era um mapa tático. Ele precisava entender a estrutura financeira que sustentava a milícia. O Major era o braço, mas quem era o cérebro?
Ao amanhecer, o calor voltou a castigar o telhado de zinco da academia. Francisco ouvia o som rítmico de Gerson batendo no saco de pancadas lá embaixo. "Tum, tum, tum-tum". Era o coração de Bangu batendo. Francisco desceu, já vestido com uma camiseta limpa e calças cargo.
— Preciso de informações — disse Francisco, aproximando-se do ringue.
Gerson parou de bater e limpou o suor da testa com o antebraço.
— Informação custa caro. E não estou falando de dinheiro.
— Eu sei o preço — afirmou Francisco. — Quem herdou o caderno de anotações do Major?
Gerson suspirou, sentando-se nas cordas do ringue.
— O Major era organizado. Ele tinha um contador. Um sujeito chamado Valdir "Calculadora". Ele opera nos fundos de uma agência de carros usados perto do Calçadão. Se você quer saber para onde o dinheiro flui, Valdir é o caminho. Mas aviso logo: ele é protegido pelo que sobrou do bonde. Eles estão em alerta máximo.
Francisco assentiu e caminhou em direção à porta.
— Francisco — chamou Gerson.
Ele parou, a mão na maçaneta de ferro.
— Não se perca no sangue. Bangu já tem fantasmas demais.
— Os fantasmas não me incomodam, Gerson. É com os vivos que eu me preocupo.
O Calçadão de Bangu era um mar de gente. O calor de meio-dia transformava o ar em uma massa trêmula sobre o asfalto. Francisco se misturava à multidão de trabalhadores, camelôs e compradores. Ele localizou a agência de carros: "Real Veículos". O lugar era uma fachada óbvia; carros populares com preços exorbitantes e homens de óculos escuros postados estrategicamente na entrada.
Francisco deu a volta no quarteirão. Ele não entraria pela frente. Nos fundos, havia um beco que servia de depósito de pneus. Ele escalou o muro com a agilidade de um felino, caindo silenciosamente sobre uma pilha de borracha. Havia dois guardas jogando cartas em uma mesa de plástico perto da porta dos fundos.
— ...eu tô te falando, o cara é um fantasma — dizia um dos guardas, um sujeito gordo com uma pistola niquelada na cintura. — O Major não teve nem chance. O cara usou tática de guerrilha, irmão.
— Fantasmas não sangram — respondeu o outro, mais jovem e nervoso. — Se ele aparecer aqui, eu descarrego o pente.
Francisco surgiu das sombras entre os pneus. Antes que o guarda jovem pudesse levantar a arma, Francisco desferiu um golpe de faca na mão do rapaz, desarmando-o instantaneamente. Com o outro braço, ele envolveu o pescoço do guarda gordo em um mata-leão técnico.
— Silêncio — sussurrou Francisco no ouvido do homem que lutava por ar. — Onde está o Valdir?
O guarda gordo tentou alcançar a arma, mas Francisco apertou mais, sentindo a resistência diminuir até que o homem desmaiasse. O jovem, segurando a mão sangrando, olhava para Francisco com puro terror.
— Ele tá na sala blindada... lá no fundo... por favor, não me mata!
Francisco nocauteou o rapaz com um golpe seco na têmpora. Ele não matava por prazer; matava por necessidade. Ele seguiu pelo corredor estreito, o cheiro de gasolina e café ruim impregnando o ambiente. No final, uma porta de aço com um teclado numérico.
Ele não tinha a senha, mas tinha C4 plástico na mochila.
A explosão foi controlada, apenas o suficiente para arrancar a fechadura e empenar as dobradiças. Francisco entrou na sala antes que a poeira baixasse. Valdir "Calculadora" era um homem pequeno, de óculos de grau grosso, que tentava desesperadamente destruir um laptop contra a quina da mesa.
— Pare — ordenou Francisco, a pistola apontada para o centro da testa de Valdir.
Valdir congelou. O suor escorria por seu rosto, embaçando as lentes dos óculos.
— Eu sou só o contador... eu não faço as regras... — gaguejou ele.
— Mas você sabe quem as faz — disse Francisco, aproximando-se e pegando o laptop das mãos trêmulas do homem. — Para quem o Major mandava os relatórios semanais?
— Eu não posso falar... eles matam minha família...
Francisco guardou a arma e pegou Valdir pelo colarinho, levantando-o da cadeira. Ele o levou até a janela que dava para o pátio da agência.
— Olhe lá fora, Valdir. O Major achava que era dono do mundo. Agora ele é cinza. Sua família corre mais perigo com eles do que comigo. Comigo, você tem uma chance de sair vivo desta sala.
Valdir olhou para os olhos de Francisco e viu algo que o assustou mais do que a milícia: uma ausência total de dúvida.
— É um grupo chamado "Conselho de Administração" — confessou Valdir, a voz falhando. — Políticos, ex-coronéis... eles lavam o dinheiro através de uma empresa de logística no Porto do Rio. O próximo carregamento de armas e dinheiro do "imposto" de Bangu sai hoje à noite, num galpão perto da linha do trem em Deodoro.
— Nomes, Valdir. Eu quero nomes.
— Está tudo no drive criptografado. A senha é o aniversário da filha do Major. 1205.
Francisco soltou o contador. Ele pegou o laptop e um pendrive que estava sobre a mesa.
— Saia da cidade, Valdir. Agora. Se eu te vir em Bangu amanhã, não haverá conversa.
Valdir não esperou. Ele saiu correndo pela porta dos fundos, desaparecendo no beco. Francisco sabia que tinha pouco tempo. O alarme da agência começara a tocar e ele podia ouvir o som de pneus cantando na rua da frente.
Ele saiu pelos fundos, correndo entre os carros estacionados. Quando chegou à rua lateral, uma picape preta tentou bloqueá-lo. Francisco não parou. Ele disparou contra o para-brisa, obrigando o motorista a desviar, e saltou para dentro de um ônibus que passava no exato momento, misturando-se aos passageiros assustados.
Horas depois, de volta ao mezanino da academia de Gerson, Francisco analisava os dados no laptop. O que ele encontrou era pior do que imaginava. A milícia de Bangu era apenas uma engrenagem de uma máquina que se estendia por todo o estado. O dinheiro extorquido dos comerciantes locais financiava campanhas políticas e comprava fuzis que voltavam para as mãos dos milicianos. Era um ciclo perfeito de miséria e lucro.
— Você parece ter encontrado o que procurava — disse Gerson, subindo as escadas com duas garrafas de água gelada.
— Encontrei o ninho — respondeu Francisco, pegando a água. — Eles vão enviar um comboio hoje à noite. Armas e dinheiro. É a espinha dorsal da operação na Zona Oeste.
— Deodoro é território perigoso, rapaz. É terra de ninguém. Se você for lá sozinho, é suicídio.
Francisco olhou para suas mãos, as juntas dos dedos calejadas e marcadas.
— Eu morri há muito tempo, Gerson. O que você vê aqui é apenas o que sobrou para fazer o trabalho sujo.
Gerson sentou-se no chão, suspirando.
— Sabe, eu treinei muitos garotos que achavam que podiam mudar o mundo com os punhos. A maioria acabou em um caixão de compensado. Mas você... você não está tentando mudar o mundo. Você está tentando puni-lo.
— O mundo precisa de exemplos, Gerson. O Major era um exemplo do que acontece com quem abusa dos fracos. O comboio de hoje será um exemplo do que acontece com quem financia o crime.
Francisco começou a se preparar. Ele vestiu sua camisa preta de combate, ajustou o colete balístico e verificou suas granadas de fumaça. Ele pegou um spray de tinta branca que encontrara no depósito da academia. Com movimentos precisos, ele desenhou algo no peito do colete. Não era um símbolo de esperança. Era uma caveira estilizada, branca, crua, um aviso para aqueles que operavam nas sombras.
— O que é isso? — perguntou Gerson, apontando para o desenho.
— É a última coisa que eles vão ver — respondeu Francisco.
A noite em Deodoro era densa e úmida. O som dos trens de carga passando criava uma sinfonia industrial que mascarava os movimentos de Francisco. Ele estava posicionado no alto de um silo de grãos desativado, observando o galpão da "Logística Sudeste".
Três caminhões de pequeno porte estavam sendo carregados. Homens com fuzis de última geração patrulhavam o perímetro. Não eram moleques de chinelo; eram mercenários treinados, provavelmente ex-militares.
Francisco desceu por um cabo de aço, caindo silenciosamente sobre o teto de um dos caminhões. Ele plantou uma carga explosiva no eixo traseiro e moveu-se para o próximo. Seu objetivo não era apenas destruir o carregamento, mas enviar uma mensagem que ecoaria até os escritórios luxuosos da Barra da Tijuca.
— Tem alguém no teto do dois! — gritou um sentinela.
O inferno se desencadeou.
Francisco saltou do caminhão enquanto as balas começavam a rasgar a lataria. No ar, ele disparou sua submetralhadora, atingindo dois guardas antes de tocar o solo. Ele rolou por baixo de uma carreta e acionou o detonador.
A explosão iluminou a noite de Deodoro como um segundo sol. O caminhão carregado de munição começou a estourar em uma série de detonações secundárias, criando um caos de estilhaços e fogo.
— Matem ele! — gritava um homem vestido com um terno caro, provavelmente o supervisor do "Conselho".
Francisco surgiu por entre as chamas, a caveira branca em seu peito brilhando sob a luz do incêndio. Ele se movia com uma fúria calculada. Cada disparo era uma sentença. Ele não buscava cobertura; ele avançava, uma força da natureza imparável.
Os mercenários, tomados por um terror instintivo diante daquela figura espectral que não parecia sentir dor ou medo, começaram a recuar. Francisco abateu o supervisor com um tiro certeiro no joelho, aproximando-se enquanto o homem gritava no chão.
— Quem são os outros? — perguntou Francisco, a voz abafada pela máscara tática.
— Você não tem ideia... você mexeu com gente poderosa... você está morto, seu animal!
Francisco olhou para o galpão em chamas, para as armas destruídas e para o dinheiro que agora voava como cinzas pelo ar de Deodoro.
— Diga a eles que Bangu mudou de gerência — disse Francisco. — Diga que eu estou indo buscá-los. Um por um.
Ele deixou o homem vivo para contar a história. O medo era uma ferramenta mais poderosa do que a morte.
Enquanto as sirenes da polícia e dos bombeiros começavam a soar ao longe, Francisco Castelo caminhava de volta para as sombras. Ele sentia o calor de Bangu, mas agora era o calor da vitória temporária. Ele sabia que a guerra estava longe de acabar, que o "Conselho" enviaria mais homens, mais armas, mais ódio.
Mas ele estava pronto. Ele era o produto daquela violência, o reflexo sombrio de um sistema quebrado.
Ao chegar à academia de Gerson, o sol já começava a despontar. Ele subiu para o mezanino, tirou o colete manchado de sangue e pólvora e olhou-se no espelho quebrado. O homem de cabelos castanhos e olhos profundos ainda estava lá, mas Francisco Castelo estava desaparecendo, dando lugar a algo mais permanente, algo que Bangu nunca esqueceria.
Ele deitou-se no colchão, fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio em sua mente foi absoluto. A punição havia sido entregue. Por hoje, a conta estava paga. Mas o amanhã em Bangu sempre prometia mais calor. E Francisco estaria lá para queimar junto com ele.