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O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro

Ecos de um Passado em Chamas

A luz da lua que filtrava pelas janelas do corredor da U.A. parecia mais fria do que o habitual. Erick Afton caminhava com uma calma que beirava o sobrenatural. Seus passos não produziam som, um hábito que ele herdara não apenas do treinamento de herói, mas da necessidade de se mover como uma sombra dentro de uma família onde o perigo sempre espreitava atrás de portas fechadas. Ele sentia o peso do sobrenome Afton em seus ombros, mas, ao contrário de seu pai, Shota, ele não permitia que esse peso o esmagasse; ele o usava como armadura.

Ele parou diante da porta de Hizashi Yamada. O coração de Erick bateu um pouco mais forte, não por medo de ser pego, mas pela antecipação do refúgio que encontraria ali. Ele sabia que Shota estava em patrulha noturna, o que lhe dava a liberdade necessária. Ao girar a maçaneta, que já não era mais trancada para ele, Erick entrou no santuário de Hizashi.

O quarto estava mergulhado em uma penumbra suave, iluminado apenas por um abajur de luz quente sobre a mesa de cabeceira. Hizashi estava sentado na cama, os cabelos loiros soltos e desgrenhados caindo sobre os ombros, uma imagem de vulnerabilidade que ele jamais permitiria que o mundo visse. Quando seus olhos verdes encontraram os de Erick, um suspiro de alívio escapou de seus lábios.

— Você veio — sussurrou Hizashi, a voz rouca e desprovida de sua habitual projeção sônica. — Eu tive outro pesadelo, Erick. O mesmo de sempre. O sorriso do seu tio... o frio daquela lâmina.

Erick aproximou-se rapidamente e sentou-se ao lado dele, envolvendo-o em um abraço possessivo e protetor. Ele sentiu Hizashi tremer sob seu toque, aninhando-se em seu peito como se Erick fosse a única coisa sólida em um mundo de fantasmas.

— Ele não pode mais te tocar, Zashi — afirmou Erick, sua voz grossa vibrando contra o topo da cabeça do loiro. — Eu já te disse. Se o William ousar aparecer novamente, eu vou terminar o que ele começou. Eu não sou como o meu pai. Eu não vou te deixar sozinho com a sua dor.

Hizashi levantou o rosto, olhando para Erick com uma mistura de adoração e tristeza. Ele traçou a linha do maxilar do rapaz, notando as semelhanças físicas com Shota, mas a diferença abismal no olhar. Onde Shota oferecia apatia e distanciamento, Erick oferecia um fogo que o consumia e o aquecia ao mesmo tempo.

— Às vezes eu me sinto um traidor — confessou Hizashi, as lágrimas brilhando nos cantos dos olhos. — Eu amei o Shota por tanto tempo, mas ele me descartou como se o meu trauma fosse um fardo pesado demais para ele carregar. E agora... agora eu estou aqui, nos braços do filho dele, sentindo coisas que me fazem sentir mais vivo do que nunca.

— Você não deve nada a ele — Erick disse com firmeza, segurando o rosto de Hizashi com ambas as mãos. — Shota escolheu o silêncio e o isolamento. Ele escolheu ser Vincent Afton em vez de ser o homem que você precisava. Eu escolhi você. Desde o momento em que te protegi daquele ataque, eu escolhi ser o seu porto seguro.

Erick inclinou-se e selou seus lábios nos de Hizashi. O beijo foi lento, carregado de uma possessividade que deixava claro quem detinha o controle naquela relação. Hizashi entregou-se completamente, suas mãos agarrando a camiseta de Erick como se sua vida dependesse disso. Ele amava como Erick o tratava — com uma mistura de adoração e uma dominância que o fazia se sentir cuidado, valorizado e, acima de tudo, desejado como a pessoa que ele realmente era.

— Trate-me como sua, Erick — murmurou Hizashi entre os beijos, sua respiração falhando. — Faça-me esquecer que amanhã tenho que ser o Present Mic. Faça-me esquecer que sou seu professor.

Erick sorriu, um sorriso sombrio que carregava a herança dos Afton, mas temperado por um amor profundo.

— Você já é minha, Zashi. E ninguém neste colégio, nem mesmo o meu pai, vai mudar isso.

Enquanto o clima no quarto se tornava mais denso, um barulho metálico ecoou no corredor, vindo da direção dos elevadores. Erick congelou instantaneamente, seus sentidos aguçados captando o ritmo dos passos. Eram passos pesados, cansados e rítmicos.

— Shota — sussurrou Erick, levantando-se da cama com a agilidade de um predador.

Hizashi empalideceu, puxando o cobertor para cobrir o corpo trêmulo.

— Ele não deveria voltar tão cedo! A patrulha dele só termina às quatro da manhã!

— Fique calmo — ordenou Erick, a voz baixa e autoritária. — Não faça barulho. Eu vou sair pela janela.

Erick moveu-se com uma precisão cirúrgica. Ele abriu a janela de vidro, sentindo o ar gelado da noite entrar no quarto. Antes de sair, ele olhou uma última vez para Hizashi, que o observava com olhos arregalados de medo.

— Eu te amo — sussurrou Erick, antes de desaparecer na escuridão, escalando a parede externa com uma facilidade que desafiava a gravidade.

Hizashi respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Ele mal teve tempo de se ajeitar quando ouviu duas batidas secas na porta.

— Yamada? — A voz de Shota Aizawa era monótona, mas carregava um tom de suspeita que fez Hizashi estremecer. — Eu vi uma sombra perto da sua janela lá de baixo. Você está bem?

Hizashi caminhou até a porta, abrindo-a apenas uma fresta. Shota estava parado ali, o cachecol de captura em volta do pescoço e os olhos vermelhos de cansaço. Ele parecia mais velho do que realmente era, uma casca do homem que Hizashi um dia conhecera.

— Eu estou bem, Shota — respondeu Hizashi, forçando um sorriso que não chegava aos olhos. — Deve ter sido apenas um gato de rua ou algum efeito da luz. Eu estava apenas tentando dormir.

Shota estreitou os olhos, seu olhar percorrendo o quarto por cima do ombro de Hizashi. Ele parou por um segundo na janela aberta.

— Está frio para deixar a janela aberta, não acha? Especialmente com os seus pulmões.

— Eu precisava de ar fresco — mentiu Hizashi, sentindo o suor frio escorrer por suas costas. — O quarto estava abafado.

Shota suspirou, um som carregado de uma exaustão que ia além do físico.

— Você tem agido de forma estranha, Hizashi. Mais do que o normal após... o incidente com o meu irmão. E o Erick também. Ele está mais desafiador nos treinos.

— Ele é um jovem, Shota. Ele está crescendo e encontrando o próprio caminho. Você deveria ter mais orgulho dele em vez de tratá-lo como um suspeito.

Shota não respondeu de imediato. Ele apenas observou Hizashi por um longo momento, um silêncio desconfortável que parecia durar uma eternidade.

— Apenas tome cuidado — disse Shota, finalmente, virando as costas. — A U.A. não é tão segura quanto Nezu gosta de pensar. E eu não quero ter que lidar com mais traumas nesta família.

Hizashi fechou a porta e encostou-se nela, deslizando até o chão. Suas mãos tremiam violentamente. Ele sabia que estavam vivendo no fio da navalha. O relacionamento com Erick era proibido, perigoso e, se descoberto, destruiria a carreira de ambos e a pouca estabilidade que restava na linhagem Afton. Mas, ao mesmo tempo, era a única coisa que o mantinha são.

No dia seguinte, a atmosfera na sala de aula da 1-A estava carregada. Erick Afton estava sentado em sua mesa, o rosto inexpressivo, observando Hizashi dar a aula de inglês com sua habitual energia explosiva. Ninguém suspeitava que, sob aquela fachada de professor e aluno, existia um vínculo forjado em segredos e proteção possessiva.

Durante o intervalo, Erick encontrou seu primo, Michael Schmidt Afton, em um dos corredores mais afastados. Michael, que também carregava as cicatrizes do passado, olhou para Erick com um sorriso cínico.

— Você está brincando com fogo, primo — disse Michael, encostado na parede com os braços cruzados. — Eu vi você saindo do prédio dos professores hoje cedo. Vincent vai descobrir. E você sabe como ele reage quando sente que perdeu o controle sobre algo.

— Shota não tem controle sobre mim há muito tempo, Michael — respondeu Erick, aproximando-se do primo. — Ele perdeu o direito de opinar sobre a minha vida quando desistiu do Zashi. Ele prefere viver como um morto-vivo. Eu não vou deixar o Hizashi definhar ao lado dele.

— O problema não é o Shota — Michael baixou a voz, seu tom tornando-se sério. — Eu recebi notícias. O "velho" foi visto perto da fronteira da cidade. William está voltando, Erick. E se ele descobrir que você está com o Hizashi... ele vai usar isso para destruir o que resta da nossa linhagem.

Erick sentiu uma onda de fúria percorrer seu corpo. A simples menção ao tio fazia sua energia pulsar de forma instável.

— Que ele venha — disse Erick, os olhos brilhando com uma determinação sombria. — Eu não sou mais a criança que ele tentou escopetar. Se ele encostar um dedo no Hizashi, eu vou mostrar a ele por que eu sou o verdadeiro herdeiro do nome Afton.

Michael deu de ombros, embora houvesse um lampejo de preocupação em seus olhos.

— Apenas não deixe o seu desejo de proteção cegar você. O amor é uma fraqueza que o William sabe explorar muito bem.

Erick não respondeu. Ele virou as costas e caminhou em direção à sala de rádio, onde sabia que Hizashi estaria preparando o programa da tarde. Ao entrar na cabine, ele encontrou Hizashi ajustando os controles, com uma expressão distraída e preocupada.

— O que foi? — perguntou Erick, fechando a porta e trancando-a.

Hizashi sobressaltou-se, mas relaxou ao ver que era Erick.

— O Shota... ele me parou hoje no corredor. Ele disse que o Michael tem passado muito tempo com você e que ele não gosta da influência que vocês exercem um no outro. Ele acha que vocês estão tramando algo.

Erick caminhou até ele e o puxou para um abraço firme, sentando-se na cadeira do locutor e trazendo Hizashi para o seu colo. Ele adorava como Hizashi se encaixava perfeitamente ali, como se tivesse sido feito para ser protegido por ele.

— Shota está apenas paranoico porque sente que está perdendo o controle — disse Erick, acariciando os cabelos loiros de Hizashi. — Ele não sabe de nada. E o Michael está do nosso lado. Ele odeia o William tanto quanto nós.

Hizashi suspirou, encostando a cabeça no ombro de Erick.

— Eu só quero que isso acabe, Erick. Eu quero poder estar com você sem ter que me esconder nas sombras. Sem ter medo de que o seu pai ou o seu tio apareçam a qualquer momento.

— Vai acabar — prometeu Erick, beijando o pescoço de Hizashi, sentindo o arrepio que percorreu o corpo do loiro. — Eu vou cuidar do William. E quanto ao Shota... ele terá que aceitar a realidade, cedo ou tarde. Mas, por enquanto, você é meu. Só meu.

Hizashi sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto. Ele adorava quando Erick agia de forma possessiva. Fazia-o sentir-se importante, como se fosse o tesouro mais valioso do mundo.

— Trate-me como sua mulher, Erick — sussurrou Hizashi, as mãos subindo pelo peito do rapaz. — Faça-me esquecer o mundo lá fora por apenas alguns minutos.

Erick não precisou de um segundo convite. Ele silenciou os microfones da cabine e focou toda a sua atenção no homem em seu colo. Ali, naquele espaço reduzido e cercado de tecnologia, eles criaram seu próprio universo, onde as regras da U.A. e o legado sombrio dos Afton não podiam alcançá-los.

No entanto, do lado de fora da cabine, nas sombras do corredor, um par de olhos observava a porta trancada. Não era Shota, nem Michael. Era uma figura alta, com um sorriso distorcido e uma aura de pura maldade. William Afton observava o estúdio de rádio com um brilho maníaco nos olhos.

— Então é aqui que você se esconde, Hizashi — sussurrou William para si mesmo, sua voz como o arranhar de metal em vidro. — E com o meu próprio sobrinho... Que reviravolta deliciosa. Vincent vai ficar devastado ao saber que o filho dele está colhendo os frutos que ele mesmo plantou.

William desapareceu nas sombras antes que qualquer sensor de segurança pudesse detectá-lo. Ele tinha o que precisava. O jogo estava apenas começando, e ele pretendia usar aquele amor proibido para destruir tudo o que Shota e Erick tentavam proteger.

Dentro da cabine, Erick sentiu um calafrio repentino. Ele apertou Hizashi contra si, seus instintos gritando que algo estava errado.

— O que foi? — perguntou Hizashi, notando a mudança na postura de Erick.

— Nada — mentiu Erick, embora seus olhos estivessem fixos na porta. — Apenas uma sensação passageira. Eu não vou deixar nada acontecer com você, Zashi. Eu prometo.

Hizashi acreditou nele. Ele queria acreditar. Mas, no fundo, ambos sabiam que a paz que haviam encontrado era frágil e que a tempestade que se aproximava seria capaz de destruir tudo o que eles construíram.

Enquanto a tarde caía sobre a U.A., Shota Aizawa estava sentado em seu escritório, olhando para uma foto antiga da família. Ele sentia o peso do fracasso em seu peito. Ele sabia que algo estava acontecendo entre seu filho e seu ex-parceiro, mas a apatia que o consumia o impedia de agir. Ele preferia fechar os olhos e fingir que tudo estava bem, mesmo sabendo que o legado dos Afton estava prestes a cobrar sua dívida mais cara.

Erick e Hizashi, no entanto, não estavam dispostos a ser vítimas do destino. Eles lutariam, se esconderiam e amariam nas sombras, até que não restasse mais nada além deles dois. O amor proibido entre o aluno e o professor, entre o protetor e o protegido, era a única verdade que importava em meio a tantas mentiras e traumas.

— Você é meu — repetiu Erick, enquanto ajudava Hizashi a se recompor.

— Para sempre — respondeu Hizashi, selando a promessa com um beijo.

A sinfonia proibida continuava a tocar, e embora o maestro fosse o destino cruel dos Afton, Erick estava determinado a mudar o final daquela música. Ele não seria apenas mais um Afton quebrado; ele seria aquele que quebraria o ciclo, protegendo o homem que amava, custasse o que custasse. E Hizashi, em sua vulnerabilidade e amor, seria a luz que guiaria Erick através da escuridão que ameaçava consumi-los. O segredo deles estava seguro... por enquanto. Mas o eco dos gritos silenciados do passado estava prestes a se tornar um rugido impossível de ignorar.