O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro
Sussurros de Veludo e Ferro
O ar nos corredores da U.A. durante a madrugada possuía uma textura diferente, algo que Erick Afton conseguia sentir na ponta dos dedos. Não era apenas o silêncio institucional de uma escola de heróis; era a eletricidade estática de segredos que borbulhavam sob a superfície. Erick caminhava com passos calculados, sua silhueta fundindo-se às sombras com uma facilidade que faria seu pai, Shota Aizawa — ou Vincent, como o passado o chamava —, sentir um misto de orgulho e inquietação.
Ele não era apenas o filho de Vincent Afton; ele era o resultado de uma linhagem que brincava com a vida e a morte. O incidente do escopetamento que sofrera ao lado de Michael não apenas alterara seu corpo, mas refinara sua percepção. Ele sentia o cheiro do medo, da luxúria e, acima de tudo, da negligência.
Ao chegar à porta dos aposentos de Hizashi Yamada, Erick não hesitou. Ele girou a maçaneta e entrou, fechando a porta com um clique surdo que parecia isolar o resto do universo. O quarto estava mergulhado em uma penumbra acolhedora, iluminada apenas pelo brilho suave de uma luminária e pelo reflexo da lua que atravessava as cortinas entreabertas.
Hizashi estava sentado na beira da cama, vestindo um robe de seda que contrastava com a palidez de sua pele. Sem o gel, seu cabelo loiro caía sobre os ombros em ondas desordenadas. Ele parecia exausto, mas seus olhos verdes se iluminaram no instante em que Erick apareceu.
— Você demorou — sussurrou Hizashi, sua voz rouca, desprovida de qualquer rastro da persona vibrante do Present Mic. — Comecei a achar que Shota tinha te segurado para mais um daqueles sermões sobre potencial desperdiçado.
Erick aproximou-se, retirando o casaco do uniforme da U.A. e jogando-o sobre uma poltrona. Ele ajoelhou-se entre as pernas de Hizashi, colocando as mãos firmes sobre os joelhos do mais velho.
— Meu pai está ocupado demais tentando convencer a si mesmo de que a apatia é uma virtude — respondeu Erick, sua voz grossa e carregada de uma autoridade natural. — Ele não tem ideia de onde eu estou. Ou talvez ele saiba e prefira não olhar, como fez com você.
Hizashi estremeceu levemente, levando as mãos aos cabelos de Erick, acariciando os fios escuros com uma delicadeza quase desesperada.
— Não fale dele agora — pediu Hizashi, fechando os olhos. — Quando você está aqui, eu quero esquecer que um dia fui descartado. Eu quero esquecer que quase morri nas mãos do seu tio.
Erick levantou o rosto, forçando Hizashi a encará-lo. A intensidade nos olhos do jovem Afton era perturbadora. Havia uma possessividade ali que ultrapassava a relação aluno-professor, algo que beirava o instinto de um predador protegendo seu território.
— Você nunca mais será descartado, Zashi — afirmou Erick, subindo as mãos pelas coxas de Hizashi, sentindo o calor através do tecido. — William tentou tirar sua voz, e Shota tirou o seu valor. Eu estou aqui para te dar os dois de volta.
Hizashi soltou um suspiro longo, deixando-se cair para trás no colchão, puxando Erick consigo. O peso do rapaz sobre ele era um conforto sólido. Erick era o ativo, o pilar que mantinha Hizashi em pé quando o trauma ameaçava derrubá-lo. Hizashi amava ser tratado assim — amava ser o centro das atenções de Erick, o prêmio escondido que Shota fora tolo o suficiente para perder por não saber lidar com a própria dor.
— Às vezes eu me sinto um traidor — murmurou Hizashi, enquanto Erick distribuía beijos lentos por seu pescoço. — Eu vi você crescer, Erick. Eu estava lá quando você era apenas uma criança confusa. E agora... agora eu me perco em você.
— Você não é um traidor — Erick interrompeu, sua voz vibrando contra a pele de Hizashi. — Você é uma alma que encontrou redenção. Shota morreu no dia em que decidiu que o distanciamento era melhor que a compaixão. Eu sou o sangue novo, Zashi. Eu sou o Afton que fica.
O clima no quarto mudou rapidamente. O carinho tornou-se fome. Erick dominava cada movimento, cada suspiro de Hizashi. Ele sabia exatamente onde tocar para fazer o herói barulhento silenciar-se em puro prazer. Para Hizashi, ser o passivo naquela relação era uma forma de libertação; ele não precisava ser o Present Mic, ele não precisava ser o herói que gritava para afastar a dor. Ele podia apenas ser cuidado, ser possuído, ser amado como a mulher que ele adorava que vissem nele.
No entanto, a bolha de intimidade foi subitamente ameaçada por um som vindo do corredor. Um passo arrastado, inconfundível.
Erick congelou. Sua energia interna pulsou sob sua pele. Hizashi arregalou os olhos, o pânico do trauma voltando instantaneamente.
— Shota — sussurrou Hizashi, a voz trêmula.
— Fique quieto — ordenou Erick, sua voz tão baixa que era quase um pensamento.
Ele se levantou da cama com uma agilidade sobrenatural e encostou-se na parede ao lado da porta. Ele conseguia ouvir a respiração pesada do outro lado da madeira. Shota Aizawa estava parado ali. Erick sentia a presença do pai, a aura de cansaço e desconfiança latente.
Hizashi cobriu-se rapidamente, segurando o lençol contra o peito, os olhos fixos na maçaneta. O medo de ser descoberto era real, mas havia algo mais: o medo de enfrentar o homem que o deixara quebrado.
Do lado de fora, a voz de Aizawa ecoou, abafada mas clara.
— Yamada? Eu sei que você está acordado. Vi a luz por baixo da porta quando passei.
Hizashi olhou para Erick, implorando silenciosamente por uma direção. Erick fez um sinal firme para que ele respondesse.
— O que foi, Shota? — Hizashi tentou manter a voz firme, mas houve uma leve oscilação. — É tarde. Estou tentando descansar para as aulas de amanhã.
Houve um longo silêncio. Erick conseguia imaginar o pai coçando a nuca, os olhos vermelhos de sono e o cachecol de captura frouxo no pescoço.
— Você não parece bem ultimamente — disse Shota. — Está mais... distraído. Se o trauma está voltando por causa daquelas notícias sobre o meu irmão, você deveria falar com a Recovery Girl. Não adianta se trancar.
— Eu não estou me trancando, Shota — retrucou Hizashi, ganhando um pouco mais de confiança ao sentir a mão de Erick tocar levemente seu ombro por trás da parede. — Eu só estou vivendo a minha vida. Algo que você deveria tentar fazer em vez de monitorar a minha porta às duas da manhã.
— Tanto faz — resmungou Shota. — Só não deixe que isso afete seu desempenho. E... você viu o Erick? Ele não estava no dormitório durante a ronda do Iida.
Erick sorriu nas sombras. Ele sabia que seu primo Michael já teria cuidado de criar um álibi ou uma distração.
— Ele deve estar na biblioteca ou treinando até tarde — mentiu Hizashi. — Você sabe como ele é aplicado. Ele não é como você, Shota. Ele tem fogo.
— É — disse Shota, o som de seus passos começando a se afastar. — Ele tem fogo demais. É isso que me preocupa. Boa noite, Hizashi.
Erick esperou até que os passos desaparecessem completamente no final do corredor antes de relaxar os ombros. Ele voltou para a cama e envolveu Hizashi em um abraço esmagador.
— Ele suspeita — disse Hizashi, encostando a cabeça no peito de Erick. — Ele sente que o controle dele sobre este lugar está escorregando. Ele sente que eu não pertenço mais à órbita dele.
— Ele não tem controle sobre nós — afirmou Erick. — Ele é um homem do passado, Zashi. Ele vive nas cinzas do que vocês tiveram. Nós somos o incêndio que ele não consegue apagar.
Hizashi olhou para Erick, e por um momento, ele viu não apenas o jovem que amava, mas a sombra da herança Afton — a determinação de Vincent misturada com uma proteção possessiva que Shota nunca demonstrou.
— O que vamos fazer se ele descobrir a verdade? — perguntou Hizashi. — Se ele descobrir que o próprio filho está... preenchendo o lugar dele?
— Ele não vai fazer nada — Erick respondeu, seus dedos traçando padrões circulares nas costas de Hizashi. — Shota tem medo do escândalo tanto quanto tem medo de sentir. Ele prefere o silêncio. E se ele tentar intervir, eu tenho o Michael. Nós sabemos coisas sobre o que aconteceu naquela família que fariam a U.A. tremer. Meu pai está preso ao nosso silêncio, não o contrário.
Hizashi sentiu um arrepio. A frieza de Erick era o que o mantinha protegido, mas também era um lembrete constante de que ele estava lidando com algo muito maior do que um simples romance proibido.
— Você é tão diferente dele — sussurrou Hizashi. — Shota me amava como se eu fosse um hábito. Você me ama como se eu fosse um segredo que vale a pena morrer para guardar.
— Porque você é — disse Erick, inclinando-se para beijá-lo novamente. — Você é a única coisa que brilha nessa linhagem de monstros. E eu vou te manter assim, Zashi. Mesmo que eu tenha que enfrentar meu pai e meu tio para garantir isso.
A noite continuou, mas o perigo agora tinha um rosto e um nome. Shota Aizawa não era mais apenas o pai ou o ex; ele era o obstáculo. No entanto, para Erick, cada obstáculo era apenas um teste de sua força.
No dia seguinte, a rotina da U.A. recomeçou com a fachada de normalidade de sempre. Hizashi estava na sala dos professores, rindo e gesticulando com os outros heróis, enquanto Shota bebia seu café em um canto, observando tudo com olhos de lince.
Erick entrou na sala para entregar um relatório de treinamento. Ele passou por Hizashi e, por um breve segundo, o toque de suas mãos se cruzou ao trocar os papéis. Foi um movimento rápido, imperceptível para qualquer um que não estivesse procurando por ele.
Mas Shota estava procurando. Ele viu o modo como os olhos de Hizashi brilharam e como a postura de Erick se tornou ligeiramente mais tensa, mais protetora.
— Afton — chamou Shota, sua voz cortando o barulho da sala.
Erick parou e virou-se, mantendo a expressão perfeitamente neutra.
— Sim, professor?
— Depois das aulas, vá para o ginásio Gamma. Quero testar sua resistência contra a minha anulação. Você tem se tornado... confiante demais na sua energia peculiar.
Erick sustentou o olhar do pai. Havia um desafio silencioso entre os dois, um embate de vontades que Shota ainda não conseguia nomear completamente.
— Estarei lá — respondeu Erick.
Hizashi sentiu o coração disparar. Ele sabia que aquilo não era apenas um treino. Era Shota tentando reafirmar seu domínio, tentando encontrar as rachaduras na armadura de Erick para descobrir o que o filho escondia.
Quando Erick saiu da sala, Hizashi tentou agir naturalmente, mas Shota aproximou-se dele.
— Ele está mudando, Hizashi — disse Shota, a voz baixa. — Ele está ficando igual ao William no modo como se move, mas com uma raiva que me lembra a minha própria juventude. E você parece estar no centro dessa mudança.
— Eu sou o professor dele, Shota — mentiu Hizashi, sentindo o suor frio. — Eu o incentivo como incentivo qualquer outro aluno brilhante.
— Não minta para mim — retrucou Shota. — Eu conheço o cheiro da mentira. Fique longe dos assuntos privados dele. Ele é meu filho, e eu não vou permitir que ele se perca em jogos emocionais que você não pode controlar.
Hizashi sentiu a ferroada daquelas palavras, mas desta vez, a dor não o paralisou. Ele pensou no toque de Erick, na promessa de proteção e na força que o rapaz lhe dava todas as noites.
— Talvez você devesse se preocupar menos com quem ele fala e mais com o porquê de ele não confiar mais em você, Shota — disse Hizashi, levantando o queixo.
Shota estreitou os olhos, surpreso com a súbita coragem do loiro, mas antes que pudesse responder, Hizashi saiu da sala com passos decididos.
O treino no ginásio Gamma foi brutal. Shota não poupou esforços, usando suas fitas de captura e sua anulação de individualidade para levar Erick ao limite físico. Mas Erick não recuou. Ele usou cada gota de sua vontade, movendo-se com uma ferocidade que Shota nunca vira em um estudante.
— Por que você está lutando tanto? — perguntou Shota, ofegante, enquanto tentava prender Erick. — O que você está tentando esconder atrás dessa agressividade?
Erick girou o corpo, escapando da pegada com um movimento técnico perfeito e empurrando o pai para trás.
— Eu não estou escondendo nada — disse Erick, os olhos brilhando com uma intensidade sombria. — Eu estou apenas garantindo que ninguém mais tire o que é meu. Nem você, nem o tio William, nem ninguém.
Shota parou, o choque visível em seu rosto.
— Você está falando sobre...
— Eu estou falando sobre lealdade — interrompeu Erick. — Algo que você esqueceu como se pratica. Você deixou o Hizashi quebrar porque era mais fácil se isolar do que o ajudar a catar os cacos. Eu não sou você, Vincent. Eu não fujo da dor das pessoas que amo.
O silêncio no ginásio era ensurdecedor. Shota parecia ter sido atingido por um soco real.
— Você é apenas um garoto, Erick — disse Shota, a voz trêmula. — Você não entende as consequências de se envolver com alguém que...
— Eu entendo que ele está feliz agora — Erick deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do pai. — Eu entendo que ele não tem mais pesadelos. E se você tentar destruir isso por causa do seu ego ferido, você vai descobrir que eu herdei muito mais do que apenas os seus olhos. Eu herdei a determinação dos Afton.
Erick virou as costas e saiu, deixando Shota sozinho no vasto ginásio. O herói Eraser Head sentou-se no chão, cobrindo o rosto com as mãos. Ele percebeu que a batalha não era apenas sobre regras escolares; era uma guerra pelo coração de um homem que ele mesmo havia abandonado.
Naquela noite, Erick voltou para os braços de Hizashi. Ele não disse nada sobre o confronto. Ele apenas abraçou o loiro com mais força, sentindo o calor e o perfume que agora eram seu único refúgio seguro.
— Você está bem? — perguntou Hizashi, sentindo a tensão nos músculos de Erick.
— Estou perfeito — respondeu Erick, deitando Hizashi na cama e cobrindo-o com seu corpo. — O passado tentou me desafiar hoje, mas eu mostrei a ele que o futuro já pertence a mim.
Hizashi sorriu, puxando Erick para um beijo profundo. Ele não precisava saber dos detalhes. Ele só precisava saber que, no meio da escuridão da linhagem Afton, ele finalmente encontrara alguém que não tinha medo de lutar por ele.
— Eu te amo, Erick — sussurrou Hizashi, entregando-se ao domínio do rapaz.
— E eu vou te proteger de tudo, Zashi — respondeu Erick, com um sorriso que prometia tanto amor quanto destruição para quem ousasse cruzar o caminho deles.
A sinfonia proibida continuava, mais alta e mais audaciosa. Shota podia vigiar e o passado podia assombrar, mas Erick Afton já havia feito sua escolha. E ele nunca deixaria o seu segredo escapar.