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O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro

Sinfonia Proibida sob o Luar da U.A.

A luz da lua filtrava-se pelas janelas altas dos corredores da U.A., criando padrões de prata e sombra que dançavam conforme as nuvens passavam. Para a maioria dos estudantes, aquele era o horário de recolhimento, o momento de descansar para os treinos exaustivos do dia seguinte. Mas para Erick Afton, o silêncio da noite era apenas o convite para uma realidade que ninguém mais ousava habitar.

Ele caminhava com a confiança de quem conhecia cada ponto cego das câmeras de segurança. Ser filho de Shota Aizawa Afton tinha suas vantagens; ele herdara não apenas a fisionomia marcante, mas também a habilidade de se mover como uma sombra. No entanto, enquanto seu pai usava o sigilo para a justiça ou para o sono, Erick o usava para alcançar o único porto seguro que conhecera em uma vida marcada por tragédias familiares.

Ao chegar à porta dos aposentos privados de Hizashi Yamada, Erick não bateu. Ele apenas pressionou a palma da mão contra a madeira, sentindo a vibração abafada de uma música de jazz suave que vinha do lado de dentro. A porta se abriu quase instantaneamente, revelando um Hizashi que poucos tinham o privilégio de ver.

Sem o gel no cabelo, os fios loiros caíam como uma cascata desordenada sobre seus ombros. Ele não usava os óculos laranjas ou o uniforme de herói; em vez disso, vestia um robe de seda longo, de um tom carmesim que realçava a palidez de sua pele e a fragilidade que ele escondia sob os gritos de "Present Mic".

— Você demorou cinco minutos a mais hoje — sussurrou Hizashi, sua voz rouca e privada, desprovida de qualquer projeção sonora.

Erick entrou e fechou a porta, trancando-a com um clique seco. Ele envolveu a cintura de Hizashi, puxando-o para perto com uma possessividade que fez o mais velho suspirar.

— Michael tentou me segurar no dormitório com perguntas sobre o treino — respondeu Erick, enterrando o rosto no pescoço de Hizashi, inalando o cheiro de baunilha e café que sempre o acompanhava. — Ele está desconfiado, mas não sabe de nada. Ninguém sabe.

Hizashi inclinou a cabeça para trás, permitindo o contato, seus dedos longos e finos acariciando o cabelo escuro de Erick.

— Às vezes eu sinto que o Shota está me vigiando — confessou Hizashi, um tremor percorrendo seu corpo. — Não como um amigo, mas como um predador que sente o cheiro de algo errado. Ele me descartou, Erick... ele me jogou fora quando eu mais precisei, mas o orgulho dele é uma coisa terrível. Se ele descobrir que você... que nós...

— Deixe que ele vigie — Erick interrompeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos verdes de Hizashi. — Meu pai é um homem morto por dentro, Zashi. Ele desistiu de você porque não conseguia lidar com o que o tio William fez. Ele fugiu da sua dor. Eu corri em direção a ela.

Erick conduziu Hizashi até o sofá de veludo no canto da sala. O ambiente era luxuoso de uma forma feminina e acolhedora, refletindo o lado de Hizashi que Shota sempre ignorara. O loiro amava ser mimado, amava a sensação de ser cuidado e, principalmente, amava quando Erick assumia o controle, tratando-o com a mistura perfeita de adoração e domínio.

— Você me salvou naquele dia — disse Hizashi, sentando-se no colo de Erick, as pernas cruzadas de forma elegante. — Quando seu tio apareceu... eu pensei que era o fim. O metal daquela faca... o sorriso dele... era igual ao do seu pai, mas cheio de uma malícia que eu nunca tinha visto.

Erick apertou o abraço, sentindo a energia residual do "escopetamento" formigar em suas veias. O trauma que ele e Michael compartilharam com as criações de William Afton mudara algo em seu DNA. Ele não era apenas um estudante com uma individualidade comum; ele era algo mais, uma força moldada pelo sofrimento e pela necessidade de proteção.

— William nunca mais vai chegar perto de você — prometeu Erick, sua voz assumindo um tom sombrio. — E se o meu pai tentar interferir, ele vai descobrir que eu aprendi muito mais com as sombras do que ele imagina. Você é minha "mãe" apenas no nome que eu te dei quando era criança, Zashi. Agora, você é meu homem. Minha vida.

Hizashi sorriu, um sorriso genuíno que não alcançava as câmeras de TV. Ele se sentia incrivelmente seguro nos braços de alguém que tinha metade da sua idade, mas o dobro da sua determinação.

— Eu gosto quando você fala assim — sussurrou Hizashi, passando as mãos pelo peito largo de Erick. — Faz-me sentir... protegido. Como se eu não precisasse ser o herói barulhento o tempo todo. Com você, eu posso ser apenas eu. Posso ser o Zashi que gosta de silêncio e de carinho.

— E é exatamente assim que eu vou te manter — respondeu Erick, inclinando-se para beijar o pescoço de Hizashi, subindo lentamente até a mandíbula. — Escondido do mundo, mas brilhando apenas para mim.

O clima mudou, tornando-se mais denso e carregado de um desejo que vinha sendo alimentado por meses de encontros proibidos. Erick era o ativo na relação, não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Ele ditava o ritmo, curando as feridas de Hizashi com uma intensidade que Shota nunca se deu ao trabalho de demonstrar.

— Erick... — gemeu Hizashi, fechando os olhos enquanto as mãos do rapaz exploravam as curvas de seu corpo sob o robe. — O que vamos fazer se a escola descobrir? O Nezu... as leis...

— A U.A. precisa de heróis — disse Erick entre beijos. — E eu sou o melhor da minha classe. Eles não podem se dar ao luxo de me perder. E quanto a você... você é a voz deste lugar. Eles são hipócritas, Zashi. Eles pregam a liberdade, mas temem o que não conseguem controlar. Nós somos o que eles não conseguem controlar.

Hizashi puxou o rosto de Erick para um beijo profundo. Era um beijo que carregava o gosto do perigo e a doçura da redenção. Naquele momento, Hizashi não se importava com as consequências. Ele fora abandonado pelo homem que amou por décadas, deixado para sangrar emocionalmente após um ataque brutal. Erick o recolhera, o costurara de volta e o fizera sentir-se desejado novamente.

Enquanto isso, em uma parte diferente do campus, Shota Aizawa Afton estava sentado em sua mesa, cercado por papéis. Ele parou por um momento, a caneta suspensa no ar. O silêncio do dormitório de seu filho o incomodava. Erick era um jovem disciplinado, mas havia uma mudança em sua aura que Shota não conseguia ignorar.

Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando em direção aos apartamentos dos professores. Ele viu uma luz fraca acesa na sala de Hizashi.

— Você ainda está acordado, Hizashi? — murmurou Shota para si mesmo, suas sobrancelhas se franzindo. — Ou será que o trauma ainda não te deixou em paz?

Ele pensou em ir até lá, em verificar se o antigo companheiro estava bem, mas a apatia que o definia o impediu. Ele já tinha feito sua escolha. Hizashi era barulhento demais, emocional demais, quebrado demais. Shota preferia a solidão de seu saco de dormir e a simplicidade de uma vida sem complicações sentimentais. Mal sabia ele que sua negligência criara o vácuo perfeito para que seu próprio filho se tornasse o mestre do coração de Hizashi.

De volta ao quarto, o tempo parecia ter parado. Erick e Hizashi estavam agora deitados na cama larga, os lençóis em desalinho. Hizashi estava encostado no peito de Erick, ouvindo as batidas rítmicas do coração do rapaz.

— Sabe o que é mais engraçado? — perguntou Hizashi, brincando com os dedos de Erick.

— O quê?

— Que o Shota sempre reclamou do meu barulho. Ele dizia que eu era "demais" para ele. E agora, aqui estou eu, sussurrando para o filho dele, sentindo que finalmente sou "o suficiente".

Erick sorriu, beijando o topo da cabeça loira.

— Meu pai nunca soube apreciar o que tinha. Ele vê o mundo em preto e branco. Ele não entende que o fogo que você tem é o que mantém este lugar vivo. Ele tentou apagar sua luz, mas eu só quero alimentá-la.

— Você é tão diferente dele — suspirou Hizashi. — No começo, eu via o rosto dele no seu e isso me assustava. Mas o seu toque... a sua energia... é diferente. Shota é como o gelo que queima. Você é como o calor que protege.

— O Michael me perguntou hoje se eu estava brincando com fogo — comentou Erick, lembrando-se da conversa mais cedo. — Eu respondi que não estou brincando. Eu sou o fogo. E o fogo não tem medo de se queimar.

Hizashi levantou o olhar, uma expressão de preocupação cruzando seu rosto.

— Michael... ele é um bom garoto, mas ele sofreu tanto quanto você. O que o William fez com vocês dois naquelas máquinas... eu sinto muito por não ter podido impedir.

— Não sinta — disse Erick, sua expressão endurecendo por um segundo. — O que aconteceu nos tornou fortes. Se eu não tivesse passado por aquilo, talvez não tivesse tido a força para enfrentar meu tio quando ele te atacou. Talvez eu ainda fosse apenas o filho obediente do Aizawa, esperando por uma aprovação que nunca viria. A dor me deu você, Zashi. E eu aceitaria cada segundo daquele sofrimento novamente se o resultado fosse este.

Hizashi sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ele sempre fora o "mulherengo" do grupo, o homem que amava a estética feminina e que se sentia confortável em papéis que a sociedade considerava submissos ou delicados. Shota o tolerava, mas Erick o celebrava.

— Você me faz sentir... — Hizashi hesitou, procurando a palavra certa. — ...completo. Como se eu não precisasse me esconder.

— E você não precisa. Pelo menos não aqui — Erick reforçou o abraço. — Deixe que o resto do mundo veja o Present Mic. Eu fico com o Hizashi. Eu fico com o homem que ama ser cuidado, que gosta de ser minha madrasta no papel e meu amor na cama.

Eles ficaram em silêncio por um longo tempo, apenas aproveitando a presença um do outro. O perigo de serem descobertos era real e constante, mas a adrenalina disso apenas fortalecia o vínculo. Era um jogo de xadrez contra o destino, e Erick Afton estava jogando para ganhar.

— Amanhã temos treino de resgate — disse Erick, mudando levemente de assunto para aliviar a tensão. — Tente não gritar muito no microfone. Eu não quero que ninguém perceba que você está com a voz cansada por outros motivos.

Hizashi soltou uma risada cristalina, a primeira risada verdadeira da noite.

— Oh, não se preocupe, pequeno ouvinte. Eu sou um profissional! Vou gritar "Go Beyond" com tanta energia que ninguém vai suspeitar que passei a noite nos braços do meu aluno favorito.

— Aluno favorito, hein? — Erick provocou, girando Hizashi para que ele ficasse por baixo dele novamente. — Acho que mereço uma nota extra por esse desempenho.

— Você já tem nota máxima em tudo o que importa para mim — respondeu Hizashi, puxando Erick para mais um beijo.

Enquanto a noite avançava para o amanhecer, os dois permaneciam entrelaçados, um segredo vivo no coração da maior escola de heróis do Japão. A linhagem Afton era conhecida por seus monstros e seus mistérios, mas ali, naquela sala, ela estava criando algo novo: uma união nascida do descarte e fortalecida pela proteção.

Shota Aizawa Afton continuaria a dormir em seu saco de dormir amarelo, ignorando as cores vibrantes que seu filho estava pintando na vida do homem que ele um dia chamou de seu. E William Afton, onde quer que estivesse escondido nas sombras, ainda teria que enfrentar a fúria de um sobrinho que transformou o trauma em armadura.

Mas para Erick e Hizashi, o amanhã era apenas mais um dia de olhares roubados e toques discretos. Eles eram o porto um do outro, a sinfonia proibida que tocava no volume mais baixo, esperando pelo momento em que o mundo estivesse pronto para ouvir a verdade — ou, talvez, contentando-se em ser o segredo mais doce que a U.A. já abrigou.

— Eu te amo, Zashi — sussurrou Erick, pouco antes de o primeiro raio de sol tocar a janela.

— Eu te amo, Erick — respondeu Hizashi, fechando os olhos com um sorriso de paz que ele não sentia há anos. — Meu herói. Meu Afton.

A porta seria destrancada em breve, Erick voltaria para o dormitório antes do despertar dos colegas, e Hizashi voltaria a ser o professor excêntrico. Mas a marca de cada um permaneceria na alma do outro, uma tatuagem invisível de um amor que não conhecia limites, nem regras, nem medo. No jogo da vida, Shota havia desistido, mas Erick Afton tinha acabado de começar sua jogada mestra. E Hizashi Yamada era o prêmio que ele nunca deixaria escapar.