O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro
Sinfonia de Segredos e Cicatrizes
O ar na sala de treinamento Gamma estava pesado com o cheiro de ozônio e o som metálico de entulhos sendo movidos. Erick Afton mantinha a respiração controlada, seus olhos fixos no cronômetro digital que brilhava na parede oposta. Ele não era apenas um estudante excepcional; ele era um predador silencioso, moldado pela frieza de seu pai, Vincent, e pela crueldade de seu tio, William. Mas, ao contrário de ambos, Erick tinha algo pelo qual lutar.
No deck de observação, Hizashi Yamada — o vibrante Present Mic — observava o progresso da classe. Seus dedos tamborilavam nervosamente no parapeito de metal. Ele usava seu traje de herói completo, mas por trás das lentes laranjas, seus olhos buscavam apenas uma silhueta: a de Erick. O trauma causado por William Afton ainda latejava em sua mente como uma ferida aberta, mas a presença de Erick era o único bálsamo que funcionava.
— O garoto está se superando hoje — comentou Shota Aizawa, surgindo das sombras como um fantasma cansado. — Ele tem uma precisão que beira o perturbador.
Hizashi deu um sobressalto, forçando uma risada estridente para disfarçar o pânico momentâneo.
— YEAH! O pequeno ouvinte tem o ritmo no sangue, Shota! — Ele gesticulou de forma exageradamente dramática. — Ele vai ser um herói de primeira linha, com certeza!
Shota não respondeu de imediato. Ele olhou para o ex-companheiro com uma expressão de tédio profundo, mas seus olhos semicerrados carregavam uma análise que Hizashi temia.
— Você parece agitado, Hizashi — disse Shota, sua voz arrastada e monótona. — Achei que o incidente com meu irmão tivesse te deixado mais... silencioso. Mas você está mais barulhento do que o normal perto do meu filho.
Hizashi sentiu um suor frio escorrer por suas costas. Ele sabia que Shota não o amava mais, que o havia descartado como um rádio quebrado que não valia a pena consertar, mas o instinto de professor e de pai de Aizawa ainda era afiado.
— Ora, Shota! Eu sou o padrinho dele, de certa forma, não sou? — Hizashi mentiu com a facilidade de quem vive uma vida dupla. — Eu o vi crescer enquanto você dormia nos corredores!
Aizawa bufou, voltando sua atenção para a arena onde Erick acabara de imobilizar três robôs de treinamento com uma explosão de energia sombria.
— Apenas não o distraia — disse Shota, virando as costas. — Ele não precisa de sentimentalismo. Ele precisa de foco.
Lá embaixo, Erick sentiu o olhar de seu pai se afastar. Ele olhou para cima, encontrando os olhos de Hizashi por um breve segundo. O loiro fez um sinal discreto com a mão — o código deles para "encontre-me mais tarde". Erick assentiu quase imperceptivelmente, um sorriso de canto de boca surgindo em seu rosto sério.
Horas depois, quando o sol já havia se posto e a U.A. mergulhava na penumbra, Erick caminhava em direção aos aposentos dos professores. Ele sabia que Michael, seu primo, o estava observando de algum lugar. Michael era como ele, marcado pelo "escopetador", carregando uma alma remendada, mas Michael respeitava os segredos de Erick. Eles eram os sobreviventes da linhagem Afton, e a lealdade entre eles era absoluta.
Ao entrar no quarto de Hizashi, Erick foi recebido pelo silêncio reconfortante que o loiro só reservava para ele. Hizashi estava sentado na beira da cama, retirando as botas de seu traje. Ele parecia exausto, as marcas do trauma de William visíveis na forma como seus ombros se curvavam.
— Ele suspeita, Erick — sussurrou Hizashi sem olhar para cima. — Seu pai... ele sente que algo mudou.
Erick caminhou até ele, ajoelhando-se entre suas pernas. Ele segurou as mãos de Hizashi, sentindo-as tremer levemente.
— Deixe que ele sinta — disse Erick, sua voz grossa e firme. — Shota não pode tirar você de mim. Ele teve a chance dele e te jogou fora porque era covarde demais para lidar com a sua dor. Eu não sou ele.
Hizashi levantou o rosto, as lágrimas brilhando nos cantos dos olhos. Ele amava como Erick o tratava. O rapaz não o via como o herói barulhento ou como o ex-namorado problemático do pai. Ele o via como uma mulher vê seu protetor, como alguém que precisava ser guardado e amado em sua total vulnerabilidade.
— Eu tive um pesadelo hoje à tarde — confessou Hizashi, inclinando-se para frente até que suas testas se tocassem. — Eu vi o William. Ele estava sorrindo, dizendo que o sangue Afton sempre volta para buscar o que é dele. Eu acordei gritando, mas não havia som.
— O sangue Afton já buscou o que é dele — Erick respondeu, levando uma das mãos ao rosto de Hizashi, acariciando a pele macia com o polegar. — Você é meu, Zashi. Eu sou o Afton que te protege, não o que te caça. Se aquele monstro voltar, eu vou terminar o que comecei naquele dia.
Hizashi soltou um suspiro trêmulo, fechando os olhos e deixando-se levar pelo toque de Erick.
— Às vezes eu me sinto tão errado... — murmurou Hizashi. — Eu sou seu professor. Eu deveria estar te orientando, não me escondendo nos seus braços como uma criança assustada.
— Você não é uma criança — Erick disse, levantando o queixo de Hizashi para que ele o encarasse. — Você é o homem que me deu o único amor que eu conheci quando minha mãe morreu. Você cuidou de mim quando Vincent estava ocupado demais sendo um herói apático. Agora é a minha vez de cuidar de você.
Erick se levantou, puxando Hizashi para cima junto com ele. Ele o abraçou pela cintura, sentindo a diferença de altura e a forma como o loiro se encaixava perfeitamente contra seu corpo. Hizashi adorava ser o passivo naquela relação; ele amava a força bruta que Erick emanava e a maneira como o rapaz assumia o controle de tudo.
— Trate-me como você quiser, Erick — sussurrou Hizashi, passando os braços pelo pescoço do aluno. — Apenas não me deixe sozinho com as memórias dele.
— Nunca — prometeu Erick, selando o compromisso com um beijo faminto.
O beijo era uma mistura de desespero e posse. Erick explorava a boca de Hizashi com uma intensidade que fazia os joelhos do loiro fraquejarem. Ali, entre quatro paredes, as regras da U.A. não existiam. Não havia professor e aluno, não havia heróis ou vilões. Havia apenas dois seres quebrados que encontraram no proibido a sua única forma de cura.
— Você é tão lindo quando está assim... — sussurrou Erick contra os lábios de Hizashi —, entregue a mim. Esqueça o Shota. Esqueça o medo.
— Eu já esqueci — respondeu Hizashi, sua voz falhando. — Quando estou com você, o mundo lá fora faz silêncio.
Eles se moveram para a cama, o movimento sendo interrompido por um som metálico vindo do corredor. Erick congelou instantaneamente, sua energia sombria subindo à superfície como uma névoa negra ao redor de seus punhos. Hizashi prendeu a respiração, o trauma disparando faíscas de pânico em seus olhos.
— Fique aqui — ordenou Erick em um sussurro imperceptível.
Ele se moveu até a porta com a graça de um felino. Ao abrir uma fresta, ele viu uma figura alta e desgrenhada caminhando pelo corredor. Era Shota. Ele parecia estar em sua ronda noturna, mas parou exatamente em frente à porta de Hizashi.
Erick sentiu o coração bater forte, mas não de medo. Era a adrenalina da caça. Se seu pai entrasse ali, a verdade viria à tona, e Erick estava pronto para enfrentar as consequências. Ele não permitiria que ninguém, nem mesmo o homem que lhe deu a vida, tirasse sua felicidade.
Shota ficou parado por um longo tempo, sua mão pairando perto da maçaneta. Ele parecia hesitar, uma sombra de dúvida cruzando seu rosto cansado. Por um momento, o Vincent Afton dentro dele pareceu querer recuperar algo que havia perdido, mas a frieza de Shota Aizawa prevaleceu. Ele soltou um suspiro pesado e continuou sua caminhada, seus passos ecoando até desaparecerem na curva do corredor.
Erick relaxou os ombros e fechou a porta, trancando-a novamente. Ele voltou para Hizashi, que estava encolhido nos lençóis, tremendo.
— Ele se foi, Zashi — disse Erick, voltando para o lado dele e envolvendo-o em um abraço protetor. — Ele não tem coragem de entrar. Ele sabe que perdeu você no momento em que desistiu de lutar.
Hizashi agarrou a camiseta de Erick, escondendo o rosto em seu peito.
— Eu tive tanto medo dele descobrir... — soluçou o loiro. — Ele nunca entenderia. Ele diria que eu te corrompi.
— Ninguém corrompe um Afton — Erick riu secamente, beijando a têmpora de Hizashi. — Nós já nascemos com a escuridão. Você apenas a tornou suportável. Você é a luz que eu roubei do meu pai, e eu não pretendo devolvê-la.
Hizashi olhou para ele, um brilho de adoração em seus olhos verdes. Ele amava o jeito possessivo de Erick. Para alguém que sempre foi o "alegre" e o "barulhento" para todos, ser o tesouro secreto de alguém era a maior das fantasias.
— Você fala como um vilão às vezes — brincou Hizashi, tentando aliviar o clima.
— Talvez eu seja um — Erick respondeu, deitando-se sobre ele e prendendo seus pulsos acima da cabeça com uma mão só. — Mas eu sou o seu vilão. E eu vou te proteger de todos os heróis que tentarem nos separar.
Hizashi soltou um suspiro de prazer, entregando-se completamente ao domínio do rapaz. Ele se sentia como a mulher que sempre quis ser no fundo de sua alma — protegida, desejada e pertencente a alguém forte.
— Então me proteja, Erick — pediu Hizashi, sua voz sendo um sussurro carregado de desejo. — Faça-me esquecer quem somos lá fora.
Erick não precisou de outro convite. A noite na U.A. continuava fria e silenciosa para o resto do mundo, mas naquele quarto, o calor era absoluto. O relacionamento deles era um campo minado, uma heresia contra a ética profissional e um tapa na cara do passado de Vincent Afton. Mas enquanto Erick sentia o corpo de Hizashi reagir ao seu toque, ele sabia que não havia volta.
Na manhã seguinte, a rotina voltaria. Erick seria o aluno sério na primeira fila, e Hizashi seria o professor enérgico gritando saudações em inglês. Shota continuaria a observá-los com sua suspeita silenciosa, e William Afton continuaria a ser uma sombra no horizonte.
Mas nada disso importava. Porque, no final de cada dia, Erick voltaria para o seu Zashi. Ele continuaria a ser o ativo, o protetor, o homem que curava o trauma com paixão. E Hizashi continuaria a ser sua madrasta secreta, o amor proibido que valia qualquer risco.
A sinfonia deles estava apenas começando, e mesmo que o mundo tentasse silenciá-los, a voz de Erick Afton seria a única que Hizashi Yamada ouviria para sempre. Eles eram dois sobreviventes em um mar de heróis, e o amor deles era a única coisa real em um mundo de máscaras.
— Você está bem? — perguntou Erick, algum tempo depois, enquanto observava Hizashi adormecer em seus braços.
Hizashi apenas murmurou algo incompreensível, um sorriso de paz brincando em seus lábios. Ele não tinha pesadelos naquela noite. Pela primeira vez em anos, os gritos de William foram substituídos pelo som da respiração de Erick.
Erick olhou para a janela, vendo os primeiros sinais da aurora. Ele sabia que o segredo deles estava seguro por enquanto. Ele era um Afton, affinal. E os Afton eram especialistas em esconder seus pecados — e seus tesouros — nas profundezas das sombras.