O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro
Melodia Proibida em Tons de Cinza
O relógio na parede dos aposentos de Hizashi Yamada marcava duas horas da manhã, mas o tempo ali dentro parecia ter uma cadência própria, arrastada e densa como o mel. Erick Afton mantinha as mãos firmes sobre as coxas de Hizashi, sentindo o tecido fino da calça de pijama e o calor da pele por baixo. O silêncio da U.A. era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido baixo do ar-condicionado e pela respiração compassada dos dois.
Hizashi levou uma das mãos ao rosto de Erick, traçando a linha do maxilar que tanto lembrava a de Shota, mas que carregava uma expressão muito mais viva, muito mais faminta.
— Às vezes eu me pergunto se isso é uma forma de vingança — sussurrou Hizashi, os olhos verdes brilhando sob a luz fraca do abajur. — Se eu estou usando você para preencher o vazio que o seu pai deixou, ou se você está me usando para provar que é melhor que ele.
Erick inclinou a cabeça, beijando a palma da mão de Hizashi com uma lentidão deliberada.
— Você sabe que não é isso, Zashi — respondeu Erick, sua voz vibrando em um tom baixo que sempre fazia os pelos dos braços de Hizashi se arrepiarem. — Shota é um fantasma. Ele vive em um mundo onde nada importa além do dever e do sono. Eu não quero ser melhor que ele; eu quero ser o único para você. Eu quero que, quando você fechar os olhos, não seja o rosto dele que você veja, nem o terror que o meu tio causou.
Hizashi estremeceu ao ouvir a menção a William Afton. O trauma ainda era uma sombra que espreitava nos cantos de sua mente, um grito mudo que subia pela garganta sempre que ele ficava sozinho por muito tempo.
— Ele quase me destruiu, Erick — disse Hizashi, a voz falhando. — O modo como ele sorria... era como se ele estivesse se divertindo com o meu silêncio. E o Shota... ele simplesmente não conseguiu lidar com o fato de que eu não era mais o "sol" da vida dele. Ele me olhava e via apenas um problema a ser resolvido, e quando percebeu que não podia me consertar, ele me descartou.
Erick levantou-se, puxando Hizashi pela cintura para que ele também ficasse de pé. A diferença de altura e a postura dominante de Erick faziam com que Hizashi se sentisse pequeno, uma sensação que ele, em seu íntimo, adorava. Ele gostava de ser cuidado, de ser o lado passivo que podia finalmente relaxar a guarda.
— Ele foi fraco — afirmou Erick, segurando o rosto de Hizashi com ambas as mãos. — Um homem de verdade não abandona quem ama quando a escuridão chega. Um homem de verdade entra na escuridão e traz a pessoa de volta. É isso que eu estou fazendo, Zashi. Eu estou te trazendo de volta.
Hizashi envolveu o pescoço de Erick com os braços, escondendo o rosto na curva do ombro do rapaz.
— Você é tão jovem, mas fala como se tivesse vivido mil anos — murmurou Hizashi. — É o peso desse nome, não é? Afton.
— É o peso de ter visto o que o mal pode fazer de perto — corrigiu Erick. — O incidente com o "escopetador"... o que eu e o Michael passamos... isso muda uma pessoa. Eu não sou mais apenas um aluno da U.A. Eu sou alguém que conhece o abismo. E é por isso que eu não tenho medo de te amar, mesmo que o mundo diga que você é meu professor, ou que você foi "mãe" para mim.
Hizashi soltou uma risada curta e nervosa, afastando-se apenas o suficiente para olhar para Erick.
— Você ainda me chama assim às vezes, sabia? — perguntou Hizashi, com um brilho travesso nos olhos. — "Mãe". É confuso, Erick. É proibido em tantos níveis. Se o Nezu descobrir, ou se o conselho escolar souber que o Present Mic está tendo um caso com um aluno... e pior, com o filho do Eraser Head...
— Eles não vão descobrir — Erick interrompeu-o, selando os lábios de Hizashi com um beijo rápido, mas carregado de promessa. — Eu controlo as sombras aqui tanto quanto o meu pai. E o Michael cobre as minhas costas nos dormitórios. Ele entende. Ele também está tentando encontrar algo real no meio de todo esse caos que nossa família criou.
Hizashi suspirou, entregando-se ao abraço. Ele amava como Erick era possessivo, como ele assumia a responsabilidade por tudo. Era o oposto da indiferença de Shota.
— Falando no seu pai — disse Hizashi, recuperando o fôlego —, ele comentou hoje que você tem passado muito tempo na sala de rádio. Ele acha que você está interessado em comunicação de heróis.
Erick sorriu, um sorriso sombrio que raramente mostrava em público.
— Deixe que ele pense isso. É melhor ele achar que eu herdei o interesse pelo rádio do que descobrir que eu herdei o interesse pelo locutor.
— Erick! — Hizashi o repreendeu levemente, embora estivesse sorrindo. — Isso é perigoso. Você sabe como o Shota é. Ele pode ser apático, mas ele não é burro. Ele nota os detalhes.
— Ele nota o que ele quer notar — rebateu Erick. — Ele passou anos sem notar que você estava morrendo por dentro ao lado dele. Por que ele notaria agora que você está florescendo ao meu lado?
Hizashi sentiu o rosto esquentar. Era verdade. Desde que Erick começara a procurá-lo secretamente, a cor voltara às suas bochechas. Ele se sentia mais vibrante, mais "mulherengo" no sentido de querer se cuidar, de querer ser bonito para o seu jovem amante. Ele adorava quando Erick o tratava com aquela mistura de adoração e autoridade.
— Venha — disse Erick, conduzindo Hizashi em direção à cama. — Você precisa descansar. Amanhã você tem aquela aula com a turma 1-A e eu não quero que você pareça exausto.
— Eu sou um profissional, querido — brincou Hizashi, deitando-se e observando Erick tirar a camisa, revelando as cicatrizes que contavam a história de sua sobrevivência. — Eu posso gritar "YEAH!" o dia todo, mesmo que tenha passado a noite em claro.
Erick deitou-se ao lado dele, puxando o corpo de Hizashi para que ficasse aninhado contra o seu.
— Eu gosto de quando você me chama de "querido" — confessou Erick, passando a mão pelos cabelos loiros e macios de Hizashi. — Faz-me sentir que eu realmente ganhei de Shota. Que eu conquistei o que ele não foi homem o suficiente para manter.
Hizashi fechou os olhos, deliciando-se com o carinho.
— Você não precisa competir com ele, Erick. Shota é o passado. Um passado doloroso e frio. Você... você é o meu presente. O meu "Present Mic" particular.
Eles ficaram em silêncio por um tempo, apenas ouvindo a respiração um do outro. Mas o silêncio na família Afton nunca era puramente pacífico.
— Erick? — chamou Hizashi em um sussurro.
— Hum?
— Você acha que o William... você acha que ele ainda está por aí? Observando?
Erick sentiu um músculo em sua mandíbula retesar.
— Se ele estiver, ele vai descobrir que eu não sou mais a criança que ele tentou quebrar. Eu aprendi a usar a energia que ele me deu para proteger o que é meu. Ele nunca mais vai encostar em você, Zashi. Eu mataria meu próprio sangue para garantir isso.
Hizashi estremeceu, mas não de medo de Erick. Era um calafrio de alívio. Ele se sentia protegido de uma forma que nunca se sentira com Shota. Shota era um herói que seguia regras; Erick era um homem que criava as suas próprias.
— Eu confio em você — disse Hizashi, selando a conversa.
Na manhã seguinte, a máscara foi recolocada. Hizashi Yamada entrou na sala de aula com seu habitual entusiasmo ensurdecedor, os cabelos espetados e os óculos laranjas brilhando sob as luzes fluorescentes.
— GOOD MORNING, EVERYBODY! — gritou ele, fazendo alguns alunos taparem os ouvidos. — Estão prontos para aprender o inglês que vai levar vocês para o topo do ranking mundial?!
Erick Afton estava sentado em sua mesa habitual, o rosto inexpressivo, os braços cruzados sobre o peito. Ele observava Hizashi com uma intensidade que ninguém mais percebia. Para o resto da sala, ele era apenas o talentoso e sério filho de Eraser Head. Para Hizashi, ele era o calor que ainda queimava em sua pele desde a noite anterior.
Shota Aizawa entrou na sala alguns minutos depois para entregar alguns relatórios. Ele passou por Hizashi, mal dirigindo-lhe o olhar, e parou ao lado da mesa de Erick.
— Você esqueceu seu lanche no dormitório — disse Shota, colocando uma sacola sobre a mesa do filho. — Tente ser menos distraído.
— Obrigado, pai — respondeu Erick, sua voz calma e monótona, imitando perfeitamente o tom de Shota.
Shota olhou para Hizashi por um breve segundo antes de sair.
— Você parece melhor hoje, Yamada — comentou Shota, com a mão na maçaneta. — Menos pálido.
Hizashi deu um sorriso largo, o seu sorriso de "showman".
— É o poder da juventude, Shota! Os alunos me inspiram!
Shota apenas resmungou algo e saiu da sala. Erick e Hizashi trocaram um olhar rápido — um segredo compartilhado em plena luz do dia.
A aula prosseguiu, mas para Erick, o foco não estava nos verbos irregulares. Ele observava a maneira como Hizashi se movia, a maneira como ele gesticulava. Ele notou um pequeno detalhe: Hizashi estava usando um anel de prata que Erick lhe dera semanas atrás, escondido sob a luva do traje de herói.
Aquilo era o suficiente para Erick.
No intervalo, Erick encontrou seu primo Michael no pátio dos fundos. Michael estava encostado em uma árvore, mexendo em um dispositivo eletrônico.
— Você está sendo descuidado, primo — disse Michael, sem levantar os olhos.
— Do que você está falando? — perguntou Erick, aproximando-se.
— O modo como você olha para o professor de inglês. Se eu percebo, outros também podem perceber. O Aizawa não é cego, ele é apenas preguiçoso.
Erick deu de ombros, sentando-se no banco de cimento.
— Ele não vai fazer nada. Ele desistiu do Hizashi há muito tempo. Ele não tem o direito de reclamar agora.
— Não se trata de direito, trata-se de escândalo — Michael finalmente olhou para ele, seus olhos carregando o cansaço de quem já viu o pior da humanidade. — Se isso vazar, o Yamada perde a licença de herói e você é expulso. Vale a pena?
Erick olhou para as próprias mãos, lembrando-se da sensação de Hizashi tremendo em seus braços, procurando por segurança.
— Vale cada segundo, Michael. Ele é a única coisa que me faz sentir que eu não sou apenas um monstro como o nosso tio. Ele me humaniza.
Michael soltou um suspiro longo.
— Então seja mais esperto. Use as sombras que o Vincent te ensinou a dominar. Não deixe que a luz da U.A. queime o que vocês têm.
— Eu sei o que estou fazendo — afirmou Erick.
À tarde, durante o treinamento físico, Erick demonstrou uma agressividade controlada que impressionou até mesmo os outros professores. Ele usava sua energia para criar escudos e ataques rápidos, uma manifestação de seu desejo inerente de proteger.
Hizashi assistia de longe, conversando com Nemuri Kayama (Midnight).
— O filho do Shota é realmente algo especial, não é? — comentou Nemuri, abanando-se com seu leque. — Ele tem aquela aura de "bad boy" que atrai problemas, mas ele é tão educado...
Hizashi sentiu uma pontada de ciúmes, algo que ele tentou suprimir imediatamente.
— Ele é um bom garoto — disse Hizashi, tentando manter a voz neutra. — Ele passou por muita coisa.
— Todos nós passamos, querido — Nemuri suspirou. — Mas ele tem um brilho nos olhos que me lembra alguém... só não consigo lembrar quem.
"Ele brilha por mim", pensou Hizashi, sentindo uma satisfação secreta percorrer seu corpo.
Quando a noite caiu novamente sobre a academia, o ciclo se repetiu. Erick esperou que os corredores ficassem vazios e que as patrulhas de robôs mudassem de turno. Ele entrou no quarto de Hizashi e encontrou o loiro já à sua espera, mas desta vez, Hizashi parecia mais sério.
— O que foi? — perguntou Erick, fechando a porta.
Hizashi entregou-lhe um envelope pardo.
— Recebi isso hoje na minha caixa de correio interna. Não tem remetente.
Erick abriu o envelope. Dentro, havia uma única fotografia: uma imagem borrada, tirada de um ângulo alto, mostrando Erick entrando no quarto de Hizashi em uma noite anterior. No verso, escrito com uma caligrafia elegante e sinistra, dizia: "A maçã nunca cai longe da árvore. Vincent ficaria orgulhoso da sua audácia, Erick."
Erick sentiu o sangue ferver. A caligrafia era inconfundível para qualquer um que tivesse estudado os arquivos da família.
— William — sussurrou Erick, a voz carregada de ódio.
Hizashi começou a tremer, as mãos subindo para cobrir a boca.
— Ele sabe... ele está aqui, Erick. Ele está nos vigiando.
Erick deu um passo à frente e envolveu Hizashi em um abraço esmagador, sentindo o pânico do mais velho irradiar contra seu peito.
— Deixe que ele vigie — rosnou Erick. — Ele acha que pode usar isso para nos separar, ou para nos chantagear. Ele acha que eu sou como o meu pai, que vou me afastar para te "proteger".
Erick afastou-se um pouco, olhando profundamente nos olhos de Hizashi.
— Ele está enganado. Se ele quer jogar, nós vamos jogar. Mas eu não vou a lugar nenhum, Zashi. Ninguém, nem o meu tio, nem o meu pai, nem esta escola, vai me tirar de você.
Hizashi olhou para a foto e depois para Erick. O medo ainda estava lá, mas havia algo novo: uma determinação nascida do amor proibido.
— O que vamos fazer? — perguntou Hizashi.
— Vamos fazer o que os Afton fazem de melhor — respondeu Erick, destruindo a foto em suas mãos com uma explosão de energia. — Vamos esconder a verdade sob camadas de mentiras, até que tenhamos força suficiente para destruir quem nos ameaça. Você confia em mim?
Hizashi respirou fundo, sentindo o calor de Erick envolvê-lo. Ele sabia que o caminho à frente seria cheio de espinhos, que o relacionamento deles era uma bomba-relógio prestes a explodir no coração da U.A. Mas, ao olhar para o jovem que o salvara de si mesmo, ele percebeu que não havia outra escolha.
— Com a minha vida — respondeu Hizashi.
Erick sorriu e o puxou para um beijo que não era apenas de desejo, mas de guerra. O relacionamento secreto deles acabara de se tornar algo muito mais perigoso do que um simples romance entre professor e aluno. Era agora uma resistência contra o passado, contra a linhagem sangrenta dos Afton e contra as regras de um mundo que nunca entenderia a conexão entre os dois.
Lá fora, Shota Aizawa caminhava sob o luar, sentindo um calafrio estranho percorrer sua espinha. Ele olhou para o prédio dos professores, vendo a luz apagada no quarto de Hizashi. Ele sentia que algo estava errado, que o silêncio da noite escondia uma tempestade que ele não seria capaz de apagar. Mas, fiel à sua natureza, ele apenas fechou os olhos e continuou sua caminhada, deixando que as sombras cuidassem de seus próprios segredos.
Enquanto isso, no quarto escuro, Erick e Hizashi permaneciam unidos, uma sinfonia proibida tocando em meio ao caos iminente. Eles eram o porto seguro um do outro, e nada — nem mesmo o sorriso de um assassino ou a indiferença de um pai — seria capaz de separá-los. A caçada começara, mas desta vez, a presa tinha dentes. E Erick Afton estava pronto para morder.