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O lixo de um homem pode ser o tesouro de outro

Sinfonia de Pecados e o Eco do Escotepador

O corredor dos dormitórios da U.A. estava mergulhado em um silêncio artificial, aquele tipo de quietude que precede uma tempestade ou uma revelação catastrófica. Erick Afton caminhava com a confiança de quem já havia morrido uma vez e não temia o que as sombras poderiam sussurrar. Seus passos eram inaudíveis, uma técnica que ele aprimorara não apenas para ser um herói, mas para sobreviver à linhagem maldita que carregava nas veias.

Ele parou diante da porta de Hizashi Yamada. Não era a primeira vez, e certamente não seria a última. O relacionamento entre o herói barulhento e o filho de seu antigo parceiro era um campo minado, uma heresia ética e social, mas para Erick, era a única coisa que fazia sentido em um mundo de cinzas.

Ao entrar, ele encontrou Hizashi sentado à mesa de centro, com uma garrafa de vinho pela metade e os olhos fixos em uma fotografia antiga — uma foto de Shota, Hizashi e o pequeno Erick, anos antes de William Afton destruir a pouca sanidade que restava naquela família.

— Ele esteve aqui hoje — sussurrou Hizashi sem olhar para trás. A voz dele, geralmente uma explosão de decibéis, era agora um fio de seda puído. — Seu pai. Ele veio buscar uns arquivos, mas ficou parado na porta, olhando para mim como se eu fosse um fantasma que ele esqueceu de exorcizar.

Erick aproximou-se e colocou as mãos nos ombros de Hizashi. Ele sentiu o loiro estremecer sob seu toque, uma mistura de medo residual e desejo ardente.

— Shota não consegue ver o que está diante dele, Zashi — disse Erick, sua voz grossa e possessiva vibrando perto do ouvido do professor. — Ele desistiu de você quando as coisas ficaram difíceis. Ele viu o trauma que o meu tio causou e, em vez de lutar por você, ele se trancou naquela apatia miserável.

Hizashi inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto as mãos de Erick desciam para o seu peito.

— Ele é seu pai, Erick... Isso é tão errado. Eu deveria ser o adulto aqui. Eu deveria te expulsar deste quarto.

Erick riu, um som seco e desprovido de humor, tipicamente Afton.

— Você não quer que eu vá embora. Você precisa do que eu te dou. Segurança. Presença. Coisas que o "Vincent" nunca seria capaz de oferecer porque ele tem medo da própria sombra.

Erick virou a poltrona de Hizashi, forçando o homem a encará-lo. O loiro parecia uma pintura de vulnerabilidade; o cabelo sem o gel habitual caía sobre o rosto, e as lentes laranjas estavam sobre a mesa, revelando olhos verdes cansados e úmidos.

— Trate-me como se eu fosse sua, Erick — implorou Hizashi em um sussurro quase inaudível. — Faça-me esquecer o nome dele. Faça-me esquecer o que o William fez comigo.

Erick não respondeu com palavras. Ele puxou Hizashi para cima, colando seus corpos. A diferença de altura e a força bruta de Erick eram um lembrete constante de quem detinha o poder naquela dinâmica. Ele era o ativo, o protetor, o senhor daquele segredo.

— Você é minha, Zashi — afirmou Erick antes de selar seus lábios em um beijo que carregava o peso de anos de negligência e o fogo de uma paixão proibida.

Enquanto se moviam para a cama, o ar no quarto parecia carregar o eco metálico do passado. Erick, que fora "escopetado" junto de seu primo Michael, sentia sua energia interna pulsar. Era uma energia estranha, remanescente do trauma compartilhado, que ele agora usava para envolver Hizashi em uma bolha de proteção absoluta.

— Eu vi o Michael hoje — comentou Erick, enquanto Hizashi se aninhava em seus braços, a respiração ainda descompassada. — Ele sabe.

Hizashi sentou-se bruscamente, o pânico cruzando seu rosto.

— O quê? Como? Se o Michael contar para o seu pai, ou para o Diretor Nezu...

— Ele não vai contar — interrompeu Erick, puxando-o de volta para o seu peito com firmeza. — Michael entende o que é viver entre monstros. Ele viu o que o William fez com você e viu como o Shota te abandonou. Ele me disse que, se você encontrou paz nos meus braços, ele não seria o único a tirar isso de nós.

Hizashi soltou um suspiro de alívio, mas a paranoia ainda brilhava em seus olhos.

— Shota está começando a notar, Erick. Ele comentou que você está distraído nas aulas dele. Ele perguntou por que eu pareço mais "vivo" ultimamente. Ele usou essa palavra. "Vivo".

— Deixe que ele note — disse Erick com um sorriso sombrio. — Ele é um herói das sombras, mas é cego para o que acontece dentro de sua própria casa. Ele acredita que o controle é a chave para tudo, mas ele perdeu o controle sobre você no momento em que parou de te tocar.

— Você fala como se não tivesse medo de nada — murmurou Hizashi, traçando as cicatrizes no peito de Erick com a ponta dos dedos.

— Eu já estive morto, Zashi. O que é um escândalo escolar perto do que o meu tio fez com a gente? — Erick segurou o pulso de Hizashi, trazendo a mão dele até seus lábios. — Se ele descobrir, eu enfrento ele. Eu não sou o garotinho que precisava de proteção. Eu sou o homem que protege você agora.

A noite avançou, e o silêncio da U.A. foi preenchido apenas pelos sussurros de um amor que desafiava a lógica. Hizashi amava ser tratado como o lado frágil, amava a possessividade de Erick. Para um homem que passava o dia gritando para milhares de ouvintes, o silêncio cúmplice de Erick era sua melodia favorita.

No entanto, o destino dos Afton nunca era linear. Na manhã seguinte, enquanto Erick saía discretamente dos aposentos dos professores, ele deu de cara com uma figura encostada na parede do corredor escuro.

Não era Shota. Era Michael.

— Você está jogando um jogo perigoso, primo — disse Michael, a voz arrastada e carregada de um cinismo profundo. — O "velho" está de mau humor hoje. Ele teve outro pesadelo com o papai.

Erick parou, seus olhos fixos nos de Michael. Havia um entendimento silencioso entre os dois sobreviventes.

— Shota vive de pesadelos, Michael. Eu prefiro viver a realidade.

— A realidade de dormir com o ex do seu pai? — Michael soltou uma risada curta. — Vincent vai ter um colapso quando descobrir. E ele vai descobrir. Você conhece o faro dele.

— Deixe que descubra — respondeu Erick, passando pelo primo. — Eu não tenho medo do meu pai. Ele é um homem quebrado que se recusa a ser consertado. Eu escolhi alguém que quer ser curado.

Michael observou o primo se afastar, sentindo o peso daquela herança maldita.

— Apenas tome cuidado, Erick. William ainda está por aí. E se ele souber que você está protegendo o "brinquedo" que ele não conseguiu terminar de quebrar... ele vai voltar.

Erick parou por um segundo, os punhos cerrados.

— Que ele venha. Desta vez, eu não vou apenas proteger. Eu vou terminar o que ele começou.

Enquanto isso, na sala dos professores, Hizashi tentava manter a fachada. Ele colocou seu melhor sorriso, ajustou o volume de sua voz e começou a preparar sua aula de inglês. Mas, ao sentir o olhar frio e analítico de Shota Aizawa sobre suas costas, ele sentiu um calafrio.

— Você está usando o perfume que eu te dei há três anos, Hizashi — disse Shota, sem levantar os olhos de seus relatórios. — Achei que você tivesse jogado fora depois que terminamos.

Hizashi congelou. Ele não estava usando aquele perfume. Ele estava usando o sabonete de Erick, que tinha um aroma sutil de sândalo e fumaça, algo que ele trouxera do dormitório.

— Eu... eu achei no fundo do armário, Shota — mentiu Hizashi, a voz falhando por um milésimo de segundo. — Não significa nada.

Shota finalmente levantou o olhar. Seus olhos estavam injetados, as olheiras mais profundas do que o normal.

— Nada do que você faz parece não significar nada ultimamente. Você está radiante, Yamada. E o Erick... ele está agindo como se fosse o dono deste lugar. — Shota levantou-se, caminhando lentamente até Hizashi. — Há algo acontecendo. E se eu descobrir que o meu irmão está envolvido nisso de alguma forma...

— O William não tem nada a ver com isso! — disparou Hizashi, defendendo instantaneamente o segredo que o mantinha são. — Por que você sempre assume o pior? Por que não pode simplesmente aceitar que eu superei você?

Shota estreitou os olhos. A tensão entre os dois era quase palpável, uma corda esticada prestes a arrebentar.

— Porque eu conheço você. E eu conheço o meu sangue. — Shota aproximou-se do ouvido de Hizashi, sua voz um sussurro perigoso. — Tome cuidado, Hizashi. Se você estiver usando o meu filho para se vingar de mim, eu vou esquecer que um dia te amei.

Hizashi sustentou o olhar, embora suas pernas estivessem tremendo sob a mesa.

— Você já esqueceu isso há muito tempo, Shota.

Shota saiu da sala sem dizer mais nada, deixando Hizashi sozinho com seu pânico e seu amor proibido.

Mais tarde naquele dia, durante o treinamento físico, Erick demonstrou uma agressividade incomum. Ele estava enfrentando robôs de treinamento com uma precisão cirúrgica, sua energia sombria emanando de suas mãos como chicotes de puro trauma.

— Você está lutando com raiva, Afton — comentou Sekijiro Kan (Vlad King), que supervisionava o treino.

— Estou lutando com propósito, professor — corrigiu Erick, destruindo a cabeça de um robô com um golpe seco.

Ele olhou para a cabine de observação e viu Hizashi observando-o. O professor fez um sinal discreto, um toque no fone de ouvido. "Preciso de você".

Erick não esperou o fim da aula. Ele alegou um mal-estar devido ao uso excessivo de sua individualidade e retirou-se. Ele sabia que Shota estaria ocupado com a turma 1-A no ginásio Beta, o que lhe dava a janela perfeita.

Ao entrar no estúdio de rádio da escola, onde Hizashi costumava se refugiar, ele encontrou o loiro trancado em uma cabine de som.

— Ele suspeita, Erick — soluçou Hizashi, caindo nos braços do rapaz assim que a porta foi fechada. — Ele mencionou o perfume, ele mencionou o seu comportamento... Ele vai nos destruir.

Erick segurou o rosto de Hizashi com firmeza, forçando-o a olhar para ele.

— Respire, Zashi. Olhe para mim. — Erick esperou até que os olhos verdes se focassem nos seus. — Shota não vai fazer nada porque ele não tem provas. E mesmo que tivesse, o que ele faria? Ele teria que admitir publicamente que o filho dele é mais homem do que ele. Ele teria que admitir que falhou com você. O ego dele é maior do que a moralidade dele.

— Mas e se ele contar para o Nezu? — perguntou Hizashi, tremendo. — Eu perderia minha licença. Eu perderia tudo.

— Você não vai perder nada. Eu vou cuidar disso. — Erick beijou a testa de Hizashi. — Eu vou falar com o Michael. Ele tem acesso aos registros das câmeras de segurança. Vamos apagar qualquer rastro.

— Você faria isso por mim? — Hizashi perguntou, a adoração brilhando em seus olhos.

— Eu faria qualquer coisa por você, mãe — disse Erick, usando o termo que costumava usar quando criança, mas agora carregado de uma conotação possessiva e adulta. — Você cuidou de mim quando eu não tinha ninguém. Agora sou eu quem cuida de você.

Erick sentou-se na cadeira do locutor e puxou Hizashi para o seu colo. Ele gostava de como o professor se encaixava perfeitamente ali, como se tivesse sido moldado para ser protegido por ele.

— Trate-me como sua mulher, Erick — sussurrou Hizashi, entregando-se completamente. — Esqueça que este lugar é uma escola. Esqueça que o Shota está lá fora.

Erick sorriu, um sorriso que faria William Afton se sentir orgulhoso e Shota Aizawa sentir pavor.

— Com prazer.

Enquanto o estúdio de rádio permanecia em silêncio para o mundo exterior, dentro daquela cabine, uma sinfonia de desejo e rebeldia era composta. Erick explorava cada centímetro de Hizashi com uma autoridade que nenhum professor jamais ousaria exercer. Ele era o mestre daquela relação, o ativo que guiava Hizashi através do labirinto de seus próprios traumas.

No entanto, do lado de fora, nas sombras do corredor, uma figura observava a luz vermelha de "No Ar" piscar intermitentemente. Não era Shota.

Era uma figura alta, vestindo um sobretudo roxo desgastado, com um sorriso que parecia uma cicatriz aberta no rosto. William Afton estava de volta à U.A., e ele vira exatamente o que precisava para começar seu novo jogo.

— Ora, ora... — sussurrou William para as sombras. — Parece que o pequeno Erick aprendeu muito bem as lições da família. Vincent vai ficar devastado... e eu vou adorar assistir ao espetáculo.

William desapareceu nas sombras antes que qualquer sensor pudesse detectá-lo, deixando para trás apenas o eco de sua risada maníaca.

Dentro do estúdio, Erick sentiu um calafrio repentino. Ele apertou Hizashi contra si, seus instintos de Afton gritando que o perigo estava mais perto do que nunca.

— O que foi? — perguntou Hizashi, sentindo a mudança na postura de Erick.

— Nada — mentiu Erick, embora seus olhos estivessem fixos na porta trancada. — Apenas uma sombra passageira. Não se preocupe, Zashi. Eu estou aqui. E ninguém vai tocar no que é meu.

Hizashi sorriu, sentindo-se seguro na mentira de Erick. Ele não sabia que a tempestade estava apenas começando, e que o segredo deles estava prestes a se tornar o epicentro de uma guerra familiar que abalaria as estruturas da U.A.

Mas, por enquanto, sob a luz vermelha do estúdio, eles eram apenas dois amantes proibidos, tentando encontrar a harmonia em uma sinfonia de pecados e cicatrizes. Erick sabia que o confronto final com seu pai e seu tio era inevitável, mas ele estava pronto. Ele tinha Hizashi, tinha o apoio silencioso de Michael e, acima de tudo, tinha a escuridão dos Afton ao seu lado.

A batalha pelo coração de Hizashi Yamada fora vencida por Erick. Agora, a batalha pela sobrevivência começaria. E Erick Afton não pretendia deixar nenhum sobrevivente que ousasse ameaçar sua felicidade proibida.

— Você é meu — repetiu Erick, selando o destino de ambos.

— Para sempre — respondeu Hizashi, entregando sua alma ao jovem que o salvara do silêncio.