O lobo e o dragao
O Despertar da Fera e o Eco do Pânico
O acampamento huno era um lugar de sons brutais e cheiros fortes. O odor de carne assada em chamas abertas misturava-se ao cheiro de couro curtido, cavalos suados e ao metal frio das armas sendo afiadas. Eles haviam deixado as montanhas nevadas para trás há dois dias, descendo para as planícies áridas que serviam de fronteira entre a civilização que Mulan conhecia e o vazio selvagem que Shan Yu chamava de lar.
Mulan estava instalada em uma tenda de couro pesado, vigiada constantemente. Suas feridas físicas estavam cicatrizando com uma rapidez que surpreendia até os curandeiros tribais, mas sua mente era um campo de batalha devastado. Ela não era mais a soldada Ping, nem a filha obediente da família Fa. Ela era algo indefinido, uma prisioneira de guerra que compartilhava o leito do inimigo, uma traidora aos olhos de seu povo e uma curiosidade perigosa aos olhos dos hunos.
Naquela noite, o silêncio da estepe foi quebrado apenas pelo uivo distante de lobos e pelo estalar da fogueira central. Dentro da tenda, a escuridão era sufocante. Mulan dormia um sono inquieto, o corpo exausto, mas a alma alerta.
O pesadelo veio como uma avalanche negra.
Ela viu a Cidade Imperial em chamas. O céu, antes azul, estava tingido de um laranja doentio. Ela corria pelas ruas, mas seus pés pareciam presos em lama feita de sangue. À sua frente, o portão de sua casa em sua aldeia natal estava escancarado. Ela entrou, gritando pelo pai, mas o que encontrou foi o silêncio da morte. Fa Zhou estava caído no jardim, sua espada quebrada ao lado; sua mãe e a avó estavam imóveis sob a sombra da magnólia, cujas flores brancas haviam se tornado vermelhas.
E então, a sombra. Shan Yu surgiu por trás dela, sua cimitarra gotejando. Ele não disse nada, apenas sorriu aquele sorriso de lobo, e atrás dele, uma horda de hunos avançava sobre a China como uma praga de gafanhotos, destruindo tudo o que ela amava.
Mulan acordou com um solavanco, o peito subindo e descendo em espasmos violentos. O suor frio escorria por suas têmporas, colando os fios de cabelo em seu rosto. Ela tentou se sentar, mas o mundo girava. O ar parecia ter se transformado em chumbo; ela puxava o fôlego, mas seus pulmões se recusavam a inflar.
— Não... não... — ela murmurou, a voz saindo como um guincho sufocado.
A escuridão da tenda parecia se fechar sobre ela. As paredes de couro moviam-se como se estivessem respirando, diminuindo o espaço, esmagando-a. Ela levou as mãos ao pescoço, sentindo o pulso martelar contra a pele com uma força aterrorizante. O ataque de pânico a atingiu com a força de um golpe físico.
— Eu não consigo... respirar... — Ela se arrastou para a borda do leito de peles, as unhas cravando-se na terra batida.
— Você está fazendo barulho demais, pequena flor.
A voz veio do canto sombrio da tenda. Shan Yu estava sentado em um banco de madeira, limpando uma mancha imaginária em sua armadura de ombro. Ele não estava dormindo. Ele nunca parecia dormir totalmente; era como se estivesse sempre à espreita, esperando o momento em que a presa vacilaria.
Ele se levantou e caminhou em direção a ela. Mulan, em meio ao pânico, viu apenas a silhueta imponente do monstro de seus pesadelos. Ela tentou recuar, mas suas costas bateram no mastro central da tenda.
— Afaste-se! — ela tentou gritar, mas o som saiu como um chiado. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas dilatadas pelo terror.
Shan Yu parou a poucos passos. Ele inclinou a cabeça, observando-a não com piedade, mas com uma curiosidade clínica. Ele viu o tremor nas mãos dela, a palidez cadavérica e a forma como ela lutava por oxigênio.
— O que é isso? — perguntou ele, a voz baixa e vibrante. — Sobreviveu ao gelo e à minha lâmina para morrer de medo de uma sombra?
— Eles... você... minha família... — Mulan soluçava, a visão turva. — Você vai matá-los... eu deixei você viver... a culpa é minha...
O pânico a consumia. Ela sentia que seu coração ia explodir a qualquer momento. A ansiedade de estar presa, de ter falhado com sua pátria e o trauma do que acontecera na montanha colidiam em seu peito.
Shan Yu moveu-se com a rapidez de um raio. Antes que ela pudesse protestar, ele a agarrou pelos ombros e a forçou a ficar de pé. Mulan cambaleou, as pernas fracas, mas ele a segurou firme, prensando-a contra o seu peito maciço.
— Olhe para mim! — ordenou ele, sua voz soando como um comando militar que exigia obediência imediata.
Mulan tentou desviar o olhar, mas ele segurou seu queixo com uma mão de ferro, forçando-a a encarar os olhos amarelos e predatórios.
— Respire — rosnou ele. — Agora.
— Eu... eu não consigo... — ela arquejou, as lágrimas transbordando.
— Você é uma guerreira — disse ele, a voz descendo para um tom perigosamente calmo, quase íntimo. — Guerreiros não morrem sufocados por pensamentos. Eles morrem em combate. Se você quer que seu coração pare, que seja pela minha espada, não por um delírio. Respire comigo.
Ele pegou a mão dela e a pressionou contra o próprio peito, sobre o coração dele. Mulan sentiu a batida lenta, poderosa e constante de Shan Yu. Era o ritmo de algo que não conhecia a dúvida, algo que simplesmente existia para dominar.
— Sinta — disse ele. — Siga o meu ritmo.
Mulan estava em choque. O contato físico, que deveria repelir, estava agindo como uma âncora. Ela começou a focar no movimento do peito dele, na solidez daquele homem que era a causa e, paradoxalmente, a cura temporária de seu terror. Aos poucos, os espasmos em seus pulmões começaram a ceder. O ar voltou, frio e cortante, mas real.
Ela desabou contra ele, a testa encostada no metal frio de sua couraça. O silêncio voltou à tenda, quebrado apenas pela respiração agora mais lenta de Mulan.
— Por que você ainda está aqui? — perguntou ela, a voz rouca e carregada de uma raiva desesperada. — Por que não me mata de uma vez? Seria mais misericordioso do que me manter neste limbo.
Shan Yu soltou o queixo dela, mas não se afastou. Suas mãos desceram para os braços dela, apertando-os com uma força que beirava a dor.
— Misericórdia é uma palavra para os fracos, Mulan. Eu mantenho você aqui porque você é o único troféu que a China produziu que vale a pena guardar. Você não é apenas uma mulher; você é a vontade de um povo concentrada em um corpo frágil. Se eu quebrar você, eu quebro o espírito do seu Imperador.
Mulan ergueu o olhar, a centelha de desafio voltando aos seus olhos negros.
— Você nunca vai me quebrar.
Shan Yu soltou um riso sombrio e deslizou a mão pelo pescoço dela, seus dedos roçando a cicatriz que ele mesmo deixara.
— Você diz isso enquanto treme em meus braços após um sonho. Você está dividida, pequena flor. Metade de você quer me matar, e a outra metade... — Ele se inclinou, o hálito quente atingindo o rosto dela. — A outra metade percebeu que, aqui, você é mais livre do que jamais foi naquelas vilas de camponeses.
— Isso é mentira! — rebateu ela, embora a dúvida a corroesse. — Eu sou leal à minha família. Eu vou fugir, Shan Yu. Eu vou avisar o exército. Eu vou garantir que você nunca chegue à capital.
Shan Yu a empurrou levemente contra o mastro, cercando-a com seu corpo. Ele era uma muralha de carne e malícia.
— Tente. Eu adoraria caçar você novamente. Mas saiba de uma coisa: no momento em que você atravessar o perímetro deste acampamento, meus homens não serão tão pacientes quanto eu. Eles veem você como carne. Eu vejo você como um desafio. Escolha bem quem você prefere enfrentar.
Mulan sentiu a ansiedade retornar, mas desta vez era uma tensão diferente. Não era o pânico paralisante, mas uma eletricidade que percorria seus nervos. Ela o odiava com cada fibra de seu ser, mas a proximidade dele, o calor que emanava de seu corpo e a lembrança daquela noite na caverna criavam uma confusão sensorial que ela não conseguia processar.
— Você é um monstro — sussurrou ela, sua respiração acelerando novamente, mas não por falta de ar.
— E você é a mulher que se deitou com o monstro para não congelar — disse ele, a mão descendo para a cintura dela, puxando-a para mais perto de forma possessiva. — Não tente se esconder atrás de sua moralidade agora. O gelo nos despiu de todas as mentiras, Mulan.
Ele a beijou com uma selvageria que não pedia permissão. Era um beijo que carregava o gosto de ferro e conquista. Mulan tentou resistir, suas mãos empurrando os ombros dele, mas a adrenalina do ataque de pânico transformou-se em uma necessidade desesperada de sentir algo que não fosse medo. Ela retribuiu o beijo com uma fúria que igualava a dele, suas unhas arranhando o couro de suas roupas.
Shan Yu soltou um rosnado de satisfação. Ele a levantou, as pernas dela enlaçando sua cintura, e a carregou de volta para o leito de peles. Ele a jogou sobre a maciez das peles de lobo, desfazendo-se de suas peças de armadura com impaciência.
— Você quer fugir? — perguntou ele, a voz rouca enquanto se posicionava entre as pernas dela. — Fuja agora. Tente sair debaixo de mim.
Mulan olhou para ele, o peito subindo e descendo. Ela poderia tentar atingir os olhos dele, poderia tentar alcançar a faca pequena que ele mantinha na bota. Mas seu corpo estava traindo sua mente. A tensão dos últimos dias, o isolamento e a necessidade de descarregar a angústia acumulada a levavam para o abismo.
— Eu odeio você — ela disse, puxando-o para baixo pelo pescoço.
— Eu sei — respondeu ele, antes de tomar os lábios dela novamente.
O que se seguiu foi um encontro desprovido de qualquer ternura. Foi uma colisão de dois inimigos que usavam seus corpos como armas. Shan Yu era dominante, impiedoso em cada toque, exigindo que ela reconhecesse sua força. Mulan, por sua vez, não era uma vítima passiva. Ela lutava por cada centímetro de prazer, respondendo aos movimentos dele com uma agilidade e uma força que o faziam rugir de aprovação.
Naquela tenda, cercada por um exército de bárbaros, Mulan sentia-se mais viva e, ao mesmo tempo, mais perdida do que nunca. Cada estocada de Shan Yu parecia apagar uma parte de sua identidade anterior, substituindo-a por uma realidade crua e carnal. Ela não pensava no Imperador, não pensava em Shang, não pensava nem mesmo em sua honra. Havia apenas o calor, o peso de Shan Yu e o som de suas respirações misturadas.
Quando o êxtase finalmente os atingiu, foi como uma explosão de sentidos que deixou Mulan trêmula e exausta. Shan Yu desabou sobre ela por um momento, seu peso sendo um lembrete constante de sua captura.
Depois de algum tempo, ele se afastou e sentou-se na beira do leito, observando-a na penumbra. Mulan cobriu-se com uma pele, virando o rosto para o lado. O pânico havia sumido, substituído por uma melancolia profunda e uma exaustão que pesava mais que o chumbo.
— Durma agora — disse Shan Yu, sua voz voltando ao tom frio de comando. — Amanhã cavalgaremos para o norte. Se você tentar fugir durante o trajeto, eu matarei o seu cavalo e farei você caminhar acorrentada ao meu.
Mulan não respondeu. Ela fechou os olhos, mas o sono não veio imediatamente. Ela sabia que Shan Yu estava certo sobre uma coisa: ela não era mais a mesma. O fogo que ele acendera nela, um fogo nascido do ódio e da sobrevivência, era algo que ela não sabia se conseguiria apagar.
Ela esperaria. Ela curaria suas feridas, observaria os movimentos do exército huno e aprenderia suas fraquezas. Shan Yu achava que a possuía porque a tivera em seu leito, mas Mulan era uma estrategista. Se para salvar a China ela tivesse que se tornar a companheira do lobo, ela o faria. Mas, em seu coração, ela jurou que o mesmo calor que os unia naquela noite seria, eventualmente, o fogo que reduziria o império dele a cinzas.
Lá fora, o vento da estepe soprava, carregando o eco de uma guerra que estava longe de terminar. E na escuridão da tenda, Shan Yu sorria, sabendo que tinha sob seu comando a única criatura que realmente o desafiava. A caçada estava apenas começando.