Voltar ao resumo

O lobo e o dragao

O Abismo da Honra Perdida

A estepe era um deserto de terra batida e pedras afiadas que pareciam querer cortar os cascos dos cavalos. O céu, de um azul pálido e indiferente, estendia-se sobre a horda huno enquanto eles avançavam implacavelmente em direção ao norte, para as terras onde o gelo nunca derretia totalmente. Para Mulan, cada légua percorrida era um prego cravado no caixão de sua antiga vida.

Ela cavalgava um cavalo robusto de pelagem escura, com as mãos presas por cordas de couro que permitiam apenas o controle básico das rédeas. Mas ela não precisava de amarras para ser mantida ali; seu próprio espírito parecia ter sido deixado para trás, enterrado sob a neve da avalanche. Desde a noite na tenda, Mulan mergulhara em um silêncio absoluto. Ela não falava, não protestava e, para a preocupação crescente de seus captores, mal comia.

Seu rosto, antes cheio de expressividade e fogo, tornara-se uma máscara de porcelana trincada. Os olhos negros, que outrora desafiaram o próprio Shan Yu, agora pareciam fixos em um ponto invisível no horizonte, vazios de esperança ou de ódio. Ela recusava as rações de carne seca e o leite de égua fermentado que lhe ofereciam. O corpo, já debilitado pelas feridas e pela febre, começava a definhar, tornando-a uma sombra pálida e etérea sobre a sela.

Shan Yu cavalgava à frente, mas seus olhos amarelos voltavam-se para ela com uma frequência constante. O silêncio da mulher o irritava mais do que seus gritos de desafio. Ele a queria vibrante, lutadora, uma fera enjaulada que tentasse morder as grades. Aquela casca vazia que o seguia não era a guerreira que dizimara seu exército.

— Coma — ordenou ele, certa noite, jogando um pedaço de pão ázimo no colo dela enquanto acampavam.

Mulan nem sequer olhou para o alimento. Ela permaneceu sentada perto da fogueira, os braços abraçados aos joelhos, observando as chamas com uma apatia que beirava a catatonia.

— Você está tentando se matar pela fome — rosnou Shan Yu, aproximando-se e segurando-a pelo queixo com força. — É uma morte covarde para alguém que enfrentou a montanha.

Mulan não respondeu. Ela apenas piscou lentamente, seus olhos encontrando os dele por um breve segundo antes de voltarem para o fogo. Não havia medo ali, apenas um cansaço existencial profundo. Ela sentia que sua alma estava manchada demais para retornar à China, e seu corpo era apenas uma moeda de troca nas mãos de um bárbaro. Se o corpo morresse, a dívida estaria paga.

Na manhã seguinte, a trilha tornou-se perigosa. Eles entraram em um desfiladeiro estreito, onde o caminho serpenteava ao longo de um precipício vertiginoso. O desfiladeiro era conhecido como "A Garganta do Dragão", um lugar onde o solo era instável, composto de cascalho solto e rocha calcária que se esfarelava sob pressão.

Shan Yu liderava a fila, seguido de perto por Mulan. O vento soprava forte nas alturas, uivando entre as fendas e fazendo os cavalos relincharem de nervosismo. Mulan não sentia medo da altura; na verdade, o abismo à sua direita parecia quase convidativo, uma promessa de silêncio eterno e fim de todo o tormento.

De repente, um som de estalo seco ecoou pelo desfiladeiro.

O solo sob as patas traseiras do cavalo de Mulan cedeu. Em um segundo, a borda do caminho simplesmente desapareceu em uma nuvem de poeira e detritos. O animal soltou um relincho aterrorizado enquanto perdia o equilíbrio, escorregando para o vazio.

Por um instinto de sobrevivência que ela mesma odiou, Mulan jogou-se para o lado oposto, tentando se agarrar à parede de pedra. O cavalo despencou, desaparecendo na névoa do abismo com um som que Mulan nunca esqueceria. Ela, porém, não conseguiu alcançar a segurança do caminho firme. Seu corpo escorregou pela encosta íngreme e, por um milagre cruel, suas mãos encontraram um galho retorcido de um arbusto que crescia solitário entre as fendas da rocha, alguns metros abaixo da borda.

Ela ficou ali, pendurada sobre o nada. Suas mãos, ainda atadas pelos pulsos, dificultavam o aperto. A dor em seus ombros era aguda, e o galho estalava perigosamente sob seu peso.

Lá em cima, a horda parou abruptamente. Shan Yu saltou de seu cavalo antes mesmo que o animal parasse totalmente. Ele correu até a borda, os olhos fixos na figura pequena e frágil que balançava sobre o abismo.

— Mulan! — O grito dele foi um comando, uma explosão de autoridade que ecoou pelas paredes de pedra.

Ele se deitou no chão, estendendo o braço maciço sobre o desfiladeiro. Sua mão, grande e calejada, estava a poucos centímetros do alcance dela.

— Segure minha mão! — rosnou ele, o rosto contorcido pela urgência. — Agora! Pegue minha mão e eu te puxo!

Mulan olhou para cima. Ela viu o rosto de Shan Yu, as cicatrizes, os olhos amarelos que brilhavam com uma mistura estranha de fúria e algo que se assemelhava ao desespero. Atrás dele, o céu estava limpo, como se risse de sua situação.

Depois, ela olhou para baixo.

O abismo era vasto e cinzento. Lá embaixo, o rio que corria no fundo do vale parecia apenas uma linha prateada. Se ela soltasse o galho, tudo terminaria. Não haveria mais Shan Yu, não haveria mais a vergonha de ter sido descoberta, não haveria mais a lembrança do calor dele em sua pele ou do sangue de seus irmãos de armas na neve. Seria apenas o vazio. A paz.

Suas mãos começaram a escorregar. O suor e a fraqueza tornavam o galho cada vez mais difícil de segurar.

— Mulan, pegue a minha mão! — Shan Yu gritou novamente, esticando-se ainda mais. Seus dedos roçaram os dela. — É uma ordem! Não ouse morrer desta forma!

Mulan finalmente quebrou seu silêncio. Sua voz saiu fraca, mas carregada de uma clareza cortante.

— Por quê? — perguntou ela, os olhos fixos nos dele. — Por que eu deveria subir? Para ser seu brinquedo? Para ver você destruir meu povo enquanto eu sou forçada a observar?

— Você sobe porque eu decidi que você vive! — rugiu ele. — Você sobe para lutar comigo, para me odiar, para tentar me matar! Mas não para cair como uma pedra sem valor!

Mulan sentiu o arbusto ceder mais alguns milímetros. Ela relaxou os dedos deliberadamente. A ideia de cair era quase doce. Ela imaginou o vento em seu rosto, a liberdade final da gravidade.

— Eu não pertenço a lugar nenhum, Shan Yu — disse ela, uma lágrima finalmente escorrendo e caindo no abismo. — Na China, sou uma impostora. Aqui, sou uma escrava. No abismo... eu sou apenas eu.

— Você não é uma escrava! — Shan Yu sibilou, sua voz vibrando de uma forma que ela nunca ouvira. — Você é a única pessoa que me feriu! A única que sobreviveu à minha fúria! Se você soltar esse galho, você prova que eles estavam certos... que você é apenas uma mulher fraca que fugiu da luta!

Mulan hesitou. A palavra "fraca" atingiu-a como um chicote. Ela nunca fora fraca. Ela enfrentara o exército huno sozinha com um canhão e um fósforo. Ela enfrentara o desprezo de Chi-Fu e o abandono de Shang.

— Eu não estou fugindo — sussurrou ela. — Estou escolhendo.

— Então escolha o fogo, não o vazio! — Shan Yu quase se lançou sobre a borda, seus dedos agarrando o pulso dela com uma rapidez predatória antes que ela pudesse soltar totalmente o galho.

O aperto dele era como um grilhão de ferro. Mulan sentiu o osso de seu pulso protestar sob a pressão. Ele a segurava com uma força que poderia esmagá-la, mas havia uma firmeza absoluta ali.

— Eu te peguei — disse ele, a respiração pesada. — E eu não vou soltar. Nunca.

Com um esforço hercúleo, Shan Yu começou a puxá-la para cima. Seus músculos do braço e das costas saltaram sob a pele, as veias de seu pescoço dilatadas pelo esforço. Ele a arrastou pela borda rochosa, ignorando os arranhões que a pedra causava na pele dela, até que ele pudesse envolver os dois braços em volta de sua cintura e jogá-la para o chão firme da trilha.

Eles ficaram ali, caídos na terra batida, ofegantes. Shan Yu estava por cima dela, prendendo-a contra o chão com seu peso, como se temesse que ela pudesse simplesmente flutuar para longe se ele a soltasse.

Mulan olhava para o céu, o peito subindo e descendo. Ela estava viva. Novamente. A morte a rejeitara mais uma vez, e o agente dessa rejeição era o homem que ela deveria odiar acima de tudo.

Shan Yu agarrou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele. Havia uma fúria selvagem em seus olhos, mas também uma faísca de algo que Mulan não conseguia nomear — uma possessividade que ia além do físico, algo que reconhecia nela a sua única igual no mundo.

— Se você tentar isso de novo — sibilou ele, o rosto a centímetros do dela —, eu descerei até o inferno para te buscar. Você entendeu? Você é minha dívida de sangue, Mulan. E eu vou cobrá-la todos os dias, até que não reste mais nada de você além do que eu permitir.

Mulan sentiu a raiva começar a ferver em seu sangue novamente. O entorpecimento da apatia estava sendo substituído por uma indignação ardente. O fogo que ele tanto mencionara estava sendo reaceso pela pura força da vontade dele contra a dela.

— Eu odeio você — disse ela, a voz agora firme e cheia de veneno.

Shan Yu sorriu. Foi um sorriso genuíno, cruel e satisfeito.

— Ótimo. O ódio vai te manter alimentada. O ódio vai te manter forte.

Ele se levantou e, sem aviso, cortou as cordas que prendiam os pulsos dela com uma adaga rápida. Mulan olhou para seus pulsos libertos, as marcas vermelhas do couro ainda visíveis.

— Por que fez isso? — perguntou ela, massageando a pele dolorida.

— Porque uma prisioneira que quer morrer não precisa de cordas. E uma guerreira que escolhe viver não será contida por elas — respondeu ele, voltando-se para seus homens, que observavam a cena em silêncio absoluto. — Tragam um cavalo novo para ela. E tragam carne. Ela vai comer hoje, ou eu mesmo a alimentarei como se fosse um filhote de lobo.

Mulan levantou-se lentamente, limpando a poeira de suas roupas rasgadas. Ela olhou para o abismo uma última vez. A tentação ainda estava lá, mas o desafio de Shan Yu havia plantado uma semente de resistência. Se ele queria que ela vivesse para ser seu troféu, ela viveria para ser seu pesadelo.

Ela aceitou a carne que um dos soldados lhe estendeu, mastigando-a com dificuldade, mas com determinação. Cada pedaço era uma promessa de força recuperada. Shan Yu a observava de soslaio enquanto montava em seu garanhão negro.

— Amanhã chegaremos às estepes centrais — anunciou ele para a horda. — Lá, o inverno é nosso aliado.

Ele olhou para Mulan, que agora montava seu novo cavalo com uma postura que lembrava a soldada que ele enfrentara na avalanche.

— Você achou que o abismo era o fim, Mulan — disse ele, cavalgando ao lado dela enquanto a fila se movia novamente. — Mas o abismo foi apenas o batismo. Agora, você pertence à terra onde não há leis, apenas o desejo do mais forte.

— E quem disse que você é o mais forte? — desafiou ela, sua primeira frase voluntária em dias.

Shan Yu soltou uma gargalhada que ecoou pelo desfiladeiro, um som de triunfo que parecia dominar o próprio vento.

— Veremos, flor de aço. Veremos.

A jornada continuou. O sol começou a se pôr, tingindo as montanhas de um roxo profundo e sangrento. Mulan cavalgava em silêncio, mas agora era o silêncio de um general planejando sua próxima jogada. Ela olhou para as costas largas de Shan Yu e sentiu uma tensão elétrica percorrer seu corpo.

Ela sabia que a relação entre eles havia mudado irrevogavelmente. O ato de salvá-la do abismo, o contato bruto e a confissão de Shan Yu haviam criado um vínculo que a China nunca entenderia. Era uma dança macabra entre o caçador e a presa, onde os papéis começavam a se confundir.

Mulan comeu o restante da carne, sentindo a força retornar aos seus membros. Ela não morreria de fome, nem cairia em abismos. Ela sobreviveria para ver o império de Shan Yu, para entender sua mente e, quando o momento fosse certo, para encontrar o ponto fraco sob sua couraça de ferro.

Mas, enquanto a noite caía e o frio da estepe começava a morder, ela não pôde deixar de sentir um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura. Era a percepção de que, ao escolher a vida oferecida por Shan Yu, ela havia aceitado entrar em um mundo de selvageria onde suas antigas noções de bem e mal seriam testadas até o limite. E, no fundo de sua alma, uma parte dela — a parte que amava a adrenalina da batalha e o gume da espada — estava ansiosa para ver o que restaria dela quando o fogo de Shan Yu finalmente a consumisse por completo.

O lobo havia capturado a flor, mas a flor tinha espinhos de aço, e a estepe estava prestes a se tornar o cenário de uma guerra que se travaria não com exércitos, mas entre dois corações selvagens que se recusavam a se curvar.