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O lobo e o dragao

O Fruto da Estepa e o Sangue do Lobo

O sol da manhã atingia as planícies com uma luz dourada e implacável, refletindo-se nas lâminas de aço que se chocavam no centro do acampamento. O som do metal contra o metal era o ritmo cardíaco da nova vida de Mulan. Ela se movia com a agilidade de uma serpente, o peso da cimitarra huno agora familiar em suas mãos, uma extensão de seu próprio braço. À sua frente, Shan Yu bloqueava seus ataques com uma facilidade que beirava o insulto, um sorriso de lado brincando em seus lábios cruéis.

— Você está lenta hoje, minha flor de aço — provocou ele, desviando de um golpe lateral e usando o cabo da própria espada para empurrá-la levemente pelo ombro. — Onde está aquela fúria que queimou minhas tendas?

Mulan rosnou, o suor escorrendo por sua testa e ardendo em seus olhos. Ela odiava quando ele fazia aquilo — quando ele a tratava como se estivesse apenas brincando com um filhote de lobo. Ela avançou novamente, uma sequência de ataques rápidos e precisos que forçaram Shan Yu a recuar dois passos.

— Talvez eu esteja apenas guardando minhas forças para quando você baixar a guarda de verdade — rebateu ela, ofegante.

Shan Yu soltou uma gargalhada curta e, em um movimento rápido demais para os olhos comuns, desarmou-a, envolvendo o braço em volta do pescoço dela e puxando-a contra seu peito maciço. Ele inclinou a cabeça, sussurrando contra o ouvido dela, enquanto os soldados hunos ao redor fingiam estar ocupados com suas próprias tarefas, embora todos estivessem atentos ao casal real.

— Você fica mais bonita quando está com raiva — murmurou ele, sua mão descendo para apertar o quadril dela com uma posse possessiva e deliberada. — Seus olhos brilham como brasas.

Mulan sentiu o rosto esquentar, uma mistura de indignação e o desejo persistente que aquele homem sempre conseguia despertar nela. Ela deu uma cotovelada nas costelas dele, desvencilhando-se do abraço.

— Estamos em público, seu bárbaro — sibilou ela, lançando-lhe um olhar feio que só serviu para aumentar o divertimento dele.

— Eu sou o Khan — respondeu ele, guardando a espada. — Eu toco o que é meu onde e quando eu desejar.

Mulan bufou e caminhou em direção à sua tenda, mas parou abruptamente. O cheiro de carne de carneiro sendo assada em uma fogueira próxima, algo que ela normalmente acharia apetitoso, atingiu suas narinas como um soco físico. Seu estômago deu uma volta violenta, e uma onda de náusea a atingiu com tamanha força que ela precisou se apoiar em um poste de madeira.

Shan Yu estava ao lado dela em um instante, a diversão substituída por uma vigilância afiada.

— Mulan? O que foi?

— Nada — disse ela, respirando fundo e tentando ignorar a tontura. — Apenas... o calor. E esse cheiro. Está insuportável hoje.

Shan Yu franziu a testa, observando-a. Ele notou a palidez incomum em seu rosto, contrastando com o rubor de momentos atrás.

— O cheiro é o mesmo de todas as manhãs — observou ele, seus olhos amarelos estreitando-se de forma calculista. — E você tem comido por três homens ultimamente. Ontem à noite, você praticamente devorou metade de uma perdiz sozinha.

— Eu estou treinando mais — justificou ela, embora sua voz soasse incerta até para seus próprios ouvidos. — Preciso de energia.

— E a irritação? — continuou ele, dando um passo para mais perto. — Você quase cortou a cabeça de um dos meus batedores ontem só porque ele falou alto demais perto da sua iurta.

— Ele estava sendo barulhento! — exclamou Mulan, sentindo uma nova onda de irritação subir por seu peito sem motivo aparente. — Por que você está me interrogando?

Shan Yu não respondeu de imediato. Ele a observou com uma intensidade que parecia querer ler sua alma. Ele se lembrou das histórias das mulheres de sua tribo, das mudanças que ocorriam quando o sangue do lobo criava raízes em um novo ventre. Mulan estava arisca, faminta, sensível aos cheiros e com um humor que oscilava entre a fúria e o esgotamento.

— Vá descansar — disse ele, seu tom de voz suavizando-se de uma forma que raramente mostrava a outros. — Vou pedir que tragam apenas frutas e água fresca para você.

Mulan quis protestar, quis dizer que não recebia ordens, mas a fraqueza em suas pernas falou mais alto. Ela apenas assentiu e entrou na iurta, deixando Shan Yu sozinho no centro do acampamento com seus pensamentos.

As suspeitas do Khan cresceram ao longo do dia. Durante o banquete da noite, ele observou Mulan evitar cuidadosamente a travessa de ensopado condimentado que ela costumava adorar, preferindo apenas pedaços de pão e mel. Quando um de seus generais derrubou uma caneca de vinho forte perto dela, Mulan empalideceu e saiu da tenda sem dizer uma palavra, levando a mão à boca.

Shan Yu a seguiu. Ele a encontrou atrás das cavalariças, respirando o ar gelado da noite.

— Mulan — disse ele, sua voz profunda cortando o silêncio.

— Eu estou bem, Shan Yu. Só preciso de um momento.

Ele caminhou até ela e, ignorando a leve resistência dela, envolveu-a em seus braços por trás, espalmando as mãos sobre o ventre dela. Mulan ficou tensa, mas não se afastou. O calor dele era reconfortante contra o frio da estepe.

— Há quanto tempo você não vê o seu sangue de lua? — perguntou ele, direto e sem rodeios.

Mulan congelou. Ela tentou fazer as contas mentalmente, mas os dias nas estepes se misturavam em uma sucessão de treinos, cavalgadas e noites intensas nos braços dele. O pânico começou a borbulhar em seu estômago, substituindo a náusea.

— Eu não... eu não tenho certeza. Com as viagens e o frio... às vezes ele atrasa.

— Já se passou mais de uma lua, Mulan — disse ele, sua voz agora carregada de uma certeza possessiva. — Eu conheço o seu corpo. Eu conheço o ritmo de cada batida do seu coração.

Mulan virou-se nos braços dele, os olhos arregalados.

— Você acha que... que eu estou...?

— Eu acho que o dragão e o lobo finalmente criaram algo novo — respondeu Shan Yu. Ele tocou o rosto dela, seus dedos traçando a linha de sua mandíbula com uma ternura que ainda a surpreendia. — Você carrega um herdeiro, Mulan. Um herdeiro para as estepes.

A percepção atingiu Mulan como um choque elétrico. Um filho. Um filho de Shan Yu. Um ser que seria a união definitiva das duas nações que ela tanto amava e temia. Ela olhou para o próprio ventre, ainda plano sob as vestes de lã, e sentiu uma onda avassaladora de emoção.

— O que vamos fazer? — sussurrou ela. — Eu não sei ser mãe, Shan Yu. Eu mal sei ser uma esposa. Eu sou uma soldada.

Shan Yu soltou um riso sombrio e a puxou para um beijo profundo, um beijo que selava o destino deles mais uma vez.

— Você será a mãe de um conquistador — disse ele contra os lábios dela. — E eu estarei aqui para garantir que ninguém, nem na China nem nas estepes, ouse tocar no que é nosso.

Naquela noite, o sexo foi diferente. Não houve a selvageria habitual de uma batalha de vontades. Shan Yu a possuiu com uma reverência quase religiosa, seus movimentos lentos e profundos, como se estivesse adorando o templo que agora guardava sua linhagem. Mulan, por sua vez, sentia-se mais conectada a ele do que nunca. Ela o arranhava, sim, e seus gemidos ecoavam pela iurta, mas havia uma doçura nova em seus movimentos, uma aceitação de que seu corpo não pertencia mais apenas a ela ou à guerra.

— Você é minha — murmurou ele, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto chegavam ao ápice juntos.

— E você é meu — respondeu Mulan, as lágrimas escorrendo por seu rosto.

Nas semanas que se seguiram, a notícia se espalhou pelo acampamento como fogo em palha seca. O respeito dos hunos por Mulan, que já era grande, transformou-se em uma adoração mística. Eles a viam como a mulher que trouxera a paz e que agora daria continuidade à lenda de seu Khan.

Mulan, no entanto, continuou sendo Mulan. Ela ainda treinava, embora Shan Yu agora supervisionasse cada movimento com uma vigilância irritante. Ela ainda tinha a língua afiada, especialmente quando as náuseas matinais a deixavam de mau humor.

Em uma tarde particularmente quente, eles estavam caçando nas colinas próximas. Mulan havia acabado de abater um cervo com um tiro certeiro de seu arco, e Shan Yu a observava com um orgulho indisfarçável.

— Você ainda tem a pontaria de um demônio — comentou ele, desmontando do cavalo.

— Gravidez não é uma doença, Shan Yu — retrucou ela, limpando o suor da testa. — Eu ainda posso derrubar você se tentar me carregar de volta para o acampamento antes da hora.

Ele sorriu, aproximando-se dela e pegando-a pela cintura, puxando-a para um beijo rápido e ousado, bem na frente dos batedores que limpavam a presa. Mulan ficou vermelha, como ele esperava, e deu um tapa leve em seu braço.

— Pare com isso! Eles estão olhando.

— Que olhem — disse ele, seus olhos brilhando de diversão. — Que saibam que a Rainha das Estepes é tão feroz quanto é bela.

Mulan olhou para o horizonte, para as montanhas de neve que um dia foram seu campo de batalha e que agora eram as fronteiras de seu lar. Ela sentiu a pequena vida crescendo dentro de si, um pequeno guerreiro que teria o fogo de sua mãe e a ambição de seu pai.

— Você acha que ele será como você? — perguntou ela em voz baixa.

Shan Yu abraçou-a por trás, descansando o queixo em seu ombro.

— Eu espero que ele tenha a sua inteligência e a minha força. Mas, acima de tudo, espero que ele tenha a coragem de lutar pelo que ama, como você fez.

Mulan sorriu, encostando a cabeça no peito dele. Ela viera para as estepes como uma prisioneira, uma mulher sem honra e sem futuro. Mas ali, nos braços do lobo, ela encontrara um novo tipo de honra. Uma honra escrita não em pergaminhos imperiais, mas no sangue, no fogo e no amor selvagem que agora governava sua vida.

A guerra havia acabado, mas a lenda de Mulan e Shan Yu estava apenas começando. E nas noites frias da estepe, sob o manto das estrelas, o dragão e o lobo continuariam sua dança eterna, protegendo o fruto de sua união e construindo um império que o mundo nunca esqueceria.