O lobo e o dragao
O Trono de Cinzas e o Pacto de Sangue
O silêncio na grande iurta de Shan Yu era tão denso quanto o cheiro de fumaça que ainda impregnava as peles de urso. Lá fora, o vento das estepes uivava como um lobo solitário, mas dentro daquelas paredes de couro e madeira, o único som audível era a respiração pausada de Mulan. Ela dormia virada para o lado oposto, encolhida sob as cobertas, uma distância física que simbolizava o abismo que ainda existia entre o conquistador e sua cativa.
Shan Yu, no entanto, estava bem acordado. Ele permanecia sentado na penumbra, um dos braços apoiado no joelho, observando a curva do ombro de Mulan. Seus olhos amarelos, geralmente frios e calculistas, brilhavam com uma inquietação que nenhuma batalha jamais lhe causara. Ele pensava na audácia dela, no incêndio que ela provocara, na forma como ela o enfrentara com sua própria espada.
Ela era um milagre de aço envolto em seda.
Ele sabia que a trégua atual era frágil. Mulan não era uma mulher que se deixava dominar pela força; ela era uma estrategista que esperava o momento certo para golpear. Se ele marchasse contra a China amanhã, ela encontraria uma forma de enfiar uma adaga em seu coração durante o sono, ou fugiria para as montanhas onde ele nunca mais a encontraria. A ideia de perdê-la, de ver aquele fogo se apagar ou ser levado para longe, causava-lhe um desconforto que ele se recusava a chamar de medo, mas que se assemelhava muito a uma derrota.
Como possuir o que não quer ser possuído? Como manter um dragão em uma gaiola sem quebrar suas asas?
Shan Yu não queria uma boneca quebrada. Ele queria a guerreira. Ele queria a mulher que quase o matou na avalanche. Mas ele também queria o império. Por anos, sua única motivação fora a humilhação do Imperador e a conquista das terras férteis do sul. Mas agora, olhando para Mulan, o brilho do ouro e o poder do trono chinês pareciam pálidos em comparação com a intensidade que ela trazia para sua vida.
A aurora começou a tingir o céu de um cinza pálido quando Mulan se moveu. Ela despertou lentamente, sentindo o peso do olhar dele antes mesmo de abrir os olhos. Ela se sentou, puxando as peles para cobrir o peito, e encarou o líder huno.
— Você não dormiu — constatou ela, sua voz rouca pelo sono e pela fumaça da noite anterior.
— Há muito o que pensar quando se tem uma incendiária no leito — respondeu Shan Yu, sua voz vibrando baixo.
Mulan soltou um riso seco, afastando os cabelos negros do rosto.
— Você esperava que eu bordasse flores enquanto você planeja a destruição do meu povo?
Shan Yu levantou-se e caminhou até a abertura da tenda, observando os homens que já começavam a limpar os destroços do incêndio. Ele permaneceu de costas para ela por um longo tempo.
— Você é leal, Mulan. Uma lealdade que o seu exército não merecia, que o seu capitão não honrou. Mas você ainda se prende a eles como se fossem sua própria vida.
— Eles são o meu sangue — disse ela, levantando-se e envolvendo-se em uma túnica pesada. — A China é a minha casa.
Shan Yu virou-se bruscamente.
— A China te expulsou no momento em que descobriram quem você era! Eles te deixaram para morrer no gelo!
— E você me buscou no gelo para me transformar em um troféu — rebateu ela, aproximando-se dele com os olhos faiscando. — Não finja que sua crueldade é melhor que a negligência deles.
Shan Yu deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. Ele era uma montanha de músculos e cicatrizes, mas Mulan não recuou um centímetro.
— Eu tenho uma proposta para você — disse ele, a voz carregada de uma seriedade mortal. — Uma que mudará o destino das nossas nações.
Mulan cruzou os braços, desconfiada.
— Hunos não fazem propostas. Eles fazem exigências.
— Considere esta uma exceção. — Ele estendeu a mão, mas não a tocou. — Eu passaria o resto da minha vida caçando sua sombra se você fugisse. Eu passaria o resto da minha vida dormindo com um olho aberto se você ficasse como minha inimiga. Mas eu decidi que não quero mais lutar contra você, Mulan.
Ela franziu a testa, confusa.
— O que você quer dizer?
— Eu desisto da China. — As palavras saíram pesadas, como se cada uma delas custasse uma província conquistada.
Mulan estacou. O choque foi tão visível que ela precisou se apoiar em um dos mastros da iurta.
— Você... o quê?
— Eu retiro minhas tropas. Não haverá mais ataques à Grande Muralha. Deixarei o seu Imperador apodrecer em seu trono de jade e suas vilas em paz. O sangue chinês parará de correr pelas minhas mãos. — Ele deu mais um passo, desta vez tocando levemente o rosto dela com as costas dos dedos ásperos. — Em troca, você fica.
Mulan sentiu o coração martelar contra as costelas.
— Eu fico? Como sua escrava?
— Não — rosnou ele, e havia uma chama de respeito em seus olhos. — Como minha esposa. Como a Rainha das Estepes. Você será a mãe dos meus herdeiros, a mulher que governará este povo ao meu lado. Sem mais fugas. Sem mais tentativas de assassinato. Você será minha, permanentemente, por livre escolha.
Mulan sentiu o peso daquela oferta. Era um sacrifício monumental para ambos. Para Shan Yu, significava abrir mão da vingança que alimentara sua vida inteira. Para ela, significava abandonar para sempre a chance de voltar para casa, de ver seus pais, de ser a filha que eles esperavam.
— Você está pedindo que eu venda minha alma para salvar meu país — sussurrou ela.
— Estou pedindo que você aceite que seu lugar é aqui, comigo — corrigiu ele. — Você acha que encontrará paz voltando para uma aldeia onde será sempre "a mulher que se vestiu de homem"? Aqui, você é uma lenda. Aqui, seu fogo é celebrado, não escondido. Eu já consegui o maior tesouro da China, Mulan. Eu consegui você. O resto... o resto não importa mais.
Mulan caminhou até a pequena mesa onde sua espada — a que ela usara para ameaçá-lo — repousava. Ela tocou o cabo frio.
— E se eu recusar? Se eu preferir a morte ou a fuga?
Shan Yu soltou um suspiro pesado, um som que parecia rasgar seu peito.
— Então eu marcharei sobre a capital. Eu queimarei cada palácio e cada campo de arroz até que não reste nada além de cinzas. E quando eu terminar, eu voltarei para buscar você, e não haverá propostas de casamento, apenas correntes.
— Então não é uma escolha — disse ela, voltando-se para ele. — É uma chantagem.
— É a realidade da guerra, Mulan. Mas olhe nos meus olhos e diga que você não sente isso. Diga que o que aconteceu entre nós na neve, na caverna e nesta tenda foi apenas sobrevivência.
Mulan hesitou. Ela se lembrou do calor do corpo dele quando ela estava congelando. Lembrou-se da forma como seus próprios sentidos despertaram sob o toque bruto e honesto de Shan Yu, uma paixão selvagem que ela nunca imaginou existir. Ao lado dele, ela não precisava fingir ser Ping, nem precisava ser a dócil noiva que a casamenteira desejava. Com ele, ela era apenas Mulan. Uma guerreira. Uma fera.
— Se eu aceitar... — começou ela, a voz trêmula — ...você jura pelos seus ancestrais que a China nunca mais será tocada pelos Hunos?
— Pelo meu sangue e pelo meu orgulho — jurou Shan Yu, ajoelhando-se diante dela, um gesto de submissão que nenhum huno jamais vira seu líder fazer. — Minha espada servirá apenas para proteger o que é nosso. As estepes serão o seu domínio tanto quanto o meu.
Mulan olhou para o homem aos seus pés. O conquistador cruel, o monstro dos pesadelos de seu povo, estava oferecendo a ela um império e a paz para sua pátria em troca de sua vida. Era um destino irônico. Ela fora para a guerra para salvar o pai; agora, ela se entregaria ao inimigo para salvar a nação.
Mas, ao olhar para Shan Yu, ela percebeu que não era apenas um sacrifício. Havia um desejo sombrio e pulsante em suas veias. Ela queria o desafio de governar aquele povo bárbaro. Ela queria o fogo que só ele conseguia acender nela.
— Levante-se — disse ela, sua voz recuperando a autoridade de um general.
Shan Yu levantou-se, seus olhos fixos nos dela, esperando o veredito.
Mulan deu um passo à frente e colocou a mão sobre o peito dele, sentindo o coração poderoso batendo com força.
— Eu aceito. Eu serei sua rainha. Eu ficarei aqui, nas estepes, e darei a você herdeiros que terão o fogo dos Hunos e a resiliência da China. Mas ouça bem, Shan Yu...
Ela puxou a cabeça dele para baixo, aproximando seus lábios.
— — Se você quebrar sua promessa — sussurrou ela —, se um único soldado seu cruzar a fronteira, eu mesma cortarei sua garganta enquanto você dorme, e eu não sentirei um pingo de remorso.
Shan Yu soltou uma gargalhada selvagem e triunfante, envolvendo-a em seus braços e tirando-a do chão.
— É por isso que eu te escolhi! — exclamou ele. — Porque você é a única mulher no mundo que ousaria me ameaçar no momento do seu próprio casamento.
Ele a beijou com uma paixão avassaladora, um selo de sangue e desejo que encerrava uma guerra e iniciava uma dinastia. Mulan retribuiu o beijo, sentindo o peso de sua decisão cair sobre seus ombros como uma capa de pele. Ela estava deixando a China para trás, deixando Fa Zhou e sua mãe, deixando a honra dos ancestrais para construir uma nova honra, uma escrita com fogo e ferro.
Naquela manhã, o exército huno não recebeu ordens de marchar para o sul. Em vez disso, Shan Yu convocou todos os seus generais e chefes de tribo diante da grande iurta. Mulan estava ao lado dele, vestida com peles finas e adornos de osso e ouro, sua postura ereta e seu olhar desafiador.
— Homens das estepes! — a voz de Shan Yu trovejou, ecoando pelas planícies. — A guerra contra o sul terminou! O Imperador pode ficar com suas muralhas e seu chá. Nós conseguimos algo melhor.
Ele pegou a mão de Mulan e a ergueu para que todos vissem.
— Esta é Mulan. Ela enfrentou a montanha, enfrentou o gelo e enfrentou a mim. Ela é a sua Rainha. Aqueles que não se curvarem diante dela, enfrentarão a minha lâmina e a dela!
Um silêncio tenso caiu sobre o acampamento. Os hunos, homens criados na violência e no desdém pelos chineses, olharam para a mulher pequena e firme no topo do estrado. Mas eles viram as cicatrizes em seus braços, viram o fogo em seus olhos e lembraram-se de como ela quase os aniquilara sozinha na passagem da montanha.
Lentamente, um por um, os guerreiros hunos bateram seus punhos contra o peito e curvaram as cabeças.
— Mulan! Mulan! Mulan! — o grito começou baixo e cresceu até se tornar um rugido que abalou a terra.
Ao lado dela, Shan Yu inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:
— — Você vê? Eles te temem. Eles te respeitam. E em breve, eles te amarão tanto quanto eu.
Mulan olhou para a multidão de guerreiros e depois para o horizonte onde a China ficava. Ela sentiu uma pontada de saudade, um eco de uma vida que nunca mais seria sua. Mas quando a mão de Shan Yu desceu para sua cintura, apertando-a com uma posse feroz e protetora, ela soube que seu destino estava selado.
— Eu não quero o amor deles, Shan Yu — disse ela, virando-se para ele com um sorriso predatório que igualava o dele. — Eu quero a obediência. E eu quero que você cumpra sua parte.
— Minha palavra é lei — respondeu ele. — E meu corpo é seu.
Naquela noite, a celebração foi selvagem. Carne assada, vinho forte e danças ao redor de fogueiras imensas marcaram o início de uma nova era. Mas dentro da iurta real, a atmosfera era de uma intimidade crua e intensa.
Shan Yu despiu Mulan com uma lentidão torturante, apreciando cada centímetro da pele que agora lhe pertencia por direito e contrato. Ele a deitou sobre as peles, seus olhos devorando a visão da guerreira que se tornara sua esposa.
— Você é minha — murmurou ele, entrelaçando seus dedos nos dela. — Sem mais mentiras. Sem mais disfarces.
— Eu sou sua — concordou ela, puxando-o para baixo, para o calor de seu corpo. — Mas lembre-se, lobo... você também é meu.
A união deles naquela noite não foi apenas um ato de prazer, mas um pacto de sangue. Cada toque era uma promessa, cada gemido era uma renúncia ao passado. Shan Yu a possuía com uma adoração selvagem, e Mulan o recebia com uma entrega que era, em si, uma forma de domínio. Eles eram dois polos opostos que haviam finalmente colidido, criando algo novo e aterrorizante.
Enquanto o fogo da celebração morria lá fora, Mulan adormeceu nos braços de Shan Yu. Ela não teve pesadelos com a China em chamas ou com seu pai decepcionado. Ela sonhou com cavalos galopando livremente pelas estepes, com crianças de cabelos negros e olhos amarelos que liderariam nações, e com um trono feito não de jade, mas de respeito e força.
Ela salvara seu país. Ela encontrara seu lugar. E, nos braços do homem que deveria ser seu maior inimigo, Mulan descobriu que a liberdade mais verdadeira não era aquela concedida por leis ou tradições, mas aquela conquistada no coração do perigo, onde o fogo e o aço se tornam um só.
A flor de aço havia florescido no deserto, e o mundo nunca mais seria o mesmo.