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O melhor amigo do meu vizinho

Ecos do Silêncio e o Peso do Amanhã

O silêncio no apartamento de Taehyung era quase palpável, quebrado apenas pelo som distante do tráfego de Seul e pelo bater rítmico do coração de Any, que ela jurava que Jungkook podia ouvir. O abraço dele era sólido, um porto seguro inesperado para alguém que sempre se orgulhou de ser sua própria fortaleza. Jungkook não era de falar, mas a forma como seus braços a envolviam agora dizia mais do que qualquer discurso articulado.

Any se afastou um pouco, olhando para os olhos escuros dele. Ela esperava choque, talvez até uma ponta de desespero, mas o que encontrou foi uma determinação silenciosa.

— Você está falando sério? — Any perguntou, a voz ainda um pouco embargada. — Jungkook, a sua vida... a sua carreira, o que as pessoas vão dizer... Isso não é uma brincadeira.

Jungkook suspirou, passando a mão pelos cabelos pretos e bagunçando a franja que caía sobre os olhos. Ele caminhou até o sofá e sentou-se, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Eu sei que não é brincadeira, Any. Eu sou sério, lembra? — Ele deu um meio sorriso de canto, aquele que costumava desarmar as defesas dela. — Minha vida sempre foi planejada milímetro por milímetro. Talvez estivesse na hora de algo sair do controle. Só não esperava que fosse algo tão... grande.

Any sentou-se ao lado dele, sentindo o calor do seu corpo.

— Meus pais vão ter um colapso — ela confessou, rindo nervosamente. — Uma brasileira vindo estudar na Coreia e voltando com um "pacotinho" de presente. E a Sra. Kim? Ela vai querer organizar o chá de bebê amanhã mesmo.

— O Taehyung vai ser um problema — Jungkook comentou, e pela primeira vez naquela tarde, houve uma leveza genuína em seu tom. — Ele vai querer ser o padrinho, o tio legal e provavelmente vai tentar ensinar o bebê a jogar videogame antes mesmo de ele aprender a andar.

Enquanto falavam, a porta da varanda se abriu lentamente. Taehyung e Shivani entraram, ambos com expressões que misturavam curiosidade e uma preocupação mal disfarçada. Taehyung olhou de Any para Jungkook, tentando ler a atmosfera da sala.

— E então? — Taehyung perguntou, perdendo a paciência com o silêncio. — Alguém morreu ou alguém vai nascer? Porque o clima aqui está parecendo o final de um drama coreano daqueles bem tristes.

Any olhou para Shivani, que assentiu com um olhar encorajador. A indiana já sabia, mas ver a amiga prestes a compartilhar a notícia com o resto do grupo a deixava ansiosa.

— Taehyung — Any começou, pegando o teste de gravidez que ainda estava sobre a mesa de centro. — É melhor você se sentar.

— Ah, não. Any, você sabe que eu sou ansioso! — Taehyung se jogou na poltrona à frente deles. — Fala logo.

Jungkook tomou a iniciativa, surpreendendo a todos. Ele estendeu a mão e entrelaçou seus dedos nos de Any, um gesto de apoio público que ela nunca esperaria do "gelado" Jeon Jungkook.

— A Any está grávida — disse ele, direto e reto, como tudo o que fazia.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Taehyung arregalou os olhos, a boca aberta em um "O" perfeito. Shivani, embora já soubesse, levou as mãos ao rosto, emocionada pela coragem da amiga. Por longos dez segundos, ninguém se moveu.

— Eu vou ser tio? — Taehyung finalmente gritou, pulando do sofá com uma energia que quase derrubou a luminária ao lado. — Eu sabia! Aquela noite de filmes foi produtiva demais! Eu sou um gênio, eu juntei vocês!

— Taehyung, menos — Jungkook resmungou, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos.

— Menos nada! — Taehyung correu para abraçar Any, quase a sufocando. — Any, parabéns! Eu vou comprar as melhores roupas para esse bebê. Ele vai ser o ícone de estilo de Seul!

Shivani se aproximou de Any, abraçando-a com mais calma e ternura.

— Estou orgulhosa de você, Any. E de você também, Jungkook. Não é uma situação fácil, mas ver que vocês estão enfrentando isso juntos é... é lindo.

Any sentiu as lágrimas voltarem, mas desta vez não eram de medo. Eram de alívio. Ela sempre soube que tinha amigos incríveis, mas a reação deles era o combustível que ela precisava para enfrentar o que viria a seguir.

— Mas agora falando sério — disse Taehyung, recuperando um pouco da compostura, embora ainda sorrisse de orelha a orelha. — Como vocês vão contar para as famílias? E o trabalho, Jungkook? Você sabe que a agência é rígida.

O rosto de Jungkook voltou à sua seriedade habitual.

— Eu vou cuidar disso. Vou falar com os meus gestores. Não vou esconder a Any e não vou esconder meu filho. Se eles não aceitarem, eu dou um jeito. Tenho minhas economias e não dependo só da imagem pública.

Any olhou para ele, admirada. Ela conhecia o Jungkook "misterioso" e o Jungkook "intenso", mas o Jungkook "protetor" era uma novidade fascinante.

— Meus pais chegam de viagem na semana que vem — Any disse, sentindo um frio na barriga. — Eu vou precisar contar para eles. E eu adoraria que você estivesse lá, Jungkook. Se você se sentir confortável.

— Eu estarei lá — ele afirmou, sem hesitar.

A conversa continuou pela noite adentro. Eles pediram comida, mas desta vez o clima era diferente. Não era mais aquela tensão sexual e curiosa da primeira noite, mas sim uma união forjada por uma responsabilidade imensa. Taehyung e Shivani começaram a planejar como ajudariam, discutindo desde nomes (Taehyung sugeriu "Taegguk", o que rendeu uma revirada de olhos de Jungkook) até a decoração do quarto.

— Vocês viram como as coisas mudam rápido? — Shivani comentou, observando Any e Jungkook dividindo um pedaço de pizza. — Há um mês, vocês mal se conheciam.

— A Any é como um furacão — Jungkook disse, olhando para ela de uma forma que fez as bochechas da brasileira arderem. — Ela entrou na minha vida para alimentar um cachorro e acabou mudando tudo.

— E você é o muro que o furacão não conseguiu derrubar — Any brincou, encostando a cabeça no ombro dele. — Você só se deixou levar.

Mais tarde, quando Taehyung e Shivani foram para a cozinha lavar a louça — entre risadinhas e olhares que indicavam que o romance deles também estava florescendo —, Any e Jungkook ficaram sozinhos na varanda, observando as luzes de Seul.

— Você está com medo? — ele perguntou em um sussurro, abraçando-a por trás para protegê-la do vento frio da noite.

— Muito — Any confessou, fechando os olhos e aproveitando o calor dele. — Eu tenho 22 anos, Jungkook. Eu tinha tantos planos... viagens com o Now United, apresentações, minha carreira solo no Brasil... Sinto que agora tudo vai ser diferente.

— Vai ser diferente — ele concordou, beijando o topo da cabeça dela, entre os cachos. — Mas diferente não significa ruim. Nós vamos dar um jeito. Você não vai parar de brilhar por causa disso. Eu vou estar na primeira fila de cada show seu, segurando o nosso filho.

Any se virou nos braços dele, surpresa com a declaração.

— Você realmente pensou nisso?

— Eu ando pensando em muita coisa desde que você me entregou aquele teste — ele admitiu, soltando um suspiro pesado. — Eu nunca fui o tipo de cara que sonha com família, Any. Minha vida sempre foi o treino, a música, o silêncio. Mas quando imagino o futuro agora... eu vejo você. E vejo essa criança. E, pela primeira vez, o silêncio não parece tão bom quanto a ideia de uma casa cheia de vida.

Any sorriu, sentindo que, apesar de todos os desafios que viriam — e ela sabia que seriam muitos, especialmente com a mídia coreana e a diferença de culturas —, ela tinha encontrado algo raro.

— Sabe, Jeon Jungkook... — ela disse, passando os braços pelo pescoço dele, brincando com a corrente de prata que ele usava. — Para um cara que não gosta de falar, você está se saindo muito bem.

Ele riu, um som raro e melodioso que Any queria guardar em um potinho.

— É o efeito Gabrielly. Você me faz querer falar.

O beijo que trocaram naquela varanda foi diferente do primeiro. Não havia a urgência desesperada daquela noite de filmes, mas sim uma promessa silenciosa. Era um compromisso selado sob as estrelas de uma cidade que nunca dorme, entre dois jovens de mundos completamente distintos que, por um acaso do destino (e da distração de Taehyung), agora estavam ligados para sempre.

Lá dentro, Taehyung tentava convencer Shivani de que ele seria o melhor "babysitter" do mundo, enquanto a indiana ria de suas palhaçadas. A vida estava prestes a se tornar um caos, mas era um caos que todos eles estavam dispostos a abraçar.

Any olhou para a própria barriga, ainda plana, e sentiu uma onda de amor que nunca havia experimentado antes. Ela sempre foi autêntica, intensa e verdadeira. E agora, ela tinha um novo motivo para ser a melhor versão de si mesma.

— Nós vamos ficar bem — ela sussurrou, mais para si mesma do que para Jungkook.

Ele apertou a mão dela.

— Nós vamos ser ótimos.

A noite terminou com o grupo reunido na sala, assistindo a um desenho animado qualquer, apenas para "treinar", como disse Taehyung. Entre risadas e planos, o medo de Any começou a se transformar em expectativa. Ela sabia que o caminho seria longo, que haveria críticas e momentos difíceis, mas ao olhar para o lado e ver Jungkook — o cara das tatuagens e piercings, o melhor amigo do vizinho, o pai do seu filho — ela soube que não trocaria aquela reviravolta por nada no mundo.

Afinal, as melhores histórias de amor nem sempre começam com flores e jantares românticos. Algumas começam com um cachorro com fome, um videogame e duas linhas vermelhas em um teste de farmácia. E para Any Gabrielly, essa era a história mais perfeita de todas.