O melhor amigo do meu vizinho
Entre Tintas e Aromas de Café
A realidade pós-descoberta caiu sobre os ombros de Any Gabrielly como uma chuva morna de verão: persistente e impossível de ignorar. O impacto inicial da notícia havia passado, mas o cotidiano, com suas contas a pagar e horários a cumprir, continuava batendo à porta. Para Any, isso significava acordar às cinco da manhã para abrir a "Cup & Soul", a cafeteria onde trabalhava como balconista para custear sua faculdade de Relações Internacionais.
O movimento da manhã estava calmo, o aroma de grãos torrados preenchia o ambiente enquanto ela limpava o balcão de madeira. Any se pegou olhando para o próprio reflexo na vitrine de doces. Ela ainda se sentia a mesma — a mesma energia, o mesmo sorriso —, mas havia um segredo crescendo dentro dela que mudava a perspectiva de cada xícara de café que servia.
O sino da porta tocou, anunciando um cliente. Any levantou o rosto, pronta para disparar seu habitual "Bom dia!", mas as palavras morreram em sua garganta.
Era Jungkook.
Ele usava uma jaqueta jeans sobre uma camiseta branca básica, o cabelo preto levemente bagunçado e os olhos escuros percorrendo o local até encontrá-la. Ele parecia deslocado naquele ambiente de tons pastéis e música indie suave.
— Oi — disse ele, aproximando-se do balcão. A voz grave parecia vibrar contra as paredes de vidro da cafeteria.
— Oi — Any respondeu, sentindo o coração dar um salto. — O que você está fazendo aqui? O Taehyung te deu o endereço?
— Ele mencionou onde você trabalhava — Jungkook deu de ombros, apoiando os braços tatuados no balcão. Ele hesitou por um segundo antes de continuar. — Eu queria ver como você estava. Você saiu cedo da casa dele ontem.
Any sorriu, sentindo um calor reconfortante no peito.
— Estou bem. Só precisava trabalhar. A vida de universitária bolsista não se sustenta sozinha, Jungkook.
— Eu imagino — ele murmurou, observando-a com uma intensidade que a fazia esquecer como respirar. — Eu também tenho aula daqui a pouco. Engenharia automotiva é um pesadelo de cálculos logo cedo.
— Engenharia? — Any arqueou uma sobrancelha, surpresa. — Eu achei que você vivesse apenas no estúdio de tatuagem. O Taehyung me disse que você é o melhor artista da região.
— O estúdio paga as contas e é onde eu me expresso — Jungkook explicou, e pela primeira vez, Any viu um brilho de paixão genuína em seus olhos. — Mas eu sempre fui obcecado por motores. Como as coisas funcionam por dentro, sabe? Desmontar e montar de novo.
— Faz sentido — comentou Any, pegando um copo de papel. — Você é todo fechado, cheio de camadas. Deve gostar de entender o que faz as coisas girarem. Quer um café? Por conta da casa.
— Um americano gelado, por favor — ele pediu, observando os movimentos ágeis de Any enquanto ela operava a máquina de café expresso.
Enquanto preparava a bebida, Any sentiu o peso da responsabilidade voltando. Eles eram dois estudantes, dois jovens trabalhadores tentando construir um futuro em uma cidade cara como Seul.
— Jungkook — chamou ela, entregando o copo. — Nós não conversamos sobre os detalhes práticos. Eu não quero que você sinta que sua vida acabou por causa disso. Você tem sua faculdade, seu trabalho no estúdio...
Jungkook pegou o café, mas não desviou o olhar do dela.
— Minha vida não acabou, Any. Ela só mudou de direção. — Ele deu um gole na bebida e suspirou. — Eu trabalho no estúdio "Ink & Iron" à tarde e à noite. Se você quiser... eu adoraria que você fosse lá hoje. Para ver onde eu passo meu tempo. Para a gente conversar sem o Taehyung gritando sobre ser tio no fundo.
Any riu, a imagem de Taehyung comemorando ainda fresca em sua mente.
— Eu adoraria. Saio daqui às duas da tarde.
***
O estúdio de Jungkook ficava em uma rua estreita em Hongdae, cercado por grafites coloridos e lojas de discos usados. Ao entrar, Any foi recebida pelo som rítmico das agulhas de tatuagem e pelo cheiro de antisséptico e tinta. O lugar era impecável, com desenhos detalhados emoldurados nas paredes pretas.
Jungkook estava sentado em um banco alto, limpando uma bancada de aço. Ele usava luvas pretas e uma máscara descartável pendurada no queixo. Ao vê-la, ele se levantou imediatamente.
— Você veio mesmo — disse ele, com um tom de surpresa que quase pareceu vulnerável.
— Eu disse que viria — Any caminhou pelo espaço, admirando as artes. — Foi você quem desenhou tudo isso? É incrível, Jungkook. Você tem um talento absurdo.
— Obrigado — ele respondeu, coçando a nuca, visivelmente tímido com o elogio. — Esse aqui é o meu mundo. É onde eu me sinto no controle.
Ele a guiou até uma pequena área de descanso nos fundos, onde havia um sofá de couro desgastado e uma mesa cheia de esboços.
— Senta um pouco — ele pediu. — Você deve estar cansada de ficar em pé no café.
— Meus pés estão me matando, para ser sincera — Any confessou, desabando no sofá. — E o sono começou a bater agora. Dizem que a gravidez faz isso, né? Transforma a gente em um urso em hibernação.
Jungkook sentou-se em uma cadeira à frente dela, observando-a com uma seriedade que agora Any entendia ser sua forma de demonstrar cuidado.
— Eu andei pesquisando — começou ele, a voz baixa. — Sobre o que você pode ou não comer, sobre as vitaminas. Eu não entendo nada de bebês, Any. Na minha família, eu sempre fui o mais novo, o isolado.
Any sentiu o coração derreter. O cara durão, cheio de piercings e tatuagens, estava pesquisando sobre vitaminas pré-natais.
— Nós dois estamos no mesmo barco, Kook — ela disse, usando o apelido pela primeira vez. — Eu sou brasileira, moro longe da minha família, estou tentando me formar em um país que nem sempre é fácil para estrangeiros. Eu também estou apavorada.
Jungkook estendeu a mão, hesitando por um momento antes de tocar a mão de Any. Seus dedos eram longos e firmes, a pele marcada por pequenas manchas de tinta que não saíam com a lavagem.
— Eu não recebo muito no estúdio ainda, sou apenas um dos artistas principais, mas não o dono — ele explicou, sendo honesto sobre sua situação financeira. — E a faculdade de engenharia leva quase tudo o que sobra. Mas eu vou dobrar meus turnos. Vou fazer o que for preciso para que você não precise se preocupar com dinheiro.
— Ei, olha para mim — Any pediu, apertando a mão dele de volta. — Nós vamos dividir tudo. Eu continuo no café e vou pegar uns turnos extras de tradução online. Não somos só eu e você agora, é nós três. Mas não se mate de trabalhar. Eu quero que você termine sua faculdade. Quero que você seja o engenheiro que desmonta motores.
Jungkook olhou para a mão dela unida à dele.
— Por que você é tão... assim? — ele perguntou, com um pequeno sorriso.
— Assim como?
— Tão forte. Tão decidida. Qualquer outra pessoa estaria chorando ou gritando comigo por ter estragado os planos dela.
Any soltou uma risada curta e balançou a cabeça, fazendo seus cachos dançarem.
— Chorar não paga as fraldas, Jungkook. E eu não acho que você estragou nada. A vida é o que acontece enquanto a gente faz outros planos, não é o que dizem? Eu escolhi você naquela noite. E escolheria de novo.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi uma conexão profunda, um entendimento de que, apesar de serem quase estranhos há um mês, eles eram agora os pilares um do outro.
— Eu quero te mostrar uma coisa — disse Jungkook, levantando-se e pegando um caderno de desenhos debaixo da mesa. Ele abriu em uma página específica e entregou a ela.
Era um esboço a lápis. Não era um motor, nem uma tatuagem de dragão ou flores. Era um desenho de uma mulher de cabelos cacheados, vista de perfil, olhando para o horizonte. A semelhança com Any era inegável.
— Quando você desenhou isso? — ela perguntou, maravilhada com a delicadeza dos traços.
— Na semana passada — confessou ele, as orelhas ficando levemente vermelhas. — Eu não conseguia tirar você da cabeça. O jeito que você sorri quando fala do Brasil, o jeito que você não tem medo de dizer o que pensa. Eu nunca conheci ninguém como você, Any.
Any sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela sempre fora a garota extrovertida, a que todos notavam, mas poucas pessoas realmente a "viam" além da superfície vibrante. Jungkook, em seu silêncio e observação, tinha capturado sua essência.
— É lindo — sussurrou ela. — Você é um artista maravilhoso, Jeon Jungkook.
— Eu quero ser um pai maravilhoso também — ele disse, com uma determinação que arrepiou a pele de Any. — Eu não tive o melhor exemplo em casa. Meu pai era um homem de negócios que só via números. Eu quero ser diferente. Quero estar presente.
— Você já está sendo — Any garantiu.
Nesse momento, o som de vozes familiares veio da recepção do estúdio.
— Onde está o papai do ano? Eu sei que ele está escondido aqui com a minha brasileira favorita! — A voz de Taehyung ecoou, seguida pela risada tímida de Shivani.
Jungkook revirou os olhos, mas havia um sorriso no rosto.
— Eles não dão trégua, não é?
— Nunca — Any riu, levantando-se. — Mas acho que vamos precisar deles. Especialmente para aguentar as nossas famílias.
Taehyung e Shivani entraram na área dos fundos. Taehyung trazia sacolas de comida tailandesa, enquanto Shivani segurava alguns folhetos.
— Trouxemos o jantar! — anunciou Taehyung, arrumando a mesa de qualquer jeito. — E a Shivani passou a tarde pesquisando os melhores hospitais de Seul que têm atendimento em português ou inglês. Essa garota é um anjo, Jungkook, você não merece os amigos que tem.
— Eu sei que não mereço — respondeu Jungkook, olhando para Any enquanto a ajudava a se acomodar novamente no sofá.
— Como foi o dia de vocês? — Shivani perguntou, sentando-se ao lado de Any e segurando sua mão com carinho. — Você parece mais calma, Any.
— Eu estou — Any sorriu para a amiga. — O Jungkook me mostrou que eu não estou sozinha nessa. E que ele é muito mais do que um cara que joga videogame e faz tatuagens.
— Ele é um nerd de motores! — Taehyung exclamou, servindo a comida. — Sabiam que ele consegue identificar o modelo de um carro só pelo barulho do escapamento? É bizarro.
A conversa fluiu levemente. Eles falaram sobre a faculdade, sobre os desafios de conciliar o trabalho com a chegada do bebê e sobre como contariam para a Sra. Kim. Taehyung, como sempre, tinha teorias mirabolantes sobre como ela reagiria.
— Ela vai desmaiar primeiro — dizia ele, gesticulando com os hashis. — Depois vai acordar e começar a tricotar sapatinhos. Em uma semana, a casa dela vai parecer uma loja de bebês.
Enquanto os amigos discutiam, Any sentiu um toque suave em seu joelho. Por baixo da mesa, Jungkook segurava sua mão discretamente. Ela olhou para ele e encontrou um olhar de cumplicidade.
Não importava que ela fosse uma balconista e ele um tatuador apprentice. Não importava que o futuro fosse incerto e que as aulas de engenharia e relações internacionais estivessem prestes a ficar muito mais difíceis. Ali, naquele estúdio cercado por amigos e pelo cheiro de tinta, Any Gabrielly sentiu que tinha tudo o que precisava.
— Ei, Jungkook — Any chamou em voz baixa, aproveitando que Taehyung estava distraído contando uma piada para Shivani.
— Sim?
— Obrigada por não ter fugido.
Jungkook apertou a mão dela, os olhos intensos brilhando sob a luz fluorescente do estúdio.
— Eu nunca fujo de um desafio, Any. Especialmente de um que tem o seu sorriso.
A noite continuou, cheia de risadas e planos reais. Eles eram apenas jovens tentando se encontrar no mundo, mas agora tinham um norte. Entre o aroma de café da manhã de Any e a tinta das tatuagens de Jungkook, uma nova vida estava sendo escrita. E, pela primeira vez, Any não tinha medo de virar a próxima página.