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O melhor amigo do meu vizinho

O Rufar dos Tambores de Jade

A mansão dos patriarcas da família Jeon, situada em uma colina isolada com vista para o Rio Han, não era apenas uma casa; era um monumento à tradição e ao poder. Ao contrário da residência fria e moderna dos pais de Jungkook, este lugar exalava história, com painéis de madeira escura, jardins zen meticulosamente cuidados e um silêncio que impunha respeito. Jeon Sang-hoon e Jeon Myung-hee, os avós de Jungkook, haviam retornado de sua viagem de dez anos pelo mundo, e o jantar de recepção era o evento mais temido e esperado da temporada.

Jungkook ajustava o nó da gravata no espelho do hall de entrada, visivelmente tenso. Any, ao seu lado, terminava de arrumar o vestido de veludo bordô que abraçava suas curvas pós-parto com uma elegância que misturava a sofisticação coreana com o fogo brasileiro. Jae-hyun, agora com seis meses, dormia tranquilamente no colo de Shivani, que os acompanhava como parte indispensável daquela família improvisada.

— Meus avós são... diferentes, Any — murmurou Jungkook, a voz carregada de incerteza. — Eles são a base de tudo. Se eles não nos aceitarem, a pressão dos meus pais vai se tornar insuportável.

Any aproximou-se e colocou a mão no peito dele, sentindo o coração acelerado sob o tecido caro.

— Jungkook, olhe para mim. Eu enfrentei sua mãe em um shopping de luxo e sobrevivi a um parto com a Min-jee assistindo de camarote. Seus avós podem ter viajado o mundo, mas eles ainda não conheceram Any Gabrielly. Relaxa, o máximo que pode acontecer é eles me acharem barulhenta demais. E convenhamos, eu sou.

Jungkook soltou uma risada curta, a tensão diminuindo apenas um pouco.

— Vamos entrar. O rugido da fênix precisa de uma plateia.

Ao entrarem na sala de jantar principal, o cenário era intimidante. Os pais de Jungkook e os Park já estavam sentados, parecendo soldados em posição de sentido. No topo da mesa, dois anciãos observavam tudo com olhos que pareciam ler a alma de qualquer um que cruzasse o portal. Sang-hoon tinha cabelos brancos como a neve e uma postura ereta, enquanto Myung-hee usava um hanbok de seda fina, com um olhar que misturava sabedoria e uma pitada de travessura.

— Então este é o meu neto — disse Sang-hoon, a voz profunda ecoando pelo salão. — E esta deve ser a jovem que causou o maior escândalo da última década em Seul.

O silêncio que se seguiu foi cortante. A Sra. Jeon sorriu vitoriosamente, esperando o golpe final.

— Boa noite, Sr. e Sra. Jeon — Any deu um passo à frente, fazendo uma reverência perfeita, mas mantendo os olhos nos deles ao subir. — É um prazer finalmente conhecê-los. Peço desculpas se o nosso "escândalo" interrompeu suas viagens, mas garanto que o motivo dele vale cada fofoca de corredor.

Any fez um sinal para Shivani, que se aproximou com Jae-hyun. O bebê, como se sentisse a importância do momento, acordou e soltou um bocejo ruidoso, esticando os bracinhos em direção à luz do lustre.

Myung-hee, a avó, levantou-se lentamente. Ela caminhou até Any, ignorando completamente os pais de Jungkook. Ela olhou para o bebê e, em seguida, para Any.

— Você tem olhos corajosos, menina — disse a anciã, tocando o rosto de Any com os dedos finos. — E esse pequeno... ele tem a energia que falta nesta casa há cinquenta anos. Sang-hoon, venha ver. Este menino não tem o olhar vazio dos nossos sócios.

O avô levantou-se e aproximou-se. Ele olhou para Jae-hyun e, para a surpresa de todos, soltou uma gargalhada genuína quando o bebê tentou agarrar sua barba branca.

— Ele é forte! — exclamou Sang-hoon. — E você, Any Gabrielly... ouvi dizer que você não se curva para protocolos que não fazem sentido. Gosto disso. Viajamos o mundo para fugir da monotonia de Seul, e voltamos para encontrar a vida pulsando bem aqui.

— Papai, por favor — interveio o Sr. Jeon, o pai de Jungkook, visivelmente desconfortável. — Estamos aqui para celebrar o retorno de vocês, não para validar uma situação que ainda estamos tentando... remediar.

— Remediar? — Myung-hee virou-se para o filho, o olhar gélido. — Você chama a vida e o amor do seu filho de "algo a ser remediado"? Vocês se tornaram tão chatos quanto os móveis desta casa. Any, querida, sente-se ao meu lado. Quero saber tudo sobre o Brasil. Ouvi dizer que as festas lá duram três dias e ninguém usa terno.

O jantar prosseguiu de uma forma que ninguém poderia ter previsto. Enquanto a Sra. Jeon e os Park tentavam inserir Min-jee na conversa, exaltando suas qualidades acadêmicas e conexões, os avós de Jungkook estavam hipnotizados pelas histórias de Any. Ela falava sobre o calor do Rio de Janeiro, sobre a comida de sua mãe e sobre como Jungkook, apesar de parecer um "bad boy" tatuado, era o pai mais dedicado que ela já vira.

— Ela é fascinante! — exclamou Sang-hoon, batendo com a mão na mesa de prazer. — Jungkook, você finalmente mostrou que tem bom gosto. Min-jee é uma moça educada, mas Any... Any é uma tempestade. E uma empresa precisa de tempestades para limpar a poeira de vez em quando.

A Sra. Park sentiu o golpe e tentou reagir.

— Sr. Jeon, com todo o respeito, a imagem da nossa empresa depende da estabilidade. Jungkook ainda é jovem, ele precisa de alguém que compreenda a etiqueta coreana a fundo, não de alguém que... bem, que transforme tudo em um carnaval.

Any pousou os talheres lentamente. O deboche em seu rosto era sutil, mas letal.

— Sra. Park, a senhora fala de "estabilidade" como se fosse sinônimo de "tédio". O que o mercado mundial busca hoje é autenticidade. E se vocês acham que o Jungkook vai ser mais respeitado por ter uma esposa troféu do que por ser um homem fiel aos seus princípios e à sua família, então talvez os senhores estejam desatualizados sobre como o mundo realmente gira.

— Bravo! — aplaudiu Myung-hee. — Ela é a minha neta favorita e eu a conheço há apenas uma hora.

O pai de Jungkook, sentindo que estava perdendo o controle da narrativa, levantou-se com uma taça de vinho na mão.

— Chega de bobagens. Estamos aqui para discutir o futuro. Jungkook, eu organizei uma série de treinamentos para você começar a assumir a vice-presidência sob minha supervisão direta nos próximos cinco anos. Precisamos consertar sua imagem antes que você possa realmente liderar.

Sang-hoon, que estava em silêncio observando o filho, deixou o copo de cristal bater na mesa com um som seco que paralisou a sala.

— Cinco anos? — perguntou o avô, a voz vibrando com uma autoridade ancestral. — Você quer manter o seu filho sob sua coleira por mais cinco anos enquanto você continua a tomar decisões baseadas no medo do que os outros vão pensar?

— É o procedimento padrão, papai — respondeu o Sr. Jeon, a voz vacilante.

— O procedimento padrão está matando o legado da nossa família — declarou Sang-hoon. Ele olhou para Jungkook, que estava sentado ereto, a mão dada à de Any por baixo da mesa. — Jungkook, meu neto. Você assumiu uma responsabilidade que muitos homens com o dobro da sua idade evitariam. Você enfrentou a sua própria família para proteger o que ama. Isso é liderança. Isso é caráter.

O avô levantou-se, caminhando até a cabeceira da mesa.

— Eu tomei uma decisão durante as minhas viagens, mas precisava ver com meus próprios olhos se o herdeiro que deixei aqui era um homem ou um fantoche. — Ele olhou para o filho com desprezo. — Você, meu filho, tornou-se um fantoche das aparências. Mas Jungkook... Jungkook é um Jeon de verdade.

— O que o senhor está dizendo? — perguntou a Sra. Jeon, o rosto empalidecendo.

— Estou dizendo que, a partir de amanhã, Jeon Jungkook assume a presidência do Grupo Jeon — anunciou Sang-hoon. — Não como vice, não em treinamento. Como líder absoluto.

A sala explodiu em um caos contido. O Sr. Jeon ficou de pé, o rosto vermelho de fúria e choque.

— O quê? Você não pode fazer isso! Eu dediquei minha vida a esta empresa! Você não pode simplesmente me pular e dar tudo para um garoto que passa o dia em um estúdio de tatuagem!

— Eu sou o acionista majoritário e o fundador deste império — rebateu Sang-hoon, a voz subindo de tom pela primeira vez. — E eu posso fazer exatamente o que eu quiser. Eu prefiro ver a empresa nas mãos de um jovem que tem coragem de ser quem é do que nas mãos de um homem que tem medo da própria sombra e da opinião dos Park!

— Isso é um absurdo! — gritou a Sra. Park, levantando-se também. — E as nossas parcerias? E o compromisso com a Min-jee?

— O compromisso com a Min-jee nunca existiu fora das suas mentes gananciosas — disse Myung-hee, levantando-se para ficar ao lado do marido. — Any será a primeira-dama da empresa, e eu mal posso esperar para ver o que ela fará com as festas de final de ano. Finalmente teremos música de verdade!

— Eu não aceito isso! — gritou o pai de Jungkook, batendo na mesa. — Jungkook não tem experiência! Ele vai nos levar à falência em um mês! Ele é um irresponsável que engravidou uma estrangeira!

Jungkook levantou-se, sua presença agora emanando a mesma autoridade que a do avô. Ele olhou para o pai, não com ódio, mas com uma calma que era muito mais assustadora.

— O senhor fala de irresponsabilidade — disse Jungkook, a voz baixa e firme —, mas a maior irresponsabilidade que cometi foi permitir que o senhor falasse da Any dessa forma por tanto tempo. Eu não pedi por este cargo, mas se o meu avô confia em mim, eu vou assumi-lo. E a primeira coisa que vou fazer é garantir que a empresa seja um lugar de inovação, não de preconceito.

— Você está fora! — gritou o Sr. Jeon para o pai. — Eu vou contestar isso legalmente!

Sang-hoon sorriu, um sorriso frio e predatório.

— Contestação legal? — O avô pegou um envelope que estava no bolso de seu paletó e o jogou sobre a mesa. — Eu já assinei a transferência de poderes. Foi lavrada em cartório esta tarde, antes de chegarmos aqui. Jungkook é o dono de tudo agora. E você, meu filho... acho que é hora de você tirar as férias que eu tirei. Talvez dez anos viajando o ajudem a encontrar o seu caráter.

A Sra. Jeon caiu sentada na cadeira, as mãos cobrindo o rosto. Min-jee olhava para Any com um ódio que beirava a loucura, mas Any apenas retribuiu o olhar com uma sobrancelha arqueada e um sorriso de canto.

— Parece que o jogo virou, não é, Min-jee? — sussurrou Any, alto o suficiente para que todos ouvissem. — Quem diria que o "erro" brasileiro seria o novo padrão de ouro da família Jeon?

— Saiam daqui — ordenou Sang-hoon para o filho e para os Park. — O jantar acabou para vocês. Eu quero terminar minha refeição com meu neto, minha neta favorita e meu bisneto.

O Sr. Jeon, tremendo de raiva, pegou seu paletó e saiu da sala sem dizer uma palavra, seguido por uma Sra. Jeon em prantos e pelos Park, que pareciam ter visto um fantasma. Min-jee foi a última a sair, batendo os saltos no chão com fúria.

Quando a porta se fechou com força, o silêncio que restou foi leve, quase festivo.

— Bem — disse o avô Sang-hoon, sentando-se novamente e pegando seus hashis —, agora que o lixo foi retirado, Any, me conte mais sobre esse tal de "pão de queijo". Eu li em uma revista que é viciante.

Any soltou uma gargalhada, as lágrimas de alívio e adrenalina finalmente começando a surgir. Ela olhou para Jungkook, que ainda parecia processar o fato de ser o novo presidente de um dos maiores conglomerados da Ásia.

— Jungkook — chamou ela, pegando a mão dele. — Você está bem?

Ele olhou para ela, e o sorriso que ele deu foi o mais radiante que Any já vira.

— Eu sou o presidente? — ele perguntou, ainda incrédulo.

— Você é o líder, meu neto — disse Myung-hee, piscando para ele. — E com a Any ao seu lado, você vai ser imbatível. Agora, tragam o bebê aqui. Eu quero segurar o futuro dono deste império.

Shivani entregou Jae-hyun para a avó, e a cena era perfeita: a linhagem antiga e a linhagem nova se encontrando em um abraço.

— Sabe, Sr. Sang-hoon — disse Any, servindo-se de mais um pouco de chá —, o senhor acabou de cometer o maior erro ou o maior acerto da sua vida. Porque eu pretendo transformar aquela empresa em algo que Seul nunca viu.

— Eu conto com isso, Any — respondeu o avô, brindando com sua taça. — A vida é curta demais para ser vivida em tons de cinza.

O jantar continuou noite adentro, mas desta vez, as risadas eram reais. Jungkook e Any sabiam que os desafios estavam apenas começando — enfrentar a fúria do pai de Jungkook e a reestruturação de uma empresa não seria fácil —, mas eles tinham o apoio dos verdadeiros pilares da família.

Enquanto Jae-hyun dormia no colo da bisavó e Taehyung entrava sorrateiramente pela porta dos fundos (tendo sido avisado por Shivani sobre a "vitória"), Any sentiu que o círculo finalmente estava completo. Ela não era mais apenas a estrangeira, a vizinha ou o "deslize". Ela era a força que havia mudado o destino de uma dinastia.

— Ei, Kook — sussurrou ela, enquanto os avós discutiam sobre que tipo de música deveria tocar na festa de posse.

— Oi, meu amor.

— Presidente Jeon soa muito bem. Mas eu ainda prefiro "meu tatuador favorito".

Jungkook a puxou para um beijo, ignorando os protestos brincalhões de Taehyung ao fundo.

— Eu posso ser os dois, Any. Contanto que você seja a minha rainha.

Naquela noite, sob o brilho do luar que refletia no Rio Han, a fênix não apenas rugiu; ela renasceu das cinzas da tradição, pronta para voar mais alto do que qualquer um jamais imaginou. E Any Gabrielly, com seu sorriso que iluminava e seu deboche que protegia, sabia que o mundo de Seul nunca mais seria o mesmo. O ouro e o ferro haviam se fundido com o calor do Brasil, e o resultado era uma liga indestrutível.