Voltar ao resumo

O melhor amigo do meu vizinho

Ouro, Ferro e Leite: O Triunfo da Realidade

O sol da manhã de Seul filtrava-se pelas cortinas de linho do novo apartamento de Any e Jungkook, um espaço que agora cheirava a talco, café fresco e àquela fragrância amadeirada que Jungkook exalava. Eram dez horas de um sábado preguiçoso, e o caos organizado da paternidade era a trilha sonora do ambiente. O pequeno Jae-hyun, com seus três meses de vida e uma energia que claramente herdara da mãe, estava em seu auge de "conversas" matinais, soltando gritinhos e chutando o ar com suas perninhas gordinhas.

Any estava sentada no sofá, a imagem da serenidade moderna. Ela vestia uma camisola de amamentação de seda preta, prática, mas que delineava perfeitamente suas curvas. Três meses haviam sido o suficiente para que seu corpo, abençoado pela genética brasileira e por uma rotina ativa, voltasse ao lugar com uma firmeza que desafiava as leis da natureza. Seus cachos estavam presos em um coque frouxo, e sua pele brilhava com o viço de quem, apesar das noites mal dormidas, transbordava felicidade.

Jungkook saiu da cozinha segurando uma mamadeira com água e uma xícara de café. Ele estava descalço, vestindo apenas um short de moletom cinza que ficava baixo em seus quadris. O peito largo e os braços completamente cobertos por tatuagens estavam à mostra, exibindo os músculos definidos que o trabalho no estúdio e os treinos em casa mantinham impecáveis. Ele se inclinou sobre Any, beijando-lhe a testa antes de depositar um beijo barulhento na barriga do bebê.

— Ele não para um segundo, não é? — comentou Jungkook, a voz grave ainda rouca de sono. — Acho que ele está tentando me convidar para um duelo de boxe.

— Ele quer atenção, Kook — Any riu, ajeitando a alça da camisola. — E ele sabe que o pai é o maior fã dele.

A campainha tocou, quebrando a bolha de intimidade. Any franziu o cenho. Eles não esperavam ninguém, e Taehyung geralmente entrava digitando a senha.

— Você chamou alguém? — perguntou ela.

— Não — Jungkook respondeu, caminhando em direção à porta enquanto passava a mão pelos cabelos bagunçados.

Ao abrir a porta, o ar do apartamento pareceu esfriar instantaneamente. Ali, parados como se estivessem prestes a entrar em um tribunal, estavam o Sr. e a Sra. Jeon, acompanhados pelos Park e, claro, por Min-jee. O grupo estava vestido como se fosse para um evento de caridade de alto nível, um contraste bizarro com a atmosfera doméstica e despojada do casal.

— Viemos ver o bebê — anunciou a Sra. Jeon, entrando sem pedir licença e varrendo o ambiente com um olhar crítico que parou imediatamente em Jungkook. — Meu Deus, Jungkook! Onde estão suas roupas? E esses... esses desenhos na sua pele parecem estar aumentando.

Jungkook nem se deu ao trabalho de se cobrir. Ele manteve a postura relaxada, apoiando uma mão no batente da porta interna.

— Eu estou na minha casa, mãe. E é sábado — disse ele, com uma indiferença que claramente a irritou. — Entrem, se quiserem. Mas o Jae-hyun acabou de mamar e não está de muito bom humor para visitas formais.

O grupo avançou para a sala. Any não se levantou. Ela permaneceu no sofá, mantendo Jae-hyun em seu colo, observando a "comitiva" com um meio sorriso que era puro deboche. O olhar de Min-jee fixou-se em Any, e a inveja foi quase palpável. Min-jee olhou para a cintura fina de Any, para o colo impecável e para a forma como a brasileira parecia radiante mesmo sem um pingo de maquiagem.

— Olá, Any — disse Min-jee, a voz carregada de uma falsa cortesia. — Você parece... recuperada. Eu ouvi dizer que o parto foi difícil, achei que levaria mais tempo para você conseguir se cuidar.

— Oh, Min-jee! Que bom ver você — Any respondeu, a voz doce como veneno. — Na verdade, não foi difícil. Quando se tem um marido que faz massagens todas as noites e cuida de tudo para que eu possa descansar, o corpo agradece. A genética brasileira também ajuda um pouco, sabe? Nós não precisamos de muito esforço para voltar ao lugar.

A Sra. Park aproximou-se do bebê, mas Jae-hyun, sentindo a energia pesada da mulher, soltou um grito agudo e começou a chorar.

— Ele é muito barulhento — comentou a Sra. Park, recuando um passo. — Talvez ele precise de uma babá profissional, Sra. Jeon. Alguém que ensine etiqueta desde cedo.

— Ele não precisa de etiqueta, precisa de amor — rebateu Any, levantando-se com o bebê no colo. A camisola de amamentação permitia que ela se movesse com facilidade, e ela fez questão de caminhar até Jungkook, encostando-se no peito nu dele. — E ele tem os melhores pais do mundo para isso. Não é, Kook?

Jungkook passou o braço pela cintura de Any, puxando-a para mais perto. O contraste entre a pele morena dela e a pele clara e tatuada dele era uma imagem de pura sensualidade e parceria.

— Ele é a minha cara — disse Jungkook, olhando para o filho com orgulho. — E tem a personalidade da Any. Ou seja, ele não vai aceitar ordens de ninguém que ele não respeite.

O Sr. Jeon limpou a garganta, tentando retomar o controle da situação.

— Viemos aqui porque os Park e nós estávamos discutindo os novos empreendimentos em Busan. E pensamos que, para o bem da imagem da família e para o futuro desse menino, seria prudente oficializarmos uma união que faça sentido. Min-jee está disposta a aceitar o Jae-hyun como se fosse dela, para que possamos...

— Espera aí — Any interrompeu, soltando uma gargalhada genuína. — Eu ouvi bem? Vocês estão sugerindo que o Jungkook se case com a Min-jee para "salvar a imagem", enquanto eu e o meu filho viramos o quê? Um segredo de fundo de quintal?

— Seria o melhor para todos, Any — disse a Sra. Jeon. — Você teria uma pensão generosa, poderia voltar para o Brasil e viver como uma rainha. O Jungkook cumpriria o destino dele e o bebê teria um nome de peso.

Jungkook sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo à frente, sua presença física intimidando o grupo de aristocratas.

— Eu já disse isso no hospital e vou repetir pela última vez — a voz dele era um trovão contido. — Eu já tenho uma família. O nome do meu filho é Jeon-Gabrielly, e o nome da mulher que eu amo e com quem vou passar o resto da minha vida é Any. Se vocês acham que eu trocaria a vida que eu tenho aqui, o cheiro de leite do meu filho e o sorriso da Any por uma conferência de negócios e um casamento de fachada com a Min-jee, vocês não me conhecem.

— Jungkook, pense na sua carreira! — exclamou o Sr. Park. — Min-jee pode te oferecer conexões que essa... essa garota nunca sonhou.

Any deu um passo à frente, entregando o bebê para Jungkook, que o segurou com uma habilidade impressionante, acalmando o pequeno instantaneamente. Ela caminhou até Min-jee, parando a poucos centímetros da coreana.

— Conexões? — Any perguntou, olhando Min-jee de cima a baixo. — Min-jee, olhe para você. Você está aqui, num sábado de manhã, tentando roubar o marido e o filho de outra mulher porque não consegue conseguir um homem por conta própria. Você é linda, admito, mas é vazia. O Jungkook não quer "conexões", ele quer fogo. Ele quer alguém que o desafie, que dance com ele na cozinha e que não tenha medo de se sujar de tinta ou de fralda.

Min-jee tentou manter a postura, mas suas mãos tremiam.

— Você acha que isso vai durar? — sibilou Min-jee. — O amor acaba quando as contas chegam e a rotina cansa.

— O nosso amor não é baseado em conveniência, querida — Any rebateu, voltando para o lado de Jungkook e passando a mão pelo abdômen definido dele, um gesto possessivo e consciente. — Ele é baseado em realidade. E a nossa realidade é muito mais interessante do que o seu sonho de plástico.

A Sra. Jeon olhou para o filho, vendo a forma como ele olhava para Any. Não havia dúvida, não havia hesitação.

— Vocês são impossíveis — disse a mãe de Jungkook, a voz carregada de uma derrota amarga.

— Somos felizes — corrigiu Jungkook. — E se vocês não vieram aqui para celebrar isso, a porta está exatamente onde vocês a encontraram.

— Vamos embora — ordenou o Sr. Jeon, percebendo que não havia mais espaço para negociações. — Já vimos o que precisávamos.

Enquanto o grupo se dirigia para a saída, Min-jee lançou um último olhar para o corpo de Any, uma mistura de ódio e uma profunda consciência de sua própria derrota. Any apenas acenou com os dedos, um sorriso vitorioso nos lábios.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelo som de Jae-hyun resmungando, agora mais calmo.

— Uau — disse Jungkook, soltando um suspiro longo e sentando-se no sofá com o bebê. — Você realmente não tem freio, Any Gabrielly.

— Eles pediram, Kook — ela respondeu, sentando-se ao lado dele e encostando a cabeça em seu ombro nu. — Eles vêm na nossa casa, tentam me comprar e ainda trazem a "candidata a esposa"? Eu fui até educada demais.

Jungkook riu, beijando o topo da cabeça dela.

— Eu amo quando você fica assim, toda protetora. Mas você viu a cara da Min-jee quando você mencionou as massagens?

— Eu vi a cara dela quando olhou para a minha barriga — Any riu, sentindo-se vitoriosa. — Ela queria que eu estivesse acabada, triste e dependente. Sinto muito, sociedade de Seul, mas a brasileira aqui está na sua melhor fase.

Jae-hyun soltou um bocejo longo, fechando os olhinhos puxados que eram a cópia fiel dos de Jungkook.

— Ele dormiu — sussurrou Jungkook, olhando para o filho com uma ternura que fazia o coração de Any derreter. — Apesar de todo o barulho, ele dormiu.

— Ele sabe que está seguro — disse Any, cobrindo o bebê com uma manta leve. — Ele sabe que o pai dele é um gigante que enfrenta dragões de terno e gravata por ele.

Jungkook olhou para Any, seus olhos escuros brilhando com uma intensidade nova.

— Eu enfrentaria qualquer coisa por vocês dois. Aquelas pessoas... elas vivem em um mundo de sombras. Eu prefiro a nossa luz, mesmo que ela venha com noites sem dormir e fraldas para trocar.

Any se inclinou e o beijou, um beijo que começou doce e logo se tornou profundo, carregado de toda a paixão que os unira desde aquela primeira noite de filmes na casa de Taehyung.

— Sabe, Sr. Jeon... — Any sussurrou contra os lábios dele. — Você fica muito bem sendo um pai de família insubordinado.

— E você fica maravilhosa sendo a dona do meu mundo — ele respondeu, puxando-a para mais perto.

Lá fora, a elite de Seul continuaria seus jogos de poder e suas tramas de imagem. Mas dentro daquele apartamento, o que importava era o calor de um abraço, o sono tranquilo de um bebê que era a ponte entre dois mundos e a certeza de que, não importa o que acontecesse, Any e Jungkook eram a sua própria e mais perfeita definição de família. O veneno dos Park e a frieza dos Jeon não tinham poder ali, pois o amor deles era forjado em ouro e ferro, e nenhuma taça de cristal poderia contê-lo.