o meu amor e meu ex marido
Entre o Fogo e o Orgulho
O silêncio dentro do sedã preto era quase palpável, uma linha retorcida de eletricidade que serpenteava entre os dois à medida que o carro avançava pelas ruas iluminadas de Nova York. Lily mantinha os olhos fixos na janela, observando o borrão dourado dos postes e dos letreiros luminosos, mas sua mente estava completamente focada no homem ao seu lado. Ela conseguia ouvir a respiração pausada de Oscar, o som sutil do tecido de sua camisa social se movendo quando ele girava o volante e, acima de tudo, sentia aquele magnetismo familiar que sempre a puxava em direção a ele, por mais que ela lutasse contra.
Quando o carro finalmente estacionou em frente ao prédio de Lily, nenhum dos dois se moveu imediatamente. Ela soltou o cinto de segurança, o clique ecoando como um tiro no espaço confinado.
— Obrigada pela carona, Excelência — disse ela, a voz tingida de uma ironia que tentava esconder o tremor em suas cordas vocais. — Agora você pode voltar para o seu mundo perfeito.
Oscar desligou o motor. O silêncio que se seguiu foi ainda mais avassalador. Ele se virou ligeiramente no banco, apoiando um dos braços no volante, aqueles olhos claros, misturando azul e verde, fixos nela com uma intensidade que parecia ler seus pensamentos mais profundos.
— Eu não vou a lugar nenhum, Lily. Não até garantir que você vai subir, comer alguma coisa e parar de me olhar como se eu fosse o seu pior inimigo.
— E você não é? — ela rebateu, virando-se para ele, os olhos castanhos brilhando de indignação. — Você aparece no meu trabalho, me manda mensagens perturbadoras, desconcentra toda a minha rotina e espera que eu te trate com um tapete vermelho? Você é inacreditável, Oscar Piastri!
— Eu sou o homem que te ama — ele respondeu, a voz perigosamente baixa, desprovida de qualquer hesitação. — E você sabe disso.
Lily soltou uma risada amarga, embora seu coração estivesse batendo contra as costelas como um pássaro engaiolado. Sem dizer mais nada, ela abriu a porta do carro e saiu, batendo-a com um pouco mais de força do que o necessário. Seus saltos estalaram no pavimento enquanto ela caminhava rapidamente em direção à entrada do prédio. Ela achou que ele iria embora. Ela realmente tentou convencer a si mesma de que queria que ele fosse embora.
Mas quando a porta de vidro do saguão se fechou atrás dela, a silhueta alta e imponente de Oscar já estava lá, segurando a porta com uma facilidade irritante. Ele não corria, não parecia desesperado; ele simplesmente caminhava com a segurança de um homem que sabia exatamente onde queria chegar.
No elevador, a atmosfera atingiu o ponto de ebulição. Lily se encolheu no canto, cruzando os braços, enquanto Oscar permaneceu de pé no centro, a postura impecável, embora a gravata frouxa e as mangas dobradas dessem a ele um ar implacavelmente pecaminoso. Ela olhava para os números digitais subindo lentamente, sentindo o calor do corpo dele irradiar pelo espaço fechado.
— Você não tem o direito de subir — ela sibilou, a voz baixa para que o ascensorista ou qualquer vizinho não ouvisse, embora estivessem sozinhos.
— Eu só vou te deixar na porta — ele disse, mantendo o tom calmo, aquele humor seco e controlado que sempre a enlouquecia. — A menos, é claro, que você me convide para entrar.
— No dia em que eu fizer isso, me interne em um hospital psiquiátrico.
O elevador parou com um bipe suave. Lily saiu apressada, pegando as chaves na bolsa com dedos trêmulos. Ela enfiou a chave na fechadura, mas antes que pudesse girá-la, a mão de Oscar pousou sobre a madeira, logo acima de sua cabeça, cercando-a. O perfume dele — sândalo e couro — a invadiu, nublando sua capacidade de raciocinar.
— Lily — ele murmurou, perto demais de seu ouvido.
— Saia, Oscar — ela exigiu, virando-se de frente para ele, colando as costas contra a porta fechada. — Eu estou falando sério. Chega de jogos. Chega de...
Ela não conseguiu terminar a frase. Oscar deu um passo à frente, eliminando qualquer espaço que restava entre eles. Seus olhos desceram para os lábios dela e, em um movimento fluido e faminto, ele se inclinou e a beijou.
Foi como se uma represa tivesse quebrado. O beijo não foi gentil, nem polido como o juiz que ele apresentava ao mundo; foi possessivo, urgente, carregado de meses de saudade acumulada e de uma frustração dolorosa. A boca de Oscar era quente e firme contra a dela, sua língua pedindo passagem com uma autoridade que Lily, apesar de todo o seu orgulho, não conseguiu recusar. Ela soltou um gemido baixo contra os lábios dele, suas mãos subindo automaticamente para o peito dele, agarrando o tecido fino da camisa branca.
Com um movimento rápido, Oscar pegou as chaves da mão trêmula dela, abriu a porta do apartamento e os empurrou para dentro, fechando a madeira com o pé sem que o beijo cessasse por um único segundo.
O apartamento estava escuro, iluminado apenas pelas luzes da cidade que entravam pelas janelas, mas nenhum deles se importava. Oscar a prensou contra a parede do hall de entrada, suas mãos subindo para o rosto de Lily, os dedos longos se enroscando em seus cabelos castanhos e sedosos, puxando-os levemente para inclinar a cabeça dela ainda mais. O beijo se aprofundou, tornando-se mais selvagem, mais necessitado. Lily sentia o corpo atlético dele pressionado contra o seu, a rigidez de seus músculos, o calor sufocante que parecia emanar de cada centímetro da pele dele.
Mas a raiva ainda estava lá, misturada ao desejo avassalador. Lily usou as forças que lhe restavam para empurrar o peito dele, quebrando o contato de suas bocas. Ela arquejou, o ar faltando em seus pulmões, os lábios vermelhos e ligeiramente inchados pelo impacto do beijo.
— Você é um idiota! — ela exclamou, a voz trêmula de fúria e excitação. — Você acha que pode simplesmente me beijar desse jeito e fazer tudo sumir? Você me traiu, Oscar! Você quebrou a minha vida em pedaços!
Oscar não se afastou. Ele manteve as mãos espalmadas na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em seu campo de força. Seus olhos brilhavam na penumbra, atentos, profundos, mas sem um pingo de arrependimento pelo beijo.
— Eu nunca traí você, Lily — ele respondeu, a voz firme, embora sua respiração também estivesse acelerada. — Eu já te disse isso mil vezes e vou continuar dizendo até que aquela teimosia na sua cabeça dê lugar à verdade. Aquilo foi uma armação.
— Uma armação muito bem feita, então! — ela gritou, batendo com os punhos no peito dele, embora o impacto parecesse não fazer cócegas nele. — As fotos, as mensagens... eu vi, Oscar! Eu senti a dor! Você não sabe o que é passar por isso enquanto todo mundo olha para mim como a coitadinha que foi trocada!
— Eu sei o que é perder a única mulher que eu já amei por causa de uma mentira — ele rebateu, dando mais um passo à frente, forçando-a a olhar para cima. — Você acha que eu estou feliz? Você acha que a minha vida naquele tribunal vazio faz sentido sem você em casa? Eu sinto a sua falta tanto que chega a ser físico, Lily. Dói.
— Então sofra! — ela disse, brava, as lágrimas de frustração ameaçando cair de seus olhos expressivos. — Sofra o dobro do que eu sofri!
Oscar soltou um suspiro curto, um meio sorriso sarcástico e dolorido surgindo em seus lábios definidos.
— Eu já sofro, minha doce Lily. Mas você não facilita.
Antes que ela pudesse responder com mais uma de suas réplicas afiadas, ele a puxou pela cintura, colando seus quadris. Lily soltou um suspiro audível com a proximidade repentina, o calor da pele dele queimando através das roupas de escritório. Oscar inclinou a cabeça e atacou o pescoço dela, depositando beijos ardentes e molhados ao longo de sua mandíbula, descendo até a curva de seu ombro.
Lily jogou a cabeça para trás, as unhas cravando-se nos ombros largos dele. Ela queria odiá-lo. Ela queria ter forças para empurrá-lo para fora de seu apartamento e trancar a porta para sempre. Mas como ela poderia fazer isso quando o toque dele a fazia se sentir mais viva do que em qualquer outro momento de sua rotina monótona na Pearson Hardman? Aqueles associados idiotas que tentavam flertar com ela no escritório eram garotos comparados ao homem que a segurava agora. Oscar a conhecia de trás para frente; ele sabia exatamente onde tocá-la, a pressão exata que a fazia perder o controle.
— Você... você precisa ir embora — ela murmurou, a voz falhando miseravelmente enquanto a boca de Oscar subia novamente para o canto de seus lábios, provocando-a.
— Tem certeza? — ele sussurrou contra a pele dela, as mãos descendo pelas curvas de seus quadris, puxando a saia lápis dela ligeiramente para cima, os dedos quentes encontrando a pele nua de suas coxas acima da meia-calça. — Diga que quer que eu vá embora olhando nos meus olhos, Lily. Diga e eu saio por aquela porta agora mesmo.
Lily abriu os olhos, encontrando o olhar intenso e desafiador do ex-marido. O maxilar dele estava definido, a expressão concentrada puramente nela. Ela tentou formular as palavras. Tentou dizer "vá embora". Mas o que saiu de sua boca foi um som frustrado quando ela o puxou de volta para outro beijo.
Desta vez, eles se moveram em direção ao sofá da sala. Oscar a guiou com cuidado, mas sem perder a urgência, caindo por cima dela no estofado macio. O peso do corpo dele era um conforto familiar que Lily não sabia que precisava tanto. Suas mãos foram para os botões da camisa dele, abrindo-os com pressa, querendo sentir a pele dele contra a sua. Oscar gemeu baixo, permitindo que ela arrancasse a camisa de seus ombros, revelando o peito musculoso e atlético.
Ele distribuiu beijos por todo o rosto dela, descendo pelo colo, enquanto as mãos de Lily exploravam as costas dele, arranhando levemente a pele firme. O desejo entre eles era uma chama antiga que nunca havia se apagado, apenas esperado pelo combustível certo para incendiar tudo novamente.
— Você ainda é minha, Lily — ele murmurou entre os beijos, a voz rouca de puro desejo. — Não importa quantos papéis assinamos, não importa o que o mundo diga. Você é minha.
Aquelas palavras, no entanto, acenderam um alerta na mente de Lily. O orgulho que havia sido temporariamente anestesiado pelo prazer rugiu de volta. Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, interrompendo o caminho de sua boca.
— Eu não sou sua propriedade, Oscar Jack Piastri! — ela disse, a voz firme, os olhos brilhando com aquela braveza meiga, mas perigosa, que ele tanto conhecia. — Nós estamos divorciados. Você não manda em mim, não dita o que eu faço e não pode simplesmente entrar aqui e reivindicar o meu corpo como se fosse um dos seus vereditos judiciais!
Oscar parou, olhando para ela de cima. Ele viu a determinação nos olhos dela, a mágoa que ainda residia no fundo daquelas pupilas castanhas, e o amor que ela tentava desesperadamente esconder. Ele soltou uma respiração lenta, apoiando o peso nos cotovelos para não machucá-la.
— Eu sei — ele disse, surpreendendo-a com a suavidade de seu tom. — Eu sei que não tenho direitos. Mas eu não estou reivindicando nada por força, Lily. Estou aqui porque você me quer tanto quanto eu quero você. Você pode gritar comigo, pode me chamar de idiota, pode me expulsar amanhã... mas não minta para si mesma sobre o que sente quando estamos assim.
Lily engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. Ele tinha razão, e era isso que mais a irritava. Ela o amava. Deus, como ela o amava.
— Eu te odeio por ser tão autoconfiante — ela sussurrou, puxando-o pela nuca para mais um beijo, este mais lento, mais profundo, misturado com o sabor salgado de uma lágrima solitária que escapou de seus olhos.
Eles continuaram ali, naquele casulo de sombras e desejo, por mais algum tempo. O toque de Oscar era uma mistura de adoração e possessividade, cada carícia na pele de Lily parecendo um pedido silencioso de desculpas, uma promessa de que ele não desistiria dela. Lily se entregou ao momento, permitindo-se esquecer, por algumas horas, os processos da Pearson Hardman, as mentiras do passado e as barreiras que havia construído.
No entanto, o tempo em Nova York não parava para os amantes, nem mesmo para um juiz bilionário e sua ex-esposa.
Lentamente, a intensidade do momento começou a se acalmar, dando lugar a uma quietude pesada, interrompida apenas pelo som de suas respirações recuperando o ritmo. Oscar ainda estava deitado ao lado dela no sofá amplo, um dos braços servindo de travesseiro para Lily, enquanto os dedos da outra mão acariciavam distraidamente o ombro nulo dela.
Ele olhou para o relógio de pulso que brilhava fracamente na escuridão. Quase duas da manhã.
Com um suspiro audível, Oscar começou a se afastar. Lily sentiu a perda do calor imediatamente e se sentou, puxando a almofada contra o peito, observando-o recolher a camisa branca do chão.
— Você já vai? — ela perguntou, tentando fazer com que sua voz soasse indiferente, embora houvesse uma ponta de decepção que ela não conseguiu ocultar totalmente.
Oscar vestiu a camisa, fechando os botões com a mesma habilidade meticulosa que usava para se preparar para o tribunal. Ele se virou para ela, os cabelos castanhos claros ligeiramente bagunçados pelas mãos dela, o que dava a ele um aspecto incrivelmente jovem e atraente.
— Eu preciso ir, Lily — disse ele, a voz voltando ao tom profissional, mas com uma suavidade reservada apenas para ela. — Tenho uma audiência preliminar com o comitê de ética às oito da manhã, e depois um julgamento complexo de fraude corporativa. Preciso estar com a mente afiada. E se eu ficar aqui... — ele olhou para ela, os olhos brilhando com uma promessa silenciosa — ...eu garanto que nenhum de nós vai dormir nada.
Lily sentiu o rosto esquentar, a braveza retornando para protegê-la.
— Ótimo. Vá embora mesmo. O tribunal precisa do seu grande ego de volta. E eu também preciso dormir, amanhã o Louis Litt vai estar caçando minha cabeça se eu esquecer de organizar os arquivos dele.
Oscar caminhou até o sofá, inclinando-se sobre ela. Lily tentou desviar o rosto, mas ele segurou seu queixo com delicadeza, forçando-a a olhar para ele. Ele depositou um beijo suave, quase casto, em seus lábios, um contraste gritante com a selvageria de antes.
— Beba água antes de dormir — ele instruiu, o tom protetor que ela secretamente adorava. — E não dê corda para aqueles associados idiotas. Se eu souber de mais algum post-it na sua mesa, eu mesmo venho falar com o Harvey.
— Você não se atreva, Oscar Piastri! — ela avisou, apontando o dedo para ele. — Minha vida profissional não é da sua conta.
Oscar deu aquele meio sorriso irritante e charmoso, ajustando o colarinho da camisa.
— Durma bem, Lily.
Ele se virou e caminhou em direção à porta. Lily o observou até que a porta se fechasse com um clique suave, deixando o apartamento em silêncio mais uma vez.
Ela se deitou de volta no sofá, o cheiro de sândalo e o calor de Oscar ainda impregnados no tecido e em sua própria pele. Ela levou os dedos aos lábios, sentindo o formigamento do beijo deles. Ela sabia que a situação era uma loucura, que as mensagens continuariam no dia seguinte, que ela continuaria brava e que ele continuaria sabendo exatamente como desarmá-la.
A doce Lily Zneimer podia ser o enigma intransponível para todos os homens de Harvard na Pearson Hardman, mas para o juiz mais temido do país, ela sempre seria o caso que ele se recusava a dar por encerrado. E, no fundo do seu coração, ela sabia que a sentença final daquela história ainda estava longe de ser ditada.