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O monstro do passado

Entre o Céu e o Inferno

O interior do Impala preto cheirava a couro velho, fumaça de cigarro e um perfume masculino forte que trazia memórias que Lily tentara enterrar em uma cova rasa. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo ronco baixo do motor enquanto Oscar dirigia pelas ruas ensolaradas de Freeridge. Para qualquer observador externo, parecia apenas um dos líderes dos Santos dando carona para a prima de seu vizinho. Para Lily, cada metro percorrido era um passo para longe de sua própria alma.

— Você está muito calada, passarinho — comentou Oscar, sem tirar os olhos da estrada. — Onde foi parar aquela menina que costumava chorar e implorar para eu não contar para o Cesar que ela tinha quebrado o vaso da mãe dele?

Lily apertou a alça de sua bolsa com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

— Eu cresci, Oscar. E aprendi que o medo não serve para nada se ele não te mantém viva. O que você quer? Por que agora?

Oscar soltou uma risada seca e estacionou o carro em um beco sem saída, sob a sombra de um galpão abandonado. Ele desligou o motor e virou-se para ela, apoiando o braço no encosto do banco dela. A proximidade era sufocante.

— Por que agora? — Ele repetiu, arqueando uma sobrancelha. — Porque eu passei anos em uma cela pensando no que era meu. Pensando em como eu deixei as coisas inacabadas aqui fora. O Cesar é um fraco, Lily. Ele acha que você é uma santa. O Rubi acha que é seu guarda-costas. Mas eu? Eu sei o que tem por baixo dessa pele de anjo.

— Você não sabe nada sobre mim! — Lily exclamou, a voz falhando. — Você me aterrorizou quando eu era uma criança. Você me fez sentir culpada por coisas que eu nem entendia!

Oscar estendeu a mão e tocou o rosto dela com as costas dos dedos. O toque era frio, apesar do calor do dia. Lily não recuou; ela estava paralisada.

— Eu te dei um propósito — sussurrou ele. — Eu te ensinei a guardar segredos. E veja só como você é boa nisso. Nem o seu precioso Cesar desconfia que a "irmã" que ele tanto ama tem uma dívida eterna comigo.

— Eu não te devo nada.

— Deve sim. — O olhar de Oscar escureceu, a diversão desaparecendo. — Você me deve o silêncio que eu mantive sobre o que você realmente é. Você acha que eles te amariam se soubessem que você gostava da atenção? Que você vinha me procurar mesmo quando eu não chamava?

— Isso é mentira! — As lágrimas começaram a queimar os olhos de Lily. — Eu tinha dez anos, Oscar! Eu tinha medo de você! Você distorce tudo para parecer que eu tive escolha!

— Em Freeridge, ninguém tem escolha, Lily. — Ele se aproximou mais, o hálito de tabaco atingindo o rosto dela. — Agora, aqui está o trato. Você vai continuar sendo o anjo. Vai continuar cuidando do meu irmão e mantendo ele longe de problemas. Mas, quando eu estalar os dedos, você vem. Sem perguntas. Sem o Rubi. Se você falhar, se você contar uma palavra para o Cesar... eu mostro para ele as cartas que você me enviou para a prisão.

Lily sentiu o coração parar.

— Que cartas? Eu nunca te escrevi uma linha sequer!

Oscar sorriu de forma predatória, tirando do bolso um envelope amarelado e desgastado.

— Eu tenho amigos lá fora que sabem imitar caligrafia muito bem, passarinho. E os detalhes... ah, os detalhes são picantes o suficiente para fazer o Cesar nunca mais querer olhar na sua cara. Imagine o escândalo. A "menina perfeita" da vizinhança tendo um caso secreto com o líder dos Santos enquanto ele estava atrás das grades.

— Você é um monstro — sussurrou ela, sentindo o mundo desmoronar.

— Eu sou o que este bairro me fez ser. Agora sai do carro. Tenho negócios a tratar.

Lily saiu tropeçando, o calor do asfalto parecendo gelado sob seus pés. Ela não olhou para trás enquanto o Impala arrancava, deixando uma nuvem de poeira e desespero.

***

Enquanto isso, na varanda da casa dos Martinez, Rubi andava de um lado para o outro, roendo as unhas até a carne. Ele tinha visto Lily entrar no carro. Ele sabia o que aquilo significava. Oscar estava apertando o cerco.

— Rubi, você vai abrir um buraco no chão se continuar assim — disse Jamal, aparecendo de repente com um detector de metais e um chapéu de safári. — O que foi? O RollerWorld está te dando ansiedade de novo?

— Não é o RollerWorld, Jamal! — explodiu Rubi, parando bruscamente. — É a vida! É o destino! São as forças ocultas que conspiram para destruir tudo o que é puro!

Jamal piscou, confuso.

— Uau. Isso foi profundo. Até para você. Tem a ver com a Lily? Eu vi ela saindo com o Spooky.

Rubi sentiu o sangue sumir do rosto.

— Você viu? Quem mais viu? O Cesar viu?

— Não, o Cesar estava lá atrás limpando a churrasqueira. Mas eu achei estranho. Desde quando a Lily e o Oscar são amigos de carona?

— Eles não são amigos, Jamal! — Rubi agarrou os ombros do amigo, sacudindo-o levemente. — Escuta bem. Você não viu nada. Se você abrir essa boca grande para o Cesar ou para a Monse, o equilíbrio do universo vai colapsar. Entendeu?

— Entendi, entendi! — Jamal se soltou, ajeitando o chapéu. — Credo, Rubi. Você está agindo como se o Oscar fosse o bicho-papão. Ele é só o irmão do Cesar. Um pouco assustador, sim, com todas aquelas tatuagens e o olhar de quem já viu o fim do mundo, mas...

— Ele é o bicho-papão, Jamal. Você não tem ideia.

A conversa foi interrompida pela chegada de Monse e Cesar. Cesar parecia mais relaxado do que nos últimos dias, talvez pela sensação de ter o irmão em casa, mesmo que a relação fosse tensa.

— Alguém viu a Lily? — perguntou Cesar, sentando-se no degrau. — Eu ia chamar ela para comer uns tacos, mas ela não atende o celular.

Rubi e Jamal trocaram um olhar rápido. Jamal abriu a boca, mas Rubi o chutou discretamente na canela.

— Ela... ela foi na biblioteca! — mentiu Rubi, rápido demais. — Sabe como ela é. Livros, silêncio, fugindo da sua energia caótica, Cesar.

Cesar riu, mas havia uma sombra de dúvida em sua expressão.

— Estranho. Ela geralmente me avisa. O Oscar também sumiu com o carro.

— O bairro está agitado, Cesar — disse Monse, tentando aliviar o clima. — O retorno do Spooky mudou tudo. As pessoas estão nervosas. A Lily só deve estar tirando um tempo para ela.

Mas Rubi sabia que o tempo de Lily estava acabando.

***

Lily chegou em casa e correu direto para o banheiro. Ela lavou o rosto com água gelada, tentando remover a sensação do toque de Oscar de sua pele. Ela se olhou no espelho. A menina loira de olhos azuis ainda estava lá, mas parecia uma estranha. Uma impostora.

— Lily? Você está aí dentro? — A voz de sua tia chamou do corredor. — O Cesar ligou dez vezes. Ele disse que vocês tinham combinado algo.

— Estou indo, tia! Só estou com um pouco de dor de cabeça! — Lily respondeu, forçando uma voz normal.

Ela pegou o celular. Havia mensagens de Cesar, cheias de emojis de coração e perguntas preocupadas.

"Ei, anjo, cadê você? Senti sua falta hoje. O Oscar está agindo estranho, preciso conversar."

Lily sentiu uma pontada de dor no peito. Cesar era a pessoa mais importante de sua vida. Ele era a luz que a mantinha sã em Freeridge. Se ele descobrisse... se ele acreditasse nas mentiras de Oscar...

Ela se sentou na cama e, por um momento, permitiu-se chorar silenciosamente. Aos dez anos, ela não sabia como lutar. Agora, aos dezessete, ela ainda se sentia aquela mesma criança acuada no beco.

Seu celular vibrou novamente. Outro número desconhecido.

"O jantar está quase pronto, passarinho. O Cesar está perguntando por você. O que eu devo dizer a ele?"

Era um jogo de gato e rato, e Oscar tinha todas as cartas. Lily limpou as lágrimas, ajeitou o cabelo e respirou fundo. Ela não podia se esconder para sempre. Se Oscar queria que ela fosse o anjo, ela seria o anjo mais convincente que Freeridge já viu. Mas, por dentro, ela estava começando a afiar suas próprias garras.

***

À noite, o grupo se reuniu no quintal dos Diaz. O cheiro de carne assada pairava no ar, e a música baixa criava uma ilusão de normalidade. Oscar estava sentado em uma cadeira de plástico, observando a todos como um rei vigiando seus súditos.

Lily chegou acompanhada de Rubi. Ela usava um vestido leve, o cabelo solto, e um sorriso que parecia perfeitamente genuíno.

— Lily! — Cesar levantou-se e a abraçou. — Você me deu um susto. Está melhor da cabeça?

— Muito melhor, Cesar. Desculpe por sumir. — Ela o beijou na bochecha, sentindo o olhar de Oscar queimando nela do outro lado do quintal.

— Que bom que veio, Lily — disse Oscar, levantando sua cerveja em um brinde silencioso. — Estávamos justamente falando sobre como o bairro mudou. Mas algumas coisas... algumas coisas são permanentes, não é?

— Como a lealdade — respondeu Lily, olhando diretamente nos olhos dele.

O grupo se sentou para comer. Jamal estava no meio de uma explicação detalhada sobre como o RollerWorld poderia estar escondido sob a fundação da escola primária, enquanto Monse tentava corrigi-lo com fatos lógicos. Cesar ria, feliz por ter seus amigos e seu irmão no mesmo lugar.

Em um momento, Cesar se afastou para buscar mais refrigerante na cozinha. Oscar aproveitou a oportunidade.

— Rubi, por que você não vai ajudar o Cesar? — sugeriu Oscar, seu tom não sendo um pedido, mas uma ordem.

Rubi hesitou, olhando para Lily. Ela assentiu levemente. Rubi saiu, deixando Lily sozinha com Oscar, Jamal e Monse. Mas Jamal e Monse estavam absortos em sua própria discussão.

— Você é uma ótima atriz, Lily — sussurrou Oscar, inclinando-se para perto dela. — Quase me convenceu com esse sorriso.

— O que você quer, Oscar? Já estou aqui. O que mais você quer de mim hoje?

— Quero que você saiba que eu não esqueci o que aconteceu naquele verão. Quando você me prometeu que seria minha para sempre se eu não contasse para o seu pai sobre o dinheiro que você pegou da carteira dele.

Lily sentiu o estômago revirar. Era apenas uma travessura de criança, um erro bobo de uma menina de dez anos, mas Oscar tinha transformado aquilo em uma corrente que a prendia a ele por quase uma década.

— Eu era uma criança — sibilou ela.

— E agora você é uma mulher. E promessas feitas em Freeridge são seladas com sangue, passarinho.

Cesar voltou, rindo de algo que Rubi dissera. Ele colocou a mão no ombro de Lily, sem perceber a tensão elétrica que pairava no ar.

— Tudo bem por aqui? — perguntou Cesar.

— Tudo ótimo, hermanito — disse Oscar, levantando-se. — Eu só estava lembrando a Lily de como é importante manter a família por perto. E de como segredos podem ser pesados se você os carregar sozinha por muito tempo.

Oscar caminhou em direção à casa, deixando um rastro de dúvida no olhar de Cesar.

— Lily? O que ele quis dizer com isso? — Cesar perguntou, sua voz carregada de uma preocupação crescente.

Lily olhou para o melhor amigo, o homem que ela amava mais do que a si mesma. Ela viu a inocência nos olhos dele, a confiança que ele depositava nela. E, naquele momento, ela soube que faria qualquer coisa para proteger essa imagem. Mesmo que isso significasse descer ao inferno com Oscar.

— Nada, Cesar. Ele só está sendo o Oscar. Você sabe como ele gosta de falar em enigmas.

— Eu não gosto do jeito que ele olha para você — confessou Cesar em voz baixa. — Parece que ele sabe algo que eu não sei.

— Ele não sabe de nada, Cesar. — Lily forçou um riso, pegando a mão dele. — Vamos focar no Jamal. Acho que ele acabou de dizer que o tesouro foi enterrado por alienígenas.

Cesar riu, e por um momento, a escuridão recuou. Mas, do outro lado da janela da cozinha, Oscar observava a cena, fumando seu cigarro. Ele não tinha pressa. O medo era um prato que se comia frio, e ele pretendia saborear cada pedaço da destruição de Lily.

A noite terminou com risadas forçadas e olhares furtivos. Quando Lily finalmente voltou para casa, ela encontrou um pequeno embrulho em sua cama. Não havia cartão. Dentro, havia um pequeno pingente de ouro em forma de pássaro.

Ela o apertou na mão até que o metal ferisse sua palma. O passado não estava apenas batendo à sua porta. Ele tinha se mudado para o quarto ao lado, e Lily sabia que, em Freeridge, o único jeito de se livrar de um fantasma era tornando-se um.

— Você não vai me destruir, Oscar — sussurrou ela para o quarto vazio. — Eu posso ser o seu anjo, mas até os anjos têm espadas.

Longe dali, no silêncio de sua casa, Oscar sorriu como se tivesse ouvido o desafio. A guerra por Freeridge estava apenas começando, e Lily era o prêmio que ele não pretendia perder novamente. O segredo estava guardado, mas por quanto tempo a luz de um anjo poderia brilhar antes de ser consumida pelas sombras de um Santo?