O monstro do passado
Entre o Sangue e a Baunilha
O pingente de ouro em formato de pássaro queimava na palma da mão de Lily, um lembrete frio de que sua privacidade era uma ilusão. Ela não o jogou fora. Sabia que, se o fizesse, Oscar encontraria uma forma mais cruel de marcar território. Em vez disso, ela o escondeu no fundo de uma gaveta de meias, sob camadas de tecidos que cheiravam a amaciante de lavanda, tentando sufocar o rastro de enxofre que Spooky deixara em seu quarto.
A manhã seguinte em Freeridge trouxe um calor abafado, o tipo de clima que deixava os ânimos exaltados e a poeira das ruas mais densa. Lily se vestiu mecanicamente, escolhendo uma blusa azul clara que realçava seus olhos, uma armadura de pureza que ela esperava que a protegesse.
Ao sair de casa, deu de cara com Rubi, que parecia não ter dormido um minuto sequer. Seus olhos estavam vermelhos e ele mastigava o lábio inferior com uma intensidade maníaca.
— Ele entrou na sua casa, Lily? — sussurrou Rubi, puxando-a para o lado de uma árvore. — Eu vi as luzes do seu quarto acesas até tarde. Eu quase liguei para a polícia, mas aí lembrei que a polícia aqui só serve para anotar o nome de quem morreu.
— Ele não entrou, Rubi. Mas ele deixou um... presente — Lily respondeu, sentindo um calafrio. — Ele quer me desestabilizar. Ele quer que eu sinta que não tenho para onde fugir.
— Temos que contar para o Cesar — Rubi disse, embora sua voz traísse o medo absoluto dessa ideia. — Se o Cesar souber que o irmão dele está te assediando, ele...
— Ele vai levar um tiro, Rubi! — Lily o cortou, segurando seus ombros. — O Oscar não é o cara que você vence no grito ou na lógica. Ele é o líder dos Santos. Se o Cesar se voltar contra ele por minha causa, o Oscar vai esmagá-lo como se ele fosse qualquer outro rival de gangue. Eu não posso carregar o sangue do Cesar nas minhas mãos.
Rubi engoliu em seco, a realidade da hierarquia de Freeridge pesando sobre seus ombros pequenos.
— Então o que fazemos? — perguntou ele, desamparado.
— Fazemos o que ele quer. Agimos como se tudo estivesse normal. Eu vou ser o anjo, e você vai ser o primo barulhento. Mas, por baixo, vamos observar. Todo rei tem uma fraqueza, Rubi. Até o Oscar.
Eles caminharam até a casa dos Diaz, onde o grupo já estava reunido. Jamal estava debruçado sobre um mapa da cidade, marcando pontos com uma caneta vermelha, enquanto Monse tentava convencê-lo de que a "maldição do RollerWorld" era apenas uma série de coincidências infelizes. Cesar estava sentado no sofá, limpando um par de tênis brancos, mas sua expressão estava distante.
— Bom dia, família — disse Lily, forçando uma leveza que não sentia. — Alguém sobreviveu à teoria da conspiração do Jamal de ontem à noite?
— Eu estou a um passo de descobrir a verdade, Lily! — exclamou Jamal, sem olhar para cima. — Os túneis! Tudo se conecta aos túneis sob a antiga destilaria. E adivinhem quem controla aquela área agora?
— Os Santos — respondeu Monse, cruzando os braços. — O que significa que é território proibido.
Cesar levantou o olhar e sorriu ao ver Lily, mas o sorriso não durou. Seus olhos vagaram para a porta do corredor, por onde Oscar acabara de sair, vestindo sua habitual regata branca e exibindo a carranca que mantinha a vizinhança em silêncio.
— Falando nos Santos — murmurou Cesar, o tom de voz carregado de uma amargura que Lily nunca tinha ouvido antes.
Oscar não disse nada. Ele caminhou até a cozinha, pegou uma garrafa de água e encostou-se no balcão, observando o grupo. Seu olhar pousou em Lily por um segundo a mais do que o necessário, um toque invisível que a fez querer se encolher.
— O que foi, Cesar? — perguntou Oscar, sua voz rouca preenchendo a sala. — Parece que viu um fantasma. Ou será que é só o peso da consciência por não estar ajudando nos negócios da família?
— Meus negócios são a escola e o meu futuro, Oscar — rebateu Cesar, levantando-se. — Coisas que você parece ter esquecido que existem.
Oscar soltou uma risada curta, um som que lembrava o rasgar de papel seco.
— Futuro? Em Freeridge? — Ele caminhou em direção ao irmão, parando a poucos centímetros. — O futuro aqui é decidido por quem tem o cano mais longo e a pele mais grossa. Você vive em um conto de fadas, hermanito. E suas fadinhas — ele gesticulou vagamente para o grupo, parando o dedo na direção de Lily — não vão estar lá para te segurar quando a realidade bater.
— Deixa eles em paz, Oscar — interveio Lily, sua voz saindo firme apesar do tremor interno. — Eles não têm nada a ver com seus problemas.
Oscar virou-se para ela, um brilho de diversão cruel nos olhos.
— Meus problemas? Você é engraçada, Lily. Sempre tentando salvar o mundo. Mas quem é que vai salvar você quando as sombras ficarem longas demais?
— Eu sei me cuidar — respondeu ela, sustentando o olhar.
— Sabe? — Oscar deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Lily. O cheiro de tabaco e algo metálico a envolveu. — Então talvez você devesse me mostrar como se cuida. Tem um carregamento chegando no beco da rua 4 às oito da noite. Preciso de alguém que não chame atenção para vigiar a esquina. Alguém com cara de anjo.
O silêncio na sala foi absoluto. Cesar deu um passo à frente, os punhos cerrados.
— Nem pensar. Ela não vai chegar perto dos seus esquemas, Oscar!
— Ela vai se ela quiser proteger o que ama — disse Oscar, sem tirar os olhos de Lily. — Não é, passarinho? Às oito. Não se atrase.
Ele saiu da casa sem olhar para trás, deixando um rastro de fumaça e destruição emocional. Cesar virou-se para Lily, o rosto vermelho de raiva e confusão.
— O que foi aquilo? Lily, por que ele falou com você como se tivesse algum tipo de poder sobre você?
Lily sentiu o peso do segredo ameaçando esmagar seus pulmões. Ela olhou para Rubi, que estava pálido como um lençol, e depois para Monse e Jamal, cujas expressões de choque eram dolorosas de ver.
— Ele só está tentando me assustar, Cesar — mentiu Lily, a voz embargada. — Ele sabe que eu sou importante para você e quer te atingir através de mim.
— Isso não faz sentido — disse Monse, aproximando-se. — O Oscar é calculista. Ele não pediria um favor desses para alguém de fora a menos que...
— A menos que o quê, Monse? — interrompeu Rubi, tentando desesperadamente desviar o assunto. — Ele é um louco! Ele acabou de sair da prisão, o cérebro dele deve estar cozido!
— Eu vou falar com ele — declarou Cesar, pegando sua jaqueta.
— Não! — Lily agarrou o braço de Cesar. — Se você for confrontá-lo agora, só vai piorar as coisas. Deixa que eu resolvo. Eu vou falar com ele, mas de um jeito que não envolva violência.
— Você não vai a beco nenhum às oito da noite — ordenou Cesar, seus olhos brilhando com uma proteção possessiva.
— Eu vou ficar bem, Cesar. Prometo.
***
A noite em Freeridge nunca era realmente escura; havia sempre o brilho amarelado dos postes de luz e o reflexo das luzes das viaturas que passavam ocasionalmente. Lily caminhava em direção à rua 4, cada passo parecendo uma sentença de morte. Rubi tentara segui-la, mas ela o obrigara a ficar em casa para distrair Cesar.
Quando chegou ao beco, o Impala preto já estava lá, estacionado nas sombras como um predador à espreita. Oscar estava encostado no capô, fumando.
— Você veio — disse ele, jogando a brasa do cigarro no chão. — Pontual. Eu sempre gostei disso em você.
— Eu vim para dizer que isso para aqui, Oscar — Lily disse, parando a uma distância segura. — Você quer me assustar? Parabéns, você conseguiu. Mas eu não vou entrar para a sua gangue. Eu não vou ser sua vigia.
Oscar soltou uma risada sombria e se aproximou lentamente.
— Você acha que isso é sobre a gangue? Lily, eu tenho centenas de soldados dispostos a morrer por um aceno meu. Eu não preciso de uma loirinha de olhos azuis para vigiar um carregamento de maconha.
— Então por que me chamou aqui?
Ele parou na frente dela e, com uma rapidez assustadora, segurou o queixo de Lily, forçando-a a olhar para ele.
— Eu chamei você aqui para te lembrar de quem você é. Você passa o dia todo fingindo que é uma santa, cuidando do meu irmão, sendo a luz de Freeridge. Mas aqui no escuro, comigo... você é apenas a menina que guarda os meus segredos.
— Eu te odeio — sussurrou ela, as lágrimas transbordando.
— Ódio e amor são dois lados da mesma moeda, passarinho. Ambos exigem paixão. E você sempre foi apaixonada pelo perigo que eu represento.
Ele soltou o queixo dela e tirou um pequeno envelope do bolso.
— Isso aqui é o que você vai fazer. Não é um carregamento de drogas. É uma carta. Você vai entregá-la para o contato que vai estar na lanchonete do Benny em dez minutos. Se fizer isso, eu deixo o Cesar em paz por mais uma semana.
Lily pegou o envelope, a mão tremendo.
— Por que eu?
— Porque ninguém desconfia do anjo — ele piscou para ela, um gesto que foi mais uma ameaça do que um flerte. — Agora vá. O tempo está correndo.
Lily correu. Ela entregou a carta como ordenado, sentindo-se como uma traidora a cada passo. O homem que recebeu o envelope não disse nada, apenas assentiu e desapareceu nas sombras.
Quando ela voltou para a área iluminada da cidade, sentiu-se suja. Ela entrou em um banheiro de um posto de gasolina e lavou as mãos repetidamente, como se pudesse remover a marca de Oscar de sua pele.
Ao chegar em casa, encontrou Cesar sentado na sua varanda. Ele parecia exausto.
— Onde você estava? — perguntou ele, levantando-se.
— Eu... eu fui caminhar. Precisava pensar, Cesar.
Cesar caminhou até ela e a envolveu em um abraço apertado. Lily escondeu o rosto no peito dele, sentindo o perfume de sabão que tanto amava, mas agora, aquele cheiro parecia pertencer a um mundo ao qual ela não tinha mais acesso.
— Eu não vou deixar ele te machucar, Lily — prometeu Cesar no topo de sua cabeça. — Eu juro pela minha vida.
Lily fechou os olhos, as lágrimas molhando a camiseta de Cesar. Ela queria contar tudo. Queria gritar que o irmão dele era um monstro que a tinha marcado aos dez anos. Queria dizer que ela acabara de ser cúmplice de algum crime dos Santos.
Mas ela apenas o apertou mais forte.
— Eu sei, Cesar. Eu sei.
Naquela noite, Lily não dormiu. Ela ficou sentada na janela, observando a rua. Por volta das três da manhã, um carro passou devagar. Não era o Impala. Era um carro de polícia.
No dia seguinte, a notícia correu Freeridge como um incêndio. Houve uma batida na lanchonete do Benny. Um homem fora preso com documentos que ligavam os Santos a um esquema de lavagem de dinheiro. Mas o que ninguém sabia, exceto Oscar e Lily, era que a carta que ela entregara continha as informações que levaram àquela prisão — não para derrubar os Santos, mas para eliminar um traidor dentro da própria gangue.
Oscar tinha usado Lily para fazer o trabalho sujo. Ele a transformara em uma informante involuntária, uma peça no seu tabuleiro de xadrez sangrento.
Lily estava na cozinha preparando o café quando Rubi entrou, pálido.
— Lily... você ouviu sobre o Benny?
— Ouvi, Rubi.
— O Oscar... ele estava lá agora há pouco. Ele deixou isso para você na caixa de correio.
Rubi entregou a ela uma pequena foto polaroid. Era uma foto de Lily aos dez anos, sentada no balanço do parque, com uma pequena mancha de sangue no joelho. No verso, escrito com uma caligrafia firme, dizia:
"Primeira missão concluída, passarinho. Você limpa o sangue muito bem. Vejo você no jantar."
Lily sentiu o mundo girar. Ela olhou para a foto e depois para Rubi, que parecia estar prestes a desmaiar.
— Ele vai me destruir, Rubi — sussurrou ela, a voz desprovida de qualquer esperança. — Ele vai me transformar nele.
— Não se nós revidarmos — disse Rubi, embora seus dentes batessem. — Temos que encontrar algo contra ele. Algo que nem o Spooky possa esconder.
Mas em Freeridge, os segredos eram a única moeda que realmente valia algo, e Oscar Diaz era o homem mais rico da cidade. Lily olhou para a foto uma última vez antes de queimá-la na chama do fogão. As cinzas caíram na pia, pretas e sem vida, exatamente como o futuro que ela via diante de si.
O anjo de Freeridge ainda tinha suas asas, mas elas estavam começando a ficar manchadas de cinza. E, no fundo de seu coração, Lily sabia que o inferno de Oscar não era um lugar para onde ele a levaria — era um lugar que ele estava construindo ao redor dela, tijolo por tijolo, segredo por segredo.