O monstro do passado
O Renascer das Cinzas
A noite em Freeridge nunca era silenciosa, mas para Lily, o barulho dos carros e os gritos distantes pareciam abafados por um zumbido constante em seus ouvidos. Ela estava sentada no meio-fio de uma rua sem saída, a poucos metros de onde o Impala de Oscar costumava ficar estacionado. O vestido azul, que antes parecia uma marca de sua pureza, agora estava sujo de poeira e cinzas. Ela não era mais o anjo do bairro; ela era uma sobrevivente que acabara de descobrir o peso das próprias garras.
— Você está atrasada — disse uma voz vinda das sombras.
Um homem alto, com o rosto marcado por uma cicatriz que atravessava a sobrancelha, saiu da escuridão. Ele não era um Santo. Era um dos Profetas, a gangue rival que Oscar vinha tentando esmagar desde que saíra da prisão.
— Eu tive contratempos — respondeu Lily, levantando-se e limpando as mãos no vestido. — O Oscar é mais esperto do que vocês pensam. Ele usou a mim para entregar aquela carta no Benny, mas ele não sabe que eu li o que estava escrito antes de entregar.
O homem cruzou os braços, olhando-a com uma mistura de ceticismo e curiosidade.
— E por que a garota de ouro do Spooky estaria traindo o próprio dono?
— Ele não é meu dono — sibilou Lily, dando um passo à frente. — E eu não sou de ouro. Eu quero o que vocês querem: ver o Oscar Diaz de volta em uma cela, ou em uma cova. Ele está ficando descuidado. Ele acha que todos em Freeridge o temem tanto que ninguém ousaria olhar nos olhos dele.
— E o que você tem para nós, loirinha?
Lily tirou do bolso um pequeno caderno que pertencera ao pai de Cesar, algo que ela encontrara escondido no sótão da casa dos Diaz meses atrás e que Oscar vinha procurando desesperadamente.
— Aqui estão os registros de rotas de entrega de dez anos atrás. Rotas que o Oscar reativou na semana passada. Se a polícia souber onde as mercadorias estão sendo estocadas antes de entrarem no bairro, o império dele desmorona antes do amanhecer.
O homem pegou o caderno, folheando as páginas amareladas sob a luz fraca de um poste.
— Isso é perigoso para você. Se ele descobrir...
— Ele já me tirou tudo o que eu amava — disse ela, pensando no olhar de desprezo que Cesar lhe dera na cozinha. — Não sobrou nada para ele destruir.
— Tudo bem — disse o homem, guardando o caderno. — Vamos verificar isso. Se for verdade, o Spooky vai ter uma surpresa amanhã.
Lily o viu desaparecer na escuridão. Ela sentiu um frio no estômago, mas não era medo. Era a frieza de quem não tinha mais nada a perder.
***
Enquanto isso, no quarto de Cesar, o silêncio era interrompido apenas pelo som da respiração pesada do garoto. Ele segurava o pingente de pássaro na mão, as bordas de ouro cortando sua pele. Ele queria odiar Lily. Queria acreditar que ela era a vilã da história, a infiltrada que trouxera a desgraça para sua porta. Mas, no fundo, ele conhecia o irmão que tinha.
A porta do quarto se abriu sem bater. Oscar entrou, exalando um ar de triunfo que fazia o estômago de Cesar revirar.
— Você ainda está chorando por causa daquela garota? — perguntou Oscar, sentando-se na cadeira da escrivaninha. — Eu te fiz um favor, Cesar. Tirei a venda dos seus olhos.
— Você a destruiu, Oscar! — Cesar gritou, levantando-se de um salto. — Ela era a única coisa boa que restava para mim, e você a transformou em uma ferramenta! Por que você não podia simplesmente nos deixar em paz?
— Porque a paz é uma mentira! — Oscar rugiu, levantando-se também. — Você acha que eu queria estar naquela prisão? Eu fiz o que fiz para manter este sobrenome vivo! E a Lily... ela sempre foi parte disso, desde o dia em que ela aceitou o primeiro segredo. Ela não é uma vítima, Cesar. Ela é uma cúmplice.
— Ela tinha dez anos! — Cesar avançou, mas Oscar o segurou pelo pescoço, pressionando-o contra a parede.
— E agora ela tem dezessete e continua guardando segredos. Ela escolheu o silêncio em vez de você. Aceite isso. Ela é minha agora, de um jeito que nunca será sua.
Oscar soltou o irmão e saiu do quarto, batendo a porta. Cesar caiu de joelhos, o choro finalmente rompendo a barreira do orgulho. Ele sentia que Freeridge estava se fechando ao seu redor, um labirinto de concreto onde todos os caminhos levavam à violência.
***
Na manhã seguinte, o bairro acordou com o som de sirenes. Não eram as sirenes habituais de patrulha. Eram comboios da SWAT.
Lily estava na varanda de sua casa, bebendo um copo de água, observando as viaturas passarem em alta velocidade em direção ao galpão da rua 4. Ela sentiu uma mão em seu ombro e quase derrubou o copo. Era Rubi.
— Lily, o que você fez? — perguntou ele, a voz trêmula.
— Eu fiz o que precisava ser feito, Rubi. O Oscar não vai mais nos assombrar.
— Você falou com os Profetas? Lily, você tem noção do que isso significa? Se os Santos descobrirem que você os entregou para a gangue rival, não vai haver lugar no mundo onde você possa se esconder.
— Eu não os entreguei para os Profetas — mentiu ela, embora soubesse que Rubi não era bobo. — Eu apenas deixei as pistas certas para as pessoas certas.
— O Cesar está lá dentro, Lily! — Rubi gritou, apontando para a casa dos Diaz. — Se houver um tiroteio, ele pode ser pego no fogo cruzado!
Lily sentiu o coração parar. Ela não tinha pensado nisso. Em seu desejo cego de destruir Oscar, ela colocara a vida de Cesar em risco. Sem dizer uma palavra, ela desceu os degraus da varanda e começou a correr.
— Lily! Volta aqui! — gritou Rubi, mas ela já estava longe.
As ruas estavam desertas. Os vizinhos haviam se trancado em suas casas, sabendo que quando a polícia chegava daquela forma, o sangue não demorava a correr. Lily chegou à esquina da casa dos Diaz a tempo de ver Oscar saindo pela porta da frente, com uma arma na mão e um olhar de fúria pura.
— Onde ela está? — Oscar gritava para os policiais que cercavam a casa. — Eu sei que foi ela! Tragam a loirinha aqui!
Cesar saiu logo atrás dele, tentando segurar o braço do irmão.
— Oscar, para com isso! Joga a arma no chão!
— Ela nos traiu, Cesar! Ela entregou o galpão! Tudo o que eu construi... — Oscar parou de falar quando viu Lily parada no meio da rua, a cinquenta metros de distância.
Os policiais gritaram ordens para que Oscar se rendesse, mas ele parecia não ouvir. Seus olhos estavam fixos em Lily. Ele levantou a arma, apontando-a diretamente para o peito da garota.
— Oscar, não! — Cesar se jogou na frente do irmão.
O tempo pareceu desacelerar. Lily viu o dedo de Oscar apertar o gatilho, mas o tiro nunca veio. Um atirador de elite da polícia, posicionado no telhado de uma casa vizinha, disparou primeiro.
A bala atingiu o ombro de Oscar, fazendo-o girar e cair no chão. Cesar caiu junto com ele, tentando protegê-lo mesmo depois de tudo. Os policiais avançaram, imobilizando os dois.
Lily correu em direção a eles, mas foi barrada por um cordão de isolamento.
— Cesar! — ela gritava, tentando passar.
Cesar levantou o rosto do chão. Ele estava coberto de poeira, e o sangue do irmão manchava sua camiseta. Ele olhou para Lily, e o que ela viu em seus olhos não foi ódio, mas uma tristeza tão profunda que a fez perder o fôlego.
— Você conseguiu, Lily — ele disse, sua voz mal audível acima do barulho das sirenes. — Você o destruiu. Mas nos destruiu junto.
***
Três dias depois, Freeridge parecia estranhamente calma. Oscar estava no hospital da prisão, aguardando julgamento por uma série de crimes que o manteriam longe por décadas. Os Santos estavam desorganizados, e o vácuo de poder começava a ser preenchido por novas tensões.
Lily estava em seu quarto, arrumando uma mala pequena. Ela não podia mais ficar ali. A casa que fora seu porto seguro agora parecia uma prisão de memórias.
— Você vai mesmo embora? — perguntou Monse, parada na porta.
— Eu preciso, Monse. Se eu ficar, o Cesar nunca vai conseguir seguir em frente. E eu... eu preciso descobrir quem eu sou sem o medo do Oscar e sem a necessidade de ser o anjo de todo mundo.
— O Jamal está arrasado — disse Monse, tentando sorrir. — Ele disse que encontrou uma nova teoria sobre um tesouro em Portland, só para tentar te convencer a ir para lá.
Lily sorriu tristemente.
— Digam a ele que eu vou sentir falta das loucuras dele. E cuidem do Rubi. Ele carrega segredos demais para alguém tão pequeno.
— E o Cesar? — Monse perguntou em voz baixa.
Lily parou de dobrar uma blusa e olhou para a janela.
— O Cesar precisa de tempo. Talvez um dia, quando o nome Diaz não for mais sinônimo de dor, a gente possa se reencontrar.
Ela fechou a mala e desceu as escadas. Ao sair de casa, encontrou Cesar parado na calçada. Ele parecia mais velho, as olheiras profundas marcando seu rosto jovem.
— Eu soube que você ia partir — disse ele.
— É o melhor para todos, Cesar.
Ele caminhou até ela e tirou algo do bolso. Era o pingente de pássaro.
— Isso pertence a você — disse ele, colocando o objeto na mão dela. — O Oscar o usou para te prender, mas agora... agora ele é só um pedaço de metal.
— Eu sinto muito, Cesar. Por tudo.
— Eu também, Lily. — Ele a olhou nos olhos, e por um breve momento, o anjo e o garoto que se amavam voltaram a existir. — Mas você estava certa sobre uma coisa. O passado não pode ser trancado para sempre. A gente só tem que aprender a viver com as cicatrizes que ele deixa.
Lily apertou o pingente na mão. Ela não sentia mais a dor do metal cortando sua pele. Ela sentia apenas o peso da liberdade.
— Adeus, Cesar.
— Adeus, Lily.
Ela caminhou em direção ao carro que a levaria para fora de Freeridge. Enquanto o veículo se afastava, ela olhou pelo vidro traseiro e viu Cesar diminuindo até se tornar apenas um ponto no horizonte.
O segredo de Lily fora revelado, o monstro fora enjaulado, e o anjo finalmente aprendera a voar para longe das sombras. Em Freeridge, as histórias raramente tinham finais felizes, mas para Lily, o fim de seu pesadelo era o começo de algo que ela nunca se permitira ter: uma página em branco.
O sol de Freeridge brilhava intensamente, mas desta vez, Lily não estava preocupada com as sombras. Ela estava olhando diretamente para a luz, pronta para queimar se fosse preciso, desde que fosse sob seus próprios termos. O passado batera à sua porta e ela o enfrentara. Agora, o futuro era a única coisa que importava, e ele cheirava a liberdade e, finalmente, a baunilha.