O monstro do passado
O Batismo das Sombras
A manhã em Freeridge nasceu com uma névoa densa, algo raro para o clima seco da Califórnia, como se o próprio bairro estivesse tentando esconder os pecados da noite anterior. Lily acordou com o som metálico de um helicóptero da polícia sobrevoando as redondezas, um lembrete constante de que o caos era o vizinho mais fiel daquela vizinhança. Ela se sentou na cama, sentindo o peso invisível do envelope que entregara no Benny. Cada fibra de seu ser gritava que ela havia cruzado uma linha sem volta.
Ao descer para a cozinha, o silêncio de sua casa era opressor. Seus pais já haviam saído para o trabalho, deixando apenas o cheiro de café requentado e a luz pálida que entrava pela janela. Lily serviu-se de uma xícara, mas suas mãos tremiam tanto que o líquido escuro transbordou, manchando a toalha branca.
— Droga... — sussurrou ela, pegando um pano para limpar a sujeira.
— Manchas são difíceis de tirar, não são, passarinho?
Lily deu um pulo, soltando a xícara, que se estilhaçou no chão de cerâmica. Oscar estava parado à porta da cozinha, encostado no batente com uma naturalidade aterrorizante. Ele vestia uma camisa de flanela aberta sobre a regata branca, e seus olhos pareciam ler cada pensamento de pânico que cruzava a mente dela.
— Como você entrou aqui? — perguntou Lily, a voz falhando enquanto ela se afastava em direção à pia.
— A janela dos fundos estava destrancada. Você deveria ser mais cuidadosa. Freeridge não é lugar para descuidos — disse Oscar, caminhando lentamente pela cozinha, desviando-se dos cacos de cerâmica com a graça de um predador.
— Sai da minha casa, Oscar. Agora. O Cesar pode chegar a qualquer momento.
— O Cesar está ocupado tentando entender por que a lanchonete do Benny virou uma cena de crime. Ele é um bom garoto, Lily. Preocupado com a comunidade. — Oscar parou a poucos centímetros dela, o cheiro de tabaco misturando-se ao aroma do café derramado. — Mas ele não sabe que a razão de o traidor ter sido pego foi a sua mãozinha delicada.
— Você me usou! — Lily explodiu, as lágrimas de frustração começando a surgir. — Você me fez entregar aquela carta sabendo o que ia acontecer. Você me tornou parte disso!
— Eu te tornei útil — corrigiu ele, sua voz baixando para um tom perigosamente suave. — Em Freeridge, você ou é o martelo ou é o prego. Ontem à noite, você foi o martelo. Como se sente?
Lily sentiu um nó na garganta. A verdade, a verdade horrível que ela não queria admitir, era que uma parte minúscula e sombria dela sentira uma descarga de adrenalina ao ver as viaturas no Benny. O poder de influenciar o destino de alguém, mesmo que de forma terrível, era inebriante. E Oscar sabia disso. Ele sempre soube.
— Eu me sinto doente — mentiu ela, desviando o olhar.
Oscar estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua natureza bruta, afastou uma mecha de cabelo loiro do rosto dela.
— O primeiro batismo é sempre o mais difícil. Mas veja pelo lado positivo: o Cesar está seguro. Por enquanto.
— Por quanto tempo, Oscar? Qual é o preço da sua paz?
— O preço é a sua companhia — disse ele, sorrindo de forma gélida. — Hoje temos um churrasco nos fundos da minha casa. Os Santos vão celebrar a limpeza da casa. Eu quero você lá. Ao meu lado.
— O Cesar vai achar estranho. Todo mundo vai achar estranho!
— Deixe que eles achem. O Cesar vai acreditar no que você disser a ele, porque ele te ama. E você vai dizer a ele que estamos tentando "nos dar bem" pelo bem da família. — Oscar virou-se para sair, mas parou no portal. — Use aquele vestido azul. Ele combina com a cor da sua alma hoje.
***
Mais tarde naquele dia, o sol de Freeridge batia impiedosamente sobre o asfalto. Lily caminhava em direção à casa dos Diaz, sentindo-se como se estivesse marchando para o próprio funeral. Ela usava o vestido azul, exatamente como Oscar ordenara. Ao chegar, o som de reggaeton alto e o cheiro de carne assada preenchiam o ar. Vários membros dos Santos estavam espalhados pelo quintal, alguns exibindo armas discretamente sob as camisas, outros rindo alto.
Cesar estava perto da churrasqueira, conversando com Jamal e Monse. Quando ele viu Lily, seu rosto se iluminou, mas logo a confusão tomou conta de sua expressão ao ver Oscar se aproximar dela imediatamente.
— Lily! — Cesar caminhou até ela, ignorando a presença do irmão. — Você veio. Achei que não estava se sentindo bem.
— Eu estou melhor, Cesar — disse Lily, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos azuis. — O seu irmão me convidou... ele disse que queria que todos estivéssemos juntos hoje.
Cesar franziu a testa, olhando de Lily para Oscar.
— O Oscar te convidou? Desde quando vocês são tão próximos?
— Não somos próximos, hermanito — interrompeu Oscar, colocando a mão no ombro de Lily. O peso daquela mão parecia uma tonelada para ela. — Eu só percebi que fui um pouco duro com a Lily desde que voltei. Quero consertar as coisas. Afinal, ela é praticamente da família, certo?
Monse, que observava a interação de longe com os braços cruzados, estreitou os olhos. Ela conhecia Lily desde que eram crianças e sabia que aquele sorriso era falso. Ela se aproximou, puxando Lily levemente pelo braço.
— Lily, pode me ajudar a pegar mais gelo na cozinha? — pediu Monse, seu tom não deixando espaço para recusas.
— Claro — respondeu Lily, sentindo um alívio momentâneo ao se libertar do toque de Oscar.
Dentro da cozinha, o barulho da festa era abafado. Monse fechou a porta e virou-se para a amiga, a expressão séria.
— O que está acontecendo, Lily? E não me venha com essa história de que o Oscar quer ser legal. Aquele homem não tem um osso de bondade no corpo.
— Eu não sei do que você está falando, Monse — Lily tentou desviar, mexendo nervosamente na alça do vestido.
— Você está tremendo! — Monse agarrou as mãos de Lily. — É o Oscar, não é? Ele está te ameaçando? É por causa do que aconteceu no Benny?
Lily sentiu o pânico subir. Se ela contasse a Monse, a notícia chegaria a Cesar em questão de minutos. E se Cesar soubesse...
— Monse, por favor, me escuta — sussurrou Lily, as lágrimas finalmente caindo. — Você não pode contar nada ao Cesar. Prometa para mim.
— O que ele fez com você, Lily?
— Ele... ele sabe de coisas. Coisas do passado. De quando eu tinha dez anos. Ele está me usando para chegar ao Cesar, ou para me punir, eu não sei! Mas se o Cesar tentar me defender, o Oscar vai matá-lo. Você viu como ele está agora. Ele não é mais o irmão que o Cesar conhecia.
Monse ficou em silêncio por um momento, processando a gravidade da situação.
— O Rubi sabe disso? — perguntou ela.
— O Rubi sabe de uma parte. Mas ele está aterrorizado demais para agir.
— Precisamos de um plano — disse Monse, sua voz ganhando uma determinação fria. — Se o Oscar está usando segredos contra você, precisamos descobrir os dele. E o Jamal... o Jamal pode ser útil com toda aquela loucura de investigação dele.
— Não envolva o Jamal nisso — implorou Lily. — Ele não consegue guardar um segredo para salvar a própria vida.
A porta da cozinha se abriu repentinamente, e Jamal entrou correndo, segurando um tablet.
— Vocês não vão acreditar! — exclamou ele, ofegante. — Eu rastreei a origem daquela carta que a polícia achou no Benny! Bem, não a carta em si, mas o papel! É um tipo específico de papel timbrado que só é vendido em uma papelaria perto da prisão onde o Oscar estava!
Lily sentiu o sangue sumir do rosto.
— Jamal, cala a boca! — sibilou Monse.
— Por que? É uma pista incrível! — continuou Jamal, sem perceber o clima. — Se o Oscar trouxe esse papel da prisão e alguém escreveu aquela denúncia, significa que ele planejou a queda do Benny meses atrás! Ele usou alguém aqui fora para entregar a carta. Alguém que a polícia não suspeitaria...
Jamal parou de falar, olhando para Lily. O silêncio na cozinha tornou-se ensurdecedor. O olhar de Jamal passou da confusão para a compreensão lenta e aterrorizada.
— Lily... foi você? — sussurrou ele.
Lily não respondeu. Ela apenas cobriu o rosto com as mãos, soluçando silenciosamente.
— Meu Deus — murmurou Jamal, deixando o tablet cair sobre a mesa. — Se o Cesar descobrir que você está trabalhando para o Spooky...
— Eu não estou trabalhando para ele! — gritou Lily, perdendo o controle. — Eu estou sendo escravizada por ele! Ele me tirou tudo, Jamal! Minha paz, minha segurança... e agora ele quer tirar o meu futuro com o Cesar!
Nesse momento, a porta se abriu novamente. Desta vez, era Cesar. Ele olhou para os três amigos, notando o estado deplorável de Lily e a tensão entre Monse e Jamal.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Cesar, sua voz carregada de suspeita. — Lily, por que você está chorando?
Lily olhou para Monse e Jamal, implorando com os olhos para que não dissessem nada. Monse abriu a boca para falar, mas foi interrompida por uma voz vinda de trás de Cesar.
— Ela só está emocionada, Cesar — disse Oscar, surgindo nas sombras do corredor. — Sabe como as mulheres são. Muita pressão, muita família... às vezes elas transbordam.
Cesar virou-se para o irmão, os olhos brilhando com uma raiva contida.
— Sai daqui, Oscar. Agora.
Oscar deu um passo à frente, ignorando a ordem. Ele olhou diretamente para Lily, um sorriso cruel brincando em seus lábios.
— Você contou a eles, passarinho? Contou sobre o nosso pequeno passeio ontem à noite? Sobre como você me ajudou a limpar a vizinhança?
Cesar congelou. Ele virou-se lentamente para Lily, o rosto pálido.
— Do que ele está falando, Lily? Que passeio?
Lily sentiu o chão sumir sob seus pés. O momento que ela tanto temera havia chegado. Oscar não esperaria que ela falhasse; ele mesmo lançaria a bomba apenas pelo prazer de ver o estrago.
— Cesar, eu... — começou Lily, mas as palavras ficaram presas em sua garganta.
— Ela foi uma boa menina, Cesar — continuou Oscar, sua voz destilando veneno. — Ela entregou a mensagem que colocou os policiais na porta do Benny. Ela é uma de nós agora. Uma verdadeira Santa de coração.
— Isso é mentira! — gritou Cesar, avançando contra Oscar.
Oscar foi mais rápido. Ele agarrou os pulsos de Cesar e o empurrou contra a parede com uma força brutal. Os Santos que estavam no quintal pararam o que estavam fazendo e olharam para a cozinha.
— Não é mentira, hermanito — sibilou Oscar no rosto de Cesar. — Pergunta para ela. Pergunta para o seu anjinho por que ela estava no beco da rua 4 às oito da noite. Pergunta por que ela tem um pingente de ouro escondido no quarto que eu dei para ela.
Cesar soltou-se do aperto de Oscar e olhou para Lily. A dor em seus olhos era pior do que qualquer ameaça que Oscar pudesse fazer.
— Lily? É verdade? — perguntou ele, a voz rouca.
Lily não conseguiu mentir. Não mais. O peso era grande demais.
— Ele me obrigou, Cesar! — gritou ela, caindo de joelhos no chão da cozinha. — Ele disse que mataria você! Ele tem segredos sobre mim, coisas de quando eu era pequena... eu tive tanto medo!
Cesar recuou, como se tivesse sido esbofeteado. Ele olhou para Oscar, que permanecia imóvel, saboreando a vitória.
— Você usou ela — disse Cesar, a voz tremendo de ódio. — Você usou a pessoa que eu mais amo para fazer o seu trabalho sujo.
— Eu usei o que estava disponível — respondeu Oscar com indiferença. — E agora você sabe a verdade. Ela não é perfeita, Cesar. Ninguém em Freeridge é. Ela é apenas mais uma peça do jogo. E se você quiser que ela continue segura, é melhor começar a agir como um homem e aceitar o seu lugar na família.
Oscar saiu da cozinha, deixando um rastro de silêncio mortal. Jamal e Monse aproximaram-se de Lily, tentando levantá-la, mas ela os afastou. Ela só conseguia olhar para Cesar.
Cesar não se aproximou. Ele ficou parado no meio da cozinha, o peito arfando, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Cesar, por favor... — implorou Lily.
— Eu não te conheço — disse ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — Eu achei que você era a única coisa pura nesta cidade. Mas você é igual a ele. Você escondeu isso de mim. Você deixou que ele entrasse na sua vida e não me disse nada.
— Eu fiz isso para te proteger!
— Você não me protegeu, Lily. Você me destruiu.
Cesar saiu da cozinha, passando pelos Santos no quintal sem olhar para ninguém. Ele caminhou em direção à rua, desaparecendo na névoa que ainda persistia.
Lily ficou no chão, cercada pelos cacos da xícara que quebrara mais cedo. Monse sentou-se ao lado dela, abraçando-a, enquanto Jamal permanecia em pé, olhando para a porta por onde Cesar saíra.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Jamal, sua voz pequena e assustada.
— Agora — disse Monse, olhando para a porta por onde Oscar saíra — nós paramos de fugir. O Oscar quer uma guerra? Ele vai ter uma. Mas não vai ser do jeito que ele espera.
Lily levantou o rosto, os olhos azuis agora endurecidos por uma determinação sombria. O anjo de Freeridge havia caído, mas no impacto com o chão, ela descobrira que o inferno não era um lugar de sofrimento eterno — era um lugar de forja.
— Ele acha que me possui — disse Lily, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Ele acha que eu sou o passarinho dele. Mas ele esqueceu de uma coisa sobre pássaros.
— O quê? — perguntou Jamal.
— Alguns pássaros são predadores — respondeu ela.
Naquela noite, Lily não voltou para casa. Ela foi até o beco da rua 4, onde tudo começara. Ela não estava lá para encontrar Oscar. Ela estava lá para encontrar o homem a quem entregara a carta. Ela sabia que, se Oscar tinha traidores dentro da gangue, ele também tinha inimigos fora dela. E se ela ia ser parte do jogo, ela ia jogar para ganhar.
O passado de Lily a trouxera até ali, mas o futuro seria escrito com o sangue dos segredos que ela estava prestes a revelar. Oscar Diaz achava que tinha feito da vida de Lily um inferno, mas ele estava prestes a descobrir que, quando você coloca um anjo no fogo, você não o destrói. Você apenas cria algo muito mais perigoso: um anjo caído com sede de vingança.
Enquanto isso, em um canto escuro de Freeridge, Cesar caminhava sem rumo, sentindo o pingente de ouro que encontrara jogado no lixo da cozinha. O pássaro de ouro brilhava sob a luz da lua, um símbolo de uma traição que ele não sabia se poderia perdoar. A guerra não era apenas entre gangues; era uma guerra pelas almas de Freeridge, e a primeira batalha acabara de ser vencida pelas sombras.