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O neguinho do Rio de janeiro

Sombras sob o Luxo

A transição entre o sonho e a realidade foi um choque frio, como se eu tivesse sido arrancada de um abraço quente e jogada em uma sala de mármore gelado. As últimas lembranças que eu tinha eram do calor de Lucas, do cheiro de pele e da segurança dos braços dele. Mas, ao abrir os olhos, o cenário era outro. O teto não era o do nosso apartamento novo. Era alto, adornado com molduras de gesso impecáveis.

Eu não estava em uma cama. Estava no colo de alguém.

Senti mãos firmes, mas de uma delicadeza diferente da de Lucas, segurando minha cintura. Olhei para cima e encontrei um par de olhos castanhos profundos me observando. O homem era jovem, devia ter a minha idade, dezoito ou dezenove anos. Tinha a pele clara, cabelos pretos cortados com perfeição e traços que pareciam esculpidos. Ele era inegavelmente bonito, mas havia uma frieza no seu olhar que eu nunca vira em Lucas.

— Finalmente acordou, gatinha — disse ele, a voz suave, mas carregada de uma autoridade implícita.

Tentei me situar, minha mente ainda nublada. Onde estava o Lucas? O que tinha acontecido? Mas, antes que eu pudesse formular uma pergunta, o homem passou a mão pelos meus cabelos, acariciando os fios com uma possessividade tranquila.

— Meu nome é Erick — ele continuou, como se estivesse lendo meus pensamentos. — E de agora em diante, as coisas vão ser um pouco diferentes. Você vai me obedecer em tudo, sem perguntas. Entendido?

Um calafrio percorreu minha espinha. A lógica dizia para eu gritar, lutar, exigir saber onde estava o homem que eu amava. Mas havia algo na atmosfera daquele lugar, uma espécie de torpor hipnótico, que me fez apenas anuir com a cabeça. Eu me sentia estranhamente dócil, como se minha vontade tivesse sido drenada durante o sono.

— Boa menina — murmurou Erick, dando um leve tapinha na minha coxa. — Agora, levante-se. Vá até aquela penteadeira e faça uma maquiagem. Quero você impecável.

Eu me levantei. Meus movimentos eram lentos, quase mecânicos. Caminhei até a penteadeira luxuosa repleta de produtos de marcas que eu conhecia bem do meu tempo de "riquinha" na casa do meu pai. Enquanto passava o pincel pelo rosto, destacando meus olhos azuis e a palidez da minha pele, eu o via pelo reflexo do espelho. Ele me observava com um sorriso satisfeito, como um colecionador admirando uma obra de arte recém-adquirida.

Depois que terminei, ele se aproximou com um conjunto de lingeries de renda preta e seda, algo que custaria o salário de meses da loja onde eu trabalhava.

— Vista isso — ordenou ele.

Eu me despi e vesti as peças sob o olhar dele. A lingerie realçava tudo: o volume dos meus seios, a curva do meu quadril e as pernas longas. Erick deu a volta ao meu redor, avaliando cada ângulo.

— Suas poses são naturais, você tem um talento nato para ser admirada — comentou ele, passando o polegar pelo meu lábio inferior. — Agora, venha comigo. Preciso que você me ajude com o restante da coleção.

Ele caminhou até uma porta dupla de madeira escura no fundo do quarto e a abriu. O que vi lá dentro me tirou o fôlego, mas, novamente, a reação de choque foi abafada por aquela obediência estranha que me dominava. Era um salão amplo, aquecido, onde várias mulheres estavam em diferentes estados de repouso. Todas eram belíssimas, todas estavam nuas, e todas pareciam estar em um estado de transe profundo, como se estivessem dormindo um sono induzido.

— Escolha aquela ali — Erick apontou para uma mulher de traços delicados, pele bronzeada e cabelos longos e escuros que descansava em um divã de veludo.

Aproximei-me dela. Ela era linda, parecia uma boneca de porcelana. Sem que Erick precisasse dizer nada, eu a peguei no colo. Ela era leve, e seu corpo estava relaxado, quente.

— Agora, coloque-a no chão, mas fique por trás dela — instruiu Erick, pegando uma câmera profissional que estava sobre uma mesa lateral. — Quero uma composição de contrastes. A pele dela contra a sua. Empine a bunda, gatinha. Mostre o que você tem.

Eu obedeci. Coloquei a mulher entre minhas pernas, abrindo-as levemente para que ela ficasse encaixada em mim. Inclinei meu tronco para frente, empinando minha bunda conforme ele pedia, sentindo a renda da lingerie esticar contra minha pele. O clique da câmera ecoava no silêncio do salão.

— Perfeito — disse Erick, os olhos brilhando atrás da lente. — Agora, beije-a. Quero ver o desejo despertando nela através de você.

Inclinei o rosto e toquei os lábios da mulher. A boca dela era macia, doce, e tinha um gosto que lembrava baunilha. No momento em que nossas línguas se tocaram, senti um estalo de eletricidade. Ela soltou um suspiro baixo, e seus dedos começaram a se mover, buscando apoio nos meus braços.

— Isso... — Erick sussurrou, aproximando-se para capturar o detalhe do beijo. — Está perfeito. Você é uma mestre nisso.

Ele me entregou um pequeno objeto, um plug de cristal lapidado.

— Coloque nela. E depois, cuide dela. Ela vai acordar logo.

Fiz o que foi pedido com uma delicadeza que eu não sabia que possuía. A mulher começou a despertar nos meus braços enquanto eu a acomodava novamente no meu colo, sentada entre minhas pernas, com a cabeça apoiada no meu peito. Eu comecei a acariciar seus cabelos, limpando o suor frio de sua testa.

Quando os olhos dela finalmente se abriram, eles não focaram em Erick, nem no salão luxuoso. Eles focaram em mim. Eram olhos grandes, castanhos e marejados. Ela parecia estar vendo um anjo.

— Mamãe... — sussurrou ela, a voz frágil e embargada.

O choque daquela palavra me atingiu, mas meu corpo respondeu instintivamente. Eu a apertei mais contra mim. Ela se aninhou, buscando o calor da minha pele, e suas mãos pequenas tatearam meu corpo até encontrarem o sutiã de renda. Com uma urgência quase infantil, ela se moveu, buscando o mamilo através do tecido.

— Ela está hipnotizada por você — observou Erick, guardando a câmera. — Você tem o dom, branquinha. Ela não vai te deixar em paz agora.

E ele tinha razão. A mulher, que parecia ter a minha idade mas agia como se tivesse voltado à infância, não desgrudava de mim. Ela mamava com uma sede desesperada, as mãos apertando meus seios enquanto soltava pequenos sons de satisfação. Era uma inversão bizarra de tudo o que eu tinha vivido com Lucas, mas, ao mesmo tempo, havia uma conexão estranha ali.

— Você é minha mamãe agora — ela disse, soltando o seio por um momento para olhar para mim com uma devoção absoluta. — Não me deixa, por favor.

— Eu não vou a lugar nenhum — respondi, e minha própria voz soou estranha para mim, como se eu estivesse aceitando aquele novo papel em um teatro de sombras.

Erick observava a cena com um prazer clínico.

— Vocês formam uma imagem linda. O sustento e a dependência. Vou deixá-las sozinhas por um tempo. Cuide bem da sua "filha", gatinha. Se ela estiver feliz, você terá tudo o que quiser aqui.

Ele saiu, trancando a porta dupla atrás de si. Fiquei ali, naquele salão cheio de mulheres adormecidas, com uma desconhecida pendurada no meu peito, chamando-me de mãe.

A imagem de Lucas Ferreira, com seu sotaque carioca, seus cachos e seu amor bruto, pareceu vacilar na minha mente por um segundo, como uma fotografia antiga sendo queimada. Mas, no fundo do meu coração, uma parte de mim ainda gritava. Eu era a branquinha do Lucas, a riquinha que ele tinha salvado da solidão. Como eu tinha ido parar ali?

A mulher no meu colo soltou um suspiro satisfeito e fechou os olhos, adormecendo novamente enquanto segurava minha mão com força. Eu continuei ali, imóvel, cumprindo o papel que Erick me impusera, enquanto o silêncio do salão era preenchido apenas pela respiração rítmica das mulheres cativas.

— O que você fez conosco, Erick? — sussurrei para o vazio, mas a única resposta foi o peso reconfortante e ao mesmo tempo aterrorizante daquela mulher nos meus braços.

Eu sabia que precisava entender onde estava e como sair dali, mas cada vez que eu olhava para a criatura em meu colo, a vontade de lutar diminuía. Era como se aquele lugar estivesse me transformando, me moldando para ser exatamente o que Erick queria: uma provedora, uma imagem, uma mãe para aquelas que tinham perdido tudo.

Passei a mão pelo rosto dela, sentindo a pele macia. Eu era alta, era bonita, tinha olhos azuis que encantavam a todos, mas ali, eu era apenas uma peça de um jogo muito maior. E, enquanto o leite que Lucas tanto amava agora servia para acalmar uma estranha hipnotizada, eu sentia que a "branquinha" que saiu do Rio de Janeiro estava morrendo para dar lugar a algo muito mais sombrio.

— Dorme, pequena — murmurei, sentindo uma lágrima solitária escorrer e cair sobre o ombro da mulher. — A mamãe está aqui.

As horas passaram sem que eu percebesse. Naquele mundo sem janelas, o tempo era ditado apenas pelas ordens de Erick e pelas necessidades daquela mulher que não me deixava. Eu comecei a observar as outras ao redor. Todas tinham a mesma expressão de paz forçada. O que aconteceria quando o efeito do que quer que Erick estivesse usando passasse? Ou será que ele nunca deixava passar?

Senti um movimento na porta. Erick voltou, mas desta vez não estava sozinho. Ele trazia consigo um tablet, onde mostrava fotos minhas e da mulher.

— Veja — disse ele, sentando-se ao meu lado no divã. — O mundo lá fora vai pagar fortunas para ver essa pureza distorcida. Você é a minha obra-prima, gatinha. O modo como você a acolheu... foi mais real do que eu poderia ter planejado.

— Onde está o Lucas? — a pergunta finalmente saiu, rasgando a névoa da minha mente.

O rosto de Erick escureceu por um breve momento, mas logo o sorriso frio voltou.

— Lucas Ferreira? O dono do morro? — ele riu, um som desprovido de humor. — Ele é passado, meu bem. Homens como ele pertencem ao asfalto e ao sangue. Você pertence ao luxo e à arte. Esqueça o carioca. Ele não vai te encontrar aqui. Ninguém encontra o que eu decido esconder.

Ele se levantou e puxou meu queixo, forçando-me a olhá-lo.

— Agora, continue o seu trabalho. Quero que você limpe e prepare as outras. Você é a matrona deste lugar agora. Obedeça, e ninguém se machuca.

Ele saiu novamente. Olhei para a mulher no meu colo, que agora sorria em seu sono, e depois para as outras mulheres no salão. Eu tinha sido a riquinha protegida pelo pai, depois a gatinha amada pelo dono do morro. Agora, eu era a rainha de um harém de sombras.

Respirei fundo, sentindo o cheiro de baunilha e o calor do corpo dependente de mim. Se eu quisesse sobreviver e, quem sabe, encontrar o caminho de volta para os braços de Lucas, eu teria que jogar o jogo de Erick. Eu seria a mamãe, a modelo, a obediente. Até que a oportunidade surgisse.

— Eu vou te tirar daqui, meu preto — sussurrei para o nada, gravando a imagem de Lucas Ferreira na parte mais profunda da minha alma, onde nem Erick, nem a hipnose, poderiam tocar. — Custe o que custar.

Mas, por enquanto, eu apenas apertei a mulher contra meus seios e continuei a acariciar seus cabelos, esperando pelo próximo clique da câmera, pela próxima ordem, pela próxima dose de uma realidade que eu nunca pedi para viver.