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O que é meu

O Rastro da Outra e o Alento da Purificação

A névoa de Sleepy Hollow não era apenas um fenômeno meteorológico; era um ser vivo, uma entidade que se infiltrava pelas frestas das janelas e se enrolava nos pés dos habitantes como um gato fantasmagórico. Mas, para Katrina Van Tassel, naquela tarde de quinta-feira, o ar dentro da mansão parecia mais pesado do que o nevoeiro lá fora. O silêncio da casa era cortado apenas pelo tique-taque do relógio de pêndulo no corredor, um som que ecoava como batidas de um coração metálico e ansioso.

Ichabod Crane havia retornado de uma diligência no vilarejo. Ele passara a tarde na pequena estalagem, colhendo depoimentos sobre um desaparecimento recente, e entrara na mansão com sua habitual agitação nervosa, os cabelos negros grudados na testa pela umidade e a respiração curta. Ele mal teve tempo de cumprimentar Katrina antes de se retirar para a biblioteca, deixando seu pesado casaco de lã preta pendurado no cabideiro de carvalho na entrada.

Katrina aproximou-se do móvel com a leveza de uma sombra. Seus olhos castanhos, que ultimamente carregavam uma profundidade melancólica e vigilante, fixaram-se na peça de roupa. Ela não sabia ao certo o que procurava, mas seu instinto — aquela percepção aguçada que herdara de linhagens que lidavam com o invisível — gritava que algo estava errado.

Ela estendeu a mão e tocou o ombro do casaco. O tecido estava frio e úmido. Então, ela sentiu.

Não foi um som, nem uma marca visual. Foi um aroma.

Um rastro doce, floral e invasivo. Não era o perfume de lírios brancos que ela aprendera a odiar em Lady Elizabeth — aquela ameaça já fora devidamente neutralizada. Este era diferente: lavanda selvagem e âmbar, um perfume que falava de salões de chá e de mãos femininas que não conheciam o trabalho da terra. Era o perfume de uma das filhas do tabelião, ou talvez da jovem viúva do ferreiro, mulheres que gravitavam ao redor de Ichabod durante suas investigações, fascinadas por sua aura de mistério intelectual e fragilidade gótica.

Uma onda de calor gélido percorreu a espinha de Katrina. Alguém havia chegado perto demais. Alguém havia tocado aquele casaco, ou talvez Ichabod tivesse se inclinado para ouvir um sussurro, permitindo que a essência da outra se transferisse para as fibras da lã que ela mesma havia marcado com seu sangue e sua seda.

— O cheiro da intrusa — sussurrou ela, as narinas dilatando-se levemente.

Ela não gritou. Não correu para a biblioteca para exigir explicações de um Ichabod que, certamente, nem sequer percebera a contaminação. Sua reação foi de uma calma aterrorizante. Ela retirou o casaco do cabideiro com movimentos lentos e deliberados, segurando-o como se fosse um animal ferido que precisasse ser curado — ou um cadáver que precisasse ser purificado.

Katrina levou a peça para os fundos da mansão, para a lavanderia de pedra onde grandes caldeirões de cobre repousavam. O pessoal da casa já havia se retirado para suas acomodações, deixando-a sozinha com sua tarefa sagrada.

Ela acendeu o fogo sob o caldeirão menor. Enquanto a água começava a aquecer, ela preparou uma infusão de ervas que conhecia bem: alecrim para a proteção, verbena para banir influências externas e pétalas de rosas brancas para restaurar a pureza do que era seu. Ela não usaria sabão comum. Aquela era uma lavagem de alma.

— O que não pertence a este corpo deve ser removido — murmurou ela, mergulhando as mãos na água morna.

Ela mergulhou o casaco. O peso da lã molhada exigia força, mas Katrina trabalhava com uma energia febril. Ela esfregava o tecido contra a tábua de madeira, concentrando-se nos ombros e na gola, onde o perfume alheio era mais forte. Seus nós dos dedos ficaram vermelhos pelo esforço e pela temperatura da água, mas ela não sentia dor. Cada movimento era um ato de expulsão. Ela estava lavando a presença da outra mulher, apagando o rastro de qualquer conversa, de qualquer olhar, de qualquer toque casual que pudesse ter ocorrido nas ruas lamacentas de Sleepy Hollow.

Quando terminou, ela enxaguou o casaco três vezes em água fria de poço, até que o aroma de lavanda e âmbar fosse substituído pelo cheiro limpo e herbáceo de sua própria cozinha de feitiços.

Ela levou a peça para perto da lareira da cozinha, estendendo-a com cuidado para que secasse antes do amanhecer. Enquanto as chamas dançavam, refletindo-se em seus olhos escuros, Katrina sentiu a tensão em seus ombros diminuir. O território estava limpo.

Horas depois, quando a mansão estava mergulhada no breu mais profundo, Katrina subiu as escadas. Ela entrou no quarto de Ichabod sem bater. A porta nunca era trancada para ela.

Ichabod estava dormindo, ou pelo menos tentando. Ele se revirava entre os lençóis, sua mente provavelmente povoada por pesadelos de cavaleiros sem cabeça e equações sem solução. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas, desenhando linhas prateadas em seu rosto pálido e suado.

Katrina aproximou-se da cama. Ela trazia consigo uma das camisas de linho limpas de Ichabod, que ela também passara e perfumara com sua essência pessoal. Com uma suavidade que beirava o sobrenatural, ela sentou-se na beirada do colchão.

Ichabod despertou com um sobressalto, seus olhos grandes e escuros focando nela com uma mistura de susto e alívio.

— Katrina? — Sua voz era um sussurro rouco. — Aconteceu algo? O Cavaleiro...?

— Shhh — ela colocou um dedo sobre os lábios dele, a ponta fria de sua pele encontrando o calor da dele. — Apenas sonhos ruins, Ichabod. Eu trouxe roupas secas para você. Suas vestes estavam... pesadas com a umidade da rua.

— Eu não percebi... — ele gaguejou, sentando-se e passando a mão pelos cabelos desalinhados. — Você não deveria se dar a esse trabalho a esta hora da noite.

— Não é trabalho cuidar do que é meu — disse ela, ajudando-o a se desvencilhar da camisa de dormir que ele usava.

Ichabod, em sua timidez intrínseca, permitiu que ela fizesse a troca. Ele confiava nela de uma forma que o assustava. Sob as mãos de Katrina, ele não era o investigador cético de Nova York; ele era apenas um homem que precisava de abrigo.

Depois que ele vestiu a camisa limpa, Katrina não se retirou. Ela se inclinou para frente e envolveu-o em um abraço apertado, enterrando o rosto na curva do pescoço dele. Ela inspirou profundamente. Ali, agora, só havia o cheiro de Ichabod e o rastro das ervas que ela mesma escolhera. O perfume da outra mulher fora erradicado.

— Você está tremendo, Katrina — observou Ichabod, hesitante, antes de retribuir o abraço, suas mãos longas espalmando-se nas costas dela.

— Eu tive medo — mentiu ela suavemente, embora fosse uma meia-verdade. O medo não era do sobrenatural, mas da perda. — Medo de que você se perdesse na névoa. De que algo se agarrasse a você e você não soubesse como se livrar.

Ichabod apertou-a mais contra si.

— Nada pode me levar de você — disse ele, a voz vibrando contra o peito dela. — Eu carrego seu nome costurado em meu peito, lembra-se? Sinto os pontos toda vez que meu coração bate.

— Prometa-me — disse ela, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, a face iluminada pela lua parecendo uma máscara de mármore antigo. — Prometa que, se alguém se aproximar demais, se alguém tentar deixar uma marca em você, você voltará para mim para ser limpo.

Ichabod franziu a testa, confuso com a escolha das palavras, mas a intensidade no olhar de Katrina não permitia questionamentos. Ele via ali uma ferocidade que o fascinava e o aterrorizava em medidas iguais. Era o amor de uma mulher que não aceitava metades.

— Eu prometo — respondeu ele, hipnotizado.

Katrina sorriu, e o brilho em seus olhos era o de uma caçadora que acabara de garantir sua presa. Ela deitou-se ao lado dele, ainda vestida, por cima das cobertas.

— Durma agora, Ichabod. Eu ficarei aqui.

— Você não vai descansar? — perguntou ele, já sentindo o peso do sono retornar, embalado pelo cheiro de alecrim e pela presença sólida dela.

— Eu já descansei — disse ela, observando-o fechar os olhos. — Meu trabalho está feito por hoje.

Enquanto Ichabod mergulhava em um sono finalmente sem sonhos, Katrina permaneceu acordada, vigiando-o. Ela pensou na mulher da taverna, ou quem quer que fosse a dona do perfume de lavanda. Ela não sentia ódio, apenas uma superioridade fria. Aquela mulher tinha apenas um rastro de cheiro; Katrina tinha o homem, o sangue, a seda e a alma.

Na manhã seguinte, Ichabod vestiu seu casaco. Ele o encontrou perfeitamente seco e estranhamente mais leve ao lado da lareira. Ao colocá-lo, ele sentiu um frescor revigorante.

— Este casaco parece novo — comentou ele durante o desjejum, enquanto Katrina servia o chá com uma elegância impecável.

— Eu apenas removi o que estava pesando nele — respondeu ela, sorrindo para a xícara. — Algumas coisas se acumulam com o tempo sem que percebamos. Poeira, umidade... lembranças indesejadas.

Ichabod assentiu, aceitando a explicação racional, como sempre fazia. Ele não percebeu que, ao longo do dia, toda vez que passava por uma mulher no vilarejo, ele inconscientemente se afastava, mantendo uma distância de segurança. Não era um medo consciente, mas um reflexo condicionado pelo abraço da noite anterior e pela purificação que Katrina realizara.

Mais tarde, Katrina caminhava pelo jardim da mansão, observando as últimas folhas de outono caírem. Ela parou diante de um pequeno arbusto de lavanda selvagem que crescia perto do muro. Com um movimento rápido e impiedoso, ela arrancou a planta pelas raízes.

— Aqui não — disse ela para o nada, sua voz carregada por uma autoridade que parecia fazer a própria névoa recuar.

Ela levou a lavanda arrancada para a estufa de plantas venenosas que sua mãe mantivera em segredo. Lá, ela a queimou em um pequeno braseiro. A fumaça subiu, escura e acre, dissipando-se no teto de vidro.

— O que é meu é absoluto — declarou Katrina.

Ela voltou para dentro da casa, pronta para receber Ichabod quando ele retornasse. Ela sabia que ele voltaria. Ele sempre voltaria. Porque, em todo o vilarejo de Sleepy Hollow, em todo o mundo vasto e racional que ele tanto tentava compreender, não havia lugar onde ele estivesse mais seguro, ou mais preso, do que nos braços da mulher que lavava seus pecados e suas camisas com a mesma devoção sombria.

O ciúme de Katrina não era mais uma tempestade; era o oceano profundo e calmo que sustentava o navio de Ichabod. Ele poderia navegar por onde quisesse, mas sempre sobre as águas dela. E se qualquer outra mulher tentasse lançar uma âncora naquele mar, Katrina Van Tassel garantiria que ela fosse cortada antes mesmo de tocar o fundo.

Naquela noite, o perfume de alecrim reinava absoluto na mansão, e o rastro da outra mulher não passava de uma cinza esquecida no fundo de um braseiro. Katrina sentou-se à janela, observando o caminho da estrada. Ela viu a silhueta de Ichabod surgindo na distância, um ponto preto contra o cinza da névoa.

Ela sorriu. Ele estava voltando para casa. Ele estava voltando para ela. E, desta vez, ela não precisaria cheirar seu casaco. Ela sabia, pelo modo como ele caminhava, que ele agora carregava sua marca não apenas na seda, mas em cada fibra de seu ser purificado.