Voltar ao resumo

O que é meu

O Sangue e a Rosa de Ébano

A névoa de Sleepy Hollow, outrora apenas um véu de mistério e segredos rurais, parecia ter adquirido uma nova textura: algo denso, frio e com um leve traço metálico que lembrava o cheiro de moedas velhas ou de uma ferida aberta. Katrina Van Tassel sentia essa mudança em seus ossos. Ela, que sempre fora a guardiã das sombras da mansão, percebeu que uma escuridão muito mais antiga e faminta do que o Cavaleiro sem Cabeça havia lançado seus olhos sobre o que lhe pertencia.

Ichabod Crane estava mudando. Nos últimos três dias, o detetive apresentava uma palidez que transcendia sua habitual aparência de "morto-vivo" intelectual. Seus olhos grandes e escuros estavam fundos, cercados por olheiras purpúreas, e ele parecia lutar para manter a consciência durante as refeições.

— Ichabod, você mal tocou em seu cozido — observou Katrina, sua voz soando como um sino de advertência na sala de jantar silenciosa.

— Peço perdão, Katrina — disse ele, a voz saindo fraca, quase um sussurro. — Meus sonhos têm sido... exaustivos. Sinto como se estivesse caminhando por léguas de veludo vermelho todas as noites, sem nunca chegar ao fim do corredor.

Ele levou a mão ao pescoço, ajeitando o lenço com um tique nervoso. Katrina notou que ele evitava olhar para o espelho da sala. O ciúme dela, que antes era focado em mulheres de carne e osso, transformou-se em algo mais aguçado: um instinto de defesa contra o sobrenatural.

Naquela noite, Katrina não dormiu. Ela se sentou em sua poltrona, envolta em uma capa de lã pesada, e esperou. Por volta da meia-noite, um vento antinatural uivou contra as paredes da mansão, e o aroma de lírios e alecrim que Katrina tanto cultivava foi subitamente sufocado por um cheiro de terra úmida e flores em decomposição.

Ela caminhou até o quarto de Ichabod. A porta estava entreaberta. Ao entrar, Katrina sentiu o frio de uma cripta. Ichabod estava deitado, mas seu sono não era de descanso; ele gemia baixinho, a cabeça movendo-se de um lado para o outro. Sobre o seu travesseiro, repousava uma rosa de pétalas tão escuras que pareciam feitas de noite sólida. Uma rosa negra.

E, parada ao lado da cama, estava ela.

A figura era alta, envolta em trajes de uma era que Sleepy Hollow há muito havia esquecido — sedas pesadas, rendas que pareciam teias de aranha e joias de ônix. Sua pele não era apenas pálida; era translúcida como o mármore sob o luar. Ela não tinha o calor de uma mulher, mas possuía uma beleza predatória que fazia o coração de Katrina disparar de fúria.

A estranha inclinou-se sobre Ichabod, seus dedos longos e de unhas afiadas acariciando a mandíbula dele com uma ternura obscena.

— Saia de perto dele — sibilou Katrina, sua voz cortando o ar como uma lâmina.

A criatura virou-se lentamente. Seus olhos não tinham íris ou pupilas discerníveis, eram apenas poços de um vermelho profundo e antigo. Ela sorriu, revelando dentes que eram finos demais para serem humanos.

— A pequena mortal — disse a vampira, sua voz soando como o roçar de folhas secas em um túmulo. — Você guarda este tesouro com tanta garra, mas ele é feito de carne, e a carne apodrece. Eu ofereço a ele a eternidade do mármore.

— Ele não quer sua eternidade fria — respondeu Katrina, dando um passo à frente, sem recuar diante da aura de morte que emanava da intrusa. — Ele é um homem de razão e de vida. Ele me pertence.

A vampira soltou uma risada gélida, um som que fez as velas do quarto se apagarem instantaneamente, deixando apenas o brilho azulado da lua.

— Você fala de posse como se o tempo fosse seu aliado. Eu vi impérios caírem enquanto este homem ainda era um pensamento no úbere do destino. Ele tem uma alma sensível, Katrina Van Tassel. Uma alma que clama pela escuridão que eu sou.

— Você o está drenando — acusou Katrina, apontando para a palidez de Ichabod. — Você o observa enquanto ele dorme e rouba o sopro de vida dele.

— Eu o preparo — corrigiu a criatura, voltando a olhar para Ichabod com uma fome devocional. — Cada sonho que planto em sua mente é um passo para longe de você e para perto de mim. As rosas negras são o sinal. Quando a sétima rosa for deixada, ele não acordará mais para este mundo de lama e névoa. Ele acordará no meu.

Com um movimento fluido e impossível de acompanhar, a vampira desapareceu, deixando para trás apenas a rosa negra e um frio que parecia ter congelado o próprio tempo.

Katrina correu para o lado de Ichabod. Ela pegou a rosa negra e, com uma expressão de nojo, esmagou-a entre os dedos. Um líquido espesso e escuro, semelhante ao sangue coagulado, escorreu por sua palma. Ela limpou a mão no lençol e segurou o rosto de Ichabod.

— Acorde, Ichabod! — ela implorou, sacudindo-o levemente. — Volte para mim!

Ele abriu os olhos, mas eles estavam nublados, como se ele ainda estivesse perdido no corredor de veludo vermelho.

— Ela... ela tem olhos de rubi, Katrina — murmurou ele, a voz distante. — Ela diz que a ciência é apenas uma brincadeira de crianças diante do Grande Silêncio.

— Ela mente, Ichabod! — Katrina encostou a testa na dele, transmitindo seu calor. — Ela é um parasita da noite. Você não deve ouvi-la.

Katrina percebeu naquele instante que o ciúme que sentira de Lady Elizabeth era uma brincadeira de criança. Aquilo era uma guerra pela alma do homem que amava. A vampira não queria apenas o afeto de Ichabod; ela queria transformá-lo em uma estátua de gelo em seu jardim eterno.

Nos dias seguintes, Katrina transformou a mansão em uma fortaleza. Ela espalhou sal grosso pelas soleiras, pendurou ramos de verbena e alho nos cantos mais escuros e, o mais importante, começou a usar seus próprios conhecimentos ocultos. Ela preparou uma infusão de ervas amargas e ferro, forçando Ichabod a bebê-la todas as noites.

— Isso tem um gosto... metálico, Katrina — queixou-se ele, franzindo o nariz.

— É para fortalecer seu sangue, meu querido — disse ela, observando-o com uma intensidade que o deixava inquieto. — O sangue é a vida, e você precisa manter a sua.

Mas a vampira era persistente. Ela não tentava mais entrar fisicamente na casa; ela agora atacava através dos espelhos.

Certa tarde, enquanto Ichabod se barbeava, ele congelou. No reflexo, ele não viu a si mesmo, nem o quarto atrás dele. Ele viu uma floresta de árvores mortas e a mulher de seda negra estendendo a mão para ele de dentro do vidro.

— Venha, Ichabod — a voz dela ecoou dentro de sua cabeça. — O mundo dos vivos é barulhento e cruel. Comigo, haverá apenas o silêncio e o estudo das estrelas que nunca morrem.

Ichabod deixou a navalha cair. A lâmina cortou seu pé levemente, e uma gota de sangue caiu no chão de madeira. No espelho, a vampira sibilou, seus olhos brilhando com uma ganância insuportável.

Katrina entrou no quarto no exato momento em que Ichabod estendia a mão para o vidro, como se estivesse hipnotizado.

— Não! — gritou ela.

Ela pegou um pesado castiçal de bronze e o lançou contra o espelho. O vidro estilhaçou-se em mil pedaços, quebrando a conexão. Ichabod caiu de joelhos, ofegante, como se tivesse acabado de emergir de uma submersão profunda.

— Ela estava lá — disse ele, tremendo. — Ela é tão... triste, Katrina. Sinto a solidão dela como se fosse a minha.

Katrina ajoelhou-se ao lado dele, limpando o sangue de seu pé com um pedaço de sua própria saia.

— A solidão dela é um abismo, Ichabod. Se você cair nele, não haverá volta. Ela não o ama; ela quer possuí-lo como um livro raro em uma prateleira empoeirada.

— E você? — perguntou ele, olhando-a nos olhos. — Você também não quer me possuir?

Katrina hesitou por um segundo. A pergunta cortou sua alma.

— Sim — admitiu ela, sua voz vibrando com uma honestidade feroz. — Mas eu quero você vivo. Quero o calor do seu sangue, o tremor das suas mãos nervosas e a luz do sol refletida nos seus olhos. Ela quer a sua morte. Eu quero a sua vida, com todas as suas imperfeições.

Na sétima noite, a atmosfera em Sleepy Hollow tornou-se insuportável. A névoa subiu até as janelas do segundo andar, e o silêncio era tão absoluto que Ichabod podia ouvir o próprio coração batendo — um som que parecia atrair a predadora como um tambor na noite.

Katrina sabia que o confronto final era inevitável. Ela enviou Ichabod para o centro de um círculo de proteção feito de cinzas de carvalho e sal, e sentou-se diante dele, segurando uma adaga de prata que pertencera à sua mãe.

A vampira não entrou pela porta. Ela simplesmente se materializou das sombras no canto do quarto, como se a própria escuridão tivesse ganhado forma. Ela carregava a sétima rosa negra.

— O tempo acabou, pequena bruxa — disse a criatura, caminhando em direção ao círculo. — O sangue dele clama por mim. Sinto o cheiro do ferro que você deu a ele... só o torna mais apetitoso.

A vampira tentou atravessar a linha de cinzas, mas uma faísca azulada saltou do chão, queimando a bainha de seu vestido de seda. Ela sibilou, o rosto transformando-se em uma máscara de fúria demoníaca.

— Você ousa? — rosnou ela. — Eu sou a Rainha das Sombras, a noiva do esquecimento!

— E eu sou Katrina Van Tassel — respondeu ela, levantando-se. — E este homem está sob minha proteção. Você não o levará enquanto houver uma gota de sangue quente em minhas veias.

— Então eu levarei as suas primeiro! — a vampira saltou, sua velocidade desafiando a visão humana.

Katrina não recuou. Ela sabia que não podia vencer a criatura em força física, então usou o que tinha: a vontade absoluta de possessão. No momento em que a vampira a alcançou, Katrina não usou a adaga para golpear a criatura. Ela cortou o próprio pulso e jogou o sangue sobre a invasora.

O sangue de Katrina, infundido com as ervas de proteção e a intenção pura de seu amor obsessivo, agiu como ácido sobre a pele da vampira. A criatura gritou, um som agudo que quebrou as janelas do quarto.

— Meu sangue é fogo para você! — gritou Katrina. — Porque ele está vivo! Ele arde com o desejo de proteger o que é meu! Saia desta casa, saia desta cidade, ou eu queimarei cada sombra onde você tentar se esconder!

A vampira recuou, sua pele translúcida agora marcada por queimaduras negras onde o sangue de Katrina a tocara. Ela olhou para Ichabod, que observava a cena com horror e fascinação, e depois para Katrina. Pela primeira vez em séculos, a imortal sentiu medo. Não da magia, mas da ferocidade de uma mulher humana que amava com a intensidade de um inferno.

— Ele será sua maldição, mortal — sibilou a vampira, começando a se dissolver em névoa. — Você o guardará até que ele envelheça e murche, e então você sentirá o vazio que eu sinto.

— Eu prefiro um momento de sua velhice do que uma eternidade do seu nada — respondeu Katrina.

Com um último uivo de vento, a vampira desapareceu. A sétima rosa negra, que caíra no chão, murchou instantaneamente, transformando-se em cinzas cinzentas.

O silêncio retornou à mansão, mas era um silêncio diferente — mais leve, como se um peso tivesse sido removido das vigas do teto.

Ichabod saiu do círculo, suas pernas tremendo. Ele caminhou até Katrina e pegou o pulso dela, que ainda sangrava levemente. Ele usou seu lenço — aquele com as iniciais dela — para estancar o ferimento.

— Você... você se feriu por mim — disse ele, sua voz carregada de uma emoção profunda. — Você enfrentou aquela... coisa.

— Eu faria de novo — disse ela, olhando-o com uma possessividade que não se desculpava. — Eu mataria deuses e demônios para garantir que você permaneça ao meu lado, Ichabod Crane.

Ichabod olhou para as cinzas da rosa no chão e depois para a mulher à sua frente. Ele percebeu que Katrina era, à sua maneira, tão perigosa quanto a vampira. Mas enquanto a vampira queria sua morte, Katrina queria sua vida inteira, cada pensamento, cada batida do coração, cada fôlego.

E, para o homem que sempre se sentira descartável, aquela obsessão era o seu maior conforto.

— Eu não sou digno de tal... devoção — sussurrou ele, inclinando a cabeça no ombro dela.

— Você é tudo o que eu tenho — respondeu Katrina, abraçando-o com uma força que dizia que ela nunca, jamais, o soltaria. — E o que é meu, eu guardo.

Naquela noite, Ichabod Crane dormiu sem sonhos. Ele não caminhou por corredores de veludo vermelho. Ele apenas sentiu o calor do corpo de Katrina ao seu lado e o cheiro de alecrim que agora parecia ser o aroma da própria segurança.

Lá fora, a névoa de Sleepy Hollow continuava a girar, mas a escuridão antiga havia partido, derrotada por algo que ela não conseguia compreender: o amor de uma mulher que transformara seu ciúme em uma arma sagrada.

Katrina permaneceu acordada por um longo tempo, ouvindo a respiração rítmica de Ichabod. Ela sabia que outras ameaças viriam — fantasmas, viúvas ou o próprio destino. Mas ela sorriu na escuridão, acariciando a cicatriz em seu pulso. Ela provara seu ponto. Ichabod fora reivindicado pelo sangue e pelo fogo, e ninguém, nem mesmo a eternidade, seria capaz de quebrar aquele selo.

O amor, em Sleepy Hollow, era uma coisa sombria e gótica. Mas para Ichabod e Katrina, era a única luz que importava, uma chama que ardia forte o suficiente para manter os monstros — e as outras mulheres — bem longe do que era deles.