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O que está acontecendo?

O Peso de Memórias Emprestadas

Astrid correu pelo carpete escuro do quarto, as meias deslizando no tecido áspero até que seus pequenos joelhos bateram no chão diante de Jude. Com as mãos trêmulas e rechonchudas, a menina tentou puxar o casaco pesado do pai, soltando pequenos soluços que pareciam maiores do que o próprio corpo.

— Papai Jude! Acorda... Astrid tá aqui! — ela implorava, a voz fina escorrendo em desespero enquanto tentava erguer o rosto dele. — Papai Erlie, ajuda o papai Jude! Ele tá muito quente!

Erling reagiu por puro reflexo atlético. Cruzou a distância em dois passos largos, abaixando-se ao lado da criança. Quando tocou a lateral do pescoço de Jude para checar o pulso, seus dedos quase recuaram com a intensidade do calor. A pele morena estava febril, quase escaldante ao toque, e a respiração do inglês saía em arquejos curtos e pesados, como a de um maratonista no limite absoluto do esgotamento físico.

— Jude! Ei, Jude, fica comigo! — Erling segurou os ombros dele, sacudindo-o com firmeza medida. — Olha pra mim, porra! Não fecha os olhos!

As pálpebras de Jude se moveram com esforço, revelando íris dilatadas e vidradas, sem foco. Quando sua visão embaçada capturou a silhueta maciça de Erling tão próxima, os lábios ressecados e rachados do jovem se curvaram em um sussurro quase inaudível:

— Erlie...? Onde você tava? Tá tão frio... o ninho tá frio...

A menção àquela palavra de novo — *ninho* — fez o peito de Erling se contrair em um nó sufocante. A dor no tom de Jude não era a de alguém encenando; era a agonia visceral de um animal separado de sua matilha, uma ferida psicológica e física tão profunda que desafiava qualquer explicação lógica que a mente racional de Erling tentava construir.

Astrid encostou a testa contra a bochecha ardente de Jude, chorando baixinho.

— Papai não dorme... Astrid qué ir pra casa.

— Eu vou cuidar dele, pequena — disse Erling, a voz soando rouca. Ele colocou a mão enorme sobre a cabeça da menina, os dedos acariciando os cachos castanhos com uma delicadeza que não sabia possuir. — Eu prometo que vou cuidar dele. Vem cá, deixa eu ver o que a gente pode fazer.

Erling ergueu Jude do chão sem grande esforço, passando um braço por baixo de suas costas largas e outro sob os joelhos. O corpo do inglês parecia mole, drenado de toda aquela força explosiva que Erling estava acostumado a ver nos gramados. Ele o deitou na cama de casal, puxando as cobertas desarrumadas para cobri-lo até a cintura.

Jude gemeu, a cabeça rolando de lado no travesseiro. Sua mão direita arranhou a lateral do próprio pescoço, unhas curtas cravando na pele já avermelhada perto da mandíbula.

— Arde... — Jude balbuciou, os olhos fechados com força enquanto uma lágrima escorria em direção à têmpora. — Tá queimando... por que você tirou o laço? Eu fiz alguma coisa errada?

Erling segurou o pulso de Jude, afastando a mão dele da garganta antes que ele rasgasse a própria pele. Naquele ponto específico, bem na curva entre o ombro e o pescoço, havia uma mancha avermelhada e inchada, como uma picada severa ou uma inflamação glandular aguda. Não havia marcas de dentes, como Jude insistira mais cedo, mas o tecido parecia visivelmente irritado, latejando sob a epiderme.

Sem saber o que fazer com aquela biologia bizarra que Jude insistia em descrever, Erling correu até o banheiro. Ele pegou duas toalhas de rosto, encharcou-as na água fria da pia, torceu o excesso e voltou rapidamente para o quarto.

Astrid estava sentada na beira do colchão, segurando a mão inerte de Jude com as duas mãozinhas pequenas.

— Isso vai ajudar a baixar a temperatura — murmurou Erling, dobrando a toalha fria e colocando-a sobre a testa ardente do amigo. Com a outra toalha úmida, limpou o suor da nuca e do peito exposto de Jude.

Ao toque gelado, Jude soltou um longo suspiro trêmulo. Seu corpo pareceu relaxar minimamente, embora os tremores musculares continuassem a sacudir suas pernas compridas.

Erling olhou para Astrid. A garota o observava com aqueles olhos azuis impossíveis, arregalados, esperando que ele consertasse o mundo, da mesma forma que Synne olhava para ele quando acordava assustada no meio da noite. A responsabilidade daquele olhar quase fez o ar faltar nos pulmões do norueguês.

— Você comeu alguma coisa hoje, pequena? — perguntou Erling, forçando o tom a parecer o mais calmo e acolhedor possível.

Astrid balançou a cabeça negativamente, o lábio inferior projetado em um beicinho triste.

— Papai Jude deu biscoito no avião. Mas acabou.

Erling praguejou mentalmente. Ele caminhou até o frigobar do quarto, abrindo a portinhola de vidro. Havia apenas garrafas de água mineral, refrigerantes e chocolates caros. Ele pegou uma garrafa de água sem gás, abriu e serviu em um copo de vidro sobre a mesa. Encontrou um pacote de nozes e frutas secas na bandeja de cortesias.

— Toma um pouco de água primeiro — disse ele, agachando-se ao lado da menina e segurando o copo para que ela não derrubasse.

Astrid bebeu com avidez, pequenas gotas escorrendo pelo queixo miúdo. Quando terminou, Erling limpou o rosto dela com o polegar.

— Papai Erlie vai ficar bravo se Astrid pedir abraço? — ela perguntou, a voz quase sumindo no silêncio do quarto.

Erling sentiu como se alguém tivesse lhe dado um soco na boca do estômago. Todo o desconforto, todo o medo de traição, a culpa em relação a Isabel e a estranheza daquela situação surreal pareceram desmoronar diante da vulnerabilidade daquela criança de dois anos. Ela não entendia dimensões paralelas. Ela não entendia que, naquele universo, seu nascimento era uma impossibilidade médica e social. Para ela, aquele homem grande e loiro era apenas o seu pai, a pessoa que deveria protegê-la do escuro.

— Não — respondeu Erling, a garganta tão apertada que a palavra quase não saiu. — Não vou ficar bravo. Nunca.

Ele abriu os braços. Astrid se jogou para a frente, enterrando o rosto no peito largo do moletom dele. Erling a ergueu, sentando-se na poltrona ao lado da cama com a menina acomodada em seu colo. Seus dedos grandes traçaram automaticamente o contorno da covinha na bochecha dela, a mesma covinha que seu próprio pai, Alfie, apontava com orgulho em todas as fotos de infância da família Haaland.

Na cama, Jude se agitou novamente. O efeito da compressa fria parecia ter atenuado o delírio mais violento, trazendo de volta uma centelha de consciência dolorosa. Ele abriu os olhos devagar, piscando contra a penumbra cinzenta.

Seu olhar encontrou Erling na poltrona, segurando Astrid.

Por um segundo, uma fração minúscula de tempo, os traços de Jude se iluminaram com o alívio mais puro que um ser humano poderia expressar. O canto de sua boca começou a subir em um sorriso sonolento. Mas então a realidade deste mundo caiu sobre ele como uma avalanche, e a luz em seus olhos apagou-se de uma vez só, substituída por um vazio cinzento e desolador.

— Você ainda tá aqui — Jude sussurrou, a voz seca como cascalho.

— Eu não ia deixar vocês dois largados nesse estado — Erling respondeu em tom baixo, sem soltar Astrid, que já começava a cochilar novamente contra o calor de seu tórax. — A sua mãe me ligou.

Jude congelou sob o lençol. Suas mãos apertaram o tecido branco.

— A Denise?

— É. Ela disse que você sumiu de Madrid. Que o clube tá atrás de você.

Jude fechou os olhos, respirando fundo enquanto tentava organizar os pensamentos dentro de uma cabeça que parecia prestes a explodir de dor.

— Ela não é a minha mãe — disse Jude, a voz sem qualquer entonação, fria pelo choque. — Quer dizer... ela é, mas não é. A Denise do meu mundo tá em Birmingham cuidando do meu irmão Jobe. Ela veio nos visitar no mês passado para o aniversário de dois anos da Astrid. Ela fez um bolo de baunilha horrível que você comeu inteiro só pra não magoar ela.

Erling permaneceu em silêncio. Ele se lembrava claramente do aniversário de Denise no ano anterior, onde Jude havia comprado um relógio caríssimo para ela e ele próprio enviara flores para a família Bellingham. As lembranças reais e as lembranças fabricadas por aquela versão alternativa colidiam em sua mente, gerando um eco desconcertante.

— Onde tá o Jude daqui? — Erling perguntou de repente, a pergunta surgindo como uma navalha no ar úmido do quarto. — Se você tá aqui... onde tá o cara com quem eu joguei no Dortmund? O Jude que não tem filhos, que joga pelo Real Madrid e que me mandou mensagem domingo à noite?

Jude abriu os olhos novamente, encarando o teto com um olhar assombrado.

— Eu não sei — respondeu ele, e pela primeira vez não havia defensividade em seu tom, apenas um terror genuíno e compartilhado. — Nós estávamos dormindo. Era uma terça-feira comum. Eu acordei sentindo como se tivesse caído de um penhasco, e de repente o ar não tinha mais cheiro. Se eu fui puxado pra cá... talvez ele tenha sido puxado pro meu lugar.

Erling sentiu a pele dos braços arrepiar. A imagem de seu amigo de verdade — o Jude Bellingham que ele conhecia há quatro anos, o rapaz focado, sem filhos, heterossexual ou pelo menos reservado sobre sua vida amorosa — acordando repentinamente em uma casa em Madrid, nos braços de uma versão alfa de si mesmo, com uma criança no berço ao lado, era uma perspectiva aterradora.

— Isso é loucura — Erling murmurou, balançando a cabeça. — É maluquice demais pra minha cabeça.

— Você acha que eu queria estar aqui? — Jude virou a cabeça no travesseiro, as lágrimas voltando a brilhar no canto dos olhos castanhos. — Você acha que eu queria acordar em um mundo onde a pessoa que eu mais amo me olha como se eu fosse um criminoso? Onde a minha própria filha tá condenada a ser tratada como um erro de laboratório?

Erling olhou para Jude. O peito do inglês subia e descia em um ritmo doloroso, a febre ainda visível na vermelhidão de suas bochechas.

— Eu não tratei ela como um criminoso — disse Erling, a voz soando mais dura do que pretendia, na defensiva.

— Você olhou pra ela e viu uma ameaça pra sua vida perfeita com a Isabel — Jude rebateu, a amargura pingando de cada sílaba. — Você empurrou nós dois pra fora da sua casa como se a gente fosse lixo.

— Porque eu sou casado, Jude! — Erling levantou o tom, embora tenha controlado a voz para não acordar Astrid. — Eu tenho uma filha com a mulher que eu amo! Eu não posso simplesmente abrir a porta e fingir que sou o seu marido porque você apareceu do nada dizendo que veio de outra dimensão! O que você esperava que eu fizesse? Que eu jogasse a minha família no lixo pra alimentar uma fantasia que eu nem sequer vivi?

As palavras atingiram Jude como punhaladas. Ele encolheu os ombros sob a coberta, virando o rosto para o lado oposto da cama, escondendo o choro que começou a sacudir suas costas.

— Eu só esperava... — Jude soluçou contra o travesseiro — ...que o seu amor por ela fosse maior do que as regras desse universo ridículo.

O silêncio que se seguiu foi insuportável.

Erling olhou para Astrid em seu colo. A respiração da menina era tão leve que parecia uma pena roçando seu pescoço. Ela segurava um fiapo do moletom dele entre os dedinhos gordinhos, recusando-se a soltar mesmo em sono profundo.

Não havia dúvida no coração de Erling. Biologicamente, aquela garotinha era seu sangue. Mesmo que a ciência deste mundo dissesse que homens não engravidam, mesmo que os registros médicos dissessem que ele nunca havia doado sêmen, a verdade física estava deitada em seus braços: os olhos, a covinha, a curva do queixo. Ela era uma Haaland tanto quanto Synne era.

E Jude... Jude estava desmoronando diante de seus olhos.

Erling suspirou, uma expiração longa e pesada que pareceu esvaziar todo o ar de seus pulmões. Ele se levantou com cuidado, mantendo Astrid apoiada em seu braço esquerdo, e caminhou até o lado da cama onde Jude estava virado.

Com a mão livre, Erling tirou o moletom cinza que vestia, ficando apenas com uma camiseta branca de mangas curtas. O tecido do moletom estava quente, impregnado com o suor de seu corpo e o cheiro característico de seu xampu e desodorante. Ele sabia que não tinha feromônios mágicos para curar a suposta abstinência de Jude, mas era tudo o que podia oferecer.

Erling jogou o moletom sobre o peito de Jude.

— Não é cedro nem pinho — disse Erling, a voz áspera, quase tímida diante da própria incapacidade. — É só algodão e sabonete. Mas é meu. Se isso ajuda você a parar de tremer... usa essa porra.

Jude hesitou. Por três segundos infinitos, ele encarou o pedaço de pano jogado sobre si. Então, com um gemido abafado de humilhação e desespero primitivo, ele puxou o moletom contra o próprio rosto, enterrando o nariz e a boca no tecido quente.

Ele respirou fundo. Não era o aroma forte, terroso e dominante de seu alfa que costumava acalmar seu sangue instantaneamente, mas era o calor residual de Erling. Era a textura que seus dedos conheciam de cor. Jude chorou mais forte, soluçando contra o moletom, seu corpo finalmente parando de tremer com a violência febril de antes.

— Obrigado — Jude murmurou, a voz completamente abafada pelo tecido.

Erling sentou-se na beirada da cama, o colchão afundando sob seu peso. Ele olhou para Jude, depois para Astrid adormecida, e finalmente para o próprio reflexo distorcido na janela escura do hotel, contra a qual a chuva de Manchester continuava a bater sem trégua.

— Nós vamos resolver isso — disse Erling, embora não fizesse a menor ideia de por onde começar. — Amanhã cedo eu vou falar com o clube. Vou dar uma desculpa qualquer pra Denise não pegar aquele voo. E vou alugar uma casa isolada, no interior, longe dos repórteres.

Jude abaixou o moletom apenas o suficiente para revelar os olhos castanhos avermelhados.

— E a Isabel?

A menção ao nome da esposa fez a mandíbula de Erling travar. Ele pensou na conversa que teria que enfrentar quando voltasse para a cobertura, nos olhos desconfiados da mulher com quem havia construído uma vida tranquila e que agora via todo aquele castelo de certezas ameaçado por uma sombra impossível.

— Eu vou conversar com ela — respondeu Erling, a voz pesada como uma lápide. — Ela é sensata. Ela vai entender que, independentemente do que você é ou de onde você veio... a Astrid é uma criança inocente. E que você precisa de ajuda médica antes que o seu coração pare por causa dessa febre idiota.

— Não tem médico aqui que saiba me tratar, Erling — Jude sussurrou, a resignação tornando suas palavras lentas e pesadas. — O meu corpo tá morrendo aos poucos porque não reconhece esse ar. Não reconhece você. A Astrid vai ficar bem... filhotes de ômega se adaptam mais rápido. Mas eu...

— Cala a boca — Erling interrompeu, os olhos azuis faiscando com uma fúria protetora que ele nem sequer sabia de onde havia brotado. — Você não vai morrer na minha frente, Jude Bellingham. Nem no seu mundo, nem no meu. Se eu tiver que te arrastar pela Inglaterra inteira até achar um jeito de te mandar de volta pra aquele seu Erling... eu vou fazer isso. Mas você não ousa desistir dela.

Jude olhou para ele, atônito. Pela primeira vez naquela noite horrível, havia algo nos olhos de Haaland que lembrava o homem que ele havia deixado para trás: aquela teimosia nórdica feroz, a recusa absoluta em aceitar a derrota, o instinto de colocar o corpo entre a ameaça e aqueles que estavam sob sua guarda.

Não era o amor romântico de um parceiro de acasalamento. Era o senso inabalável de honra e companheirismo de um homem que se recusava a abandonar seu melhor amigo à própria sorte, mesmo quando a própria realidade dizia que aquele amigo não deveria existir.

Astrid suspirou em seu sono, soltando um pequeno ronco infantil contra o peito de Erling.

Jude estendeu uma mão trêmula para fora das cobertas e tocou a ponta dos dedinhos da filha.

— Ela é linda, não é? — Jude perguntou em um sussurro quase inaudível, o fantasma de um sorriso triste surgindo em seus lábios.

Erling olhou para o rosto da menina adormecida, depois para o rosto abatido e febril do inglês. Ele engoliu o nó que teimava em fechar sua garganta e assentiu lentamente, sem desviar o olhar.

— É — respondeu Erling, sentindo uma dor profunda e inexplicável se alojar para sempre no centro de seu peito. — Ela é linda, Jude. É a menina mais bonita que eu já vi.

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