O que está acontecendo?
Ecos de um Fantasma Familiar
A respiração de Astrid era o único som constante no quarto do hotel, um ritmo miúdo e compassado que contrastava de forma brutal com o silêncio fúnebre entre os dois homens.
Erling continuava sentado no chão, encostado na base da cama, os joelhos dobrados e os braços enormes servindo de berço improvisado para a menininha adormecida. Ele não ousava se mexer. Cada músculo do seu corpo parecia travado pelo choque, mas seus dedos se recusavam a soltar a curva suave das costas da criança. Ela era quente. Tinha o peso exato de uma vida real, pulsante e inegável.
À frente dele, encolhido contra o canto oposto da parede, Jude parecia a sombra desbotada do atleta exuberante que dominava os gramados da Europa. Seus olhos castanhos, outrora tão cheios de fogo e determinação, estavam opacos, perdidos em um ponto invisível no chão atoalhado.
— Isso não faz sentido, Jude — sussurrou Erling, quebrando a quietude pesada. Sua voz era áspera, quase um rosnado de pura impotência. — O que você tá dizendo... ômegas, alfas, homens tendo filhos... isso é coisa de ficção científica. Isso não existe na biologia humana.
Jude soltou uma risada fraca e sem humor, um sopro de ar quebrado.
— No seu mundo não — respondeu ele, a voz rouca, sem se dar ao trabalho de erguer a cabeça. — Mas no meu, sempre foi assim. Desde que a humanidade existe. Eu passei a minha adolescência inteira com medo do meu primeiro cio. Tomei supressores durante anos para poder jogar em alto nível na Alemanha sem chamar a atenção dos alfas do time.
Erling franziu a testa, sentindo uma pontada incômoda na boca do estômago.
— E eu? — A pergunta escapou dos lábios do norueguês antes que ele pudesse contê-la.
Jude finalmente levantou os olhos. A dor neles era tão crua que Erling sentiu o impulso quase involuntário de desviar o olhar, como se estivesse invadindo a intimidade sagrada de alguém.
— Você chegou em Dortmund um ano antes de mim — disse Jude, as lembranças desenhando um sorriso fantasma e doloroso em seus lábios ressecados. — No primeiro treino, o seu cheiro dominou o vestiário inteiro. Cedro, pinho molhado e um toque metálico de adrenalina pura. Todos os ômegas da equipe técnica abaixavam a cabeça quando você passava. Mas você... você foi direto até o meu armário. Você me deu um soco de leve no ombro e disse que a gente ia ganhar tudo juntos.
Erling piscou, o peito apertando de uma forma inexplicável. Aquilo havia acontecido. Em julho de 2020, quando Jude chegou ao Borussia Dortmund vindo de Birmingham. Ele realmente tinha ido até o armário do inglês, tinha dado um tapinha em seu ombro e falado exatamente essas palavras.
Mas não havia cheiros. Não havia hierarquias biológicas. Havia apenas dois garotos ambiciosos que gostavam de jogar videogame e destruir defesas adversárias.
— Nós nos acasalamos na minha segunda temporada — continuou Jude, a voz falhando em alguns momentos, as lágrimas traçando novos caminhos pela pele úmida de suas bochechas. — Em uma cabana na Noruega, perto dos fiordes da sua família. Você passou três dias me mordendo, marcando a sua reivindicação na minha pele até que ninguém mais pudesse duvidar de quem eu pertencia. E eu deixei. Eu implorei por isso.
O calor subiu pelo pescoço de Erling, queimando suas orelhas em uma mistura sufocante de constrangimento e uma estranha, perturbadora vertigem.
— Jude, chega... — pediu Erling, a respiração pesada.
— Quando a Astrid nasceu, em Madrid, você chorou tanto que a parteira teve que te dar um copo d'água com açúcar — Jude prosseguiu, ignorando o apelo, falando como se exorcizasse uma maldição através das palavras. — Você quase quebrou a minha mão enquanto eu fazia força. E você me jurou, olhando no fundo dos meus olhos enquanto colocava ela no meu peito, que nada nesse universo jamais separaria a nossa família.
Astrid se mexeu no colo de Erling, resmungando baixinho antes de enfiar o rostinho ainda mais fundo na dobra do cotovelo do jogador. O norueguês olhou para a garotinha.
Na testa dela, perto da raiz dos cachos castanhos, havia uma pequena covinha quando ela franzia o cenho durante o sono.
Era a mesma covinha que Erling tinha.
O suor frio brotou na nuca do atacante. Uma parte lógica e fria de seu cérebro gritava que aquilo era um delírio, um caso clássico de psicose induzida por estresse, talvez uma consequência bizarra de alguma pancada forte que Bellingham havia levado na cabeça e que os médicos do Real Madrid haviam negligenciado. Mas outra parte — uma parte ancestral, irracional e aterrorizante — olhava para a menina e não conseguia negar o reflexo de si mesmo.
— Por que você tá tremendo? — Erling perguntou de repente, notando que os ombros de Jude sacudiam em espasmos involuntários.
Jude abraçou as próprias costelas, os dentes batendo com força audível. Sua pele morena estava pálida, com um tom acinzentado sob as luzes amarelas da arandela do quarto.
— É a abstinência — Jude sussurrou, a respiração ficando curta e sibilante. — Eu fui arrancado do ninho. Não tem o cheiro dele aqui. Meu corpo... meu corpo tá achando que o meu alfa morreu.
— O que você quer dizer com isso? — Erling ajeitou Astrid com cuidado redobrado em um braço só e se colocou de pé, a altura imponente projetando uma sombra longa sobre o chão.
— Sem o laço... os ômegas adoecem — murmurou Jude, a cabeça tombando para trás contra a parede, as pálpebras tremendo enquanto ele lutava para manter a consciência. — A glândula inflama. A febre sobe até o coração parar. Em dois ou três dias, se eu não sentir ele...
— Para com essa merda! — Erling deu dois passos largos até ele, a voz explodindo em um tom rouco de pura raiva e aflição. — Para de falar como se você fosse morrer!
Erling colocou as costas da mão direita na testa de Jude.
A temperatura estava ardendo. Jude estava queimando de febre, a pele úmida de um suor pegajoso e frio. Ao menor contato da pele de Erling com a sua, Jude soltou um soluço doloroso, quase animalesco, inclinando a cabeça na direção da palma do norueguês, buscando desesperadamente o calor e o aroma que não existiam ali.
— Por favor... — Jude chorou baixinho, os dedos trêmulos subindo para segurar o pulso de Erling, tentando puxá-lo contra o próprio pescoço exposto. — Só um pouco... libere seus feromônios, Erling. Me deixa respirar você. Só um pouco, pelo amor de Deus, eu não aguento essa dor...
Erling ficou paralisado. Ele não tinha feromônios para liberar. Ele era apenas um homem, um atleta de vinte e quatro anos que tomava suplementos vitamínicos, treinava finalizações e voltava para casa para jantar com a esposa.
A mão de Jude em seu pulso não tinha força; era o toque desesperado de quem estava se afogando e tentava se segurar em uma folha seca.
— Jude, me ouve — Erling se ajoelhou na frente dele, forçando a voz a manter a calma, embora o pânico começasse a fechar a sua própria garganta. — Eu não tenho como fazer isso. Eu não sei fazer isso. Mas eu vou te levar para um hospital agora. Eu conheço os melhores médicos da cidade, caras que cuidam de todo o time...
— Não! — Jude abriu os olhos de repente, pupilas dilatadas pelo terror. — Nenhum hospital desse lugar vai me entender! Eles vão me cortar, vão fazer testes na Astrid! Eles vão nos trancar em um laboratório! Você não vê? Nós não somos normais aqui!
Erling parou. O argumento, por mais insano que fosse o contexto, bateu em sua mente com uma lógica assustadora. Se aquela menina realmente carregava o seu DNA sem que ele nunca tivesse doado uma única célula, e se Jude Bellingham estava apresentando sintomas biológicos que a medicina comum não conseguia catalogar... colocá-los no sistema público ou em uma clínica particular vazaria para a imprensa em questão de minutos.
O telefone de Erling no bolso da calça começou a vibrar violentamente.
O visor iluminou o quarto escuro com o nome de Isabel.
Erling olhou para o aparelho, sentindo o peso da culpa cair sobre ele como uma tonelada de chumbo. Isabel estava em casa, cuidando da filha deles, esperando respostas sobre uma traição que ele jurava não ter cometido, mas cuja prova viva estava agora ressonando tranquilamente a centímetros de distância.
Ele rejeitou a chamada com um toque trêmulo.
No segundo seguinte, o celular de Jude, jogado sobre a mesinha de cabeceira, começou a tocar uma melodia padrão alta e estridente.
Jude nem sequer se moveu. Parecia ter entrado em um estado catatônico, a respiração entrecortada pela febre alta.
Erling se levantou, caminhou até a mesa e pegou o telefone de Jude. Na tela brilhante, a foto de Denise Bellingham sorria ao lado do filho, sob o nome *“Mãe”*.
A garganta de Erling deu um nó. Ele hesitou por três segundos antes de deslizar o dedo pela tela e levar o aparelho ao ouvido.
— Alô? — disse Erling, a voz grossa preenchendo a linha.
Houve uma pausa do outro lado, seguida por um suspiro exasperado e aliviado de uma mulher britânica.
— Jude? Graças a Deus você atendeu! Menino, onde você está? O Carlo me ligou furioso dizendo que você não apareceu no treino regenerativo hoje de manhã em Madrid! Ninguém no clube sabe onde você se meteu, os seguranças disseram que o seu carro ainda tá no estacionamento do centro de treinamento...
Erling engoliu em seco, olhando para Jude encolhido no chão.
— Sra. Bellingham? — Erling interrompeu com cautela. — Aqui é o Erling. O Erling Haaland.
O silêncio do outro lado foi instantâneo, pesado.
— Erling? — A voz de Denise mudou, soando genuinamente confusa. — Por que você está com o telefone do Jude? O que aconteceu? Ele tá em Manchester?
Erling passou a mão pelo rosto, sentindo o suor frio escorrer pelas suas têmporas. Aquele mundo... aquele mundo tinha a Denise. A Denise real. A mãe que ele conhecia de eventos formais e cerimônias de premiação. E, pelo tom da voz dela, o Jude deste mundo havia simplesmente desaparecido da Espanha há poucas horas, deixando para trás uma vida milionária e estruturada para que este Jude, o ômega quebrado, surgisse em seu lugar.
— Sra. Bellingham, escuta... — Erling tentou articular as palavras sem parecer que havia enlouquecido junto com o amigo. — O Jude tá aqui comigo. Ele... ele teve um colapso. Ele tá passando muito mal, com uma febre alta. Ele não tá em condições de falar.
— Meu Deus! Uma crise de apendicite? Uma lesão? — O pânico de mãe começou a se infiltrar no tom dela. — Eu vou pegar o primeiro voo de Londres pra Manchester agora mesmo! Qual hospital vocês estão?
— Nenhum ainda — Erling respondeu rápido demais. — Quer dizer, eu tô cuidando dele em um lugar reservado para evitar os paparazzi. Ele tá estável por enquanto, eu prometo. Apenas... me dê algumas horas para organizar as coisas antes da senhora vir. Se a imprensa desconfiar que ele sumiu de Madrid e tá doente aqui, vai virar um inferno.
Denise respirou fundo, confiando na amizade pública que os dois sempre mantiveram.
— Está bem. Me mantenha informada a cada meia hora, Erling. Por favor. Cuide do meu menino.
— Eu vou cuidar — disse Erling em um sussurro que pareceu um compromisso pesado demais para os seus ombros.
Ele desligou a chamada e jogou o telefone de volta sobre o colchão.
Astrid começou a se mexer no ninho de cobertores onde Erling a havia deitado minutos antes. Seus olhinhos azuis se abriram devagar, pesados de sono, piscando contra a penumbra. Ela se sentou, esfregando o olho esquerdo com a mãozinha fechada, exatamente do mesmo jeito que Erling fazia todas as manhãs ao acordar.
— Papai? — a menina chamou baixinho.
Erling se aproximou da cama com passos lentos, o coração martelando na garganta.
— Oi, pequena... — respondeu ele, a voz saindo mais suave do que jamais imaginara ser capaz de modular para qualquer pessoa além de sua própria filha em casa.
Astrid olhou para os lados, procurando no quarto desconhecido, e seu olhar caiu sobre a figura de Jude encolhida no chão, tremendo violentamente sob o casaco grosso.
O pequeno rosto da garotinha desmoronou em puro terror infantil.
— Papai Jude! — ela gritou, descendo da cama sem medo de cair, tropeçando nas próprias pernas curtas e cor